quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Dançar Educação e Cultura


A Quorum Dance Company completou, em 2025, vinte anos. É uma estrutura absolutamente extraordinária, que saiu da cabeça de um visionário dos nossos dias: Daniel Cardoso. Ontem, passou na RTP2 um documentário que não me deixa mentir.

As coreografias de Daniel Cardoso vão buscar ideias ao fundo dos tempos, transformando pensamentos profundos em acções contemporâneas. Contemporaneidade que convoca a autenticidade. Daniel é também um bailarino excepcional, que não quer ficar sozinho. Cria actividade para quem tem talento e vontade de encontrar uma outra maneira de dançar e de estar com quem aprecia a Arte e as suas consequências. Rigor estético em todos os segmentos. As consequências da arte são o melhor que pode acontecer a um país. O mundo culto conhece esta estrutura cultural. Daniel Cardoso e a sua companhia já pisaram muito chão por esse mundo fora. Não param de trabalhar e de ser aplaudidos.
Por cá, a Quorum Dance Company é apoiada pelo município da Amadora. Não tem apoios do Estado. Mas devia. São as artes que fazem avançar as sociedades. «A Educação e a Cultura são o melhor de um país», diz, às tantas, Daniel Cardoso. Tem razão.
 
O documentário na RTP2 é um excelente contributo para que se perceba o esforço e o percurso desta gente, que merece toda a nossa atenção. Eu vou ficar atento. Não quero perder nem mais um passo das bailarinas e dos bailarinos da Quorum Dance Company.
Não os percam de vista. É para vosso bem.
 
https://quorumdancecompany.com/


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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Humor com humor se paga

Malta que profissionalmente faz rir vai encontrar-se num espetáculo que reúne muita malta da área. Convidaram um caso sério do humor americano para encimar o cartaz.
 
Mas esse caso sério é mesmo um caso sério no que diz respeito a opiniões políticas, que dizimam qualquer atitude política decente — digo eu, que não concordo com as posições da vedeta convidada.
 
Acontece que, entre os restantes convidados portugueses, também há quem não concorde com o convidado americano e cancelou a sua participação em protesto pela presença da dita vedeta. É uma atitude. E com estes eu concordo.
 
E então acontece o esperado: parece que aquilo está a dar para o torto. E a gente sabe: o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita.

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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

No tempo em que os animais falavam

O homem-sapo português congratulou-se, entusiasmado, com a vitória dos herdeiros de Hitler na Alemanha. A mulher-Hitler (lamento, mas não encontrei animal mais repugnante para a ilustrar) ficou radiante e, empolgada com o seu característico patriotismo, agradeceu a Musk e a todos os nazis. Valentona.

O homem-sapo chama "abrir de olhos" a esta cegueira colectiva que está a afectar quase metade da população votante alemã. E, claro, vieram logo à baila as "fronteiras sem controlo" — como eles gostam de dizer — e a maldade discriminatória e ameaçadora.
Tudo isto faz sentido. Lá como cá, alastra o bafiento ambiente fascista. Lá como cá, revelam-se já as saudades das ditaduras cruéis e miseráveis. Hitler e Salazar são os evidentes heróis destes palhaços sem graça. Combater quem não é como eles é o motivo. O circo está instalado. E com feras.
A líder nazi alemã pratica no seu recato tudo aquilo que condena em público. Contradição? Nada disso. Atacar quem é diferente, desde que não seja dos nossos, é a razão da luta desta gente tão amiguinha do seu povo.
Chama-se a isso coerência. Coerência fascista. E exige a coerência do nosso combate.

Contradigo-me?

O passado e o presente perdem a força — Já os enchi, já os esvaziei,
E vou cumprir a minha próxima viragem do futuro.

Tu que, lá do alto, estás à escuta! O que tens para me dizer?
Olha para o meu rosto enquanto aspiro a aproximação furtiva da noite,
(Fala com honestidade, ninguém mais te ouve, e permanecerá só mais 
      um minuto).

Contradigo-me?
Muito bem, então contradigo-me
(Sou imenso, contenho multidões).

Walt Whitman. FOLHAS DE ERVA. Canto de Mim Mesmo (Secção 51)

(Edição: Relógio D'Água. Tradução de Maria de Lourdes Guimarães. Prémio de tradução Pen Club, 2002)

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domingo, 6 de setembro de 2026

Elogio do extraordinário









GREAT LOVES | Esta colecção Great Loves da Penguin Books é um bom exemplo de como o design editorial pode reinterpretar clássicos da literatura com sofisticação, contenção e apelo comunicativo, adicionando-lhes contemporaneidade.

O fascínio deste projeto gráfico reside no saber traduzir temas emocionais complexos — a paixão, a obsessão, a compaixão, a traição, a vulnerabilidade — através de uma linguagem visual extremamente depurada. A reduzida moldura em negro com o selo distintivo no topo convoca a necessária coerência da coleção, funcionando como uma "janela" para a essência narrativa. A escolha da tipografia sem serifa, sóbria e equilibrada no rodapé, garante que o foco permaneça inteiramente na ilustração central, sem ocupar excessivamente o olhar. As ilustrações criam uma saliente sensação de profundidade e ocultação. A gradação de tons evoca visualmente a ideia de algo que se esconde ou se adensa, como a própria narrativa. São metáforas perfeitas: estruturas repetitivas e frias, mas simultaneamente enigmáticas, que despertam a vontade de exploração — curiosidade que poderá ser satisfeita com a leitura. A intenção do design é essa convocação.

Resumindo e elogiando: a Penguin Group entrega nesta colecção um trabalho gráfico de excelência. Ao abdicar do óbvio ou do figurativo direto, o design aposta na sugestão do simbolismo visual para evocar o tom atmosférico da obra. Trata-se de uma solução estética sem tempo cronometrado que valoriza o livro enquanto objeto visual e convida o leitor à reflexão antes mesmo de mergulhar na leitura. Estes pequenos livros fazem parte das minhas referências estéticas há muito tempo; devoro-os e volto lá frequentemente para apreciar a competência do grafismo. Cheguei a comprar um ou outro exemplar sem me preocupar com o conteúdo incluso. Mesmo aí, não me desiludi: a Great Loves dá a conhecer muitos dos melhores textos dos melhores autores. Tudo nesta coleção é extraordinário. Viva ela. 


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sábado, 5 de setembro de 2026

Vale tudo

Todos percebemos que o assalto ao gabinete foi uma encenação. Também sabemos o que aquela gente quer com a moção de censura, por causa de um ministro que não está para reconhecer as razões dos fascistas, independentemente da fragilidade política que o sustenta com evidente dificuldade. Percebemos que o líder fascista é capaz de tudo, como acontece com qualquer líder fascista. 

A propaganda é a prioridade. A transmissão da mentira é útil às suas sinistras intenções. Os gigantescos cartazes espalhados por todo o país não desmentem esta ideia: falem de nós, nem que para isso se invente o que for preciso. Os jornais e os jornalistas, com certeza instruídos pelos donos das empresas de comunicação, dão palco às criaturas de Ventura. O próprio Ventura é chamado a dizer coisas a toda a hora. As criaturas confirmam as mentiras e os dislates do chefe supremo, que se autonomeia um enviado pelo divino. Palco não lhes falta. Fazem a agenda e defendem-na com garra, nem que a voz lhes doa. Chegam a desmentir-se no mesmo debate. Envergonham-se disso? Nunca. A falta de vergonha na cara é a imagem destes cretinos.

Mas estão contentes com esse espetáculo mediático? Nem pensar. Querem tudo. Querem que seja divulgado unicamente o que inventam. Saudades do lápis azul. Bons salazaristas. O inenarrável deputado/veterinário privado de Ventura não gosta de jornalistas. Os da Lusa são nojentos, diz. E adianta que vai fechar a agência logo que o seu partido chegue ao poder. Percebemos que os fascistas pretendem elaborar a comunicação que querem que seja ouvida, lida e falada. Os jornalistas são um empecilho aos seus intentos. Nada de novo existe na ameaça. Sempre pensaram assim, os fascistas.

Imagem: cartoon de Nuno Saraiva - Inimigo Público 

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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A sofisticação da morte

O governo de Benjamin Netanyahu continua a fazer sofrer uma população inteira — um povo que se vê expulso do seu território, sem qualquer respeito pelas regras estabelecidas internacionalmente. Uns seres sem classificação foram de Portugal apoiar o genocídio que dizem não existir. Chamar-lhes seres humanos não condiz com qualquer classificação razoável. Não são classificáveis; envergonham-nos.

A morte sai à rua todos os dias. As pessoas em Gaza são assassinadas sem qualquer hesitação. E não é com "falinhas mansas" que tudo acontece: é com material bélico. Pessoas tornam-se alvos a abater. As crianças são alvos porque é o futuro daquele povo que querem apagar do mapa. A existência de um povo anula-se assim: à bomba e ao tiro. Em pleno século XXI, são usadas armas de destruição cada vez mais sofisticadas. Estes poderes autoritários só pensam na sofisticação do mal e na aplicação da violência. A morte fica-lhes a matar.

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Gloria Steinem



Texto de Helena Vasconcelos no facebook: Durou séculos, durou milénios. Impingiram-nos a ideia de que era muito melhor ser "feminina" do que ser” feminista”. As mulheres deviam ser belas e amáveis, os homens podiam ser horrendos, fisicamente, mas não importava porque tinham “ideias”. Quando as feministas começaram a falar alto, as “ideias” não importavam e propagandeavam como eram feias, bigodudas, malcriadas e sem atrativos ( para os homens). Nunca fui na conversa e quando “descobri” Gloria Steinem – que morreu ontem, com 92 anos (1934-2026) – percebi tudo. Gloria era linda, sexy, destemida, feminista sem complexos nem temores. Quando apareceu ( nos anos 1960) como “coelhinha”, na Playboy – o suprassumo da objetivação da mulher – o escândalo não podia ter sido maior. Para as feministas tratou-se de uma traição – Gloria era jornalista e “infiltrou-se “para escrever sobre esse tema – para os outros só demonstrava que ela “era como as outras” – um belo corpo, uma mulher belíssima cujas ideias não eram para levar a sério.

Mas Gloria Steinem impôs-se: jornalista de rigor inatacável, escritora, defensora dos Direitos Humanos, fez campanhas sem fim contra a mutilação genital feminina, contra a Guerra do Vietname e a do Golfo e apoiou sem reservas causas como Black Lives Matter, a reunificação das Coreias, os direitos reprodutivos das mulheres e dos direitos LGBTQ. Uma guerreira, sempre bela, sempre inspiradora.
Mais “uma das minhas” que parte.
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O crime compensa?

Com tanta falsidade a circular por aí, já não basta procurar a verdade: é preciso uma candeia, uma bússola e muita paciência. É que a mentira espalha-se com uma facilidade quase inacreditável, quando encontra quem a queira vender como verdade — e quem esteja disposto a comprá-la sem pedir comprovativo.

Tempos estranhos. Tudo parece mentira. Desconfiamos de tudo. Tememos sempre o pior. E o mais inquietante é que, demasiadas vezes, descobrimos que o pior não era uma previsão pessimista. Era simplesmente a mentira a mostrar todo o seu esplendor.

Será em novembro que os americanos vão finalmente perceber o lamaçal em que Trump os meteu? O homem delibera assistido por uma insensatez aparentemente infantil. Os exercícios de egocentrismo imbecil são de divulgação diária. A credibilidade da América é destruída à velocidade de cada discurso do biltre. Reconstruí-la vai dar trabalho. Muito trabalho. A América decente terá de se esforçar durante anos para limpar o estrago causado ao mundo neste período em que o crime deixou de ser crime para passar a ser apresentado como virtude; a mentira, como estratégia; e o autoritarismo, como dádiva divina. É uma extraordinária inversão de valores: quem mente é um visionário, quem ameaça é um líder, quem trapaceia é um vencedor e quem acredita na trapaça é um vulgar imbecil que se julga vencedor também.

Aguardemos, portanto, que Trump vá pregar para longe e chame para a viagem o Ventura dos chiliques e dos amoques — dava jeito à decência e razoabilidade aqui do jardim —, mais todos os fascistas de serviço pelo mundo. Já fedem. À naftalina das ideias juntam o cheiro do crude e do lixo que espalham sem reciclar. Gente assim, tão mal-cheirosa, pode ir para bem longe. Para Marte, talvez. Musk já ligou os motores dos foguetões?

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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Tão fofinhos, os fascistas


FASCISTAS CENSURAM GOVERNO | Moção é uma loção. E os fascistas, pelos vistos, querem mesmo é limpar a pele para poderem posar, impecavelmente indignados, nos vídeos das redes sociais.

Passam a vida à procura de cosméticos: uma moção aqui, uma espuma ali, qualquer coisa que produza bolha suficiente para alimentar o circo diário nas televisões e nas ditas redes sociais.

No partido com nome de detergente ainda não perceberam que não há loção suficientemente eficaz para limpar a pele dos grunhos — muito menos para lhes lavar as ideias.

Continuem a esfregar. Talvez um dia consigam remover a sujidade. As ideias, essas, parecem ser mais difíceis de encontrar. Logo, também mais difíceis de limpar.

Voltem para os buracos onde vegetavam. Deixem as pessoas viver.

Cretinos.
Imagem: cartoon de Nuno Saraiva - Inimigo Público

Homenagem

CASSANDRA WILSON | 1955 - 2026

Fotografia: Mark Seliger. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Deambulatório

https://www.facebook.com/reel/1091200273415126 

MOVIMENTO DE HOMENS QUE APOIAM O MOVIMENTO DAS MULHERES CONSERVADORAS | Desculpem qualquer coisinha. Disse aqui que não me ia «meter» com Setúbal nunca mais. Mas há performances que não permitem o recato. Estou de volta, mas saio já. Descansem. É só para dizer umas coisas.

 
O cançonetista sexista, apologista da exaustão sexual nas suas canções, declara aqui aquilo que entende ser uma mulher «às direitas». Há nisto uma certa coerência: cada um define o mundo à medida daquilo que consegue imaginar. De facto, Setúbal foi «decorada» — leia-se: destruída patrimonialmente — por uma senhora. Apalhaçaram-se edifícios públicos, criaram-se esculturas ridículas e a cidade foi sendo «decorada» ao nível do cortinado e do reposteiro. A senhora foi-se embora, mas está «de volta», como o próprio nome do movimento que venceu as eleições ameaçou.
 
O Mercado do Livramento sofreu recentemente nova ornamentação. E a forma verbal é aqui muito bem aplicada. Resultado: hediondo. Ridículo.
«Ah, mas as pessoas gostam.»
Tudo bem. Tenho, no entanto, uma ideia que desmente outra, muito antiga: os gostos discutem-se. As pessoas que se habituem a perguntar, a discutir os assuntos e, sobretudo, a perceber que o gosto também se educa. Que se habituem a respeitar o património e a compreender que uma cidade não é uma sala de estar onde se muda o cortinado ao sabor da moda ou do gosto de autarcas pouco esclarecidos esteticamente. Ou com o esclarecimento "de senhora conservadora", como quer o arauto da peça.
 
E há as outras pessoas: as que não gostam e sabem por que não gostam; as que possuem uma relação com a cidade que não se esgota no «gosto» ou «não gosto»; as que têm alguma substância intelectual e estrutura cívica para discutir aquilo que lhes é apresentado como inevitável.
 
Dito isto, acrescento: agora é que está tudo bem. O Movimento das Mulheres Conservadoras tem uma voz masculina de elevada consciência política; a coligação vencedora — da qual o cançonetista faz parte activa — faz pendant com o partido racista e misógino; e a cidade quer ser Capital Nacional da Cultura em 2026, disseram-me. Não sei se é graça ou se querem mesmo levar isto a sério. Se for a sério, há qualquer coisa de extraordinariamente coerente nesta espécie de paradoxo: uma cidade que aspira a ser capital da cultura a celebrar, simultaneamente, a sua própria descaracterização. Talvez seja essa a nova ideia de cultura. Ou será apenas decoração? É que, como sabemos, há coisas que, depois de decoradas, já não precisam de ser pensadas. Pensar dá trabalho. Vale mais a pena pendurar cortinados e apetrechos decorativos por todo lado e chamar uma gutural voz que tudo explique sem que a voz lhe doa nem que o ridículo o incomode. 
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Design de comunicação

 Da série Grandes Grafismos. Yayoi Kusama. 





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domingo, 30 de agosto de 2026

Elogio do extraordinário

EUAN UGLOW | Diz-se que Uglow pintava pouco. Demorava um ror de tempo até dar um quadro por terminado. Terminado? É precisamente essa ideia de inacabado que torna estas pinturas fascinantes.

De que falamos quando falamos de um trabalho terminado? Um trabalho está terminado quando o artista decide partir para outro? Será mesmo o artista quem decide?

Desconfio que Uglow confiava nas certezas do tempo. O Tempo, que é um grande escultor, como pretendia Yourcenar, mas que talvez tenha mais certezas do que nós, é quem decide. Quem vê pode sugerir acabamentos, mas não desmente a arrogância do tempo. E ainda bem. O Tempo tudo decide. E não traz livro de reclamações.

Uglow morreu em 2000, no dia 31 de agosto, com sessenta e oito anos. Passam amanhã vinte e seis anos sobre esse fim. Deixou-nos vivíssimas interpretações de naturezas-mortas e de poses do corpo humano. Leituras únicas.

Não percebi se, até hoje, foi recordado condignamente depois do seu desaparecimento físico. Sei dizer que falamos de grande Arte e de um grande pintor, que merece ser visitado com persistência.

Mostrou-nos uma realidade muito pessoal. Figuração única. Mostrou-nos outra realidade. E essa realidade é extraordinária.

Euan Uglow foi um grande artista visual do nosso tempo.

Euan Uglow - 10 March 1932 – 31 August 2000




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sábado, 29 de agosto de 2026

A boçalidade não mata, mas mói

Aquela coisa que à primeira impressão aparenta ser uma pessoa, e que está à frente de uma organização de malfeitores que parece ser um partido político, vai avançar com uma moção de censura ao governo se Montenegro não substituir Luís Neves até à próxima terça-feira.
 
Nunca pensei torcer para que não seja demitido um ministro da Administração Interna de um governo de direita tão à direita, mas perante esta ofensiva de um cretino que só ameaça, que remédio... Esperemos que Montenegro não ceda. Esperemos que a moção de censura faça cair no ridículo a associação de malfeitores e o seu vaidoso-mentiroso chefe.
 
Apesar de já sabermos que aquela gente que o segue bebe as suas mentiras como se estivesse perante um arauto dos seus mais rigorosos anseios, temos que admitir que o que desejam como correção é sempre pior do que o que querem corrigir. Quanto pior, melhor. O ministro deveria mentir, acusando os imigrantes de todos os males que nos acontecem. Fez o contrário. Tem outras pedras no caminho, e não é um exemplo de comportamentos, já sabemos. Mas para o biltre foi apenas esse o seu grande mal. E agora não se cala. Grita, vomita ódio. Malcriado e mal-formado. O costume. 
 
Os ditames da rentrée política são propalados por essas diatribes do cretino que dita as regras aos sessenta cretinos e cretinas com assento parlamentar. E as televisões e as redes sociais espojam-se na lama que ele larga. Já não é possível termos decência no debate? Será que estamos a assistir ao fim da política?

Ilustração: Nuno Saraiva. 

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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Receituário

 

PARA ALÉM DAS TRANÇAS PRETAS | Ana Lua Caiano tem um novo disco a sair e, por mor disso, falou com Lia Pereira, no Expresso. Aguardo o disco com alguma ansiedade. Acompanho a evolução artística desta cantautora com expectativa e admiração. Há nela qualquer coisa que me interessa particularmente: a capacidade de olhar para trás sem ficar presa ao que encontrou.
 
Ana Lua Caiano respeita o terreno que os seus avós pisaram, mas volta lá com outras sandálias. Escuta o que a rodeia com atenção e depois reorganiza os sons, desloca-os, envolve-os em novos ambientes. Ouvir Ana Lua é viajar por terras e ares já antes navegados, mas rasgando agora outras águas.
A ousadia verbal, a experimentação musical e a vontade de inventar coisas são marcas desta mulher que tem poesia para andar e cordas vocais para a dar a ouvir. Há nela uma inquietação que não parece procurar apenas novos sons, mas novas formas de os fazer existir.
 
Conhece a música de José Afonso, e isso percebe-se. Não necessariamente como citação ou influência direta, mas nessa vontade de reinventar sons, de mexer nos ambientes sonoros, de não aceitar a herança como coisa acabada. Recebe e devolve transformando. Participou em espetáculos de solidariedade com a Palestina, revelando uma preocupação que atravessa hoje uma parte significativa do meio artístico, em Portugal e no mundo. Há também aí uma forma de estar: estar atenta ao seu tempo, às suas chagas e às suas perguntas. Tem mundo porque se documenta. E porque viaja por outras artes. Cita autores e encontra referências fora da música, como quem sabe que uma linguagem nunca se constrói sozinha. Talvez a formação em Design de Comunicação lhe tenha deixado essa disciplina do olhar, essa vontade de depurar, de organizar e alinhar, com a precisão que essa área recomenda.
 
Esta conversa com Lia Pereira revela preocupações e vontades. Revela também inteligência e carácter. E talvez seja isso que também me interessa em Ana Lua Caiano: perceber que há ali alguém que não quer simplesmente fazer música. Quer descobrir o que pode fazer com ela. Como fez José Afonso.
 
As fotografias no jornal são de Rita Carmo.
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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Os interruptores da política


Marques Mendes está como Marcelo. A política é um electrodoméstico que se liga e desliga conforme a vontade de se pôr o ego a funcionar.

Enquanto comentadores, revelavam tácticas e estratégias. Só isso. Ao contrário do que anunciavam: sem preocupações com «a vida das pessoas» ou «o que é melhor para o país e o mundo». Sem política; em modo vidente, com bola de cristal da loja das baratezas.
Marcelo, como praticante egocêntrico, cumpriu o objectivo. Foi o que quis ser, apesar de em modo exuberante e tolo.
Este senhor não conseguiu o que pretendia. Como não foi chamado ao palco principal, sai de cena. Regressa a um papel que nunca deveria ter abandonado: quedo, teria sido um político incrível; calado, teria sido um cidadão exemplar.
O melhor para si, senhor doutor. Fique bem assim, sem qualquer vontade de andar em bicos dos pés.

Fonte: Notícias ao minuto

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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Constatação do óbvio




As pessoas mal informadas que nasceram depois de abril de 1974 não acreditam que os últimos cinquenta anos foram os mais felizes de toda a História de Portugal. Tudo avançou a partir daí. Foram conquistados direitos, e as pessoas tiveram acesso à Cultura e a melhorias significativas na Saúde e na Educação, bem como a possibilidade de escolhas materiais que lhes permitiram alcançar um melhor bem-estar. Antes dessa data, isto metia medo.

 

Os direitos foram conquistados com o esforço e a luta de gerações de minorias esclarecidas e preocupadas com o futuro do país. Chamavam-lhes progressistas. Durante o período que se seguiu à Revolução, foram adquiridos direitos e estabelecidos deveres que deram folgo a outras maneiras de pensar. Foram respeitadas minorias e foi possível sermos donos do nosso próprio corpo. Falhou a lei da eutanásia, por culpa de um Presidente papa-missas que deixou arrastar essa conquista por interrogações e desconfianças sem sentido. O tal Presidente que o foi sem merecer e que agora declara nunca mais falar de política, como se a política fosse o diabo. O diabo que o carregue.

Mas teve seguidores. A extrema-direita assumidamente salazarista entrou no Parlamento e arrastou para o seu catecismo a direita civilizada, que passou a não o parecer. Os retrocessos aconteceram, perante a nossa incredulidade. Como pode isto acontecer? Aconteceu.

 

Esta observação do Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos adverte para o óbvio: estamos a andar para trás. Os novos representantes dos eleitores que querem andar para trás são eleitos e fazem trinta por uma linha para garantir retrocessos. Direitos merecidos são postos em causa por políticos sem memória ou que fazem por esquecer o tormentoso passado. O que será que esta gente quer para os seus filhos e netos? Tudo a toque de caixa? Voltamos ao tempo da perseguição a quem é diferente de quem manda? Vamos todos ter de ser tristes, incultos e indignos lambe-botas dos escroques da extrema-direita e dos que se lhes aconchegam?

A resposta existe e aplica-se assim, em caixa-alta: NÃO, não queremos voltar a viver num país que não respeita toda a gente. Os novos fascistas chamam liberdade à discriminação. Dizemos não, e não estamos sozinhos. Somos pela liberdade para todos. A liberdade de discriminar não é liberdade. É fascismo. O que é que a direita civilizada ainda não percebeu?

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Aos papéis

Invadir e vandalizar um gabinete de um líder partidário é muito grave. No tempo de Salazar seria normal, se existissem líderes partidários a sério. A PIDE partia aquilo tudo e não se dizia nada a ninguém. 

Mas em democracia não se percebe como aparece um gabinete tão bem desarrumadinho, quando o que era para resgatar pelos malandros delinquentes eram uns papéis fornecidos pela PJ ao ofendido líder, e que estavam em cima das mesas esperando pacientemente pela captura. Os malandros que andaram aos papéis devem andar a ver muitos filmes antigos de Hollywood. Era preciso tanto papel pelo ar? Tanto sinal exterior de vandalização? Agora a PJ quer ouvir os últimos a sair e os primeiros a entrar no dia seguinte. Agora é que isto vai ser um papelinho. 

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