«Ensinar o povo português a ler e a escrever, para tomar conhecimento das doutrinas corrosivas de panfletários sem escrúpulos, ou das facécias malcheirosas que no seu beco escuro vomita todos os dias qualquer garoto da vida airada, ou das mentiras criminosas dos folhetins políticos, é inadmissível. Logo concluo: para a péssima educação que possui e para a natureza da instrução que lhe vão dar, o povo português já sabe de mais.»
terça-feira, 13 de outubro de 2026
A bem da noção
«Ensinar o povo português a ler e a escrever, para tomar conhecimento das doutrinas corrosivas de panfletários sem escrúpulos, ou das facécias malcheirosas que no seu beco escuro vomita todos os dias qualquer garoto da vida airada, ou das mentiras criminosas dos folhetins políticos, é inadmissível. Logo concluo: para a péssima educação que possui e para a natureza da instrução que lhe vão dar, o povo português já sabe de mais.»
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Regresso
Regresso a este convívio depois de uns dias de contemplação e investigação. O projecto editorial que abracei com entusiasmo solicita-me exigência e sugere-me documentação. Estou em pleno e persistente estudo da história recente do design editorial. Claro que essa recolha não existe. Inventei-a. Criei essa história para minha própria documentação. Tudo o que se faz por aí me interessa; já o que se diz, interessa-me cada vez menos.
O que se diz nunca foi tão sombrio e rasteiro. O mundo está pornograficamente possuído (a expressão foi pensada) por gente sem qualquer classificação. Tarados moralmente indigentes decidem politicamente. Dirigentes mundiais não passam de meninos malcomportados — delinquentes, sim, mas mais perigosos. As nossas vidas estão ameaçadas por estes palonços envaidecidos pela sua ignorância egocêntrica.
O debate televisivo circula entre um futebolista e um "mister" — um ressabiado, o outro farroncas. Ou farroncas os dois, vá. De repente, acabaram todos os problemas sobrantes. Só a bola interessa. Só a bola?! Não, há outro assunto que mobiliza as redacções televisivas e os respectivos comentadores avençados: o Pedro deu uma entrevista. O líder da oposição-sombra ao Governo diz das suas. Nada de novo a assinalar: maldicência e ressabianço ao rubro. O líder neofascista é notável, diz. O país aguarda a salvação, pelos vistos. Quem será o salvador principal? Pedro ou André? Pode ser divertido assistirmos à luta pela cadeira da presidência do Conselho de Ministros, mas não desejável. Chegaremos a um tão baixo estado do exercício da política?
Um protesto pacífico pela falta de habitação é ameaçado pela selvajaria policial da Câmara Municipal dirigida por outro Pedro: o Duarte. No Algarve, morrem três trabalhadores vítimas das condições de trabalho. Trump continua a mentir descaradamente para ver se se safa em Novembro. Ventura continua a mentir descaradamente, tentando enganar seguidores e todos nós, como se fôssemos todos parvos como os seus seguidores.
Esperem, pára tudo: Ventura já está na RTP a falar com Vítor Gonçalves, provavelmente sobre o falatório reaccionário do inenarrável Passos. Aquilo é matemático. O "sai sempre" da moda. Não ouço, não frequento, mas sou contra na mesma. Estas sucessivas performances do biltre neofascista são uma ameaça à saúde de qualquer cidadão razoável. Metem nojo.
Enfim, o mundo pula, mas não avança. Fiquem bem, apesar de tudo. Até já.
Cartoon: Nuno Saraiva/Inimigo Público
O futuro pulsa dentro da cabeça
Sofia Corradi é carinhosamente tratada por «Mamma Erasmus» por quem aprecia o desenvolvimento da Educação. As impossibilidades que lhe criaram no regresso a Itália, depois de ter estudado fora do seu país, com o apoio de uma bolsa, levaram-na a lutar para que outros jovens não viessem a sofrer os mesmos atropelos no seu percurso e no seu futuro. Sofia Corradi é a grande obreira desta ideia magnífica.
Como consultora científica, elaborou o documento que serviria de base à criação do programa Erasmus. Nele se defendia a possibilidade de um estudante realizar parte do seu curso no estrangeiro, com a garantia de equivalência e de reconhecimento dos créditos no seu país de origem. A ideia avançou e foi consolidando estruturas. Hoje, é um auxiliar precioso para muitos jovens que, graças a este programa, podem conhecer mundo e preparar o futuro.
Foi Jacques Delors quem acarinhou a ideia e a fez crescer. A educação na Europa deve muito a este homem, um visionário que soube interpretar o que fazia falta e tomar decisões para o concretizar. mas a aprovação não foi unânime. A extrema-direita sempre reagiu contra estas iniciativas. O nacionalismo serôdio não os deixa sair dos buracos onde se alojam, nem querem que mais ninguém cresça. O imobilismo e a ignorância ficam-lhes a matar. E hoje, numerosamente representados nas estruturas de decisão, fazem o que podem e não podem para minar o terreno de incultura e mesmo de ignorância pura.
Esta é, portanto, uma ideia que devemos defender com unhas e dentes, como dizia o povo, mas também com o coração, que «pulsa dentro da cabeça», como defendia Cruzeiro Seixas — precisamente onde está o cérebro, que tanta falta faz aos defensores de novos salazares e afins.
Lembrei-me de falar nisto porque está a decorrer, em Lisboa, um encontro onde se debate e se procura esclarecer o futuro do projecto.
Boa sorte! A juventude que pisa o terreno europeu agradece. É o futuro da Europa e do mundo que beneficia destes esforços.
Ponto alto. Ponto de partida
O meu amigo Luís Filipe Sarmento celebra hoje mais um ano de vida. A celebração faz-se em pleno trabalho. Parte hoje para Paris, para apresentar na Sorbonne o seu notável COMMEDIA. O escritor está traduzido e aplaudido num ror de países. Mas, regressado a esta pátria à beira-mar implantada, vai ter muito trabalho pela frente. Esse, porém, é outro ponto, que será esclarecido a seu tempo, digamos assim.
Resolvi chamar outro escritor para celebrar a amizade. É Alexandre O’Neill (escolho sempre os melhores) quem nos vai «cantar» aqui os «parabéns». Ouçam-no:
Parabéns a você
nesta data querida,
muitas felicidades,
muita gente na vida.
Mas, como tenho a sorte de ter Luís Filipe Sarmento como amigo, acrescento à comemoração outro poema de O’Neill, que se refere à derrota da solidão conquistada pela amizade. É este:
AmigoMal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill. "No Reino da Dinamarca"
domingo, 11 de outubro de 2026
Mudam-se os tempos...
Novas ideias vão surgir. Vamos partilhar compreensões e conhecimentos de outros tempos. E vamos trabalhar com quem vive os dias de hoje esta necessidade de percebermos o que se passou e marcou e o que agora se faz avançando com ideias novas. Esta é uma ideia nova. Em breve faremos ponto da situação. Até...
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Imaginação ao poder
Interrompo a clausura que apliquei a mim próprio para falar de um assunto que me diz muito. O Luís Filipe Sarmento já escreveu linhas que nunca mais acabam sobre os sonhos e as distâncias que os separam das nossas vidas. Nem sempre os sonhos nos aquecem. Afastam-se com insistência da realidade. Luiz Pacheco, em O Teodolito, fala dessa medida física e espiritual, digamos assim, quando se interroga: «E o que são as distâncias? São as realidades...»
Em O Menino do Elefante, estamos perante uma obra que parece ter-nos a todos lá dentro. Mesmo tendo pisado outros territórios, sinto-me irmão do Luís Filipe Sarmento. A escrita deste livro é limpa, depurada, elaborada até à sofisticação. Há quem se assuste com esta definição. Um receio de se estar a atingir um patamar de arrogância, sobranceria, complexidade inatingível. Nada de mais errado. Nada nos impede do sonho de alterar os ditames que nos parecem ter sido colados no lugar onde nascemos. Não temos de ficar agarrados ao berço. A autenticidade de não rejeitarmos origens não impede o sonho. «O sonho comanda a vida», como pretendia outro poeta? Provavelmente sim. Este novo livro de Luís Filipe Sarmento anuncia-se como continuação de O Menino do Elefante. É (deve ser) um relato de sonhos que se concretizaram ou que ainda estão em «banho-maria» (nunca percebi o que isto queria dizer) para ferverem num futuro próximo.
O escritor tem uma projeção nos circuitos literários que até mete impressão. Anda de um lado para o outro como se a estrada não tivesse fim à vista. Não tem parança. No próximo sábado vamos estar com ele no excelente auditório do Liceu Camões. O livro vai ser apresentado por Elisa Costa Pinto, e os Cotas em Atraso (este nome é um achado) vão dar música.
Mas o que se anuncia para além deste prometedor convívio é um fartote de conversas e livros e conversas e mais livros por esse mundo fora. A gente anda por aí, mas o mundo tem estradas para todo o lado. E essas estradas parecem não ter fim. Vamos lá correr mundo. Perceber o que fazem os nossos irmãos de todas as pátrias instaladas neste território circular onde permanecemos.
As cirurgias, no BlogOperatório, estão em lista de espera. Mas as luzes vão ser de novo ligadas em breve. Até...
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
VOU-ME EMBORA por uns tempos. Não, isto não é um pedido de socorro. Não fui raptado por nenhuma seita, nem religiosa, nem política. E também ainda não é desta que me vou prantar numa ilha grega para perceber o tempo e olhar o infinito, que é o que parece existir além do mar, depois do horizonte.
terça-feira, 29 de setembro de 2026
Manual de civilidade para tótós
Nunca percebo o que move as pessoas extremamente conservadoras. Até percebo as pessoas verdadeiramente conservadoras — dizem que querem preservar o que é bom. Nada contra, tomem lá um aperto de mão. Mas as que querem preservar tudo, mesmo o que é mau, e ainda piorar o que já existe, essas não entendo. Quando os meus pais eram meninos, a educação era dada ao estalo. No meu tempo já não. Afinal, os meus pais não eram assim tão conservadores. E, para esta gente, não defendo que a coisa se resolva ao tabefe. Adiante.
Quando um político conservador ressabiado repete amuos nos palanques que lhe disponibilizam para comentar livros — e que aproveita para dar recados a torto e a direito —, o que se deve fazer é esperar que volte para casa e se cale. Ir ouvi-lo? Para quê? Não serão passos perdidos?
Quando um político extremamente conservador — tão extremamente conservador que quer que tudo volte ao que era dantes — amua, berra ou gesticula em grande alvoroço, porque é que é chamado logo de seguida por todos os canais de comunicação para continuar a dar ao badalo sem descanso? Isto tem remédio: é mudar de canal ou fazer outra coisa — insultá-lo em voz alta, por exemplo. Vocês sabem o que fazer. Alivia.
Quando um profissional de alta competição, bem pago e bem mimado, amua, faz birras (apesar de muito crescido para essas figuras) e declara que fala para o mundo e não para os portugueses, porque é que os portugueses se preocupam com o que ele diz e faz? Porque razão os portugueses se preocupam com o que pensa e faz um milionário farroncas, amigo de criminosos poderosos, que fala como se soubesse usar as palavras porque tem muito dinheiro para comprar tudo (acha ele) o que observa? Não podemos mandá-lo rapidamente, de avião, lá para o reino das arábias?
Pessoalmente a coisa não me afecta, mas estou preocupado com a depressão pós-resultados políticos e futebolísticos dos meus amigos e de algumas amigas. A vida continua, mesmo sem reis, sem barões, sem renascença e sem príncipes da dita. Que vão regurgitar para o colo de quem os fez.
Desenho de Quino
Receituário
Para que serve a imaginação? Todos gostamos de imaginar. Imaginamos coisas boas, que nos satisfazem e dão alento. Às vezes sonhamos. O sonho dá-nos forças. A imaginação serve para procurarmos imagens, cores e situações novas — de preferência surpreendentes.
Francisco Louçã percebeu muito bem o que tem sido feito por esse mundo fora. A interpretação das artes e das vontades dos artistas é aqui analisada com rigorosa liberdade literária. Estou a consultar o primeiro livro; já o «Imaginação 2» vai ser apresentado esta terça-feira, dia 28. Recomendação feita: esta obra é mesmo necessária para que se compreenda o que se passa com a imaginação dos artistas, que somos nós e a nossa vontade de imaginar.
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
DA SÉRIE GRANDES CAPAS | O fascismo é uma minhoca, não é?
domingo, 27 de setembro de 2026
Filosofia de vida
António de Castro Caeiro faz hoje anos. Sessenta, para sermos exactos. Uma vida dedicada ao ensino e à divulgação da Filosofia. E a produzir maneiras de observarmos a vida. Pensar. Explicar o que é a Filosofia.
António de Castro Caeiro tem livros publicados que convocam a vantagem de olharmos à nossa volta com todos os sentidos despertos. Participei, como designer, em vários por ele escritos e editados pelo João Paulo Cotrim, na Abysmo. O João Paulo foi a ligação. Ligou-nos às muitas «sessões de esclarecimento filosófico» nos encontros «Filosofia a Pés Juntos», em Setúbal, e a lançamentos de livros. Em Fevereiro deste ano estivemos juntos para falarmos do seu «Sobre os Sentimentos». Foi um encontro com ele e com Fernando Cabral Martins, que animou a minha exposição «As Palavras», na Biblioteca Camões, em Lisboa. Festejo aqui este aniversário porque o António é meu amigo e porque temos muita coisa em comum, como podem comprovar. Mas também porque ele é um nome a fixar, no panorama das artes e do pensamento destes dias em que vivemos e resistimos.
Festejo aqui este aniversário porque o António é meu amigo e porque temos muita coisa em comum, como podem comprovar.
Parabéns, António. Vamos continuar.
Aos domingos
ELOGIO DO EXTRAORDINÁRIO | Há sempre a tentação de anichar ao terreno da decadência as obras da maturidade de quem fez coisas extraordinárias na vida. Para alguns, Pedro Almodóvar calçou esses patins. Para mim, não. Explico.
Um filme de Almodóvar é sempre uma caixa com surpresa dentro. Não uma caixa de Pandora, recheada de tormentos e tragédias, mas antes uma caixa de conteúdos diversos — coisinhas simples, mas também sofisticadas, dúvidas, hesitações várias, demências e rigores estéticos sempre surpreendentes — que parecem saídos do saco do Pai Natal. Há prenda para todos? Não, nem tudo tem de ter um final ao gosto de toda a gente. Esse esforço pertence a quem conta a história. Este Natal Amargo passa ao lado do Natal da forma tradicional como se entende. Sente-se o realizador em várias personagens. A angústia e o conflito com que se debate ao escrever um argumento. Há diálogos que nos trazem o Almodóvar dos filmes que o tornaram nome maior da arte cinematográfica. Mas a densidade agora convocada para os diálogos e para os ambientes é um assombro de talento. Ainda dá para sorrir, ou rir baixinho, mas não há lugar para gargalhadas. Neste aspecto, segue a linha do filme anterior — O Quarto ao Lado —, onde o direito à eutanásia, que tanto apoquenta as pessoas muito conservadoras, é colocado como tema superior de registo artístico.
Este filme de Pedro Almodóvar é um filmaço. Todos os filmes de Almodóvar ficam para a história da compreensão dos nossos dias. Isso é extraordinário.
sábado, 26 de setembro de 2026
Aos sábados
DEAMBULATÓRIO | Pedro Chorão é nome grado da Arte contemporânea. Também foi professor e gostou muito de o ser. A pintura é a sua respiração. Pinta todos os dias. A obra não pára de crescer. Tem exposições programadas para os tempos mais próximos. Uma dessas exposições vai ser aplicada por mim em sítio de reconhecido valor patrimonial. Depois falamos.
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
Design de comunicação
DA SÉRIE GRANDES CAPAS | O autor do desenho é Barry Blitt, e a autora do texto é Françoise Mouly, editora de arte da The New Yorker.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Receituário
NATAL AMARGO | É o novo filme de Almodovar. E um novo filme de Almodovar é um acontecimento. Voltaremos à conversa depois do ansiado visionamento. Não percam. Até já.
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
O Tempo, esse exterminador
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Mr Chance já governa?
Being There é um filme em que Peter Sellers desempenha o papel de um jardineiro simples e de raciocínio lento — Mr. Chance —, que passa a vida em frente à televisão e quase chega a presidente dos EUA. Não chegou. Mas Trump chegou, e não é ingénuo como Mr. Chance — é um ser demencial, convencido de que é o homem mais inteligente de sempre.
José Viale Moutinho
Morreu José Viale Moutinho. A ceifeira não desarma. Recordo de imediato os escritos sobre José Afonso e o seu tempo de surpresa. Foi uma edição do José Viale que me revelou o poeta José Afonso. Sempre acompanhei o seu trabalho. Também li os romances. "Cenas da vida de um Minotauro" e "Monstruosidades do tempo do infortúnio" impressionaram-me.
Mas tenho uma história para contar, que me desculpem os caçadores de autores de obituários. Não o sou, apenas recordo quem respeito. José Viale Moutinho escreveu-me uma carta onde me sugeria a publicação de um livro seu. Eu tinha acabado de constituir a Estuário e o autor dos textos que deu a conhecer a poesia de José Afonso e os seus envolvimentos queria editar lá. Eu, empenhado na edição de "O Teodolito" de Luiz Pacheco, e de "Terral" de Miguel de Castro, não consegui responder a tempo. Fui indelicado, eu sei. Mas o José Viale Moutinho percebeu a embrulhada em que eu estava metido. Trocámos algumas mensagens (por carta, que naquele tempo era mesmo assim), mas acabámos por não fazer a edição. As razões foram duas: eu não tinha tempo nem dinheiro para enviar para impressão tanto livro de seguida. Lembro-me do fim de uma das suas cartas. Dizia assim: "você é um chato". Tinha razão. Fui um chato. O homem queria mesmo editar na Estuário e eu não percebi isso. Fui um chato mesmo. Fizemos as pazes em conversa por telefone (meio de comunicação mais avançado para a época). "Não há aqui pazes a fazer. Continue a fazer livros bonitos". Bonito serviço, pensei. Chama-se a isto bofetada de luva branca.
Eu gostava muito do José Viale Moutinho. Jornalista corajoso. Escritor de mão segura e cabeça culta. Homem bom. Nem me tinha apercebido de que ele já tinha mais de oitenta anos. A juventude da sua escrita não o fazia entender. Prova que a juventude não está na mente nem no que se faz. Mas o tempo está lá, e é implacável. Este fim é uma tristeza. A morte é um fim trágico. Sempre. Muito obrigado, meu amigo.
Obrigado, Jorge Palma
FRÁGIL | A vida é assim: frágil, como a definiu numa das suas mais viajadas canções. Jorge Palma foi um intenso viajante, mesmo quando não saía do seu lugar. Um andarilho, como se definiu José Afonso nos seus cantares iniciais. Jorge Palma cantou em estações de metro e em ruas deste agitado mundo tão alheio às diferenças. Ele quis ser diferente. Foi um cantor de todos os protestos quotidianos. Bem preenchido de excessos. Com a liberdade a instigar-lhe o corpo e a mente. Despertou os sentidos e nunca mais ficou quieto. Este fim físico do cantor desperta-nos essa vontade de não ficarmos calados e quedos. Como cantou o seu amigo Sérgio (Godinho): «Ficar parado? Antes o poço da morte que tal sorte». Pois é — a morte, essa ceifeira de vidas, leva-nos um dos nossos artistas mais livres. Um inventor de sons, que pedia ajuda às palavras para completar ideias. A liberdade que cantou fica agora nos nossos sentidos. A nossa liberdade de criar e imaginar irá ser sempre recordar artistas como Jorge Palma. Ele ajudou-nos muito. Muito obrigado, Jorge.
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Ainda não acabámos, como é óbvio
Em Berlim, capital de uma Alemanha em alerta pelo crescimento absurdo da extrema-direita, venceu a Esquerda. Berlim é de Esquerda porque a Esquerda berlinense compreende o seu tempo.
É preciso falar verdade e responder a quem vive problemas reais. A Esquerda perde quando se perde em distracções woke. A Esquerda não é woke: não relativiza as diferenças, assume-as. Denuncia, apresenta soluções e debate opiniões com transparência. A razão da Esquerda afirma-se como a verdadeira alternativa ao imobilismo que gera o desespero. A Esquerda faz política, não caridade. Preocupa-se com a democracia, valoriza a Cultura e reconhece na Arte o motor da análise crítica. São estas preocupações que alimentam o debate de ideias — indispensáveis à construção da Democracia. Viva a Esquerda de Berlim. Nazi-fascismo nunca mais!
































