CLUBE DOS PROFESSORES CONTEMPORÂNEOS | Publiquei aqui um texto quando soube que a professora Isabel Monteiro já não estava entre nós. Foi em Maio de 2013. Recordo-a agora, em jeito de homenagem, adaptando a publicação a esta nova realidade em que vivemos, porque acho que existiram pessoas que não merecem ser esquecidas. Há professores que recordamos acompanhados pela tristeza de não voltarmos a conviver com a sua inteligência, humor e cultura. Atitudes e comportamentos que nos transmitiram com grande sentido de dever.
ISABEL MONTEIRO. PROFISSÃO: PROFESSORA | Estamos sempre a aprender, diz-se. É verdade. Mas existem dedicados profissionais do ensino que moldam a nossa curiosidade com competência, transmitindo valores de cidadania e solidariedade que nos marcam para sempre. O professor Agostinho da Silva citava uma amiga analfabeta: "a escola devia estar sempre aberta, para eu ir lá perguntar o que não sei". Há professores que são assim: uma escola aberta. Guardo na memória um raminho deles. Isabel Monteiro ocupa lugar especial na minha memória. Foi com grande prazer que frequentei as suas aulas. Era professora de inglês. Praticava um ensino que nos colocava no centro do mundo. Saíamos da lusa tacanhez de então. Colaborou em edições pedagógicas. Concebeu manuais que usámos para aprender. Uma Professora assim, com maiúscula. Em Abril de 1974, quando tudo mudou para muito melhor nas nossas vidas, leccionava no Liceu de Setúbal. Lembro-me de uma reunião convocada pela associação de alunos, no ginásio, que apelava a um exercício de justiça. Havia dúvidas sobre o comportamento do reitor no tempo da repressão: suspeitas de ser informador da PIDE. Claro que na altura não existia ainda o partido que sugere a ressureição de Salazar. Sabermos que o reitor era informador da PIDE era perturbador e muito revoltante. Lembro-me de Isabel subir ao estrado e opinar: não podemos ser injustos. Acima de tudo é preciso apurar a verdade. O reitor deve ficar se for provado que não pertenceu à polícia política. Mas se for provado o contrário, se se provar que pertenceu, é bom que saia e depressa. Vibrante aplauso. Isabel era assim. Esclarecida, destemida, mas com uma admirável lucidez. Justa e culta, tomava decisões que nos protegiam e exortavam a que nos defendêssemos. Uma mulher contemporânea, que assumiu o seu tempo com autenticidade e vontade de participar na evolução do sistema de ensino.
Nunca a perdi de vista. Convivíamos entrecortadamente em actividades culturais e políticas que iam acontecendo. Muito mais tarde encontrava-a num café perto da estação ferroviária. Antes de eu rumar a Lisboa, falávamos do estado a que isto chegou. Lembro-me de um dia em que estava muito chocada por Salazar ter vencido um concurso televisivo. O mais importante português, o português do século XX, ou coisa do género. O concurso opunha Salazar a Álvaro Cunhal. Foram os finalistas nesta ideia parva. O fascista Jaime Nogueira Pinto foi o defensor/promotor de Salazar. Odete Santos defendeu Cunhal, obviamente. Isabel estava num justificado estado de indignação. Aquilo foi para ela um choque. Às vezes imagino o que pensariam estas pessoas que reagiram contra de Salazar e viveram a alegria da fundação da democracia, dos sessenta energúmenos fascistas que hoje lançam desavergonhadas ofensas a quem os combateu e defendem desavergonhadamente o regime do tiraninho, como foi definido por Fernando Pessoa. Gente menor que nos envergonha no parlamento, nas televisões e nos jornais. O desconforto da professora com a vitória do ditador criminoso no concurso da treta provocou-me incómodo e solidariedade: isso foi um concurso imbecil, sem nível nenhum, e não tem qualquer importância, disse-lhe. Concordou.
Mais tarde combinámos uma visita ao meu atelier, em Lisboa. Dei-lhe um cartão para fixar contactos. Vim a saber pouco depois que estava doente. Era coisa ruim, mas sempre pensei que sem motivos para grandes preocupações. Soube que tinha morrido algum tempo depois desse fim. Foi a surpresa e o choque. Como é que eu não soube de nada? Como é que uma pessoa tão importante para tanta gente parte assim? Não posso concordar com esta invisibilidade. É injusto. Queria tanto que ela fosse ao meu atelier. Queria tanto continuar com ela a arrasar fascistas naquele café perto da estação. A luta era travada à volta de um cafezinho, mas fazia sentido. Todos os momentos são bons para tentarmos perceber o porquê de tudo isto acontecer. De que buracos surge esta gente sem educação, sem cultura e sem maneiras? Não tive oportunidade de me despedir. As despedidas são um abandono. Isabel Monteiro viverá para sempre na minha memória. O meu reconhecimento permanecerá. Gosto muito de si, senhora professora Isabel Monteiro.
E cá estaremos, para combater os velhos e os novos fascistas imberbes e videirinhos. São figurinhas ridículas que a essa dimensão devem ser reduzidas. Quem nos ensinou e deu educação será sempre exemplo. Muito obrigado por tudo. Muito obrigado mesmo.















