segunda-feira, 31 de maio de 2004

A moda do insulto

A ministra Manuela Ferreira Leite, irritada certamente com algum aspecto menos confessável, perdeu completamente as estribeiras (será que se pode dizer isto de um Ministro?) e lançou uma série de pedradas verbais em direcção ao deputado socialista Eduardo Cabrita. Tudo isto por causa do LEO, que nada tem a ver com a Juve do mesmo, mas significa Lei de Enquadramento Orçamental. Que disse Ferreira Leite (se eu dissesse "Manuela" estaria a cometer um insulto?)? O seguinte: "O senhor é que está fora do Leo. O senhor que veio cá fazer ontem se está a fazer as mesmas perguntas?". E a seguir, numa fase mais empolgada: "O senhor não leu o relatório, não sabe o que perguntar, o senhor não merece o ordenado que recebe e é com isso que se devia preocupar", "o senhor faz perguntas de um ignorante". Dois breves comentários: esperemos que o novo Director-Geral dos Impostos mereça o ordenado que vai ganhar; e em segundo lugar, são os ignorantes que costumam fazer perguntas, não aqueles que já sabem.

Eduardo Prado Coelho Segunda-feira, 31.Maio.2004 Público

quinta-feira, 27 de maio de 2004

O Descalabro

Pouco terei a acrescentar à notável sequência de "cartoons" de Luís Afonso nos últimos números do PÚBLICO: em meia dúzia de desenhos notáveis, Luís Afonso diz o essencial. E o essencial é simples: tudo aquilo que podíamos prever sobre as consequências de uma intervenção americana no Iraque se confirmou e excedeu as mais negras previsões. As soluções são agora complexas e constituem saídas estreitas de resultados indecisos - como Loureiro dos Santos nos explicou num brilhante artigo publicado há dias. Ou como Garcia Leandro já nos tinha exposto na televisão.

Eduardo Prado Coelho Segunda-feira, 24.Maio.2004 Público

quarta-feira, 26 de maio de 2004

Fumo branco no congresso

O congresso do PSD, no fim-de-semana, fez uma justa homenagem ao chefe tribal do Funchal. Toda a tribo do continente se desfez em elogios ao comediante de serviço. Parece que a democracia na Madeira é um exemplo a seguir por todo o país. Afinal, nos Açores é que existe o tal défice democrático. A notícia que se segue, publicada no PÚBLICO, parece desvendar o mistério do candidato social democrata. A Nação pode respirar de alívio; depois da retoma, teremos Jardim como candidato ganhador.
Finalmente viveremos em democracia plena, como na Madeira. O desenvolvimento vai alastrar a lusa pátria. Estremecemos com a notícia. Esperamos ansiosos por tão inesperada graça. Valha-nos Deus!

Se Santana Não Avançar
Jardim prepara candidatura
contra Cavaco Silva

"Alberto João Jardim, apesar de não ter assumido directamente a sua própria candidatura, garantiu que se Santana Lopes não avançar, Cavaco Silva terá um concorrente da direita na corrida a Belém. "Cavaco Silva não terá caminho livre", advertiu o presidente do governo regional no domingo passado, numa das saídas da missa, enquanto Durão Barroso, no congresso nacional do PSD, pedia um voto de confiança para "encontrar uma solução no momento certo". Se Santana Lopes desistir, afiança Jardim, "vai aparecer alguém que vai obrigar o centro e a direita a escolher entre os colaboracionistas com o regime e aqueles que defendem a afronta com esse mesmo sistema".

Tolentino de Nóbrega
Terça-feira, 25 de Maio de 2004 Público

terça-feira, 25 de maio de 2004

Arquitecturas

Ana Sousa Dias oferece-nos dos melhores momentos de televisão da actualidade. Sabe escolher os convidados e sabe conversar com eles. Segunda-feira à noite chamou para dar ao badalo o arquitecto Nuno Teotónio Pereira. Nuno faz da arquitectura uma forma de tentar fazer os outros felizes. Os seus projectos são feitos de dentro para fora. A principal preocupação é colocar as pessoas em locais onde se sintam pessoas. Falou do abandono dos centros das cidades e do flagelo da ocupação dos campos por ideias de desenvolvimento que ficaram ultrapassadas antes de passarem ao debate sobre os erros urbanisticos. Mais um bom momento de televisão.
JTD

segunda-feira, 24 de maio de 2004

Monarquia em bikini

O casamento real provocou uma onda de revivalismo monárquico no nosso país. Há quem tenha saudades de um passado em constantes salamaleques pelas cabeças coroadas reinantes. Até Marcelo Rebelo de Sousa falou no referendo. Não há razões para nos preocupar-nos, como tudo o que não tem importância, isto também passa. Eduardo Prado Coelho escreveu uma divertida crónica no Público de hoje, que acaba assim:
"Mas a grande cena era no café. Aqui todos os fantasmas vinham ao de cima e cruzavam-se numa vozearia feita de incomunicabilidade. Um homem interrogava-se num tom de reflexão sobre as fraquezas humanas: "que levará uma mulher a deixar tudo o que tem graça e a não poder mais andar de bikini?". E repetia: "porque ela já não pode andar de bikini", como se fosse uma alienação dramática que sintetizava todo anacronismo da monarquia. Mas de uma outra mesa uma mulher proclamava: "Estes não são como os nossos políticos. Em Portugal qualquer pessoa pode ser político, sabiam? Estes são ensinados desde pequenos a governarem". Era pena que o princípio democrático não lhe fosse óbvio, mas não me dei ao trabalho de abrir um debate de fundo. Limitei-me a notar que na Europa governavam pouco, era mais uma coisa simbólica. Como a senhora vivia em plena terra dos símbolos, a existência destes tornava-se imperceptível. "Ela, a rainha, não é como estas nossas foleiras que usam um vestido e depois deitam-no fora ou dão às criadas. Disse-me uma amiga minha que ela aproveita os tecidos e com eles faz vestidos novos.". Comovi-me logo com a ideia da rainha, de dedal e linha na mão, a passajar os vestidos na sala de estar do palácio real enquanto sua alteza real vê a televisão.

Como irá fazer Letízia com os vestidinhos das festas? Uma coisa já nós sabemos: não os vai transformar em bikinis..."

Eduardo Prado Coelho Segunda-feira, 24.Maio.2004 Público

quarta-feira, 19 de maio de 2004

reBlogue

Ou há moralidade... 
A presidente da Câmara municipal de Leiria diz que esta cidade não é menos do que Viseu e que por isso também quer uma universidade pública. Tem toda a razão. Dado que para criar novas universidades não é preciso que elas sejam necessárias nem que se justifiquem os seus custos, penso que depois de Viseu todas as demais capitais de distrito devem ter uma, devendo o Governo oferecê-las imediatamente a Viana do Castelo, Bragança, Leiria, Santarém, Setúbal e Beja.
Proponho mesmo que doravente seja aditado um novo direito fundamental à Constituição, a saber, o direito a ter uma universidade pública ao pé da porta. Nisto não pode haver filhos dilectos e enteados desprezados..
Vital Moreira
  • Causa Nossa
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    Santana sentino

    Cartaz de Santana Lopes para os estrangeiros que nos visitam: "Benvindo a Lisboa". Felizmente os estrangeiros não vão dar pelo erro.
    Daniel Oliveira Barnabé

    segunda-feira, 17 de maio de 2004

    reBlogue

    Mourinho para o Chelsea, já!

    Criança na vitória, criança na derrota. O guerreiro treinador do Porto, José Mourinho, não sabe perder. Acha que o seu clube perdeu por culpa do árbitro, que Jorge Costa foi mal expulso, que o segundo golo do Benfica não foi legal. Mas Mourinho bem podia reconhecer, pelo menos para dentro da sua consciência, esta evidência: o jogo esteve bom até ao fim da primeira parte. Na segunda, as duas equipas tentaram essencialmente acertar nas canelas do adversário e usaram a velha táctica de ganhar nos cartões. E, neste particular, o Porto até mostrou maior vontade de vencer. Depois de Fernando Aguiar ter mostrado o caminho com Derlei (agressão que o árbitro não viu e, pelo que se viu na TV, única verdadeira injustiça cometida contra o Porto ontem), foi Jorge Costa, foi Maniche, foi Nuno Valente a irem às pernas ou a entrarem à cotovelada. Mourinho não tem de queixar-se de nada a não ser da indisciplina dos seus jogadores: à volta da bola pode valer tudo, mas dentro do campo, não. Que vá rapidamente fazer declarações incendiárias para os tablóides britânicos, é o meu sincero desejo.
    André Belo Barnabé

    sexta-feira, 14 de maio de 2004

    Exercícios de memória


    A intervenção de José Eduardo Agualusa na escola Bocage, em Setúbal, foi memorável. O escritor exercitou as suas memórias, transformando-as em sumarentas histórias; relatos de vida. A participação dos alunos foi surpreendente. Memorável, mesmo.
    Já que falamos de memória, aqui vai um extracto do capítulo "Vidas Irrelevantes", do seu mais recente livro: "O Vendedor de Passados".

    "A memória é uma paisagem em movimento. Vemos crescer por sobre as acácias a luz da madrugada, as aves debicando a manhã, como um fruto. Vemos, além, um rio sereno e o arvoredo que o abraça. Vemos o gado pastando lento, um casal que corre de mãos dadas, meninos dançando o futebol, a bola brilhando ao sol (um outro sol). Vemos os lagos plácidos onde nadam os patos, os rios de águas pesadas onde os elefantes matam a sede. São coisas que ocorrem diante dos nossos olhos, sabemos que são reais, mas estão longe, não as podemos tocar. Algumas estão já tão longe, e o comboio avança tão veloz, que não temos a certeza de que realmente aconteceram. Talvez as tenhamos sonhado. Já nos falta a memória, dizemos, e foi apenas o céu que escureceu."

    O lançamento deste magnífico livro é na próxima terça-feira, dia 18, depois das vinte e duas horas, na discoteca "Com Vento", em Santos.
    A apresentação será feita por António Lobo Antunes (Tudo pode acontecer).
    Lá estarei para dar um abraço ao meu amigo José Eduardo Agualusa. A noite promete.

    Titulo: O VENDEDOR DE PASSADOS
    Autor: José Eduardo Agualusa
    Capa: Henrique Cayatte
    Edição: Dom Quixote

    JTD


    quinta-feira, 13 de maio de 2004

    O ranhoso e o rançoso

    Ontem, quarta-feira à noite, no Lux. Lançamento do mais recente livro de Eduardo Prado Coelho, desta vez em diálogo com Ana Calhau.
    Um livro de partilha afectiva e de grande labor estético. Titulo: "DIA POR AMA".
    Apresentação feita por Helena Vasconcelos e Henrique Cayatte. Serviço competente e bem humorado.
    Depois das oratórias elogiosas e dos agradecimentos por parte dos autores, passa-se ao habitual convívio de copo na mão. Circunstância que se desenvolve muito agradavelmente graças à simpatia de Manuel Reis e seus colaboradores.
    Entre os convidados estavam Vasco Graça Moura e António Mega Ferreira. Não se viam, segundo o cumprimento inicial, hà já algum tempo. Diz Mega para Vasco: "Então você chamou-me ranhoso? Disse que a esquerda era ranhosa?" Que não, diz Vasco "Eu disse a esquerda parlamentar, não me referia a toda a esquerda". "Ah, bom", reponde Mega, "É que eu ia responder-lhe: Na classificação de esquerda e direita basta trocar uma letra; se a esquerda é ranhosa a direita é rançosa".
    Os senhores "Expo" lá continuaram no seu animado diálogo. A amizade pode não ter ideologia.
    JTD

    terça-feira, 11 de maio de 2004

    Vendedor de Passados

    O escritor angolano José Eduardo Agualusa, vai estar em Setúbal, na Escola Secundária Bocage (antigo liceu), na próxima Quinta-feira. Agualusa é um dos mais importantes escritores de lingua portuguesa da actualidade. É também autor de saborosíssimas crónicas na Pública (separata do Público, aos Domingos).

    O convite para este encontro com o escritor, partiu da associação de pais da escola, e destina-se a proporcionar aos alunos um contacto directo com um autor, cujos textos foram estudados ao longo do ano lectivo.

    José Eduardo Agualusa acaba de publicar mais um livro. Titulo: "O Vendedor de Passados". Segundo a nota do editor, trata-se da história de "Félix Ventura. Um senhor que escolheu um estranho ofício: Vendedor de passados falsos. Os seus clientes, prósperos empresários, políticos, generais, enfim, a emergente burguesia angolana, têm o futuro assegurado. Falta-lhes, porém, um bom passado. Félix fabrica-lhes uma genealogia de luxo, memórias felizes, consegue-lhes os retratos dos ancestrais ilustres. A vida corre-lhe bem. Uma noite entra-lhe em casa, em Luanda, um misterioso estrangeiro à procura de uma identidade angolana. E então, numa vertigem, o passado irrompe pelo presente e o impossível começa a acontecer. Sátira feroz, mas divertida e bem humoprada, á actual sociedade angolana, - O Vendedor de Passados - é também (ou principalmente) uma reflexão sobre a construção da memória e os seus equívocos."

    O encontro com Agualusa é às cinco horas da tarde, no auditório José Saramago. Apesar de estar destinado aos alunos, quem quiser aparecer, será recompensado com uma agradável conversa, disso não tenho dúvidas. É bom ouvir este escritor, que para além de escrever superiormente é também um admirável contador de histórias.
    Sejam bem-vindos.

    JTD

    segunda-feira, 10 de maio de 2004

    reBlogue

    A Madeira fora da União Europeia!? 
    No encerramento do congresso do PSD - Madeira, Alberto João Jardim afirmou que em 2008 a Madeira terá de decidir se lhe interessa continuar na União Europeia ou não, dependendo isso da continuidade da atribuição de fundos comunitários. Para além da insólita ideia de a Região poder decidir sobre tal assunto, a simples ligação da permanência na UE ao recebimento de fundos deixa entender bem a natureza da adesão europeia de Jardim, puramente venal, como se vê.
    Embora ele não o tenha dito, é evidente que com a mesma lógica ele poderia dizer também que algures no futuro a Madeira decidirá se lhe interessa continuar ou não integrada na República Portuguesa, dependendo isso da continuidade da recebimento dos chorudos fundos do orçamento do Estado, como até agora...
    Se fosse permitido um pensamento cínico seria caso para dizer: antes cedo do que tarde!
    Vital Moreira
  • Causa Nossa
  • sábado, 8 de maio de 2004

    Ólhó Daniel, Ólhó Daniel...

    A um padre brasileiro, saiu-lhe na rifa uma paróquia portuguesa. Ouvi isto na SIC, nas noticias das oito.
    O dito padre canta que se desunha. Canta mal, é certo. Mas canta na missa, e com a ajuda da técnica lá gravou um CD. O disco é ridículo, mas o que é isso? No país do Frei Câmara todas as demonstrações de fé são uma ajuda para a boa vontade entre os homens. Portanto, o padre fez muito bem. Dizem-me as notícias que em pequeno queria ser palhaço. Deus não dorme...

    JTD

    sexta-feira, 7 de maio de 2004

    reBlogue

    Notícias da pedófililia

    Só me deu vontade de partir a televisão...
    Ontem, ao chegar a casa e ligar a televisão, fui bombardeado com a notícia da prisão domiciliária de Carlos Cruz. Ora, pensei eu, qual é o melhor canal para me irritar com as tiradas brilhantes dos jornalistas? TVI, pois claro. Tomei dois calmantes e lá mudei eu para o ex-canal de inspiração cristã.
    Depois de me rir um pouco com algumas perguntas e teorias dos 'jornalistas', eis que chega um carro à porta da casa de Carlos Cruz. Abre-se o vidro e aparece Lili Caneças, a própria em carne, plástico e osso.
    Este foi o diálogo travado entre a repórter da TVI e a tia Lili:

    TVI - Lili, Lili, em directo para a TVI, veio felicitar Carlos Cruz pela sua saída da prisão?
    LC - Eu sou muito amiga do Ricardo Sá Fernandes e venho felicitá-lo pelo excelente trabalho que fez. Eu nem conheço o Carlos Cruz muito bem...
    TVI - Mas então... e Carlos Cruz?
    LC - Pois, como lhe disse, eu nem o conheço muito bem, venho apenas felicitar o Ricardo.
    Foi nesta altura que o efeito dos calmantes passou e estive a ponto de partir a televisão... O que esta gente faz para aparecer nas 'notícias'...

    P.S. Vou agora a casa de uma amiga minha felicitá-la pelo facto de o F.C.P. ter ganho o campeonato e estar presente nas finais da taça de Portugal e da Liga dos Campeões. É que o pai dela é amigo do Pinto da Costa e eu ao Pinto da Costa nem o conheço muito bem, só falei com ele uma vez...

    Carlos Vilela Desblogueador de conversa

    Paisagem e outros lugares


    Estou a tentar "achar" a imagem para a peça de Harold Pinter que o meu amigo João Duarte Victor vai encenar. Encontrei uma "solução" minimalista para resolver o problema. A estreia é dia 9 de Junho no teatro de bolso, em Setúbal. Espero que gostem.

    PAISAGEM E OUTROS QUADROS
    Uma peça e cinco sketches
    Traduções: Jorge Silva Melo, Pedro Marques, Paulo Eduardo Carvalho, Francisco Frazão e Graça P. Corrêa
    Encenação: Duarte Victor
    Cenografia | Imagem: José Teófilo Duarte
    Interpretes: Célia David, Carlos Rodrigues, Duarte Victor, Maria Simões, Miguel Assis, José Nobre, Sónia Martins, Susana Brito
    Produção executiva: João Gaspar
    Banda sonora e sonoplastia: Miguel Ramos
    Luminotecnia: António Rosa
    Montagem e contra-regra: João Carlos
    Guarda-roupa: Mercedes Lança
    Secretariado: Ângela Rosa

    HAROLD PINTER
    Nascido em 1930, Harold Pinter começou por ser actor (com o nome David Baron) e em 1957 escreveu a sua primeira peça, THE ROOM. Autor fundamental do teatro contemporâneo, encenou e representou em algumas das suas mais de trinta peças, que foram traduzidas e encenadas por todo o mundo. Escreveu também para rádio, televisão e cinema, onde é difícil esquecer a colaboração com Joseph Losey. Recebeu já diversos prémios e distinções: recentemente, o título de Companion of Honour da Rainha.
    In Artistas Unidos n’a capital

    JTD

    quinta-feira, 29 de abril de 2004

    Europeias em cromos

    O fadista Nuno da Câmara Pereira, verdadeiro herdeiro do trono português, cedeu às fraquezas da república, e alistou-se na coligação PSD/CDS ao Parlamento Europeu. É a figura número dezasseis. Há quem pense que é o mais custoso da colecção.

    quarta-feira, 28 de abril de 2004

    reBlogue

    Um pimbalhão dá sempre mais hipismo ao desfile

    De acordo com o Portugal Diário, Alberto João Jardim disse hoje que "a Madeira poderia viver independente" e "não seria um país miserável", apoiando a sua convicção num estudo económico-financeiro que o governo regional encomendou.
    Aguarda-se que José Manuel Durão Barroso encomende idêntico estudo para apurar quanto pouparia o continente com a independência da Madeira.

    Claro que tudo isto é um tremendo erro.

    Portugal perder Alberto João seria o mesmo que a TVI perder Manuela Moura Guedes, ou a maioria da Câmara de Setúbal perder o cantor Toy.

    Um pimbalhão dá sempre mais hipismo ao desfile.

    Júlio Queiros Sadinos

    reBlogue

    Endereço errado

    António Ribeiro Ferreira comprava armas a mil paus. Teresa de Sousa era voz da AOC (“uma espinha encravada na garganta do dr. Cunhal”). José Manuel Fernandes escrevia textos sobre as maravilhas da Albânia, na “Voz do Povo”. Durão Barroso roubava mobília ao Conselho Directivo da Faculdade de Direito. E agora, a gente que os ature mais as suas diatribes contra a esquerda e o seu passado tenebroso. Andaram a divertir-se quando eram cachopos e depois ainda vêm cobrar a factura.

    Daniel Oliveira Barnabé

    Gastão

    O Grande Prémio de Poesia da APE/CTT acaba de ser atribuído ao poeta e ensaísta Gastão Cruz, que recentemente publicou "Rua de Portugal" na Assírio e Alvim. Trata-se de uma justíssima recompensa que apetece saudar com particular entusiasmo. Porque na distinção de um livro o que está em causa é a vida de alguém que desde sempre dedicou à poesia uma atenção especial, e em particular à poesia moderna e contemporânea (embora Gastão Cruz tenha estado sempre em permanente diálogo com os poetas clássicos, sobretudo com Luís de Camões, Sá de Miranda ou Camilo Pessanha). Donde, o Gastão surge como poeta, com uma obra exemplar de sobriedade e rigor, mas também como um acompanhante ensaístico da sua geração, como alguém que deu uma imensa atenção a poetas anteriores (saliente-se Carlos de Oliveira, referência dominante, ou Eugénio de Andrade, Ruy Belo ou Herberto Helder), e nos últimos tempos, dada a ligação que teve com o universo do teatro, como um verdadeiro animador cultural (escolar e não só), através da organização frequente de sessões de leitura de poesia em que uma outra forma de pensar e dizer se tem vindo a impor.

    Eduardo Prado Coelho Quarta-feira, 28 de Abril de 2004 Público

    segunda-feira, 26 de abril de 2004

    reBlogue

    Três dias depois

    Nasci no dia 28 de Abril de 1974, três dias depois da Revolução (ou, como se diz agora, para não aborrecer ninguém, da Evolução) dos Cravos. Por isso, a minha experiência do 25 de Abril é exactamente igual à da generalidade das pessoas de direita que viveram naquela época: não mexi uma palha para que a Revolução se desse, não a desejei e não estava minimamente convencido de que fosse necessária.

    Tal como o 25 de Abril, também eu celebrarei este ano o 30º aniversário. Diz-me o sr. Ministro da Presidência que os 30 anos são a idade da maturidade e que, por causa disso, a Revolução deixará cair o “r”. Eu, que tenho a fama de ser imaturo (entre outras), não quero perder esta oportunidade de mostrar que já sou um homenzinho, e decidi deixar cair também o meu próprio “r” inicial. Podem começar a tratar-me por Icardo.

    Ricardo de Araújo Pereira em texto publicado no Barnabé

    (R)evolução

    Parece apenas mais um texto para alimentar a polémica. Não é. É outra forma de abordar o tema, fazendo ligações com outros comportamentos humanos. Aqui fica a conclusão:

    - Em relação há polémica revolução/evolução, o debate torna-se mais claro à luz desta problemática. É evidente que houve no início uma revolução a que se seguiu uma evolução. Neste ponto Morais Sarmento tem razão. Mas é também manifesto que existe uma dimensão performativa na palavra "revolução" que permite dizer "eu faço uma revolução na minha vida". A revolução é da ordem do fazer. Quanto à "evolução", ela é mais algo que se enuncia deste modo: "há uma evolução na minha vida" - é algo que se descreve, que se verifica, que se deixa acontecer, mas que pertence às estratégias fatais que nos envolvem. A revolução é sempre de uma visibilidade exuberante: descentra as existências, cria voragens e precipícios, acelera a história e o coração. A evolução é invisível (daí que seja preciso uma campanha publicitária para a tornar visível), passa numa espécie de sonambulismo criador mas retraído, fica antes do sujeito, empurra-o para a história que se faz inconscientemente nas suas próprias mãos.

    Da revolução poder-se-á dizer o que Michel Leiris escreveu desdobrando a palavra por dentro: "Révolution: solution de tous rêves?". A palavra "revolução" sonha, a palavra "evolução" caminha sem energia nem imaginário. Falar na Revolução de Abril é procurar manter o performativo da paixão. Aragon escreveu: "a mulher é o futuro do homem".

    Eduardo Prado Coelho Público

    domingo, 25 de abril de 2004

    Liberdade

    O discurso do 25 de Abril não fica completo sem se falar de José Afonso. Parece-me óbvio. Ele foi a voz que se insurgiu com mensagens cifradas, de pendor surrealista. Contudo a linguagem poética é de uma qualidade tal, que não se fica pelo panfleto. Nunca foi esse o caminho de Zeca; O dogma, a palavra fácil, não são o chão que pisa.
    Foi uma voz dos inconformados. De todos os que lutam pelo que é mais universal e cosmopolita.
    No dia de hoje, apetece-me passar para aqui, um poema incluido no trabalho "Coro dos Tribunais", que refere a longa noite de resistência, de clandestinidade, mas também do amor e da esperança.

    A PRESENÇA DAS FORMIGAS

    A presença das formigas
    Nesta oficina caseira
    A regra de três composta
    Às tantas da madrugada
    Maria que eu tanto prezo
    E por modéstia me ama
    A longa noite de insónia
    Às voltas na mesma cama
    Liberdade liberdade
    Quem disse que era mentira
    Quero-te mais do que à morte
    Quero-te mais do que à vida

    JTD

    Vivam

    Vivam, apenas

    Sejam bons como o sol.
    Livres como o vento.
    Naturais como as fontes.

    Imitem as árvores dos caminhos
    que dão flores e frutos
    sem complicações.

    Mas não queiram convencer os cardos
    a transformar os espinhos
    em rosas e canções.

    E principalmente não pensem na morte.
    Não sofram por causa dos cadáveres
    que só são belos
    quando se desenham na terra em flores.

    Vivam, apenas.
    A morte é para os mortos!

    José Gomes Ferreira. Viver sempre também cansa. 1931

    sexta-feira, 23 de abril de 2004

    Perguntar não ofende

    Terá sido nestas premissas que o nosso governo se baseou para falar em "Evolução", em vez de "Revolução"?

    "More revolutions have succeeded in their first assault than, once
    successful,
    have been brought to a standstill and held there. Revolution is not a
    permanent state, it must not develop into a lasting state. The full spate of
    revolution must be guided into the secure bed of evolution."
    -- Adolf Hitler (Discurso aos Governadores do Reich, 6 de Julho de 1933)

    "For as soon as the party had taken over power, and this new condition of
    affairs was consolidated, I looked upon it as a matter of course that the
    Revolution should be transformed into an evolution."
    -- Adolf Hitler (Discurso no Reichstag, 30 de Janeiro de 1937)

    Não levem a mal. Perguntar não ofende.

    quarta-feira, 21 de abril de 2004

    O guarda Portas


    A NATO diz que os submarinos de Paulo Portas não fazem falta nenhuma.
    Portas diz que não; fazem falta, sim senhor. O governo é soberano e sabe muito bem o que faz.
    Eu, pessoalmente, já me sinto mais segura. Com os submarinos colocados na costa Atlântica, ficamos mais protegidos da armada americana.
    É melhor assim, com amigos destes, nunca se sabe...
    É que aqui, já houve mouros.
    JFC

    Um conforto moderno

    Um conforto moderno
    Jaz neste orfanato
    Que dizer do meu inferno?
    Que dizer do meu olfacto?

    Mais de três mil metros
    Andei eu a passo
    Já tenho o siso mais certo
    Já sei aquilo que faço

    O que é preciso é ter jeito
    Neste bom recato
    Que dizer do meu inferno?
    Que dizer do meu olfacto?

    José Afonso Escrito na prisão de Caxias

    terça-feira, 20 de abril de 2004

    Ingerências

    Durão Barroso criticou as primeiras medidas tomadas por Zapatero como primeiro-ministro de Espanha.
    Há quem diga que o actual primeiro-ministro português já foi ministro dos negócios estrangeiros.
    Eu não me lembro. Acho mesmo que isso não é possível. Como é que um antigo responsável pela diplomacia de um país, diz agora tanto disparate? Não, não é possível, mesmo.
    JFC

    reBlogue

    Injustiça

    Acho mal. Muito mal. Tramarem Avelino Ferreira Torres e Valentim Loureiro por causa de uns joguitos da segunda divisão? Homens destes mereciam crimes de primeira. Já não há respeito?
    Daniel Oliveira Barnabé

    domingo, 18 de abril de 2004

    Sem comentários

    No comment's at all

    Quem bloga...

    Há diversos tipos de blogue, e com as mais variadas intenções.
    Há os que servem para contar a vidinha, apenas interessando aos amigos pessoais. São úteis e apreciáveis para quem quer revelar ideias e sentimentos a amigos colocados em múltiplos lugares do planeta.
    Há os divulgadores. Actuando em áreas específicas e ligando quem actua nessas áreas.
    Há os de participação social, com preocupações mais próximas da cidadania.
    Há os que revelam actividades pessoais, com opiniões políticas ou filosóficas ou literárias ou até de crítica social.
    Há os humorísticos. Como o GATO FEDORENTO.
    Nem todos têm participação dos leitores. Em alguns, não faz sentido, noutros faz.
    SADINOS ou BARNABÈ, apesar das diferenças, foram criados para a participação. O mais intensa possível.
    Os ABRUPTO, AVIZ ou CAUSA NOSSA, por exemplo, existem para que os seus mentores exprimam opiniões de um forma imediata e continuada. Os seus post’s são posteriormente, e com muita frequência, citados na imprensa. Aqui não faz sentido a participação “popular”.

    Tudo isto é legítimo e louvável. Mas tudo tem um senão. Tal como em outras áreas da cidadania, também aqui se cometem, por vezes, excessos.
    É com a intenção de tornar estas coisas razoáveis, que se procede a alguma “fiscalização” de opiniões menos respeitadoras de outras participações. Não concordo em chamar a isso censura. A nossa liberdade termina onde começa a dos outros. Nem todos estaremos dispostos a suportar ofensas pessoais sem sentido, vindas de militantes anonimatos.
    No BLOGOPERATÓRIO também não permitimos comentários. Quem quer cá vir vem, quem não quer não vem. A intenção não é actuar socialmente, mas sim permitir a divulgação do que gostamos e do que nos preocupa, sempre com a ideia de partilha.
    O SADINOS tem a sua utilidade neste constante frequentar por parte dos habitantes da cidade de Setúbal.
    Mas como em tudo há os limites do bom senso. A crítica frontal e assumida é, na minha opinião, um excelente exercício de participação. O insulto e a insinuação gratuitas, não têm qualquer outro interesse que não seja o de retirar credibilidade aos projectos.
    JTD

    quarta-feira, 14 de abril de 2004

    Aprovada a morte de Amina por lapidação

    O Supremo Tribunal da Nigéria ratificou a condenação à morte de Amina por lapidação. Apenas adiaram a sentença em virtude de ainda estar a amamentar o seu filho. Depois será enterrada até ao pescoço e, em seguida, apedrejada, a menos que um dilúvio de e-mails repudiando a condenação faça com que as autoridades nigerianas voltem atrás na decisão. Através de uma campanha de assinaturas como esta salvou-se uma outra mulher na mesma situação. Não se perde nada, mas ganha-se no sentido humanitário. Não duvidem e façam-no por favor. Safira também será lapidada porque teve um filho depois de divorciada. A Amnistia Internacional pediu apoio através da sua página web.

    Por favor, façam circular esta mensagem.

    Vão lapidar outra mulher na Nigéria e desta vez reuniram-se poucas assinaturas:
    Não custa nada: Basta entrar no site (link abaixo) e assinar. A carta já está feita.
    Amnistia Internacional

    Vamos apoiar reenviando essa mensagem a todos os seus contactos?

    Como diz a mensagem, realmente não nos custa nada, e para Amina pode significar a VIDA!!!

    Memórias de Adriano


    Descobri, agora mesmo, um sítio onde se escondia o Adriano Correia de Oliveira. Foi boa, a descoberta. Isabel Correia de Oliveira é a mentora, e todos podem dar o seu contributo.
    Lembro-me de uma frase de Adriano, escrita no trabalho que fez em conjunto com Manuel da Fonseca - "Que nunca Mais":

    "Que nunca mais os meninos nasçam em bairros de lata, gostem de faltar à escola e aprendam ofícios de estalo e safanão"

    JTD

    terça-feira, 13 de abril de 2004

    Maré alta


    Experimentem ler este texto de Sérgio Godinho esquecendo a melodia. Eu não consigo.
    É nitidamente letra para ser musicada. Ou então, foram feitas em simultâneo; letra e música.
    Conclusão: O processo criativo coube ao seu autor. Nós ficámos com uma grande canção. É preciso aprender a nadar, não é? Lá isso é!

    MARÉ ALTA

    Aprende a nadar, companheiro
    Aprende a nadar, companheiro
    Que a maré se vai levantar
    Que a maré se vai levantar
    Que a liberdade está a passar por aqui
    Que a liberdade está a passar por aqui
    Que a liberdade está a passar por aqui
    Maré alta
    Maré alta
    Maré alta

    Os sobreviventes, Sérgio Godinho, gravado no Strawberry studio, Chateau d'Herouville - França,
    em Abril de 1971
    JTD

    Dou?



    CANÇÂO

    Tinha um cravo no meu balcão;
    veio um rapaz e pediu-mo:
    — mãe, dou-lho ou não?

    Sentada, bordava um lenço de mão;
    veio um rapaz e pediu-mo:
    — mãe, dou-lho ou não?

    Dei um cravo e dei um lenço,
    só não dei o coração;
    mas se o rapaz mo pedir:
    — mãe, dou-lho ou não?

    Eugénio de Andrade

    segunda-feira, 12 de abril de 2004

    Júlio Pomar | João Lobo Antunes


    Júlio Pomar e João Lobo Antunes falaram com Maria João Avilez na SIC.
    Bonita entrevista. Lobo Antunes guardou o bisturi e falou de Arte com a visão de um cirurgião permanente. Não dos hospitais, mas da vida de todos os dias. Um arguto observador da obra do pintor.
    A obra analisada foi o conjunto de desenhos feitos para "Guerra e Paz" de Tolstoi. Pomar encantou, como sempre, com o desfile de metáforas com que povoa o seu discurso.

    Em tempos, numa conversa com Helena Vaz da Silva, Júlio Pomar respondeu acerca de como se explica um quadro, como acontece:
    "Tropeço na palavra explicação. Gostaria de dizer que deixei de procurar explicações. Ou gostaria de ter deixado? O mais das vezes explicar uma coisa é fazê-la render a curto prazo, é fechá-la e deixá-la. Mais me apaixona ver o que passa por ela, o que com ela parece ter relação, do que estar a impor o fim que é a explicação. A levar a água ao meu moinho. Sou um sedentário e gostaria que o meu moinho fosse nómada".

    Agora, passados mais de vinte anos, diz que o que mais lhe interessa é subir a escada do ateliê e pintar. Pinta várias peças em simultâneo. Diz que são elas, as telas, que o conduzem. Piscam-lhe o olho e ele limita-se a obedecer. Foi Pomar que disse um dia que "Um quadro já lá tem tudo, o pintor limita-se a descobrir essa verdade".

    Foi bom conversar com eles.
    JTD

    domingo, 11 de abril de 2004

    Não canto porque sonho


    Titulo de um poema de Eugénio de Andrade, que Fausto musicou e cantou em parceria com José Afonso no seu trabalho "P'ró que der e vier", gravado em Madrid e em Lisboa, entre Abril e Outubro de 1974, com produção de Adriano Correia de Oliveira e José Niza. É um bom disco de Fausto, com a marca do tempo que então se vivia. O poema de Eugénio, a composição de Fausto e a interpretação em diálogo com Zeca, fazem desta canção uma referência na música da época. Fiquemos com o texto. JTD

    Não canto porque sonho.
    Canto porque és real.
    Canto o teu olhar maduro,
    o teu sorriso puro,
    a tua graça animal.

    Canto porque sou homem.
    Se não cantasse seria
    o mesmo bicho sadio
    embriagado na alegria
    da tua vinha sem vinho.

    Canto porque o amor me apetece.
    Porque o feno amadurece
    nos teus braços deslumbrados.
    Porque o meu corpo estremece
    por vê-los nus e suados

    sábado, 10 de abril de 2004

    Em Abril, memórias mil


    Não me comove o já serôdio abrilismo de pacotilha. O 25 de Abril foi há trinta anos, e os meus amigos de mais ou menos essa idade, não souberam o que era o fascismo, e ainda bem.
    Também não me emociono com os "saudosos" anos de implantação da República. Ainda não existia como criatura e os relatos soam como algo muito longe. O bem que estes históricos acontecimentos nos fizeram é imenso. São bens adquiridos, por nós utilizados como vulgar electrodoméstico. Mas vale a pena recordar o melhor, o que ficou depois da poeira.
    Vamos fazê-lo aqui durante o mês de Abril.
    Começamos com José Afonso, poeta. Um poema não musicado, escrito em Março de 1981. JTD

    TU MORRES TODOS OS DIAS

    Tu morres todos os dias
    libertando telefonemas
    diante da minha mágoa
    exposta à ira dos dias
    levo-te cravos vermelhos
    flores recentes da estação
    Morres e vais caminhando
    sobre uma estrada de fumo
    o lume que nos sustenta
    Já não cheira não tem vida
    À vezes vens-me à lembrança
    descalça ao longo da praia
    Vivo terrores de madraço
    Com dívidas acumuladas
    Seguindo de perto o tráfego
    Saberei um dia amar-te
    Tu morres tu pontificas
    eu respiro a tua sombra
    Ai repouso do guerreiro
    Sobre o abismo repousas

    quarta-feira, 7 de abril de 2004

    Picasso e a guerra


    Picasso tem direito, no início da ocupação, como muitos outros, a uma visita da gestapo, que lhe vasculha o atelier.
    Um oficial nazi, ao ver sobre uma mesa uma fotografia de Guernica, interroga-o:
    - Foi o senhor que fez isto?
    Resposta de Picasso:
    - Não, foram vocês.


    Titulo: Picasso por Picasso
    Organização: Paul Désalmand
    Tradução: Mário Dias Correia
    Capa: Fotografia de Man Ray
    Edição: Contexto

    O provincianismo português

    O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subornização inconsciente e feliz.
    O sindroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.
    Se há característico que imediatamente distinga o provincianismo, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas.

    Fernando Pessoa, Textos de crítica e de Intervenção

    quarta-feira, 31 de março de 2004

    A cor do voto



    Saramago avisou que o seu mais recente livro era para causar polémica.
    Os livros também servem para isso? Claro. Mas acima de tudo, estamos perante uma obra que interroga, que levanta questões sobre a participação das pessoas na democracia. Quase na generalidade, a nossa participação como cidadãos está reduzida ao voto. Saramago numa abordagem interessante:

    "Em geral não costumo votar, mas hoje deu-me para aqui, A ver se isto vai servir para alguma coisa que valha a pena. Tantas vezes foi o cântaro à fonte, que por fim lá deixou ficar a asa, No outro dia também votei, mas só pude sair de casa às quatro, Isto é como a lotaria, quase sempre sai branco, Ainda assim, há que persistir, A esperança é como o sal, não alimenta, mas dá sabor ao pão, durante horas e horas estas e mil outras frases, igualmente inócuas, igualmente neutras, igualmente inocentes de culpa, foram esmiudadas até à última sílaba, esfareladas, viradas do avesso, pisadas no almofariz sob o pilão das perguntas, Explique-me que cântaro é esse, Porque é que a asa se soltou na fonte, e não durante o caminho, ou em casa, Se não era seu costume votar, porque é que votou desta vez, Se a esperança é como o sal, que acha que deveria ser feito para que o sal fosse como a esperança, Como resolveria a diferença de cores entre a esperança, que é verde, e o sal, que é branco, Acha realmente que o boletim de voto é igual a um bilhete de lotaria,"

    Titulo: Ensaio sobre a Lucidez
    Autor: José Saramago
    Edição: Caminho

    JTD

    terça-feira, 30 de março de 2004

    Michael Nyman


    A minha amiga Sandra Passos ligou-me:"Vamos ver o Michael Nyman? Vai estar no coliseu no dia 15 de Abril".
    E eu:"Vamos a isso!"
    Tenho a impressão que nunca faltei a um concerto, em Portugal, deste inglês, londrino, autor da música de "O Piano". Não é esta a sua obra que mais me impressiona, mas é boa música. Todos os discos de Michael Nyman são uma surpresa e uma festa. Gosto muito de "O Cozinheiro, o Ladrão, a mulher Dele e o Amante", que animou o filme com o mesmo nome.
    Em Lisboa vai estar com Sarah Leonard e com um quarteto de cordas. Vai ser, concerteza, um espectáculo memorável. JTD

    Michael Nyman | Concerto
    Dia 15. Abril. Coliseu de Lisboa
    22 horas

    domingo, 28 de março de 2004

    Onde fica Auschwitz?

    Porque ontem foi Dia Mundial do Teatro, fui ver a peça que o Teatro Animação de Setúbal tem em cena.
    O trabalho é assinado por Carlos Curto e Rui Zink, e é uma interessante interpretação dos problemas levantados pela chamada Era da Informação. A Era do Faz-de-conta elevada a expressão de plena existência.
    O tempo em que há quem pretenda que quem não aparece na televisão não existe. A sátira aos comportamentos pouco humanos dos passatempos televisivos. A violência sobre os cidadãos desprotegidos. A crítica às expressões artísticas pouco integradas no seu tempo. Tudo isto abordado com uma inteligência e com um sentido do humor que ultrapassa, não poucas vezes, o real.

    Mas atenção, não é a anulação do real pelo imaginário. O que aqui se representa, não se insere numa classificação divertida das recentes formas de teatralidade ligeira. As referências são literárias. Lá encontramos, escondidos nas muito boas interpretações dos actores, Júlio Dantas e George Orwell. Só para dar dois exemplos que me pareceram óbvios. Dantas surge como motivo que inspira a sátira ao teatro declamado e puritano. Orwel, porque quando escreveu 1984, vislumbrou a sociedade actual. A sociedade controlada pelo poder, no caso real o poder económico. E o que são as estações de televisão e os jornais de “referência”, senão eficazes instrumentos dos detentores do poder económico? O "Big Brother" está aí e a gente às vezes não dá por isso.

    Sobre o titulo da peça, e porque já foi alvo de ataques e interpretações menos correctas, tenho a dizer o seguinte: Um titulo não é, bastas vezes, uma ilustração literal do que se vai passar. É sim uma sugestão para a leitura, sempre com a intenção promocional, é certo, mas em muitos casos metafórica.
    Dou apenas três exemplos, que me surgem ao acaso. Quando a escritora Fernanda Botelho lança o titulo: “Esta Noite Sonhei com Brueghel”, não está a fazer um tratado sobre a vida e obra do pintor. Quando José Saramago escreve “Manual de Pintura e Caligrafia” não está a pensar ensinar ninguém a pintar ou a fazer letrinhas bem alinhadas. E Já agora, quando António Mega Ferreira fala de “A Borboleta de Nabokov”, não está a falar do fascínio do criador de “Lolita” por esta espécie. Na peça do TAS, "Onde fica Auschwitz?" é a expressão do pretexto para os cortes que nos fazem pensar. O actor Carlos Rodrigues, assume um ar de pinguim taralhoco que apenas faz essa pergunta, sempre que a violência se está a tornar preocupante. Tão pouco e tanto.

    E pronto. É o que me é possível dizer, pelo menos para já, sobre esta obra de humor um pouco escuro, mas com enorme claridade na exposição argumentativa. JTD

    sábado, 27 de março de 2004

    sexta-feira, 26 de março de 2004

    Fotografia hoje



    SEBASTIÃO SALGADO vem a Portugal e vai estar no CCB a convite da revista VISÃO, para uma conferência sobre O Fotojornalismo Hoje.
    Salgado é também o presidente do júri do IV Prémio VISÃO Fotojornalismo.

    Para além do enorme talento como fotojornalista, Sebastião Salgado é detentor de uma presença cativante como orador.
    As suas ideias acerca do mundo e do seu estado de conservação ao nível humano, são visões de um homem que conhece por dentro as suas misérias e sofisticações. Um olhar atento e competente sobre a vida e a luta pela sobrevivência de grande parte das mulheres e homens do planeta. JTD

    Conferência: O Fotojornalismo Hoje
    Oradores: Sebastião Salgado, Lélia Wanick Salgado, Robert Koch e Ruth Eichhorn
    Moderador: Carlos Cáceres Monteiro
    Local: Centro Cultural de Belém (Sala Quedá)
    Dia 27 de Março, 16 horas
    Entrada livre

    quarta-feira, 24 de março de 2004

    Aqui mesmo ao lado, em Espanha, estão a ver?

    António Mega ferreira Faz O jogo das palavras todas as quintas-feiras na Visão.
    Na última, termina com uma frase que recupera a expressão utilizada nas eleições nos Estados Unidos. Deu-lhe a volta, e ainda ficou melhor, na minha opinião:
    "Para aqueles que acham que é a economia que resolve tudo (até os resultados eleitorais) aqui está uma boa lição, mesmo à nossa porta: é a política, estúpidos!"
    JTD

    Honestidade intelectual

    Quando um dos meus quadros não me agrada, quando não o acho bom, não é autêntico, mas assino-o da mesma maneira, para que não acusem outra pessoa. Pablo Picasso

    Um divertido livro que nos revela o genial Picasso na primeira pessoa.
    O que ele pensava dos amigos, da ditadura, dos maçadores, da pintura e dos pintores.
    Estou a reler esta obra editada em 2000, pela Contexto. É uma sugestão. Penso que a edição não está esgotada.

    Titulo: Picasso por Picasso
    Organização: Paul Désalmand
    Tradução: Mário Dias Correia
    Capa: Fotografia de Man Ray
    Edição: Contexto

    JTD

    reBlogue

    Com ditadores e terroristas não há conversas! Ouviram? Não há conversas!
    Depois de visitar Portugal, Tony Blair vai à Líbia cumprimentar Muhammar Kadhafi
    Daniel Oliveira Barnabé

    terça-feira, 23 de março de 2004

    Parabéns a você

    Lúcia, a "última pastorinha" de Fátima, faz hoje 97 anos. No convento carmelita de Coimbra onde vive, as dezoito monjas que ali vivem em clausura vão poder conversar durante o almoço [enaaa!] e dar um abraço à aniversariante [iuupiiii!]. Estragadas com mimos, hein?
    ruitavares Barnabé

    segunda-feira, 22 de março de 2004

    Eles Não Conhecem o Herman

    De segunda a sexta-feira, o canal brasileiro GNT tem o mérito de apresentar um dos melhores "talk-shows" que alguma vez passaram na televisão em Portugal. É o Programa do Jô, um "remake" do modelo americano tal como é o HermanSic, mas a milhas de distância do português. É que o Jô Soares tem o condão de não humilhar publicamente os seus convidados (mesmo quando o seu interlocutor pensa que é a reencarnação de Jesus Cristo), conseguindo sempre retirar uma belíssima história da vida daqueles que aceitam ir ao programa.

    Ele até pode brincar com as situações, mas com graça, sem roçar o ordinário ou o boçal a que estamos habituados na televisão portuguesa e, em particular, no HermanSic. E ainda por cima tem piada. Mais: ele é culto. Não tem uma cultura superficial só de televisão ou do "metier" como mostra o Herman.

    De uma maneira geral, Jô sabe do que fala e valoriza a conversa dos seus convidados. Mas também não assume a atitude do sabichão enfadado. Pelo contrário. Sabe ouvir e deixa-se surpreender pelas histórias dos seus convidados. E esse é talvez o seu maior mérito. O Programa do Jô é aliás um somatório de qualidades: tem bom "papo" como dizem os brasileiros, boa música (muito jazz) e um ambiente descontraído, sem o "show off" de HermanSic.

    Por tudo isto, fico espantada quando consulto alguns artigos brasileiros sobre o apresentador e verifico que o Jô é muito criticado por falar mais do que os seus convidados. Ah! Isso é porque não conhecem o Herman!

    SOFIA RODRIGUES, Público. Domingo, 21 de Março de 2004

    domingo, 21 de março de 2004

    Helder show

    Acabo de chegar da sessão organizada por Fátima Medeiros, na Culsete, em Setúbal. Foi notável. Fátima apresentou a iniciativa com entusiasmo e bem. Manuel Medeiros falou sobre a relação dos poetas e dos editores com os livreiros. Foi eloquente e objectivo. Manuel Rosa falou sobre o prazer de dar corpo a um livro e, respondendo a Manuel Medeiros, sobre o papel do livreiro na sua promoção. Fernando Cabral Martins apresentou Helder Moura Pereira, com a expressão do profundo conhecimento da sua obra.
    Chegou a vez de Helder. Brilhante. Entre o emocionado e o emocionante, ofereceu-nos uma saborosa tarde de conversa. Percorreu os livros que tem escrito, lendo os poemas que o fizeram como poeta. Leu um lindíssimo inédito. Foi muito bom estar ali. Bela forma de comemorar a poesia. JTD

    Dia da poesia

    Há um adesivo que se tira, um cheiro
    a fritos que se leva. E não é tudo.
    O coração admirado por lhe ligarem,
    o corpo agitado como alma
    intanquila, e tantas más ideias na cabeça.
    Lá da janela, com um livro na mão,
    acenavas-me, adeus, imaturo homem,
    adeus. Obrigado, Deus meu, mais
    uma vez, por tudo isto e mais o que
    não fiz, nem o casaco tiraste e logo
    me atacaste, talvez gostasses desse cheiro
    a fritos e do meu ar assim distraído.

    Helder Moura Pereira, A TUA CARA NÃO ME É ESTRANHA", Assírio & Alvim.

    sábado, 20 de março de 2004

    António Cabrita

    Como amanhã é dia de poesia, estas páginas já estão a comemorar. Hoje vamos conviver com António Cabrita. Poeta, crítico, homem do cinema, da imagem, das opiniões intensas e sérias sobre a Arte e a natureza dos artistas. O poema aqui colocado está prantado no livro "Os Abysmos da Mão", publicado pela Íman, em 2001.

    Os olhos em tudo são inábeis,
    menos no sonho. Para mais
    em Abril,
    com os aguaceiros a rilhar
    as velas persianas de ripinha
    e o condenar à espórtula
    as salamandras. E
    que me impede de sofucar?
    O roçar do tempo nos teus pulmões,
    os olhos em tudo inábeis,
    menos
    nas mãos que me desposam.
    Por isso perdura o que amo
    no incicratizável susto
    do mexicano Salvador Novo:

    "Um domingo
    Epifania
    não voltou mais a casa".

    O mapa da retina?
    A menina dos meus olhos,
    o seu punho no meu gume.


    E pronto. Até amanhã e boa poesia. JTD

    quinta-feira, 18 de março de 2004

    Domingo é dia de poesia

    O próximo domingo é dia mundial da Poesia. Como vivo em Setúbal, vou aceitar o convite que Fátima Medeiros me dirigiu, e lá estarei na sua livraria, a Culsete, às cinco horas da tarde. O programa é de primeira. Vão lá estar os meus amigos Helder Moura Pereira e Manuel Rosa. Helder é um poeta que surpreende em cada livro que vai tendo a gentileza de pôr cá fora. Manuel é o seu editor - O homem da Assìrio & Alvim. É também o responsável pele estética das publicações. O livro que editou de Helder, para além da belíssima capa, é uma grande demonstração do talento do poeta. O titulo é divertido: "A TUA CARA NÃO ME É ESTRANHA". Aqui vai o primeiro texto da obra.

    "As coisas passaram-se assim: meu avô
    teve um desgosto de amor, quis matar-se.
    Atirou-se do Castelo de S. Filipe
    mas não se matou, ficou ali, primeiro
    a gemer e depois inconsciente, julgava
    que tinha morrido. Um pastor de ovelhas
    encontrou-o e levou-o para o hospital.
    No hospital meu avô percebeu
    que não tinha morrido, a irmã da gerente
    interessou-se por ele e casaram.
    Do casamento nasceram três filhos,
    meu pai foi um deles. Sou portanto neto
    do acaso e o acaso é o meu pai."

    Não se esqueçam, é no próximo domingo. JTD

    Mano preto/mano branco

    Os meus amigos Jaime Pinho e Alberto Lopes, professores na Escola Secundária D. João II, em Setúbal, lançaram-me o desafio: Editar o trabalho dos alunos do 9º ano da escola sobre o problema colonial. Desafio aceite. Os testemunhos recolhidos pelos estudantes são de uma impressionante qualidade humana. O racismo e o colonialismo tratados como nunca o foram até hoje. Relatos reais e emocionantes. O livro, com o titulo "Mano preto/mano branco", será colocado nas livrarias a partir de segunda-feira.
    O extraordinário escritor angolano Pepetela, é o autor do sentido prefácio.
    É esse texto que aqui partilho convosco.

    "Este trabalho que professores e alunos do 9º ano da Escola Secundária D. João II nos apresentam é comovente por mais que uma razão. Por um lado, pelo labor de recolher testemunhos de vidas que não puderam viver, os jovens são levados a reflectir sobre experiências alheias e neste caso vivências em países muito afastados pela geografia senão pela emoção. E também fazem as pessoas recordar os seus passados, hoje com certo distanciamento psicológico, mas certamente ainda com muito sentimento. Adivinha-se facilmente uma lágrima num canto de olho em cada resposta dada.

    Para a juventude portuguesa, o passado ainda recente de Portugal (e particularmente o seu passado colonial) deve ser qualquer coisa que se entende quando se estuda, mas pouco se sente, porque pouco falado em casa, quase envergonhadamente escondido. São trabalhos como este que fazem as pessoas entrarem na pele do outro e sentirem com ele as amarguras e o sofrimento que regimes sociais injustos possam ter produzido em povos com os quais conviveram. Conhecer as injustiças da situação colonial, reconhecer que os nossos antepassados talvez afinal não tenham sido tão heróicos como muitos se esforçaram por nos fazer crer e que terão mesmo que inconscientemente contribuído para o sofrimento dos outros, isso não nos diminui, nem sequer diminui os nossos antepassados. Reconhecer as nossas fraquezas significa ter uma grande força de carácter e capacidade de mudança.
    Para que as pessoas tenham um relacionamento mais sadio e mais puro, é necessário que se saiba exactamente aquilo que as afastou a um momento dado. Então, as diferenças entre as pessoas podem ser compreendidas, aceites como um bem inestimável e servir para um enriquecimento mútuo. É o que pode e deve passar-se com os povos de Portugal e de Angola e de Moçambique, para só referirmos os que estão relacionados neste estudo. Poderíamos alargar a ideia para todos os povos do mundo.

    Pessoalmente, gostaria de agradecer ao colectivo desta escola por me terem dado a conhecer este trabalho tão belo e me honrarem pedindo-me estas modestas linhas."

    Titulo: Mano preto/mano branco
    Autores: alunos do 9º ano da Escola Secundária D. João II. Setúbal
    Capa: Ilustração de Eurico Coelho
    Design/paginação: José Teófilo Duarte | Eva Monteiro [DDLX]
    Edição: Estuário Publicações

    JTD

    quarta-feira, 17 de março de 2004

    Viva quem canta, viva quem escreve

    A história de um homem que escreve o que for preciso. O regresso de um congresso de escritores anónimos em Istambul, leva-o a fazer escala em Budapeste. A lingua húngara, "A única que o diabo respeita", e o enamoramento com a sua professora, fazem-no andar num corrupio entre o Rio de Janeiro e a nova cidade de eleição. Escreve romances, com pseudónimo, que se tornam grandes sucessos. Uma dessas obras é a "autobiografia" de um alemão que aprende português escrevendo no corpo de mulheres nuas.
    O retrato de um escritor anónimo que vive dividido entre dois livros, duas mulheres, duas cidades, dois idiomas.
    É o novo romance de Chico Buarque.
    Vale a pena ouvir a opinião de José Saramago: "Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre o arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro."

    Titulo: BUDAPESTE
    Autor: Chico Buarque
    Capa: Atelier Henrique Cayatte, com a colaboração de Rita Múrias.
    Edição: Dom Quixote

    JTD

    terça-feira, 16 de março de 2004

    Fia-te na virgem e não corras...

    Após o encontro com o Presidente da República
    Durão Barroso: "Não há ameaças credíveis dirigidas ao nosso país"
    O primeiro-ministro, Durão Barroso, assegurou hoje que não há "qualquer ameaça [terrorista] credível dirigida contra o nosso país", na sequência dos atentados terroristas de 11 de Março em Madrid que mataram 201 pessoas e feriram mais de 1500. 

    Público, hoje.

    domingo, 14 de março de 2004

    11-M

    A televisão avariou há um mês e o homem que devia nunca chegou a aparecer. As imagens de Atocha não entraram lá em casa. (Que ao menos o horror, que me dói no estômago, fique longe da sala de jantar). Manolo Montálban, se fosses vivo, talvez amanhã no "El Pais" escrevesses as palavras que eu precisava de ler. Hoje, não me sais da cabeça (precisava de ti amanhã, mas no teu lugar vão estar os períodos infelizmente monocórdicos do Eduardo Mendoza).

    Ao revolver os mortos pelo terror em Madrid, e os estilhaços do 11-M, penso em ti e na falta que me fazes, e em Fernando Assis Pacheco, que se fosse vivo estaria hoje em Madrid, exercendo a sua "profissão dominante". A nossa vida prossegue: ontem, na rua Tomás Ribeiro e em Madrid, um rapaz e uma rapariga muito feios beijaram-se desalmadamente, abrindo janelas na barragem do terror, como a mulher que estendia roupa quando começaram os ataques americanos a Bagdad.

    Sim, eu sei que serão cada vez mais os que irão repetir que só ao lado de George Bush se pode combater o terrorismo e que não pode haver "hesitações" nem "mas". Aturdidos estamos.

    Gostava de estar hoje em Madrid à sua beira, Assis Pacheco, a vê-lo respirar, a assistir à sua respiração. Foi consigo, quando pela primeira vez lá estive, que aprendi a amá-la, à Madrid das "calles" e "plazas", das comidas, das livrarias, dos livros de bolso vendidos no chão, da maravilhosa língua que você adorava, dos cafés, dos jazz bar. A "profissão dominante" juntou-nos lá uma vez - e, em vida, nunca lhe agradeci isso como deve ser. Nos textos de Fernando Assis Pacheco vive o seu amor por toda a Espanha - Assis foi um poeta maior, que por demasiado tempo abdicava de publicar, distribuindo poemas fotocopiados por alguns que entendia privilegiar, chegando ao jornal às oito da manhã e apanhando o autocarro para Campo de Ourique ao fim da tarde, escrevendo na sua máquina, quando já todos arranhávamos o "microsoft word", "cosas preciosas" que ficaram nos arquivos de "O Jornal". "(...) Pode morrer tudo aos poucos/na memória mas nunca Almería/ a praia de basalto e ali ao pé/uma certa fonda de esquina/onde tu e eu emborcámos/caray que óptimo Albariño/com peixe na grelha e do manchego/no pão alvo em grandes fatias/nem aqueles noites de Málaga/em que torcíamos a camisa/ e tu aproveitavas para contar/ metade da tua longa vida (Estradas do Sul, Verão de 58, A Musa Irregular). Sobre Atocha, o melhor texto seria o seu, escrito talvez em português e espanhol, línguas irmanadas.

    Ana Sá Lopes, Público.

    sexta-feira, 12 de março de 2004

    Eu não, mas como o compreendo

    Eu Vejo o Herman SIC
     
    Aos domingos à noite tenho sempre a mesma dúvida e acabo sempre também por tomar a mesma decisão. Dou o benefício da dúvida ao Herman SIC. Chamem-me masoquista, mas os pequenos (e cada vez mais curtos) momentos de humor vão sendo ainda razão para aguentar muitas das coisas inacreditáveis que o programa tem. Uma opção de difícil defesa até para mim, pelo grande desequilíbrio do programa e porque, no final, acabo por nunca ficar satisfeito com a escolha.
    Além da incapacidade de Herman José para fazer um programa do género "talk show" de entretenimento (nas conversas que tem com os seus convidados, ou falha na abordagem, ou nos temas que escolhe, e é deselegante, inoportuno), Herman SIC está virado cada vez mais para dentro e cada vez menos para o espectador. Um exemplo: aquele cartaz com letras de músicas populares alemãs, transportado por duas moças, e que passa repetidamente pelo palco. É claro que Herman José e a sua trupe se divertem com aquilo, mas irrita-me que ignorem quem está do outro lado, retirando o papel que cabe ao espectador. Tem piada uma vez, mas já cansa. Para quem gosta do humor de Herman José, o programa é um falhanço - e nem sequer vou falar do "pseudo" episódio com Lili Caneças. O próprio Herman terá sentido a necessidade de dar espaço ao seu humor e a novas personagens que não cabem na noite de domingo e criou os Papéis ReSIClados. Mas talvez não fosse preciso se o Herman SIC não resvalasse para caminhos para lá do aceitável.

    José J. Mateus, Público, Quinta-feira, 11 de Março de 2004

    quinta-feira, 11 de março de 2004

    Espanha

    O terrorismo é uma merda.
    Os terroristas são uns filhos da puta.

    quarta-feira, 10 de março de 2004

    Manuel Rosa

    Recebi um convite para a inauguração de uma exposição de escultura de Manuel Rosa.
    Manuel é o responsável editorial da Assírio & Alvim. Há muito que não nos presenteava com o seu trabalho no campo das artes plásticas. Como a escultura que dele se conhece é de muito recomendável apreciação, a expectativa é enorme.
    Hoje é, portanto, dia de festa. E a festa é na galeria Lino António, Escola António Arroio, às seis horas da tarde.
    Lá estarei para dar um abraço ao Manuel e para limpar a vista.
    JTD

    segunda-feira, 8 de março de 2004

    Hoje é dia da mulher

    NESTES ÚLTIMOS TEMPOS

    Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
    Caiu em desmandos confusões praticou injustiças

    Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
    Degradação das coisas que a direita pratica?

    Que diremos do lixo do seu luxo - de seu
    Viscoso gozo da nata da vida - que diremos
    De sua feroz ganância e fria possessão?

    Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
    Que diremos de seus conluios e negócios
    E do utilitário uso dos seus ócios?

    Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
    De suas fintas labirintos e contextos?

    Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
    Desfigurou as linhas do seu rosto

    Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
    Degradação da vida que a direita pratica?

    Sophia de Mello Breyner Andressen, Obra Poética. Caminho.

    domingo, 7 de março de 2004

    Então, não há problema...

    Será que este PP é o partido da misóginia colectiva?

    «Para o CDS-PP, que na discussão de ontem se fez representar pelo deputado Miguel Paiva, a importância do clitóris é, conforme o próprio disse ao PÚBLICO, "algo subjectiva". O deputado reconhece que tem uma função essencial no prazer sexual mas "para além disso a sua mutilação não afecta nenhuma função vital", nomeadamente, como sublinha, "a função reprodutiva".»

    Notícia do PÚBLICO

    sexta-feira, 5 de março de 2004

    O padre aborto

    Um padre de aspecto chunga, resolveu informar as crianças sobre a malvadez do aborto. Vai daí, e toca de imprimir um panfleto com literatura e imagens indescritíveis. A ignorância e a má fé da beatífica criatura chocaram quem viu o execrável documento. A Igreja parece estar com os mesmos problemas do PP - Demasiados animais raivosos à solta.
    BN

    Tão pouco independente...

    O semanário INDEPENDENTE publica hoje na primeira página as fotografias de personagens públicas mostradas aos rapazes da Casa Pia, envolvidos no processo de pedófilia. Todos os portugueses que já apareceram mais do que duas vezes nos jornais estão lá. O titulo diz: "Porquê?". Tudo isto é insinuante e de gosto bastante duvidoso. Não sei o que se diz no miolo do jornal visto não o ter comprado (Era o que faltava, a intenção era esssa). Este jornal parece atravessar uma grave crise, mas fazer tudo e mais alguma coisa para vender papel, é repugnante.
    JFC

    quinta-feira, 4 de março de 2004

    Miguel de Castro

    Outro poeta a merecer visita. Miguel de Castro é o pseudónimo literário de Jasmim Rodrigues da Silva.
    Homem de grandes qualidades para além da poética, claro. Divertido contador de histórias, cultiva a amizade, o afecto das mulheres:“Esses seres admiráveis”, o gosto pelo bom vinho e pelo apaladado mastigar das iguarias culinárias. Autor do saboroso e único “Bacalhau à Jasmim”, um dos pratos que gosta de preparar para os amigos. Tribo a que tenho a sorte de pertencer. Sadinos

    FELICIDADE
    Subiste ao meu pescoço de repente
    E, sôfrega, beijaste-me na boca.
    Foi numa tarde azul... julguei-te louca!
    Na rua passeava tanta gente!

    Depois. do mesmo modo irreverente
    Sussuráste o meu nome com voz rouca,
    E de novo senti a tua boca
    Deslizando, molhada, a língua quente...

    Alugámos um quarto na cidade
    Donde se via o mar com velas brancas,
    E amei-te, devagar, o corpo nú...

    Foram dias de ardente felicidade.
    Tinham curvas sensuais as tuas ancas,
    Era belo o relevo do teu cu!


    Poema do livro OS SONETOS (Estuário, 2002)
    JTD

    Ai as pedrinhas...


    Tempos atrás falámos do problema que são as pedras da calçada soltas, em Lisboa.
    Foi então proposto que a CML contratasse Tino de Rans para compor os caminhos da cidade. juntáva-se a fome com a vontade de comer; Tino exercia a sua profissão, e a comunicação social cor-de-rosa a sua, cobrindo a actividade do mais mediático calceteiro. Verificamos que as pedras do chão lisboeta continuam em grande liberdade. Ontem assisti a uma projecção de um dos bloquinhos de pedra sobre uma montra. Foi na baixa. A senhora que inadvertidamente fez o remate, ficou lívida. Mas teve sorte. O vidro da montra aguentou o embate sem quebrar. Esta senhora teve sorte, mas estamos todos sujeitos a que isto nos aconteça. Senhor presidente da câmara, por favor ligue para o Tino. Olhe que o chão de Lisboa está a desfazer-se. Até mesmo os dos caminhos para Belém.
    BN

    terça-feira, 2 de março de 2004

    Uma ferida na existência

    Fernando Luis Sampaio é um poeta de grandessíssima qualidade, que só peca pela preguiça. Mas o pouco que publica é, seguramente, do melhor que por aí se vai lendo. Manuel de Freitas, no EXPRESSO, diz: "O que distingue F.L.Sampaio, para lá da prudência rara com que tem publicado, é a riqueza contida e quase asfixiante das imagens e uma equilibrada tensão expressiva que sugere, não poucas vezes, a proximidade do silêncio"
    Deixo aqui um poema do seu mais recente livro.

    Deixa o dia cerrar fileiras
    depois do cansaço reúne
    em teu redor o seu fulgor
    derradeiro
    Uma camisa aqui, a escova de dentes,
    livros, no chão a alma
    suficiente para novos lábios
    desfazerem o ferido afecto.

    A tua vida espalha-se como o mercúrio
    solto há-de voltar a juntar-se
    por virtude tua ou coragem

    porque mesmo derrotado
    o sonho é um abrigo iluminado pela inquietude,
    uma ferida na existência.


    Escadas de Incêndio, Quetzal, 2000.
    JTD

    segunda-feira, 1 de março de 2004

    Falso Retrato de Andy Warhol

    não penso
    transcrevo conversas telefónicas ou falo
    com a noite de new york
    ou não falo e gravo a voz dos outros filmo
    obsessivamente a morte
    ou não filmo e multiplico cadeiras eléctricas
    excito-me
    sou o centro do mundo dos outros e
    não existo
    ou é a vida que me atravessa o sexo
    e finjo a morte ou cintilo
    como o diamante

    Al Berto, "O Medo". Contexto-1991

    domingo, 29 de fevereiro de 2004

    Parabéns


    Vasco Pulido Valente justifica a existência do Bloco de Esquerda no DN de hoje. Segundo Vasco, essa existência deve-se ao abandono do PS, por parte de Guterres, das batalhas da esquerda. E deve-se sobretudo à mediatização de três figuras do Bloco: Francisco Louçã, Miguel Portas e Fernando Rosas. Para terminar a interessante análise VPV diz: "Vai continuar a crescer. Nem à Direita, Nem à Esquerda (Com Ferro e o PC), há grande concorrência. Ficam só duas perguntas: Até onde e para quê?"
    Ora, para onde e para quê! Não se está mesmo a ver? Para que o senhor continue a escrever sobre política sem ter que pensar apenas no PS e no PSD. As ideias diferentes das instituídas não prejudicam o avanço das nações nem da humanidade. Muito pelo contrário, é das minorias que nascem muitas vezes as mais inovadoras soluções para os males do mundo. Decerto estará de acordo comigo. Mas se não estiver, paciência. Vou continuar a ler as suas lúcidas intervenções na imprensa. Actividade que mantém, já lá vai muito tempo. Parabéns por isso. E já agora, parabéns ao Bloco de Esquerda, pela suas eficazes intervenções no parlamento, e pelos cinco anos de vida.
    JTD

    Isto de estar vivo ainda vai acabar mal


    Umberto Eco faz uma interessante reflexão sobre o prolongamento da esperança de vida. É no DN de hoje. Para "ilustrar", um excerto do final da crónica:
    "Os jovens podem pensar que o progresso é aquilo que lhes permite mandarem mensagens por telemóvel ou ir para Nova Iorque em voos baratos, enquanto o facto espantoso (e o problema por resolver) é que eles se tornam adultos - quando as coisas correm bem - aos 40, enquanto os antepassados deles eram adultos aos 16.
    Claro que devemos agradecer a Deus, ou às nossas estrelas, vivermos mais. Mas isto deve ser visto como um dos problemas mais dramáticos do nosso tempo e não como uma dádiva evidente por si mesma. Basta ver o que temos de fazer para ganhar a vida hoje em dia..."
    JTD

    Palavras desenhadas no silêncio

    Quando coincidimos descobrimos
    que na diferença somos a unidade
    e nada sobra já de quanto somos
    Esta é a força de ser fatalidade
    feliz do corpo em outro corpo
    Estar na paz no prestígio limpo
    que nos traz à certeza de estar
    no sopro do tempo onde é claro
    Dissemina-se por todo o lado a delicadeza
    como uma forma de alegria luminosa
    Quando se poderia levantar a trama de água
    a ver as subtilezas marinhas vagarosas
    Vemos e tudo está passando numa tranquila ordem
    e cada objecto reflecte a teia de uma luz
    que suscita as palavras desenhadas no silêncio

    António Ramos Rosa, "O Livro da Ignorância". Signo. 1988

    sábado, 28 de fevereiro de 2004

    A quem o diz...



    "Eu pago muitos impostos todos os anos. É tanto que os números não cabem no impresso comum do IRC. Mas sinto-me bem em fazer isso." Bill Gates, Newsweek

    Eu já não me sinto assim tão bem. Deve ser pela desproporção entre números e receitas. JTD

    A voz dos pacientes do BlogOperatório

    De Carlos Caldeira , recebemos, via mail, uma nota que nos parece oportuna, referindo-se a "O Senhor das Multas I".

    "Sim, há mesmo que separar o lixo, para que depois as autarquias o coloquem todo na mesma lixeira, sem nada reciclarem...
    Deviam era de nos pagar o nosso lixo - que verdadeiramente reciclado vale uma fortuna -, em vez de nos pedirem para pagar taxas aos municípios. Eles que se auto-sustentem."

    De acordo.

    sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004

    Não foi para a palhaçada

    Monsanto foi feito para ser o bosque de Lisboa.

    Gonçalo Ribeiro Teles, Jornal 2:
    A propósito da ideia fantástica de passar a feira popular para Monsanto.

    O senhor das multas I

    José Eduardo Martins, secretário de estado do ambiente, quer multar quem não separe o lixo.
    De onde veio este senhor? Da Dinamarca?
    Alguém o esclarece, por favor, sobre o estado do país onde vive e onde foi nomeado secretário de estado? Esta gente começa logo pelas multas. Não seria melhor constituírem um amplo e transversal ministério da administração interna? BN

    quinta-feira, 26 de fevereiro de 2004

    Notável

    Em Portugal, um notável é, como se sabe, alguém que, em certa altura da vida, exerceu o direito aos seus quinze minutos de glória televisiva, o que pode acontecer tanto por ter descoberto o caminho marítimo para a Índia como por ter andado, em qualquer concurso, aos pontapés aos restantes concorrentes. Aparecer em festas de "sociedade", ocupar um cargo político, por irrelevante que seja, ou ser acusado de um crime infame ( ou ser advogado de alguém acusado de um crime infame) são também, entre muitas mais, vias apropriadas para aceder à notabilidade.
    De tal modo que ser não-notável se tornou uma raridade, acessível apenas a gente sofisticada.

    Manuel António Pina, Visão.

    Há quem não pense assim



    É com as pessoas que se faz o sucesso de uma empresa. Mesmo quando há pessoas a mais? Na verdade, o que quer dizer a mais, quando estamos a falar de pessoas?

    António Mega Ferreira, Visão.

    terça-feira, 24 de fevereiro de 2004

    C'um caneco!

    C'um caneco!, rosnava o Outro,
    entre tintol do bravo - próximas
    ressacas. O beirão deixava correr
    linguados, esgueirando-se na sombra
    de olivais. Azeite mau tinha
    o tirano, esse das botas. Cadeia?
    Sim, senhoras, prisão a sério.
    Infante ele era, o dos poemas.
    assobiando, cela p'ra cela,
    de Kurt Weill e Brecht a canção.
    C'um caneco!, rosna o Outro,
    ainda, E já mais vinho
    vem p'rà mesa, enquanto meninas
    adocicam o olhar. Outra vez?

    Eduardo Guerra Carneiro, "A Noiva das Astúrias" & etc.
    JTD

    segunda-feira, 23 de fevereiro de 2004

    A morte nunca deveria ser notícia

    Mas foi. Em Fevereiro de 87 toda a comunicação social noticiava a morte do maior compositor da música portuguesa. José Afonso tornou-se simbolo da alvorada de Abril por mérito próprio. Ele foi a voz da juventude não rasca. Foi a voz dos que combateram a ditadura com as armas do pensamento. Da inteligência. Foi a voz da cultura alternativa. Foi a voz.
    Morreu numa manhã fria de Fevereiro. Hoje sentimos que afinal ele continua por aí. Na voz dos novos autores. Nas melodias dos novos grupos. Continuamos com a sua música, porque a sua música é nova, e a sua poesia não é letra morta.
    Vamos continuar a lutar pela qualidade dos produtos culturais, como ele o fez.
    O lixo sonoro, literário e social que polui os nossos sentidos, que se lixe!
    Vamos comemorar a inteligência. A mais nobre demonstração de cidadania.
    JTD

    José Afonso


    Recordar José Afonso no aniversário da sua morte.
    Um aniversário de morte não se comemora, mas sugere a recordação.
    Recordo José Afonso dos tempos da minha adolescência. A importância que teve na minha evolução cultural. Foi com ele que percebi que as palavras e também a música são a força das ideias. As palavras exprimem as ideias, a música dá-lhes o encanto e a universalidade.
    Recordo o Zeca nos encontros no café Central, na praça de Bocage. No café Tamar, na bica diária, depois do almoço. Recordo as longas e deliciosas conversas, sobre a música, sobre os livros, sobre a política. Política que ele sempre viveu como forma de mudar consciências. Muitas vezes me lembro:
    “O que pensaria o Zeca disto?”.
    Recordo o sentido de humor mordaz e acutilante.
    Comprovo com frequência a intemporalidade da sua música.
    Enquanto escrevo estas linhas, ouço “ Os Dias Levantados” de António Pinho Vargas, com libreto de Manuel Gusmão. Uma extraordinária ópera que evoca o 25 de Abril.
    Lembro-me da lindíssima composição “Vilas Morenas”, que António Pinho Vargas dedicou ao Zeca. E percebo que há coisas que existem porque ele existiu.
    Recordo o poeta culto e inspirado. Era ele quem dizia: “Há quem viva sem dar por nada, há quem morra sem tal saber”, a minha frase preferida.
    Recordo um amigo.
    JTD

    terça-feira, 17 de fevereiro de 2004

    Grande livro

    A "Fotobiografia de Teixeira de Pascoaes" editada pela Assírio & Alvim, é belíssima. Parabéns António Mega Ferreira. Parabéns Manuel Rosa. JTD

    E os audis? E os bm's? andam por onde?

    Bruxelas Aconselha Lisboa a Gastar Mais nas Pessoas e Menos em Auto-estradas

    Portugal vai ter de reorientar os fundos estruturais comunitários de apoio ao seu desenvolvimento para o reforço da qualificação dos recursos humanos, investigação científica e inovação, de modo a diminuir o peso das estradas e auto-estradas nos financiamentos da União Europeia, aconselha a Comissão no âmbito da reforma dos fundos estruturais para o período 2007 e 2013

    PÚBLICO, hoje.

    domingo, 15 de fevereiro de 2004

    Chatos no Jardim

    Alberto João Jardim, queixou-se à saída da missa, no Funchal, que os chatos não o largam. Dizendo isto à porta da igreja, assim, sem mais nem menos, ficamos sem saber que tipo de chato apoquenta o pobre João. Ainda por cima depois de se ter declarado velha meretriz... JTD

    Parolos

    Vivo em Setúbal, e disso não me arrependo. Lisboa é a minha cidade de adopção, onde trabalho e estabeleço a ligação com o mundo que prezo. Mas gosto da cidade onde nasci e vivo, como se gosta dos amigos de infância. O que se passa em Setúbal na actualidade entristece-me. E isso já acontece há muito tempo. Esta cidade sempre teve azar com os responsáveis autárquicos. Mas a actual equipa governante, eleita pelo PCP, revela uma total falta de princípios políticos e de cidadania. A cartilha que rejeitava a piroseira e o mau gosto, e que durante muito tempo era exclusivo das esquerdas, já a esqueceram. Agora querem reabilitar o triste e de má memória corso carnavalesco. Na minha opinião, "Tradição" é o aglomerado de saberes e sentimentos, revelados depois em expressão colectiva. O que se assiste actualmente em Setúbal é à imposição de valores, felizmente em desuso, pelos responsáveis do executivo reaccionário que gere a Câmara Municipal.
    As tradições já não são o que eram e ainda bem. As tradições também são premiáveis às mudanças. Não valerá a pena estar aqui, agora, a recordar tradições que em boa hora desapareceram. O triste espectáculo carnavalesco a que os setubalenses vão assistir, será o exemplo comprovado de que é perfeitamente dispensável tal demonstração de boçalidade colectiva. Espero que o menos colectiva possível. Só estou de acordo em relação à nomeação de Toy para rei do evento. Finalmente arranjaram um papel à altura da inenarrável criatura. A sorte é que não são setubalenses, estes autarcas. Parolos! JTD

    sábado, 14 de fevereiro de 2004

    Polidores de calçadas

    A campanha do ICEP para o Euro 2004 é notável. Há uns cartazes - mupis - afixados por todo o país, que representam uma empregada doméstica, com um generoso decote, lustrando as pedras da calçada com uma moderna enceradora. A frase promocional sugere qualquer coisa como: "Estamos a preparar-nos". Os senhores deste organismo, tal como os seus publicitários contratados, só conseguem ver os cidadãos portugueses como servis empregados domésticos. Pelos vistos, somos um país de sopeiras governado por grunhos. Quando é que esta gente faz as malas? JTD

    sexta-feira, 13 de fevereiro de 2004

    VELHACO | Que nem de propósito. estava eu acabar o texto publicado abaixo, e eis que na televisão, no canal ARtv, um deputado do PP, um tal Henrique-qualquer coisa-Santos, num estilo boçal anacrónico, resolve arrasar a proposta do Bloco. O nivel do discurso é tal que a mudança de canal foi a solução. Quando é que será que esta gente faz as malas? JTD

    Velhaco ou dançarino

    O Bloco de Esquerda deu-se ao trabalho de se preocupar com os bailarinos portugueses. Vai daí, toca de propor reformas para este grupo profissional aos 45 anos. A proposta, diz-se, vai ser chumbada na Assembleia da República. Ou seja, os partidos da maioria devem achar que um bailarino ou uma bailarina podem manter-se em funções até aos 65 anos. Esta postura dos deputados portugueses revela uma total falta de respeito pelos valores culturais. No futebol esta questão não se coloca, visto as remunerações serem tão elevadas enquanto exercem a actividade, que não necessitam de se preocupar com esse pormenor irrelevante das reformas. Eu, que prefiro uma performance de Rui Horta a uma goleada de Figo, devo ser um ser absolutamente inclassificável. Mas é assim, é a vida. E a vida de cada um deve ser respeitada. Ou não?
    Já agora, se falamos nas reformas dos políticos, temos o caldo entornado. JTD

    quarta-feira, 11 de fevereiro de 2004

    Vida

    aqui te faço os relatos simples
    dessas embarcações perdidas no eco do tempo
    cujos nomes e proveito de mercadorias
    ainda hoje transitam de solidão em solidão

    Al Berto. O Medo

    terça-feira, 10 de fevereiro de 2004

    A religião é o ópio do povo

    Cada vez estou mais convencido disto. Basta olhar para os espécimes que passam a vida de mão no peito, a agradecer humildemente o poderem pecar livremente. Bastam umas orações e estão safos. Às vezes penso que é uma droga mais dura, tipo: "A cocaína do povo". Mas foi esta frase que fez história, e não está nada mal para definir uma das fontes de desentendimentos entre os homens. Só que já não me lembro quem é o autor de tão interessante definição. Será que se me lembrar é grave? Serei um perigoso e recalcitrante arruaceiro? JTD

    segunda-feira, 9 de fevereiro de 2004

    A era do faz-de-conta

    Fiquei agradavelmente surpreendido, ao fazer o desporto tradicional da mudança de canais na televisão, com uma entrevista a Henrique Cayatte, na SIC-Mulher. Não é comum ver-se um designer falar de imagem e da envolvente visual do mundo, na TV. Cayatte faz isso muito bem e tem uma simpática presença na caixinha. Gostei de o ouvir dizer que o design, acima de tudo deve ter conteúdo, coisas dentro. É evidente que sim, mas, nesta era do vazio, parece que quem bota faladura nos canais, se esqueceu disso ou nunca o soube. Cayatte disse-o e justificou porquê. Com clareza. Ainda bem que o convidaram. JTD

    domingo, 8 de fevereiro de 2004

    Coelho na cartola

    Jorge Coelho declarou-se disponível para assegurar a liderança do Partido Socialista. Só que nunca contra Ferro Rodrigues. Então será contra quem, e quando? Estando Ferro Rodrigues a aguentar a maior tempestade da história do partido, estará Coelho à espera da bonança?
    Apetece-me passar aqui uma fala de "Rei Lear" de Shakespeare, uma passagem que adorei, na tradução de Álvaro Cunhal, editada pela Caminho: "É melhor ser assim desprezado mas sabê-lo, que ser à mesma desprezado por quem nos lisonjeia. Quem desceu ao pior, ao mais baixo, ao mais desprezível degrau da sorte, conserva ainda uma esperança e não vive em permanente receio. Doloroso é mudar quando se está no melhor; quando se está no pior, qualquer mudança é feliz. Bem-vindo pois, ar incorpóreo que abraço! O desgraçado que atiraste para o pior, nada já tem a temer das tuas rajadas."
    Quem é o Rei Lear no PS? JTD

    Cronicando

    O PÚBLICO é, na minha opinião, o jornal publicado no nosso país que mais nos faz sentir bem com esta condição de ser português. Os escritores de crónicas que por lá vão opinando são de classificação superior. José Eduardo Agualusa e Ana Sá Lopes, por exemplo, têm hoje uma excelente prestação. Se poderem vão até lá. Não custa nada. www.publico.pt
    Até logo. JTD

    sábado, 7 de fevereiro de 2004

    Mega Lisboa

    Depois do socialite hard Santana Lopes e do filosocialite Carrilho, aparece finalmente uma hipótese de respeito que poderá unir a esquerda/bom senso, e ameaçar a irreal gestão satanista. Mega Ferreira seria um candidato e peras. Assim ele aceite. Lisboa respiraria pelos poros do cosmopolitismo. e não pelas narinas do nacional-socialite inculto e ridículo. Boa sorte, Lisboa. JJC

    Música

    Esta linguagem é pura. no meio está uma fogueira
    e a eternidade das mãos.
    Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
    lâmpadas, todas as coisas.
    As coisas que são uma só no plural dos nomes.
    - E nós estamos dentro, subtis, e tensos
    na música.

    Herberto Helder

    quinta-feira, 5 de fevereiro de 2004

    O Vidente

    FUTEBOL, TELEVISÕES, HISTERIA COLECTIVA = VIOLÊNCIA
    Estava convencido, e disse-o já na sexta-feira passada, quando se gravou a Quadratura do Círculo, que iriam ocorrer violências diversas nos jogos de futebol do fim-de-semana, consequência do ambiente de histeria colectiva incentivado pelo tratamento televisivo da morte do jogador húngaro. Não é preciso ser nenhum adivinho para saber que a excitação colectiva tem resultados. Estão à vista.
    Acrescento a minha perplexidade perante a natural aceitação por todos, autoridades e população, de que um jogo de futebol seja tratado quase como uma operação militar, como aconteceu no Porto-Sporting. É suposto ser um espectáculo desportivo, de paz e amizade, não é?

    JPP, 02/02/2004 - 20:11


    Pacheco Pereira previu os acontecimentos, através da sua fórmula pessoal "FUTEBOL + TELEVISÕES + HISTERIA COLECTIVA = VIOLÊNCIA". Qual alquimista vigilante dos fenómenos dos mass media, o homem estava atento e disse-o a tempo e horas - antes das situações ocorrerem, como convém ao negócio de qualquer adivinho. No entanto, JPP não previu que 56 mil pessoas fossem ao Estádio da Luz, assistissem a um jogo de futebol e não lançassem cadeiras para o relvado. Não insultassem os árbitros. Não gritassem palavras de ódio contra a equipa contrária ou os dirigrantes adversários. Não previu que o jogo se desenrolasse de uma forma civilizada. Enfim, basicamente não previu nada em relação ao jogo Benfica-Académica Coimbra no qual se iria homenagear a memória de Miklos Fehér. JPP perdeu uma grande oportunidade de efectivamente prever algo. Mais uma vez não esteve à altura. É que face ao contexto do futebol português, prever que haja motins, levantamentos populares, linchamentos, trocas de ofensas, etc., tudo isso é fácil. É previsível. Ainda por cima ir a correr fazer associações básicas com os últimos acontecimentos mediáticos (neste caso a morte de Fehér) também já não espanta. Já só espanta que ele se considere perplexo pelo facto das autoridades tratarem "naturalmente" estes jogos como operações militares. Ó dr. Pereira, você tem-se em muito pouca conta. Mas eu avanço-lhe em primeira mão: não só as autoridades vêem "A Quadratura do Círculo" como lêem o seu blog. E, espasme-se, ainda por cima acreditam nas sua previsões com tamanha credulidade que destacaram imediatamente os CIs para todos os estádios da passada jornada.

    dr. Estranho-Humor

    P.S.: Tomei a liberdade de considerar que a fórmula de JPP é "FUTEBOL + TELEVISÕES + HISTERIA COLECTIVA = VIOLÊNCIA" e não como ele a escreveu inicialmente "FUTEBOL, TELEVISÕES, HISTERIA COLECTIVA = VIOLÊNCIA". Se é certo que não me custaria acreditar que para ele as três parcelas são individualmente sinónimo de violência, quero acreditar no entanto que ele queria dizer que as 3 juntas geram violência.

    Dos jornais aos livros - uma existência de papel

    António Mega Ferreira estará hoje no antigo liceu de Setúbal. A esta conversa chamou "Dos jornais aos livros - uma existência de papel". Mega falará aos alunos desta escola sobre a actividade de jornalista e da actual condição de escritor. Entre as obras mais recentes figuram: "O Que Há-de Voltar a Passar" publicado pela Assírio & Alvim, e " Uma Caligrafia de Prazeres", com desenhos de Fernanda Fragateiro, pela Texto. Apenas dois titulos da sua mais recente e prolixa produção que serão postos à disposição dos presentes. A sessão tem início às 17 horas, no auditório José Saramago. JTD

    terça-feira, 3 de fevereiro de 2004

    Algum dia há-de ser

    Cavaco Diz Que Portugal Só Sai da Crise em 2005

    A ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite afirmou ontem que Portugal deverá crescer já este ano, mas o ex-primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva defendeu que só em 2005 o país deverá sair da crise.

    Hoje, no PÚBLICO

    domingo, 1 de fevereiro de 2004

    Informações pouco fiáveis

    "Estávamos enganados em quase tudo", declarou David Kay, o inspector americano que agora se demitiu, depois de andar há meio ano à procura de armas de destruição maciça. Ao contrário do que aconteceu na BBC com o caso Kelly, nenhum dos decisores políticos da invasão assumiu, até ao momento, que declarou uma guerra baseada em informações pouco fiáveis, nem pagou o preço político que lhe deve corresponder.

    Ana Sá Lopes, na crónica de hoje - Pão & Rosas - no PÚBLICO.

    reBlogue

    Era para qualquer lado, por favor

    Segundo o Expresso, Alberto João Jardim vai ser o próximo Presidente da Assembleia da República e Marcelo Rebelo de Sousa o próximo comissário português em Bruxelas. Mais Pedro Santana Lopes ou Cavaco Silva como Presidente da República e o meu próximo Expresso será aquele que me deixar na fronteira.
    Rui Tavares Barnabé