O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
Álvaro de Campos. Obra de Fernando Pessoa.
Entrei na obra de Fernando Pessoa por influência de José Afonso. Mas tarde, outro amigo, o Diamantino Alves (Tininho para os amigos), mostrou-me outro lado do poeta — aquele poeta que cada um adopta como entende melhor para si — e o fascínio nunca mais parou. Escolhi o meu lugar na poesia de Fernando Pessoa. O "Livro do Desassossego" está sempre perto. Fernando Pessoa não me larga. Vou finalmente ler "Pessoa, uma biografia" por Richard Zenith, ainda com muitas recordações de leitura da "Vida e Obra de Fernando Pessoa" de João Gaspar Simões e do "Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português" de Fernando Cabral Martins.
Fernando Pessoa foi um homem extraordinário porque percebeu a tortuosa simplicidade do mundo através do seu olhar de pessoa aparentemente vulgar. Se os políticos mais poderosos lessem, o mundo não estaria tão estranho. E se lessem Pessoa então, talvez se arrependessem de muita merda que andam a fazer. Ou talvez não: poderiam dar um tiro nos cornos em vez de mandarem matar inocentes. Com a literatura tudo pode acontecer, não sei se para melhor, mas sim para maior compreensão do que se passa à nossa volta. Está tudo na Literatura. A Arte não é entretenimento ocasional. A Arte procura o que ainda não existe. Não é fácil essa procura, mas sem esse esforço não há Arte. É Arte o que nos inquieta. A Arte ajuda-nos a viver.
E agora vou bazar. O que há em mim é mesmo cansaço. Fica aqui o cartaz que assinala a minha maneira de estar com a revolução de Abril, que o fascista de serviço classificou de miserável, o miserável. Regresso em maio, em princípio. Até lá, fiquem bem, que eu também vou fazer por isso.
Beijinhos e abracinhos.















