Esquerda unida vence eleições na Suécia. Habituei-me a considerar a social-democracia sueca como um esclarecimento: o projecto político social-democrata é de esquerda, como é óbvio. Olof Palme foi sindicalista e era primeiro-ministro quando a sua vida foi interrompida à saída de um cinema. Nunca se provou quem o matou. Mas as desconfianças de que tenha sido acção da extrema-direita sempre existiram.
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Juntos conseguimos
Esquerda unida vence eleições na Suécia. Habituei-me a considerar a social-democracia sueca como um esclarecimento: o projecto político social-democrata é de esquerda, como é óbvio. Olof Palme foi sindicalista e era primeiro-ministro quando a sua vida foi interrompida à saída de um cinema. Nunca se provou quem o matou. Mas as desconfianças de que tenha sido acção da extrema-direita sempre existiram.
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Almanaque de histórias mal contadas
Os gostos discutem-se, porque os gostos são ideias. Ninguém pensa pela sua cabeça sozinho, sem introduções inesperadas. Existe um histórico de acumulação de informação, ou até de conhecimento mesmo, que forma opiniões e desperta a necessidade de comunicarmos. Os que se calam porque os gostos não se discutem estão completamente enganados.
O humor é uma coisa muito séria quando tenta formar públicos. Há humoristas que arrastam multidões só porque fazem rir. E há humoristas que trabalham o riso com substância cultural e política. Quando comunicamos publicamente, estamos a transmitir cultura e política. O humor pode ser apenas uma ferramenta.
A discussão que ferve por aí sobre a participação de um humorista famoso num festival de humor faz todo o sentido, porque é essa discussão sobre o que gostamos e não gostamos que está em causa. Há outro dito muito ditado que diz assim: «Isso é apenas a tua opinião, vale o que vale.» Claro que vale o que vale, e vale muito para quem a defende. Outro: «Só defendes isso, mas não falas no que...», e aludem ao que é contra o que se defende, que é o que defende quem nos faz a observação.
Também há quem ache que ser artista é ser nababo: faz lá a tua arte e cala-te. Como se isso fosse possível. Bem, até é: há quem defenda artistas de entrar-por-um-ouvido-e-sair-imediatamente-pelo-outro só porque uma vez acertou uma.
E depois há as confrarias, que se unem sempre que um seu membro está a deixar ficar mal a alcateia. Uivam ao luar e nos suportes comunicacionais que os suportam. São a voz do dono. Vale (quase) tudo. Acusam quem não habita a caverna com precisão definitiva: «Tão giro, gente de esquerda a querer censurar e cancelar». Esqueçam a ideia de que esta atitude denota ignorância. Não são ignorantes. São gente preocupada com o seu cofre pessoal e intransmissível, e com a boa sobrevivência de quem ciranda ali à volta.
Temos que respeitar toda a gente. Temos? Também temos que respeitar e conviver com gente miserável que apoia a exterminação de um povo? Temos que apoiar os sessenta energúmenos — apoiantes dos governos criminosos de Israel e dos EUA — que se sentam no Parlamento, só porque foram eleitos pelo povo? Era o que faltava. Não temos que respeitar xenófobos, racistas e outros «istas» que me inibo agora de mencionar. Quero mesmo que essa gente toda se... (vocês sabem onde quero chegar, não é verdade?).
Assim, em jeito de remate, assinalo o seguinte: ninguém defendeu o cancelamento e ninguém apela à censura. Quem quer participa no que quer. Quem não quer, não participa e diz porquê. Chama-se atitude, e eu estou com eles. Gosto de quem toma atitudes. Não gosto de nababos. E também não gosto de quem relativiza tudo, como se tudo pudesse ser apagado com um convívio à volta de um bom gelado no Verão. O sol, quando nasce, é para todos e, às vezes, aquece as ideias. Quem disse que isso é mau? Vamos ao gelado, todos juntos. Excepto negacionistas do genocídio. Com esses, não vou a lado nenhum.
Design de comunicação
sábado, 12 de setembro de 2026
A espuma da semana
| Major Tom |
Já que as grandes preocupações políticas do momento são programadas pelo partido estouvado, fazia-se assim: mandava-se Luís Neves de novo para a PJ, onde foi feliz — embora na PJ seja fácil ser feliz, porque é uma excelente polícia e já o era antes de Luís Neves — e, para que as coisas se resolvessem sem mais atrasos, colocava-se o Bispo de Setúbal como pároco da PJ. Como o prelado se entretém em jantares de Natal com os estouvados, podia ser que, no confessionário, o estouvado-mor confessasse o que aconteceu verdadeiramente no assalto ao seu gabinete, já que é o único que parece ter lá estado na hora do crime. Tenho dúvidas — o biltre é capaz de tudo, até de se chamar santo a si próprio —, mas sempre seria uma tentativa.
E para o Ministério da Administração Interna ia o Major Tom. Ele aqui farta-se de ladrar aos porcos do vizinho; mesmo do outro lado da cerca, os porcos reagem ruidosamente, mas acabam por ir para a pocilga. Era só.
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Manhattan já está a arder
Foi há 25 anos. Isto é uma guerra, pensei e disse à minha gente. Éramos três a percorrer a Quinta Avenida. Tínhamos o voo para Lisboa marcado para essa tarde do dia 11. Aquele passeio pela avenida seria o último da viagem à cidade que nunca dorme, dizem (há cidades que dormem?). No dia anterior tínhamos estado em território das Torres. Este relato é de quem esteve perto da tragédia e sentiu o sofrimento humano.
Era cedo. Quem trabalhava na big city caminhava em passada larga, a caminho dos lugares das suas ocupações diárias. De repente, ouve-se um estrondo, seguido do romper de uma fumarada espessa pelos ares. Estávamos a pouco mais de dois quilómetros da zona atacada. As pessoas interrogavam-se. "Foi um avião contra o Empire State Building", "Foram estes", "Foram aqueles", "Foram aqueloutros". Abrem-se as portas de um carro. O proprietário quer que as notícias que passam no rádio sejam ouvidas por todos. Afinal, tinha sido um avião contra uma das Torres Gémeas. E agora mais outro contra a outra. O espanto tornou-se preocupação e sofrimento. A destruição e a morte tornavam-se uma preocupação generalizada na cidade. E no mundo, é claro. Uma mulher muito jovem tentava falar com o namorado, que pegara cedo ao trabalho nas torres. O desespero fazia-lhe estremecer o corpo. Todos nos sentíamos solidários.
Depois foi assistir ao desfile da gente agredida por aquele acto hediondo. Cruzámo-nos com aquelas figuras humanas cobertas de uma poeira uniformemente cinzenta, de fato completo e pasta pela mão, ou em mangas de camisa, ou mesmo de tronco nu. Gente de carne e osso que mais parecia saída de esculturas de Juan Muñoz. Não as figuras sorridentes, mas outras, agora, esculpidas num realismo que convocava a tristeza da destruição.
Mergulhámos nas notícias. O hotel, próximo de Times Square, facilitava a curiosidade. Ali aguardávamos informações de Bush, o presidente taralhoco. Ficámos mais cinco dias em Manhattan. Agora estávamos na cidade mais segura do mundo. Aviões militares rompiam frequentemente os ares. Assistimos a acções de solidariedade com as vítimas. A rua estava tão frequentada como sempre.
No regresso, viajámos num avião que nos disseram ser o maior do mundo. Foi no domingo seguinte que partiram para a Europa os primeiros europeus que ainda permaneciam na cidade. Fizemos escala em Frankfurt e chegámos a Lisboa pela noitinha.
Fomos os primeiros portugueses a chegar a Portugal, informou-nos uma jornalista de uma estação de televisão. Lá me dispus a ir a um programa dar algumas opiniões sobre o assunto. Um programa da manhã. Com gente aos pulos e cantores manhosos em exibição. Enfim, ninguém é perfeito. E eu sinto-me muito próximo da imperfeição mais perfeita quando cedo nestes assuntos de empata-audiências.
Manhattan é um sítio incrível. Adorámos. Mas nunca estamos sozinhos no mundo. E o mundo esteve mal por aqueles dias. Tudo piorou. E continua a piorar. Não se vê solução. George Bush era o presidente naquele tempo. A sua administração parecia umbater no fundo. Mas o asqueroso Donald Trump veio desmentir essa ideia. Com este presidente, tudo é possível. Já percebemos. Os terroristas agora são outros. Agora treinados a partir de Washington por um alucinado. Tudo piorou.
NOTA DE RODAPÉ: Na mesma data, mas em anos diferentes, em 1973, ocorreu o golpe de Estado no Chile: militares liderados pelo general fascista Augusto Pinochet, com o apoio da administração norte-americana de então, bombardearam o Palácio de La Moneda. Tenho assinalado este acontecimento todos os anos, quando abordo esta data. Este ano, dei maior relevo aos ataques em Nova Iorque, por seassinalarem 25 anos e também porque eu estava lá. Fica feito o esclarecimento.
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
Lena Afonso
Era assim que era conhecida pelos amigos. Vi na página — Facebook — do Henrique (Guerreiro) que tinha morrido a Lena. Morte inesperada que nos deixa sem saber o que dizer. Deixa-nos neste «redondo vocábulo», como escreveu e cantou o seu pai. E é mais uma «soma agreste» que cresce entre amigos desaparecidos.
Tivemos sorte em ter-te como amiga.
Obrigado por isso.
Design de comunicação
DA SÉRIE GRANDES CAPAS | The New Yorker. Art: Lennart Gäbel.
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
E os manicómios são para os malucos
Dançar Educação e Cultura

A Quorum Dance Company completou, em 2025, vinte anos. É uma estrutura absolutamente extraordinária, que saiu da cabeça de um visionário dos nossos dias: Daniel Cardoso. Ontem, passou na RTP2 um documentário que não me deixa mentir.
terça-feira, 8 de setembro de 2026
Humor com humor se paga
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
No tempo em que os animais falavam
O homem-sapo português congratulou-se, entusiasmado, com a vitória dos herdeiros de Hitler na Alemanha. A mulher-Hitler (lamento, mas não encontrei animal mais repugnante para a ilustrar) ficou radiante e, empolgada com o seu característico patriotismo, agradeceu a Musk e a todos os nazis. Valentona.
Contradigo-me?
Walt Whitman. FOLHAS DE ERVA. Canto de Mim Mesmo (Secção 51)
(Edição: Relógio D'Água. Tradução de Maria de Lourdes Guimarães. Prémio de tradução Pen Club, 2002)
domingo, 6 de setembro de 2026
Elogio do extraordinário
GREAT LOVES | Esta colecção Great Loves da Penguin Books é um bom exemplo de como o design editorial pode reinterpretar clássicos da literatura com sofisticação, contenção e apelo comunicativo, adicionando-lhes contemporaneidade.
Resumindo e elogiando: a Penguin Group entrega nesta colecção um trabalho gráfico de excelência. Ao abdicar do óbvio ou do figurativo direto, o design aposta na sugestão do simbolismo visual para evocar o tom atmosférico da obra. Trata-se de uma solução estética sem tempo cronometrado que valoriza o livro enquanto objeto visual e convida o leitor à reflexão antes mesmo de mergulhar na leitura. Estes pequenos livros fazem parte das minhas referências estéticas há muito tempo; devoro-os e volto lá frequentemente para apreciar a competência do grafismo. Cheguei a comprar um ou outro exemplar sem me preocupar com o conteúdo incluso. Mesmo aí, não me desiludi: a Great Loves dá a conhecer muitos dos melhores textos dos melhores autores. Tudo nesta coleção é extraordinário. Viva ela.
sábado, 5 de setembro de 2026
Vale tudo
Todos percebemos que o assalto ao gabinete foi uma encenação. Também sabemos o que aquela gente quer com a moção de censura, por causa de um ministro que não está para reconhecer as razões dos fascistas, independentemente da fragilidade política que o sustenta com evidente dificuldade. Percebemos que o líder fascista é capaz de tudo, como acontece com qualquer líder fascista.
A propaganda é a prioridade. A transmissão da mentira é útil às suas sinistras intenções. Os gigantescos cartazes espalhados por todo o país não desmentem esta ideia: falem de nós, nem que para isso se invente o que for preciso. Os jornais e os jornalistas, com certeza instruídos pelos donos das empresas de comunicação, dão palco às criaturas de Ventura. O próprio Ventura é chamado a dizer coisas a toda a hora. As criaturas confirmam as mentiras e os dislates do chefe supremo, que se autonomeia um enviado pelo divino. Palco não lhes falta. Fazem a agenda e defendem-na com garra, nem que a voz lhes doa. Chegam a desmentir-se no mesmo debate. Envergonham-se disso? Nunca. A falta de vergonha na cara é a imagem destes cretinos.
Mas estão contentes com esse espetáculo mediático? Nem pensar. Querem tudo. Querem que seja divulgado unicamente o que inventam. Saudades do lápis azul. Bons salazaristas. O inenarrável deputado/veterinário privado de Ventura não gosta de jornalistas. Os da Lusa são nojentos, diz. E adianta que vai fechar a agência logo que o seu partido chegue ao poder. Percebemos que os fascistas pretendem elaborar a comunicação que querem que seja ouvida, lida e falada. Os jornalistas são um empecilho aos seus intentos. Nada de novo existe na ameaça. Sempre pensaram assim, os fascistas.
Imagem: cartoon de Nuno Saraiva - Inimigo Público
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
A sofisticação da morte
O governo de Benjamin Netanyahu continua a fazer sofrer uma população inteira — um povo que se vê expulso do seu território, sem qualquer respeito pelas regras estabelecidas internacionalmente. Uns seres sem classificação foram de Portugal apoiar o genocídio que dizem não existir. Chamar-lhes seres humanos não condiz com qualquer classificação razoável. Não são classificáveis; envergonham-nos.
A morte sai à rua todos os dias. As pessoas em Gaza são assassinadas sem qualquer hesitação. E não é com "falinhas mansas" que tudo acontece: é com material bélico. Pessoas tornam-se alvos a abater. As crianças são alvos porque é o futuro daquele povo que querem apagar do mapa. A existência de um povo anula-se assim: à bomba e ao tiro. Em pleno século XXI, são usadas armas de destruição cada vez mais sofisticadas. Estes poderes autoritários só pensam na sofisticação do mal e na aplicação da violência. A morte fica-lhes a matar.
Gloria Steinem
Texto de Helena Vasconcelos no facebook: Durou séculos, durou milénios. Impingiram-nos a ideia de que era muito melhor ser "feminina" do que ser” feminista”. As mulheres deviam ser belas e amáveis, os homens podiam ser horrendos, fisicamente, mas não importava porque tinham “ideias”. Quando as feministas começaram a falar alto, as “ideias” não importavam e propagandeavam como eram feias, bigodudas, malcriadas e sem atrativos ( para os homens). Nunca fui na conversa e quando “descobri” Gloria Steinem – que morreu ontem, com 92 anos (1934-2026) – percebi tudo. Gloria era linda, sexy, destemida, feminista sem complexos nem temores. Quando apareceu ( nos anos 1960) como “coelhinha”, na Playboy – o suprassumo da objetivação da mulher – o escândalo não podia ter sido maior. Para as feministas tratou-se de uma traição – Gloria era jornalista e “infiltrou-se “para escrever sobre esse tema – para os outros só demonstrava que ela “era como as outras” – um belo corpo, uma mulher belíssima cujas ideias não eram para levar a sério.
O crime compensa?
Com tanta falsidade a circular por aí, já não basta procurar a verdade: é preciso uma candeia, uma bússola e muita paciência. É que a mentira espalha-se com uma facilidade quase inacreditável, quando encontra quem a queira vender como verdade — e quem esteja disposto a comprá-la sem pedir comprovativo.
Tempos estranhos. Tudo parece mentira. Desconfiamos de tudo. Tememos sempre o pior. E o mais inquietante é que, demasiadas vezes, descobrimos que o pior não era uma previsão pessimista. Era simplesmente a mentira a mostrar todo o seu esplendor.
Será em novembro que os americanos vão finalmente perceber o lamaçal em que Trump os meteu? O homem delibera assistido por uma insensatez aparentemente infantil. Os exercícios de egocentrismo imbecil são de divulgação diária. A credibilidade da América é destruída à velocidade de cada discurso do biltre. Reconstruí-la vai dar trabalho. Muito trabalho. A América decente terá de se esforçar durante anos para limpar o estrago causado ao mundo neste período em que o crime deixou de ser crime para passar a ser apresentado como virtude; a mentira, como estratégia; e o autoritarismo, como dádiva divina. É uma extraordinária inversão de valores: quem mente é um visionário, quem ameaça é um líder, quem trapaceia é um vencedor e quem acredita na trapaça é um vulgar imbecil que se julga vencedor também.
Aguardemos, portanto, que Trump vá pregar para longe e chame para a viagem o Ventura dos chiliques e dos amoques — dava jeito à decência e razoabilidade aqui do jardim —, mais todos os fascistas de serviço pelo mundo. Já fedem. À naftalina das ideias juntam o cheiro do crude e do lixo que espalham sem reciclar. Gente assim, tão mal-cheirosa, pode ir para bem longe. Para Marte, talvez. Musk já ligou os motores dos foguetões?



























