quarta-feira, 18 de maio de 2022

Morte tem cinco letras


Mas o Luís Afonso pegou nas letras todas do alfabeto e escreveu um livro que põe a morte a dançar. Digo eu, que ainda não li o livro mas, pelo que conheço do Luís, deve ser isso que acontece naquelas páginas.

Vai ser um encontro de amigos, este encontro na Barraca. O João Paulo Cotrim não vai mas vai, como é óbvio. O António de Castro Caeiro vai explicar tudo. A Inês Fonseca Santos e o José Anjos vão ler alguns dos delírios do Luís Afonso. E eu também vou lá. Ouvi-los e dar
um abraço
ao Luís. Um fim de tarde de morte, é o que é.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Um gato aos pulos


Conheci o Fernando Sobral quando ele animava entusiasmado o seu Pulo do Gato. Falámos de blogues. Falámos da necessidade de comunicar. Falávamos muito.

Uma vez até o convidei para vir falar ao Muito Cá de Casa, na Casa Da Cultura | Setúbal. Veio com o Rui Cardoso Martins. A Rosa Azevedo deu as voltas à conversa. Foi um acontecimento único, na área da lucidez e do raciocínio apurado. Falámos de tudo e mais um par de pulos. Pulávamos quando conversávamos, apesar de o Fernando não ser gajo para dar grandes saltos. Era discreto e modesto. Em excesso, porque o talento que arrecadava tomava asas ao mais pequeno sopro. O Fernando Sobral foi das melhores pessoas que conheci na vida. Tive esse privilégio. Tenho tido o privilégio de conhecer os melhores. O meu pai dizia vezes sem conta: tenho os melhores amigos. Porquê!? Porque são os meus amigos. Escolhi-os. Escolheram-me. O Fernando está inscrito nesse registo. Escolhemo-nos e agora, os que por aqui vamos ficar mais um tempo, sofremos com este fim. Esta terça-feira vamos despedir-nos do Fernando. Dói tanto.

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sábado, 14 de maio de 2022

Fernando Sobral


Custa a acreditar. Mais um amigo que nos deixa. Morreu o Fernando. Tínhamos planos para um futuro próximo — eu com ele e com o João Paulo (Cotrim). O João partiu primeiro deixando-nos a todos em choque. Falei ao telefone com o Fernando sobre esse fim abrupto. Sabia que ele também estava doente, com problemas grandes, mas com resolução. Não chegámos a tratar da sua participação na Festa da Ilustração - Setúbal, que vai honrar o João Paulo. Resta-nos o trabalho de grande qualidade, sofisticado e intenso que nos deixa para frequentarmos - livros, crónicas, escritas várias e surpreendentes. Mas fico triste, muito triste, por não podermos continuar a nossa conversa anterior. Que tempo tão triste, este.

Fotografia: Guta de Carvalho

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quinta-feira, 12 de maio de 2022

Mulheres Saramaguianas

Iniciativa integrada no Programa Oficial do Centenário do Nascimento de José Saramago, numa parceria entre a Fundação José Saramago e o Centro Português de Serigrafia, com a curadoria artística de Ana Matos e coordenação do projecto e curadoria literária de Carlos Reis.

Trata-se de uma edição especial de serigrafias e gravuras inéditas de artistas portugueses, acompanhadas de textos, também eles inéditos, de escritoras de língua portuguesa, com tiragem limitada.
Seis artistas visuais desafiados a interpretar personagens femininas do universo de José Saramago, indo além da leitura do texto e do mero propósito da sua ilustração. Distintos foram os caminhos e representações que surgiram, num cruzamento de gerações, de sensibilidades e de territórios artísticos, que convocaram também eles a uma nova interpretação literária pela parte de seis escritoras de língua portuguesa.


BLIMUNDA
José de Guimarães
GRACINDA MAU-TEMPO
Miguel Januário
JOANA CARDA
Graça Morais
MARIA SARA
Ana Romãozinho
MORTE
Manuel João Vieira
MULHER DO MÉDICO
Joana Villaverde

quarta-feira, 11 de maio de 2022

A prioridade da morte


A guerra não está instalada apenas na Ucrânia. O flagelo dos naufrágios no mediterrâneo são outra guerra. África está minada. E há mais: Israel continua na senda do extermínio de palestinianos. Os jornalistas são notícia quando morrem. Sireen Abu Akleh estava a trabalhar. A informar. Foi morta durante um ataque dos racistas israelitas. Este conflito é de uma gravidade quase desumana. Estes desentendimentos não deveriam de fazer sentido no nosso tempo. Mas parece que não se vê um fim à vista. É duro. É triste.

domingo, 8 de maio de 2022

Parece que é o neoliberalismo


Aquela palhaçada — os palhaços que me perdoem — muito tecnológica e muito liberal que arrecada milhões ao erário público português, quer arrecadar mais ainda e já convenceu os reaccionários regionais brasileiros a cederem uns milhões de reais. Para já acumulam em local e subsídio. Depois logo se vê. Viva o liberalismo parolo do salve-se quem puder. Hão-de acumular tanto que um dia não sabem onde meter tanto unicórnio. Eu logo vos digo onde deviam meter os unicórnios, mas agora não tenho vagar.facebook


Recordar alguém a quem devemos muito

Ultimamente não se ouvia falar de Elisa Damião. Muitos já não se lembrarão dela. Da mulher inspiradora e defensora da vontade das mulheres. Foi uma das mulheres portuguesas que mais me impressionaram nessa luta pela igualdade e pela dignidade num mundo que no seu tempo de acção era ainda mais comandado por homens do que hoje. É da postura digna e corajosa que me lembro. Muito obrigado, Elisa Damião.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Bufos à portuguesa


Irene Pimentel vai conversar comigo, na Casa Da Cultura | Setúbal, sobre o seu mais recente livro INFORMADORES DA PIDE, UMA TRAGÉDIA PORTUGUESA. Esta conversa acontece próximo da data em que os fascistas portugueses celebram a ascenção do ditador Salazar ao poder absoluto. Não vamos celebrar, como é óbvio. Vamos lembrar que o ditador não está esquecido e que o seu legado tem de ser combatido, agora que temos doze fascistas no parlamento. Os informadores da PIDE que povoaram os locais onde os portugueses resistiram foram uma vergonha nacional. Os fascistas/racistas que agora povoam a Casa da Democracia também nos envergonham. São a nossa vergonha mundial.

SINOPSE - Esta obra analisa o modo como o regime ditatorial português do Estado Novo e a sua polícia política contaram com portugueses para denunciar outros, de que forma os recrutaram e porque aceitaram muitos colaborar com a polícia, prejudicando e destruindo vidas. Revela também que muitos se candidataram a informador da PIDE/DGS junto da tutela do Ministério do Interior ou de outros organismos do Estado, mas também que muitos menos foram aceites por essa polícia para o serem. Com recurso a exemplos, demonstra de que maneira uma cultura de denúncia abalou o sentido ético em Portugal, marcando a sua História de forma trágica.

domingo, 1 de maio de 2022

Anda ver, Maio nasceu


Cantigas do Maio é o grande álbum da música portuguesa. É mais um dos  trabalhos de José Afonso a sair agora, nesta fase das reedições. A sua edição em vinil, cd e plataformas digitais deveria estar a ser festejada como grande acontecimento nas nossas vidas. Aqui em casa está. José Afonso está sempre presente. É privilégio nosso termos vivido no seu tempo.

As novas edições exibem as capas concebidas inicialmente para a Orpheu. E que bem que estão. Cantigas do Maio tem direcção de imagem de José Santa-Bárbara.

Apreensões justificadas


O Miguel deixou-nos há dez anos. Foi um grande privilégio ter convivido com ele. A saudade não se esbate. A vontade de o recordar acentua-se. Hoje festejava mais um aniversário. Isso não vai acontecer. Mas recordamos a sua alegria de viver e de estar com os outros. Foi um homem excepcional. Foi um privilégio conhecê-lo, repito.

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sábado, 30 de abril de 2022

Dávamos grandes passeios pela floresta




Tivemos ontem o encontro anunciado. A ideia era falarmos do que nos preocupa como artistas e como observadores de arte. Ana Nogueira revelou-nos a vontade permanente que a move no sentido de encontrar os instrumentos necessários para se exprimir. Carlos Barão precisa de pintar para respirar. Percebemos que não é a representação da realidade que nos move, mas sim a vontade de transformar essa realidade. A cópia da realidade causa-nos violentas angústias. A influência do já feito deve dirigir-nos para a surpresa e não para o confronto com a experiência já realizada. Todos somos artistas: uns experimentam e depois continuam — com coragem, insistência — outros escolhem outros caminhos.
Foi tão boa esta conversa. Saímos dali mais esclarecidos, ou seja: mais confusos e com vontade de conversar mais.

A magnífica serigrafia de Ana Nogueira — com excelente realização gráfica de Gonçalo Duarte — foi aqui apresentada (ver imagem). Sucesso de vendas. Os exemplares que restam estão ainda à venda na Casa Da Cultura | Setúbal. Também o livro de Carlos Barão, Fintar a Sombra, está disponível na recepção/loja da Casa. Duas peças recomendadas para termos por perto. Dois objectos úteis em qualquer casa asseada. A exposição A Floresta de L, de Ana Nogueira, estará visitável até à meia-noite de hoje. Bom fim-de-semana.  

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quinta-feira, 28 de abril de 2022

A vida de Brian


Devo muito a Brian Eno. Revelou-me sons únicos. Pôs-me a dançar. Pensa bem e sabe transmitir o que pensa. Fez-me pensar. Vivo melhor desde que o conheço. Este filme é um momento feliz. Vai ser um grande momento.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

A falar é que a gente se entende


Diz a gente, que é gente. Este energúmeno recebeu o homem da ONU naquele salão repleto de bom gosto e discrição. Não há aqui pompa nem circunstância. Há sabedoria e talento. Talento para mandar matar. Para destruir. O que conversaram não se sabe. Nem se calcula. Oxalá Guterres conheça a linguagem dos energúmenos. É que resta pouco para isto ficar ainda mais perigoso do que já está. Bardamerda para o merdas do Putin.

sábado, 23 de abril de 2022

A fala do olhar


Vamos falar do que vemos quando olhamos. Vamos falar da arte de que gostamos. Também falaremos das atrocidades que nos agridem, é claro. Não gostar do que nos agride é gostar do que gostamos muito. Enfim, iremos falar de muito do que nos passa pela cabeça quando olhamos com os olhos bem abertos. Recusamos andar de olhos fechados. 

Ana Nogueira tem actualmente exposição na Casa. Carlos Barão expôs por cá no ano passado. Dois artistas da Casa que a Casa muito preza. Duas exposições que marcaram o meu percurso como programador/curador na Casa Da Cultura | Setúbal.

Tudo isto acontecerá na próxima sexta-feira. A exposição A Floresta de L, de AnaNogueira, terá o seu fim nesse fim-de-semana. Assinalaremos este encerramento com a edição de uma serigrafia da artista. Enfim, motivos para não faltarmos a este encontro. Até lá.

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sexta-feira, 22 de abril de 2022

O que faz falta é avisar a malta


A
pesar de todas as tentativas de atropelos ao exercício da democracia, a democracia está aí. Veio para ficar, apesar de já termos na casa da democracia doze asquerosos fascistas a representar os imbecis que neles votaram. A festa que se avizinha tem de ser de unidade contra o facismo. Percebemos nas mais recentes eleições que uma chusma de racistas, xenófobos, homofóbicos, machistas e outros trogloditas sairam dos buracos onde se escondiam e andam a céu aberto em proselitismo reaccionário com modos que pensávamos eliminados pela consolidação da democracia. Afinal nada está consolidado. A opinião dos fascistas não se respeita; combate-se. Temos de estar alerta. Não passarão.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Matérias transformadas



Vou regressar aos trabalhos estéticos. Também são éticos: pretendem interpretar a natureza e a natureza das gentes. São apontamentos apenas. Transformações de matérias várias. São coisas. Coisa de que gosto e espero que também gostem. Se não gostarem não faz mal nenhum: põem na borda do prato. Até já.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

A pés juntos


Que isto é mesmo assim. Mais uma anunciada noite de prazer e encontro com o conhecimento. Mais filosofia a pés juntos, que as coisas não se discutem sem convicção. António De Castro Caeiro e Luís Gouveia Monteiro vão voltar a conversar, na Casa Da Cultura | Setúbal, desta vez sobre a Liberdade tão querida e desejada. É na próxima sexta-feira. A não perder.

sábado, 16 de abril de 2022

Ground control to major Tom



O Tom é um dos meus melhores amigos. Gosta de ração, mas prefere comezainas alternativas: arroz de frango, por exemplo. Um gastrónomo exigente. É major por causa do David Bowie. Mas de resto não tem divisas. Não tem raça, como os arianos obcecados pela pureza. Apesar de ser loiro, não é burro. É um cão. Nem sempre obedece, só quando lhe apetece. Aqui estamos nós no exercício dos afectos. Enfim, um fim-de-semana de convívio a quatro patas, com corridas, trambolhões e abraços. Muitos abraços, como se quer no convívio com os amigos. 
Bom fim-de-semana.

As fotografias são do Fernando Pinho.

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quinta-feira, 14 de abril de 2022

A bem da razão


Fátima Bonifácio poderá ser julgada por racismo

Tudo tem limites, é certo. Mas há limites e limites. Esta criatura afirmou, em texto de opinião num jornal de referência, que existem limites para a integração de pessoas com tons de pele diferentes dos dela na nossa sociedade. Aquilo correu-lhe mal. Muita gente se indignou. Tinha de ser. Não nos podemos calar perante atitudes fascistas. Esta criatura tenta legitimar o que não é razoável nem civilizado. Não se espera que um troglodita defenda a tolerância, mas também não se espere que atitudes racistas sejam atiradas para o saco da indiferença, assim sem mais nem menos. A criatura deve ser ouvida em julgamento, é claro. A intolerância e o desejo de "purificação" não cabem numa sociedade civilizada. Vá cantar loas à superioridade racial lá nos charcos das ideias imundas onde chafurda.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Allons enfants de la patrie


Assistimos hoje a situações que nunca imaginámos concretizadas. Os poderes são disputados pelas direitas, enquanto as esquerdas assistem impotentes. Há países onde a extrema-direita ganha eleições. Mas o mais grave é quando a disputa é entre a direita e a extrema-direita. Ou entre extremas-direitas. 

Hoje assistimos a uma guerra sangrenta entre duas extremas-direitas, por puro interesse hegemónico. Quem se lixa é quem sofre debaixo das balas ou perfurado por elas. Um Putin fascista vê nazis por todo o lado, tornando o seu rival agredido herói mundial. Para as extremas-direitas não há ideias. Há conquistas e imposições de ajustamentos purificadores. Aqui mais perto, apesar de com contornos mais aligeirados, podemos acrescentar o que se passa em Portugal e Espanha. Os terceiros lugares nas votações são disputados pelas direitas mais extremas, remetendo as outras esquerdas para o pelotão de trás. Será que o eleitorado está doido, ou é a esquerda que não está a ver bem o filme e prefere assistir à projecção instalada no segundo balcão?

Vamos percebendo que o perigo é real. Por cá temos um energúmeno fascista sem qualidades retóricas nem decência a conquistar substantivo eleitorado. Em Espanha, a extrema-direita franquista (já alinham em aconchegos saudosistas com o sinistro criminoso Franco) prepara-se para crescer sem freio. Em Moscovo, um ditador enlouquecido, não quer saber de democracias de trazer por casa e ataca desprezando vidas humanas até à abjecção. 

Em França temos um bico de obra que é um pau de dois bicos. Para que uma fascista sem vergonha assuma a Presidência é preciso votar num autocrata que é o que for preciso para estar no poder, queimando tudo o que pode ser alternativa à sua volta. Estes políticos egocêntricos da direita populista não têm o mínimo respeito pelas opiniões dos outros ou pela vida das pessoas. São projectos unipessoais de exercício do poder. França vai ser um bico de obra se Le Pen ganha aquilo. A Europa fica fragilizada, e isso, nos tempos que correm, é mesmo muito mau para os europeus. Mas pedir ao eleitorado de esquerda para votar no sempre-em-pé Macron é como ir comprar lã e sair tosquiado.

É já tempo de a esquerda se unir e arranjar soluções eficazes para as tormentas do mundo. As pessoas precisam de ser protegidas e de ter esperança no futuro. Se o neoliberalismo da extrema-direita — que só promete o salve-se quem puder — tem tanto sucesso que até já tem as suas hienas a guinchar nos parlamentos democráticos, a esquerda deve dizer claramente que é muito melhor do que isso: quer justiça social, protegendo as pessoas, e é mais eficaz na aplicação do sistema ao serviço das populações e dos seus anseios. A esquerda existe para combater a direita serôdia e bafienta. A direita é sempre serôdia e bafienta, mesmo quando se higieniza e disfarça de liberal e democrata.

domingo, 10 de abril de 2022

O corpo e o gesto


Language is a Virus

Laurie Anderson

Ana Nogueira vagueava pela floresta quando ouviu um violino que soltava um som vi- brante e arrastado. Moveu-se no sentido desse som. Suspendeu os movimentos do corpo e a respiração. Tentou perceber a origem daquele ambiente único. Perdeu-se por entre arbustos e rochedos. Deambulou por entre folhas amareladas, secas. Arriscou o vaguear até que a luz do luar abraçou a floresta.

Desenhou então movimentos com o corpo, numa dança em que o próprio corpo se envolveu com aqueles troncos secos, ramos delgados e arbustos frondosos. Riscou linhas no papel, raspou a superfície. Surgiram manchas que lhe transmitiram a satisfação e
o desejo de procurar mais. Linhas e manchas que desenharam ambientes imaginados. Por isso não parou. Insistiu. Investiu com rigor de cientista sem ciência, num registo de procura sem preocupações de funcionamento ou solução. Pesquisa intensa, mas nunca esclarecida por soluções académicas ou decisões de finalização. Este trabalho não está finalizado. Nunca estará.

Os desenhos que observamos sugerem a presença da artista. O corpo envolve-se na paisagem. Densas florestas parecem querer romper o papel numa violência soprada por um vento ora suave, ora agressivo e cortante. As dimensões destes trabalhos sugerem o nosso envolvimento. Parece haver um convite a uma aproximação fisica a este papel tão vibrantemente riscado. A intensidade do gesto é denunciada por essa vibração. Tentamos um discurso sólido que enuncie as pretensões da artista. Uma linguagem que traduza atitudes e procuras. Mas a linguagem é muitas vezes um vírus perigoso. Deambulando perdemo-nos, mas não ficamos entediados porque somos surpreendidos pelo desconhe- cido. Por uma inesperada angústia que nos inunda e fascina os sentidos. Pretendemos a surpresa. Percebemos então os trilhos de uma certa felicidade, mas continuamos incon- formados numa permanente procura do desejo. Uma virose que não mata, antes alastra perpectuando essa vontade. Uma dor que se transforma em prazer, alheia a percursos tortuosos ou pouco exigentes. Situamo-nos no território da exigência. Na vertigem de encontrarmos outras vontades de fazer. Sempre. É esta a linguagem visual desta floresta, na minha linguagem. Bem vindos à floresta de Ana Nogueira. José Teófilo Duarte


Texto inserido no prospecto que "explica" a exposição.
Fotografias de Fernando Pinho.

ANA NOGUEIRA
A FLORESTA DE L
ABRIL 2022





terça-feira, 5 de abril de 2022

Na floresta





Entrámos na floresta sem medos. A inicial curiosidade deu lugar a um efectivo conforto intelectual. Um espanto que se tornou comodidade. Estávamos bem ali. É notável, este trabalho de Ana Nogueira. Foi um passeio agradável. Passeámos por ali com a cabeça povoada de música, pensamentos coloridos pelas cores da natureza,. Da Natureza que nos cria, recria e protege, e pelo que naturalmente nos preocupa. Somos gente, sentimos isso. Estamos juntos contra as adversidades. Gostamos de ser gente assim. Muito obrigado pela presença dos que que estiveram presentes. Parabéns, pelo vosso gosto esclarecido.

ANA NOGUEIRA
A FLORESTA DE L
Casa Da Cultura | Setúbal, galeria
Abril, 2022

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Um criminoso é um criminoso


O que está a acontecer na Ucrânia não nos deixa qualquer dúvida. Há um criminoso de guerra no Kremlin que não poderá gozar de uma velhice descansada. O crime não pode compensar. Um criminoso sádico e sem qualquer porção de humanismo dirige uma nação que agride outra nação e as suas gentes. O assassino até já fala em purificação. É o eterno retorno do nazi-fascismo. Confesso que sinto a compaixão natural que nos é possível habitar pelos militares russos que o energúmeno Putin manda para o terreno como carne para canhão. Mas ao vermos as atitudes de alguns desses enviados nas terras ocupadas, a compaixão fica mais esvanecida. Nem todos são criminosos: são precisamente simples carne enviada para o terreno. Mas há criminosos violentos no terreno: imagens de mulheres violadas e queimadas, crianças esmagadas, animais esventrados, homens enforcados e mais o que as fotografias, os verbos e os adjectivos não conseguem descrever, documentam os massacres hediondos. Está tudo registado, não é encenação, como insistem os imbecis que defendem Putin e os seus repugnantes aliados. Putin é um grande filho da puta. E quem diz o contrário é outro. Ponto final.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Um sábado na Floresta



A exposição está montada. Abre este sábado às seis da tarde. Uma surpresa e um espanto. A Floresta de L, de Ana Nogueira, transborda de emoções. Talvez uma das mais importantes exposições do ano. É também uma exposição que dialoga com o observador. Foram convocados os melhores. Estamos no território da excelência, da extrema dignidade visual. Acreditem. Apareçam.

ANA NOGUEIRA
A FLORESTA DE L
Casa Da Cultura | Setúbal, galeria
Abril, 2022
Abertura: dia 2, 18 horas.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Temos histórias


Experimentar contar histórias em azulejo. Foi o que aconteceu nesta residência artística na Ratton. A exposição abre no próximo sábado, às seis da tarde. Está toda a gente convidada.

terça-feira, 29 de março de 2022

Óscar à porrada


Estas cenas dos óscares nunca me interessaram para nada. Os filmes que me interessam não interessam àqueles desfiles de vaidades. Mas desta vez a coisa piou mais fino. Houve merda no estrado das alcatifas de luxo. 

Não se calam. Até o "segundo canal", que é praticamente o único serviço televisivo que entretém as minhas dioptrias, falou de uma cena de porrada que se deu por lá. Parecia a TVI, ou a CMTV, ou a CNN Portugal, ou o diabo que os carregue. Fui tentar perceber. E o que percebi então? Um senhor que estava lá para receber uma daquelas estatuetas ridículas não gostou do que outro senhor, que estava lá apresentar com humor aquela coisa, disse da sua mulher. Há coisas que não se dizem. Mas também há coisas que não se fazem. Nem em público nem em privado. Quem não se quer molhar não deve andar à chuva. Agora discutem-se os limites para o humor. Discutam lá isso, mas não se zanguem. Não andamos nós a defender o fim de uma guerra? E não somos nós contra todos os tipos de violência? A mim é que não me apanham em feiras de vaidades. Não vi a entrega do boneco horrendo. Nunca vejo. Não gosto. Agridem-me as colossais vaidades. Abomino violência física. Vou já para dentro.

domingo, 27 de março de 2022

Por entre troncos e galhos

Uma floresta vai estar instalada na galeria da Casa Da Cultura | Setúbal. Abre no próximo sábado e vai por lá ficar durante todo o mês. É uma exposição surpreendente. Ana Nogueira enceta com esta mostra uma nova fase do seu trabalho. Merece visita. Estamos todos convidados.

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sábado, 26 de março de 2022

Gil Mendo




Estão-nos a morrer os melhores. Partem cedo, deixando-nos uma imensa sensação de vazio. Gil Mendo foi um homem da dança que muita falta vai fazer. Programou, dirigiu, ensinou. Senhor de uma simplicidade que nos deixava agradavelmente confortáveis perto dele. Traço de carácter que define os grandes. Eu gostava muito do Gil, apesar de não ter estado por perto o tempo que desejaria. A Dança em Portugal deve-lhe muito. Nós também.

terça-feira, 22 de março de 2022

Gastão Cruz


Morreu no passado domingo. Poeta de palavra rigorosamente apurada. Sem espinhas. Sem gorduras. As palavras escolhidas associam a poesia de Gastão Cruz a uma delicadeza extrema. Essa delicadeza fazia par com o seu modo de ser. Um homem gentil e discreto. Abundaram prémios e condecorações, mas a delicadeza e o carácter nunca foram afectados. Um grande poeta que deixa órfãs tantas palavras certas. Muito obrigado, Gastão Cruz.