quarta-feira, 23 de setembro de 2026
O Tempo, esse exterminador
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Mr Chance já governa?
Being There é um filme em que Peter Sellers desempenha o papel de um jardineiro simples e de raciocínio lento — Mr. Chance —, que passa a vida em frente à televisão e quase chega a presidente dos EUA. Não chegou. Mas Trump chegou, e não é ingénuo como Mr. Chance — é um ser demencial, convencido de que é o homem mais inteligente de sempre.
José Viale Moutinho
Morreu José Viale Moutinho. A ceifeira não desarma. Recordo de imediato os escritos sobre José Afonso e o seu tempo de surpresa. Foi uma edição do José Viale que me revelou o poeta José Afonso. Sempre acompanhei o seu trabalho. Também li os romances. "Cenas da vida de um Minotauro" e "Monstruosidades do tempo do infortúnio" impressionaram-me.
Mas tenho uma história para contar, que me desculpem os caçadores de autores de obituários. Não o sou, apenas recordo quem respeito. José Viale Moutinho escreveu-me uma carta onde me sugeria a publicação de um livro seu. Eu tinha acabado de constituir a Estuário e o autor dos textos que deu a conhecer a poesia de José Afonso e os seus envolvimentos queria editar lá. Eu, empenhado na edição de "O Teodolito" de Luiz Pacheco, e de "Terral" de Miguel de Castro, não consegui responder a tempo. Fui indelicado, eu sei. Mas o José Viale Moutinho percebeu a embrulhada em que eu estava metido. Trocámos algumas mensagens (por carta, que naquele tempo era mesmo assim), mas acabámos por não fazer a edição. As razões foram duas: eu não tinha tempo nem dinheiro para enviar para impressão tanto livro de seguida. Lembro-me do fim de uma das suas cartas. Dizia assim: "você é um chato". Tinha razão. Fui um chato. O homem queria mesmo editar na Estuário e eu não percebi isso. Fui um chato mesmo. Fizemos as pazes em conversa por telefone (meio de comunicação mais avançado para a época). "Não há aqui pazes a fazer. Continue a fazer livros bonitos". Bonito serviço, pensei. Chama-se a isto bofetada de luva branca.
Eu gostava muito do José Viale Moutinho. Jornalista corajoso. Escritor de mão segura e cabeça culta. Homem bom. Nem me tinha apercebido de que ele já tinha mais de oitenta anos. A juventude da sua escrita não o fazia entender. Prova que a juventude não está na mente nem no que se faz. Mas o tempo está lá, e é implacável. Este fim é uma tristeza. A morte é um fim trágico. Sempre. Muito obrigado, meu amigo.
Obrigado, Jorge Palma
FRÁGIL | A vida é assim: frágil, como a definiu numa das suas mais viajadas canções. Jorge Palma foi um intenso viajante, mesmo quando não saía do seu lugar. Um andarilho, como se definiu José Afonso nos seus cantares iniciais. Jorge Palma cantou em estações de metro e em ruas deste agitado mundo tão alheio às diferenças. Ele quis ser diferente. Foi um cantor de todos os protestos quotidianos. Bem preenchido de excessos. Com a liberdade a instigar-lhe o corpo e a mente. Despertou os sentidos e nunca mais ficou quieto. Este fim físico do cantor desperta-nos essa vontade de não ficarmos calados e quedos. Como cantou o seu amigo Sérgio (Godinho): «Ficar parado? Antes o poço da morte que tal sorte». Pois é — a morte, essa ceifeira de vidas, leva-nos um dos nossos artistas mais livres. Um inventor de sons, que pedia ajuda às palavras para completar ideias. A liberdade que cantou fica agora nos nossos sentidos. A nossa liberdade de criar e imaginar irá ser sempre recordar artistas como Jorge Palma. Ele ajudou-nos muito. Muito obrigado, Jorge.
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Ainda não acabámos, como é óbvio
Em Berlim, capital de uma Alemanha em alerta pelo crescimento absurdo da extrema-direita, venceu a Esquerda. Berlim é de Esquerda porque a Esquerda berlinense compreende o seu tempo.
É preciso falar verdade e responder a quem vive problemas reais. A Esquerda perde quando se perde em distracções woke. A Esquerda não é woke: não relativiza as diferenças, assume-as. Denuncia, apresenta soluções e debate opiniões com transparência. A razão da Esquerda afirma-se como a verdadeira alternativa ao imobilismo que gera o desespero. A Esquerda faz política, não caridade. Preocupa-se com a democracia, valoriza a Cultura e reconhece na Arte o motor da análise crítica. São estas preocupações que alimentam o debate de ideias — indispensáveis à construção da Democracia. Viva a Esquerda de Berlim. Nazi-fascismo nunca mais!
Design de comunicação
DA SÉRIE GRANDES CAPAS | O fascismo é uma minhoca, não é?
domingo, 20 de setembro de 2026
Aos domingos
ELOGIO DO EXTRAORDINÁRIO
EU QUE JÁ FUI EU | O título está bem apessoado, mas poderia perfeitamente ser este: «O que já foi ainda é». O texto de Paula Parente Pinto (curadora), na folha de sala, define trajectos. Estamos em território de reconhecimento de um passado que insiste em reinventar-se.
O que aqui se revela é o gesto da artista perante a matéria encontrada. O reaproveitamento de materiais outrora de uso útil (ou nem por isso), e a sua integração em novos suportes, dá-lhes novas formas de vida. Pequenas utilidades (ou nem por isso) são transformadas em novos símbolos, agora simplesmente visuais, sem a necessidade de responder a um uso. É da vida e dos «produtos» que a animam que falamos, quando abordamos estes trabalhos de Maria José Oliveira. O objecto muda de lugar, mas fica um lastro que denuncia outros comportamentos. Outros testemunhos de percurso. O reconhecimento que a artista acumula por esse mundo fora é testemunho da competência dessa vontade de mudar trajectos. A utilidade tem agora outra exigência, para nosso bom proveito.
Paula Parente Pinto termina o texto dizendo: «Num mundo irreversivelmente materialista, o que é surpreendente é o reconhecimento de que a sua capacidade transformativa está no gesto e na pergunta, na contínua interrogação que nos coloca: “o que pensas disto?” E é a crença na resposta humana que faz com que o mistério persista».
EU QUE JÁ FUI EU | Maria José Oliveira | MNAC — Museu Nacional de Arte Contemporânea Chiado, Lisboa.
Até 4 de Outubro de 2026.
sábado, 19 de setembro de 2026
Aos sábados
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Receituário
𝗠𝗔𝗜𝗦 𝗟𝗢𝗡𝗚𝗘 𝗤𝗨𝗘 𝗔 𝗖𝗢𝗜𝗦𝗔 𝗠𝗔𝗜𝗦 𝗟𝗢𝗡𝗚𝗘 𝗱𝗲 𝗭𝗶𝗻𝗻𝗶𝗲 𝗛𝗮𝗿𝗿𝗶𝘀 no 𝗧𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼 𝗣𝗮𝘂𝗹𝗼 𝗖𝗹𝗮𝗿𝗼.
As figuras tristes das tristes figuras
Há quem ache que o ideal para os eleitores de extrema-direita perceberem o que é a extrema-direita no poder basta "pôr lá" o líder e aquela malta fica logo a perceber o que é "levar nos cornos". Nada mais errado. Quem já vive na merda não se importa que toda a gente fique na merda. Aprovam todas as decisões que aplicam supressão de direitos e anulam conquistas. As excepções a esta realidade manhosa são poucas.
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Receituário
Tudo o que a esquerda não quer dizer
SINOPSE: O mundo mudou e a Esquerda não notou. Precisa de ajuda. De autoajuda. Fazer companhia à psicologia barata e aos manuais sobre emagrecimento pode ser, para uma Esquerda elitista, uma forma de descer à terra. Presa na bolha da academia e das sedes partidárias, a Esquerda afastou-se do povo. O resultado está à vista. Para não morrer, a Esquerda tem de rebentar a bolha.
Manuel Afonso, (autor), Alice Pinho e Nuno Ramos de Almeida, vão estar na Culsete, no próximo dia 17 (quinta-feira), para se explicarem melhor sobre isto. Também tenho umas ideias para trocar sobre o assunto. É por isso que não vou faltar a este encontro " nem que choval picaretas". Até lá.
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Juntos conseguimos
Esquerda unida vence eleições na Suécia. Habituei-me a considerar a social-democracia sueca como um esclarecimento: o projecto político social-democrata é de esquerda, como é óbvio. Olof Palme foi sindicalista e era primeiro-ministro quando a sua vida foi interrompida à saída de um cinema. Nunca se provou quem o matou. Mas as desconfianças de que tenha sido acção da extrema-direita sempre existiram.
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Almanaque de histórias mal contadas
Os gostos discutem-se, porque os gostos são ideias. Ninguém pensa pela sua cabeça sozinho, sem introduções inesperadas. Existe um histórico de acumulação de informação, ou até de conhecimento mesmo, que forma opiniões e desperta a necessidade de comunicarmos. Os que se calam porque os gostos não se discutem estão completamente enganados.
O humor é uma coisa muito séria quando tenta formar públicos. Há humoristas que arrastam multidões só porque fazem rir. E há humoristas que trabalham o riso com substância cultural e política. Quando comunicamos publicamente, estamos a transmitir cultura e política. O humor pode ser apenas uma ferramenta.
A discussão que ferve por aí sobre a participação de um humorista famoso num festival de humor faz todo o sentido, porque é essa discussão sobre o que gostamos e não gostamos que está em causa. Há outro dito muito ditado que diz assim: «Isso é apenas a tua opinião, vale o que vale.» Claro que vale o que vale, e vale muito para quem a defende. Outro: «Só defendes isso, mas não falas no que...», e aludem ao que é contra o que se defende, que é o que defende quem nos faz a observação.
Também há quem ache que ser artista é ser nababo: faz lá a tua arte e cala-te. Como se isso fosse possível. Bem, até é: há quem defenda artistas de entrar-por-um-ouvido-e-sair-imediatamente-pelo-outro só porque uma vez acertou uma.
E depois há as confrarias, que se unem sempre que um seu membro está a deixar ficar mal a alcateia. Uivam ao luar e nos suportes comunicacionais que os suportam. São a voz do dono. Vale (quase) tudo. Acusam quem não habita a caverna com precisão definitiva: «Tão giro, gente de esquerda a querer censurar e cancelar». Esqueçam a ideia de que esta atitude denota ignorância. Não são ignorantes. São gente preocupada com o seu cofre pessoal e intransmissível, e com a boa sobrevivência de quem ciranda ali à volta.
Temos que respeitar toda a gente. Temos? Também temos que respeitar e conviver com gente miserável que apoia a exterminação de um povo? Temos que apoiar os sessenta energúmenos — apoiantes dos governos criminosos de Israel e dos EUA — que se sentam no Parlamento, só porque foram eleitos pelo povo? Era o que faltava. Não temos que respeitar xenófobos, racistas e outros «istas» que me inibo agora de mencionar. Quero mesmo que essa gente toda se... (vocês sabem onde quero chegar, não é verdade?).
Assim, em jeito de remate, assinalo o seguinte: ninguém defendeu o cancelamento e ninguém apela à censura. Quem quer participa no que quer. Quem não quer, não participa e diz porquê. Chama-se atitude, e eu estou com eles. Gosto de quem toma atitudes. Não gosto de nababos. E também não gosto de quem relativiza tudo, como se tudo pudesse ser apagado com um convívio à volta de um bom gelado no Verão. O sol, quando nasce, é para todos e, às vezes, aquece as ideias. Quem disse que isso é mau? Vamos ao gelado, todos juntos. Excepto negacionistas do genocídio. Com esses, não vou a lado nenhum.
Design de comunicação
sábado, 12 de setembro de 2026
A espuma da semana
| Major Tom |
Já que as grandes preocupações políticas do momento são programadas pelo partido estouvado, fazia-se assim: mandava-se Luís Neves de novo para a PJ, onde foi feliz — embora na PJ seja fácil ser feliz, porque é uma excelente polícia e já o era antes de Luís Neves — e, para que as coisas se resolvessem sem mais atrasos, colocava-se o Bispo de Setúbal como pároco da PJ. Como o prelado se entretém em jantares de Natal com os estouvados, podia ser que, no confessionário, o estouvado-mor confessasse o que aconteceu verdadeiramente no assalto ao seu gabinete, já que é o único que parece ter lá estado na hora do crime. Tenho dúvidas — o biltre é capaz de tudo, até de se chamar santo a si próprio —, mas sempre seria uma tentativa.
E para o Ministério da Administração Interna ia o Major Tom. Ele aqui farta-se de ladrar aos porcos do vizinho; mesmo do outro lado da cerca, os porcos reagem ruidosamente, mas acabam por ir para a pocilga. Era só.
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Manhattan já está a arder
Foi há 25 anos. Isto é uma guerra, pensei e disse à minha gente. Éramos três a percorrer a Quinta Avenida. Tínhamos o voo para Lisboa marcado para essa tarde do dia 11. Aquele passeio pela avenida seria o último da viagem à cidade que nunca dorme, dizem (há cidades que dormem?). No dia anterior tínhamos estado em território das Torres. Este relato é de quem esteve perto da tragédia e sentiu o sofrimento humano.
Era cedo. Quem trabalhava na big city caminhava em passada larga, a caminho dos lugares das suas ocupações diárias. De repente, ouve-se um estrondo, seguido do romper de uma fumarada espessa pelos ares. Estávamos a pouco mais de dois quilómetros da zona atacada. As pessoas interrogavam-se. "Foi um avião contra o Empire State Building", "Foram estes", "Foram aqueles", "Foram aqueloutros". Abrem-se as portas de um carro. O proprietário quer que as notícias que passam no rádio sejam ouvidas por todos. Afinal, tinha sido um avião contra uma das Torres Gémeas. E agora mais outro contra a outra. O espanto tornou-se preocupação e sofrimento. A destruição e a morte tornavam-se uma preocupação generalizada na cidade. E no mundo, é claro. Uma mulher muito jovem tentava falar com o namorado, que pegara cedo ao trabalho nas torres. O desespero fazia-lhe estremecer o corpo. Todos nos sentíamos solidários.
Depois foi assistir ao desfile da gente agredida por aquele acto hediondo. Cruzámo-nos com aquelas figuras humanas cobertas de uma poeira uniformemente cinzenta, de fato completo e pasta pela mão, ou em mangas de camisa, ou mesmo de tronco nu. Gente de carne e osso que mais parecia saída de esculturas de Juan Muñoz. Não as figuras sorridentes, mas outras, agora, esculpidas num realismo que convocava a tristeza da destruição.
Mergulhámos nas notícias. O hotel, próximo de Times Square, facilitava a curiosidade. Ali aguardávamos informações de Bush, o presidente taralhoco. Ficámos mais cinco dias em Manhattan. Agora estávamos na cidade mais segura do mundo. Aviões militares rompiam frequentemente os ares. Assistimos a acções de solidariedade com as vítimas. A rua estava tão frequentada como sempre.
No regresso, viajámos num avião que nos disseram ser o maior do mundo. Foi no domingo seguinte que partiram para a Europa os primeiros europeus que ainda permaneciam na cidade. Fizemos escala em Frankfurt e chegámos a Lisboa pela noitinha.
Fomos os primeiros portugueses a chegar a Portugal, informou-nos uma jornalista de uma estação de televisão. Lá me dispus a ir a um programa dar algumas opiniões sobre o assunto. Um programa da manhã. Com gente aos pulos e cantores manhosos em exibição. Enfim, ninguém é perfeito. E eu sinto-me muito próximo da imperfeição mais perfeita quando cedo nestes assuntos de empata-audiências.
Manhattan é um sítio incrível. Adorámos. Mas nunca estamos sozinhos no mundo. E o mundo esteve mal por aqueles dias. Tudo piorou. E continua a piorar. Não se vê solução. George Bush era o presidente naquele tempo. A sua administração parecia umbater no fundo. Mas o asqueroso Donald Trump veio desmentir essa ideia. Com este presidente, tudo é possível. Já percebemos. Os terroristas agora são outros. Agora treinados a partir de Washington por um alucinado. Tudo piorou.
NOTA DE RODAPÉ: Na mesma data, mas em anos diferentes, em 1973, ocorreu o golpe de Estado no Chile: militares liderados pelo general fascista Augusto Pinochet, com o apoio da administração norte-americana de então, bombardearam o Palácio de La Moneda. Tenho assinalado este acontecimento todos os anos, quando abordo esta data. Este ano, dei maior relevo aos ataques em Nova Iorque, por seassinalarem 25 anos e também porque eu estava lá. Fica feito o esclarecimento.


































