As palavras armazenam-se como torrões maduros
Acontece dizer: levantem-se e caminhem
Mas quem somos e que hábito envergamos?
As palavras entontecem
Quando dispersas levantam rumos vários
José Afonso
O homem de negócios que é primeiro-ministro convidou um aparentemente competente chefe de polícia para ministro das polícias e de outros desentendimentos. Deve ter tido algumas dificuldades em escolher um político. Quem é que quer aplicar as políticas para a imigração escolhidas pelo governo em conluio com o partido fascista? É difícil imaginar alguém decente abeirar-se dessa imbecilidade ajustadora. O chefe de polícia aceitou. Uma chusma de gente, entre comentadores e políticos profissionais, correram em elogio da escolha maravilhosa. Provavelmente estou contra essa maré. Pouco me importa o desempenho de um polícia que aceita ser político sem o ser de um governo quase de extrema-direita. Comunica melhor? Boa, entremos na era do vazio, em que o que é preciso é explicar tudo, e mesmo o seu contrário, para bom entendimento dos comentadores e cinismo dos políticos da oposição. Boa sorte, senhor agente. Parece que o país depende de si.
Fotografias de Ana Nogueira
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Há racismo no futebol? Portugal é um país racista? Mas ainda existem dúvidas? Uma federação europeia do futebol deu um prémio da paz ao presidente mais racista da história dos Estados Unidos da América. Em Portugal os insultos racistas resvalam nos relvados. Um treinador de sucesso considera tudo relativo. São coisas que acontecem. Oh, pá, a malta fica maluca quando entra no estádio. É o nosso lado irracional. Nem percebemos o que dizemos. Aquilo sai, mas não é insulto; é a adrenalina do jogo.
Laurie Anderson revelou a preocupação: um dia a autoria vai desaparecer. Está a acontecer. Assistimos a plágios e cópias como se nada fosse. Até já se defende abertamente o plágio como liberdade criativa. Lindo. "Eu hoje venho aqui falar de uma coisa que me anda a apoquentar". A frase é do Sérgio (Godinho) e eu trago-a para aqui para tornar a coisa mais interessante. Falo de apenas dois exemplos para já.
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| Cadeira DSW de Charles e Ray Eames. |
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| Cadeira Gonçalo de Gonçalo Rodrigues dos Santos. |
LEMBRETE | É já amanhã, sexta-feira, dia 13, que vou conversar com o professor Fernando Cabral Martins sobre Fernando Pessoa. O Fernando é um especialista na obra de Pessoa, com obra publicada, e é um excelente conversador.
A exposição abre hoje no Museu Rafael Bordalo Pinheiro. Vão estar lá resmas de zés povinhos em papel e osso, e vão por lá ficar mais algum tempo. Perder esta festa é perder muito. Não a percam, portanto.
Na próxima sexta-feira vou conversar com o professor Fernando Cabral Martins sobre Fernando Pessoa. O Fernando é um especialista na obra de Pessoa, com obra publicada, e é um excelente conversador. Espera-se um fim de tarde de fraterno convívio pessoano, que é como quem diz: vamos olhar em redor e tentar perceber o que levava Fernando Pessoa a ter uma ideia tão assertiva da vida e do comportamento das pessoas, mesmo sem ter certezas nenhumas. Convidados.
O labrego perdeu mas diz que ganhou de outra maneira. O candidato derrotado com a menor votação de sempre num concorrente à segunda volta, diz que agora vai ganhar o país para fazer governo. O governo que tem na sombra é composto por gente de um ridículo arrasador. Claro que temos muita gente a votar nestes inenarráveis patifes. Um milhão e setecentos mil votos é muito voto.
No discurso de "vitória", o labrego informou os seus seguidores da necessidade de se combaterem as elites. As elites estão contra nós? combatam-se as elites. As elites não fazem falta nenhuma numa sociedade de labregos. E ali todos querem ser como o seu líder. Labregos encartados. Ora, o labrego não é de maneira nenhuma líder de coisa nenhuma. Mal estaria a direita se tivesse um líder tão odiado, rejeitado pela mais expressiva votação num candidato vencedor à Presidência da República. Ventura venceu no patamar do comentário televisivo. Todos os comentaristas comentam os comentários dele. Já não há paciência.
Outrossim: A SIC convidou João Cotrim de Figueiredo para fazer de Luís Marques Mendes. Parece que se quer insistir na ideia de criar um candidato a Presidente a partir do comentário semanal. Não sei se já perceberam isto: Marcelo já não seria Marcelo, e Mendes entrou tarde no comboio de Marcelo. Percebo: um representante da direita-caviar a comentar traz outro brilho ao desfile. Mas não se sabe se o labrego vai continuar a ser convidado para comentar dia-sim-dia-sim a sua alucinada ficção política. E espero com toda a convicção que o representante da direita-caviar saia do comboio numa estação bem longe de Belém. Cotrim é sinistro porque tem ideias sinistras nada aplicáveis ao estado a que isto chegou. E, muito sinceramente, é nauseabunda a legião de imberbes comentadores do partido fascista. Já ouvi um desses imberbes de aspecto repugnante considerar Simone de Beauvoir pseudo-intelectual, em resposta a uma comentadora que citou a brilhante intelectual francesa. Ignorantes e arrogantes. Metem dó. Metem nojo. Tão novinhos e tão parvinhos.
Há quem já considere que o biltre vai ser primeiro-ministro um dia. O pesadelo pode acontecer, mas recuso-me a imaginá-lo. Nunca respeitarei fascistas. Estas eleições foram um teste a essa hipótese, mas o objectivo não era a vitória. Os comentadores esqueceram um facto importante: o candidato do partido unipessoal fascista teve menos cem mil votos na primeira volta do que o partido fascista nas legislativas. Agora teve mais uns pontinhos. Isto revela que o partido fascista tem, mais coisa menos coisa, a mesma aritmética do fascista que o dirige. Pode ser que a onda se esbata. Esperemos que sim.
A segunda volta uniu-nos. Os democratas que viveram os últimos cinquenta anos como os melhores das suas vidas não querem um enérgico líder autoritário, egocêntrico, mentiroso compulsivo e possuidor de uma incomensurável e ridícula vaidade em Presidente de uma República com uma Constituição solidamente democrática aplicadora de um civilizado estado de direito. Nem em Presidente da República, nem em primeiro-ministro. É normal que assim seja. Quem quer um cretino que é contra a democracia participativa, e que luta contra a participação das pessoas na democracia, ser instalado nos lugares de Presidente da República, primeiro-ministro, juiz absoluto, polícia de costumes e senhor todo poderoso de todos os poderes locais e internacionais? Três salazares? Ele quer ser uma resma de salazares. Ninguém quer estar nessa. Só mesmo grandes otários anseiam inscrição nessa coletividade. Claro que os otários são muitos. Mas nós somos mais. Pelo menos por enquanto. Sim, senhores comentadores que se incomodam com a nossa preocupação anti-fascista, insistiremos em lembrar: Ventura nunca. FASCISMO NUNCA MAIS.