Foi há 25 anos. Isto é uma guerra, pensei e disse à minha gente. Éramos três a percorrer a Quinta Avenida. Tínhamos o voo para Lisboa marcado para essa tarde do dia 11. Aquele passeio pela avenida seria o último da viagem à cidade que nunca dorme, dizem (há cidades que dormem?). No dia anterior tínhamos estado em território das Torres. Este relato é de quem esteve perto da tragédia e sentiu o sofrimento humano. Era cedo. Quem trabalhava na big city caminhava em passada larga, a caminho dos lugares das suas ocupações diárias. De repente, ouve-se um estrondo, seguido do romper de uma fumarada espessa pelos ares. Estávamos a pouco mais de dois quilómetros da zona atacada. As pessoas interrogavam-se. "Foi um avião contra o Empire State Building", "Foram estes", "Foram aqueles", "Foram aqueloutros". Abrem-se as portas de um carro. O proprietário quer que as notícias que passam no rádio sejam ouvidas por todos. Afinal, tinha sido um avião contra uma das Torres Gémeas. E agora mais outro contra a outra. O espanto tornou-se preocupação e sofrimento. A destruição e a morte tornavam-se uma preocupação generalizada na cidade. E no mundo, é claro. Uma mulher muito jovem tentava falar com o namorado, que pegara cedo ao trabalho nas torres. O desespero fazia-lhe estremecer o corpo. Todos nos sentíamos solidários.
Depois foi assistir ao desfile da gente agredida por aquele acto hediondo. Cruzámo-nos com aquelas figuras humanas cobertas de uma poeira uniformemente cinzenta, de fato completo e pasta pela mão, ou em mangas de camisa, ou mesmo de tronco nu. Gente de carne e osso que mais parecia saída de esculturas de Juan Muñoz. Não as figuras sorridentes, mas outras, agora, esculpidas num realismo que convocava a tristeza da destruição.
Mergulhámos nas notícias. O hotel, próximo de Times Square, facilitava a curiosidade. Ali aguardávamos informações de Bush, o presidente taralhoco. Ficámos mais cinco dias em Manhattan. Agora estávamos na cidade mais segura do mundo. Aviões militares rompiam frequentemente os ares. Assistimos a acções de solidariedade com as vítimas. A rua estava tão frequentada como sempre.
No regresso, viajámos num avião que nos disseram ser o maior do mundo. Foi no domingo seguinte que partiram para a Europa os primeiros europeus que ainda permaneciam na cidade. Fizemos escala em Frankfurt e chegámos a Lisboa pela noitinha.
Fomos os primeiros portugueses a chegar a Portugal, informou-nos uma jornalista de uma estação de televisão. Lá me dispus a ir a um programa dar algumas opiniões sobre o assunto. Um programa da manhã. Com gente aos pulos e cantores manhosos em exibição. Enfim, ninguém é perfeito. E eu sinto-me muito próximo da imperfeição mais perfeita quando cedo nestes assuntos de empata-audiências.
Manhattan é um sítio incrível. Adorámos. Mas nunca estamos sozinhos no mundo. E o mundo esteve mal por aqueles dias. Tudo piorou. E continua a piorar. Não se vê solução. George Bush era o presidente naquele tempo. A sua administração parecia umbater no fundo. Mas o asqueroso Donald Trump veio desmentir essa ideia. Com este presidente, tudo é possível. Já percebemos. Os terroristas agora são outros. Agora treinados a partir de Washington por um alucinado. Tudo piorou.
NOTA DE RODAPÉ: Na mesma data, mas em anos diferentes, em 1973, ocorreu o golpe de Estado no Chile: militares liderados pelo general fascista Augusto Pinochet, com o apoio da administração norte-americana de então, bombardearam o Palácio de La Moneda. Tenho assinalado este acontecimento todos os anos, quando abordo esta data. Este ano, dei maior relevo aos ataques em Nova Iorque, por seassinalarem 25 anos e também porque eu estava lá. Fica feito o esclarecimento.
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