quarta-feira, 14 de abril de 2021

História é história


Cada vez mais faz menos sentido designar como grande história a história das nações apenas contemplando episódios da política, dos heróis e dos vilões das passadeiras vermelhas da socialização coquete e dos grandes tratados. A história é o que de saliente acontece num tempo e depois é contado noutro, mais tarde. De tudo o que acontece em nosso redor, o que sobressai fica para a história, mas os enleios em que tudo se desenvolveu contribuíram para essa exaltação. 

As publicações Estuário lançam agora esta colecção em que essas histórias têm o merecido destaque. Chama-se o empreedimento A HISTÓRIA DO MUNDO É A HISTÓRIA LOCAL e abre com este BREVE HISTÓRIA DA FREGUESIA DE SÃO SEBASTIÃO, SETÚBAL. É um livro notável, com investigação e escrita de Diogo Ferreira. Vai ser apresentado dia 26, no auditório das novas instalações da Junta de Freguesia de São Sebastião. A Cátia (garota não) vai resolver a parte musical. Prevê-se o melhor.

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terça-feira, 13 de abril de 2021

Design de comunicação

Da série Grandes Capas 


O teletrabalho tornou-se a maneira mais segura e económica de trabalhar. Segura para o trabalhador: não se arrisca a contactos e contágios. Económica para o empregador: reduz custos efectivos. Ou seja, assim de repente parece ser o futuro do trabalho intelectual, administrativo ou de gestão. O ideal é ir tudo para casa e trabalhar de pijama. Até se poupa na vestimenta. Os encontros via zoom, ou em outras plataformas cada vez mais eficazes, são a grande sala de reuniões da grande multinacional. 

O teletrabalho não é novidade para mim. A minha área de trabalho não necessita de ser frequentada fisicamente com insistência diária. Há anos que ando nisto. Mas agora, nesta altura em que o teletrabalho é a solução para todos os males, começo a sentir a falta do outro. Do encontro ao almoço, do copo ao fim da tarde, do lançamento, da abertura da exposição onde se encontram os amigos e os amigos dos amigos. Não se vê um fim disto. Não se encontra uma solução. A revolução tecnológica fornece-nos o teletrabalho apenas. Esperemos que não se torne qualquer coisa aparentada a uma telescravidão. Esperemos que a geração que desponta para o trabalho durante esta pandemia, venha um dia a conhecer o prazer de estar com alguém a trabalhar. As pessoas devem de estar em primeiro lugar, muito antes do trabalho, e muito antes ainda do teletrabalho. As pessoas precisam de estar umas com as outras. O trabalho só é um prazer quando o outro também está a trabalhar ali ao lado. Vamos beber um café?

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segunda-feira, 12 de abril de 2021

Design de comunicação

Da série Grandes Capas.


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sábado, 10 de abril de 2021

Modos de fazer paisagem






A paisagem rodeia-nos e ilustra vivências e passagens do tempo. Vivemos rodeados das memórias impressas nesses ambientes colectivos. São telas instaladas em nosso redor. As exposições VIAGEM MAIOR, de Duarte Belo e João Abreu, e APODIDRASKINDA, de Katie Lagast, visionáveis na Casa da Avenida desde ontem, têm em comum um certo reconhecimento do valor da paisagem e da importância e influência que têm nas nossas vidas.

Duarte Belo e João Abreu habituaram-nos ao rigor fotográfico aliado a uma preocupada interpretação da natureza. Estas paredes transportam interrogações e receios. A paisagem é assunto muito sério. A sua interpretação e protecção não podem ser encarados com excessiva descontração. As imagens passam para livro, onde se explicam com textos também de elevado rigor científico e estético. Uma grande viagem, esta VIAGEM MAIOR.
APODIDRASKINDA, de Katie Lagast é uma belíssima instalação, onde a interpretação da realidade urbanística tem aqui contornos de elevada atenção pela cor e forma da tradição urbana. Carlos Botelho (o pintor de Lisboa), disse uma vez que a cor da cidade é o rosa. Parece-me que Katie Lagast considera razoável a apreciação do mestre pintor. Percebeu isso ao desembrulhar tecidos usados e ao olhar em seu redor.
Sugiro visita. Estamos perante duas exposições de grande qualidade. Dois olhares tão distantes e tão próximos. Duas concepções universais e contemporâneas do mundo e da sua forma.

CASA DA AVENIDA, GALERIA. Avenida Luísa Todi, 286, Setúbal.

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sexta-feira, 9 de abril de 2021

Do umbigo e do vómito


A criatura que faltava no parlamento, mas que descansava no assunto porque alguém fingia que ele estava lá, veio apresentar as lamentáveis escolhas autárquicas. 

Para ele uma coisa é isto das câmaras e freguesias e assim, outra é uma eleição para o parlamento. Ou seja: para as câmaras qualquer delinquente político serve, para o parlamento pia mais fino. Para o PPD/PSD existem políticos de primeira e políticos de segunda e terceira e assim sucessivamente. A abécula que escolheram para a Amadora inscreve-se na extrema-direita mais troglodita. E já sugeriu aliança com o seu amigo que saiu do dito partido social-democrata (que nunca foi), para o novo partido satélite. Esta gente não presta para nada.

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quinta-feira, 8 de abril de 2021

Pedro Cabrita Reis

PINTURAS DE PAISAGEM | A exposição tem este título. Simplesmente. São as paisagens que Cabrita tem na cabeça.

São trabalhos recentes que agora vão estar na galeria Miguel Nabinho. A abertura é amanhã, sexta-feira, dia 9, e tem horário adaptado às novas medidas do tempo: início às catorze horas e fim já lá para a tardinha/noite. 

Até já, Pedro.

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quarta-feira, 7 de abril de 2021

No divã do psicanalista


Não sei em que cálculos se baseiam os psicanalistas para encontrarem a definição de criminoso. Nem percebo em que patamares de conhecimento científico se instala a definição de imbecil.

Mas todos percebemos que se agora há "Psicanalistas que vêm cálculo político e gestão do ódio em atitudes de Bolsonaro", é porque chegaram tarde ao debate. Este primata já não devia de estar no palácio do Planalto. Uma besta quadrada não deve ser representante de um povo, nem deve governar um país. Nem vale a pena sentarem-no no divã para análise. Tragam o colete de forças. É urgente.

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terça-feira, 6 de abril de 2021

João Jacinto


REGRESSO À VIDA
| O meu amigo João Jacinto vai mostrar trabalho recente na Galeria 111. Quem conhece o seu trabalho sabe que cada mostra é uma surpresa. Surpresa boa. Motivo para festejar. É o que eu vou fazer daqui a pouco. A exposição vai ficar por lá até junho. Não a percam.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Hoje soube-me a pouco


Com um brilhozinho nos olhos encaramos o outro depois da ausência forçada. Temos saudade do encontro. O abraço tarda. Quando o reencontro se dá, o abraço mata a saudade. Estremecemos de emoção e alegria. Alegria verdadeira, quase efusiva. É tão bom.
Os nossos cantores ajudam-nos, com estas palavras e melodias tão generosas. A música ajuda-nos sempre a superar tristezas.
Um abraço
, Sérgio.

domingo, 4 de abril de 2021

Afonso Reis Cabral


Conheci os primeiros passos do Afonso na vida literária, agora já tão de vento em popa. É por isso que vou conversar com ele. Vamos regressar aos convívios Muito cá de casa. Muito timidamente, com lugares reservados na sala, mas com a vontade de voltarmos a estar juntos. Presencialmente, como se diz agora. A saudade aperta. Beijinhos e abracinhos. Até lá.


PARAGEM | Por esta altura do mês, mas no ano passado, eu publiquei aqui isto. Aconteceu na
Casa Da Cultura | Setúbal. Quem haveria de dizer que hoje mantinha actualidade. O mundo parou mesmo.

FILOSOFIA A PÉS JUNTOS | A FILOSOFIA EM CONVÍVIO
O ponto é percebermos onde se cruza a filosofia clássica com o pensamento nos dias de hoje. A contemporaneidade chamada à pedra pelas ideias antigas. Percebermos que isto anda tudo ligado e que o que está a acontecer hoje não é nada nunca visto.
António De Castro Caeiro
— Professor de filosofia e tradutor de poesia clássica grega — assegura a pés juntos que tudo se repete. O ser humano não tem assim tanta imaginação.
Estas conversas tornam-se um instrumento útil para a compreensão do presente, ajudando-nos a perceber e a combater o susto lançado por Nelson Rodrigues no século passado: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.
FILOSOFIA A PÉS JUNTOS cresceu na curiosidade das pessoas. O que constou fez o seu caminho. Hoje estas “aulas” de António de Castro Caeiro são participadas por um público esclarecido e "perguntador". Pretendemos polvilhar de seriedade intelectual tudo o que aqui se propõe.
Esta iniciativa tem a colaboração permanente de
João Paulo Cotrim
, que estimula os diálogos e alonga a conversa. Uma das sessões contou com o poeta
José Anjos
, que associou a filosofia a outras preocupações.
As próximas sessões ao vivo serão anunciadas logo que possível.
Até breve.

sábado, 3 de abril de 2021

Chegou o carteiro





A gente às vezes pensa que receber cartas é coisa do passado. Recentemente vivi a experiência. 

O João Paulo Cotrim enviou-me o seu Navalha no Olho (Nova Mymosa). Estávamos no primeiro confinamento. Não podia ser de outra maneira. Experiência falhada. Como o livro nunca chegou — mau, mau Correios de Portugal — só lhe tive acesso já a refeiçoar com o autor, em parcial desconfinamento. São vinte e três poemas curtos e saudáveis. A Navalha do Olho é para disfarçar. É o erotismo que preenche estas páginas. Recomenda-se a quem gosta de sexo.

Nos últimos dias repeti a experiência. O Embate (Medula), do Henrique Manuel Bento Fialho, iria ser enviado para minha casa. Correio tradicional, livro enfiado num envelope e colocado na caixa pelo senhor carteiro. Desta vez funcionou. Já cá canta. A nota inicial diz assim: Este é um livro de textos. Não é contra nada nem ninguém, é a favor dos textos. Ainda não parei de o ler. São reflexões, pensamentos, textos que nos sugerem outros textos. 

Senti-me como "as garotas ansiosas por notícias do namoro", da canção O Carteiro, que o Sérgio Godinho canta, originária do Conjunto António Mafra. Estes recebimentos causaram-me simultaneamente felicidade e angústia. Em outros tempos, o lançamento destes livros era motivo de encontro com abraços, beijos, dança, e por aí afora. Agora é isto. Os livros dos amigos são sempre uma alegria e um orgulho para nós. É bom na mesma (como o sexo), mas sabe a pouco, como no sexo menos bom. 

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sexta-feira, 2 de abril de 2021

Recordar é estar aqui


Éramos felizes porque fazíamos coisas. Claro que não o sabíamos. A felicidade não entrava no nosso vocabulário porque estávamos a lutar por ela. E isso sabíamos. 

O Circulo Cultural de Setúbal foi fundado por um grupo de gente cultural e politicamente esclarecida que, mesmo antes de abril de 1974, mostrou à cidade que o pensamento não deve ser único e de reconhecimento dos poderes, mas sim de agitação das mentalidades. O salutar conflito é o sal da democracia. A estimulação da curiosidade intelectual fornece-nos a exigência cívica e a sofisticação cultural. Depois de Abril a coisa aqueceu. O facto de José Afonso ser um dos fundadores deu-nos fôlego e preencheu-nos a agenda.
A minha adolescência foi passada de um lado para o outro em ambientes de todas as cores e feitios: convívios de solidariedade, jantares entre amigos até às tantas, copos (muitos copos: uma conversa e um copo é a receita ideal para se estar bem), encontros entre novos amigos, abraços (muitos, também), envolvimentos amorosos (lá teria de ser, acontece) e muita vontade de mostrar o que de novo se podia fazer no país Portugal. Em Setúbal, eu estava mergulhado na actividade do Círculo Cultural. O Círculo foi pioneiro na divulgação de uma certa cultura alternativa. A nossa missão era esquecermos os artistas manhosos da terra e lembrarmos o melhor que se fazia no mundo. A cidade está no mundo. Este cartaz que aqui reproduzo (dei com ele ontem, em arrumações no atelier) promovia uma peça do
Teatro da Comuna
. O Circulo organizou e tratou da logística. Eu, estudante com disponibilidade, acompanhei o grupo por todos os cantos da região — fábricas, bairros, colectividades — em gloriosa digressão. Fiz de tudo um pouco: telefonemas para contactos, distribuição de folhetos promocionais e alombei com caixotes, panos e estrados. Também bebi copos e colaborei em petiscadas com os actores e técnicos após representações. Os actores eram já de assegurado gabarito: Manuela de Freitas, Carlos Paulo, Francisco Pestana, Merlin Teixeira... Encenador: João Mota. Lembro-me de quase todas as récitas. Eu já quase sabia a peça de cor. A música final emocionava-me sempre (ainda a canto de carreirinha). Peça de combate e de esclarecimento político, os valores tradicionais eram ali postos em causa: a família conservadora, a religião, o futebol. O público não tinha visto até àquele dia nada assim. Os actores adaptavam argumentos ao sabor das reacções das pessoas. Cada representação era um espectáculo único. Foi tão bom. Fui tão feliz ali.


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Dia das mentiras


Hoje é o dia do populismo e dos populistas. 

A mentira é a verdade da extrema-direita mundial. Não importa distorcer, omitir, alterar conceitos. O que é preciso é que as pessoas acreditem nas enormidades perpetradas. Poderia desejar um feliz dia das mentiras para esta gente, mas não o faço. O que quero mesmo é que se lixem. Sempre. Todos os dias. 

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quarta-feira, 31 de março de 2021

Porque...


SONHO| Trio de luxo: Eugénio de Andrade, Fausto, José Afonso. Regresso a esta música com frequência. Preciso dela. É raro sentirmos a perfeição. Não existe. Mas aqui parece tanto estarmos perto. O Sonho, a proximidade do outro, o desejo, o estremecimento, a procura do prazer. A paixão. Tão simples. A simplicidade tem tanta sofisticação.

terça-feira, 30 de março de 2021

Não vem o silêncio sentar-se à minha mesa


POR UM MOMENTO ME FUI HABITUANDO
 | O sentimento de inércia, outra palavra da física adaptada ao discurso coloquial, está escarrapachado neste poema de José Afonso. "Hoje não saio, sinto-me perdido". Mas um possível desconfinamento gradual parece estar aqui: "O país conhece a autópsia do dia/Amanhã o ruído das crianças interrompe-me o sono". 

Solidão, recolhimento, desespero. Esperança contida. Belíssimo texto.

Era só para nos lembrarmos disto: José Afonso escreveu sobre muito. E bem.

TEXTOS E CANÇÕES Autor: José Afonso. Organização: Elfride Engelmayer. Capa: Paulo Scavullo. Edição: Relógio d'água. Outubro 2000.

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segunda-feira, 29 de março de 2021


Martha Mendes
 no Facebook: O Doutor Carlos Moedas, ontem, em conversa com o Ricardo Araújo Pereira, disse em tom depreciativo e a armar ao engraçado, a propósito de Monica Bellucci, que a Diva italiana “já tinha uma certa idade”, era “um nome do passado”, “muito anos 80” e que “os miúdos já não conhecem isso”. O Doutor Carlos Moedas faz jus ao nome: ele é mais trocos.

[Na foto: Monica Belluci fotografada há dois meses, aos 56 anos, para a mais recente campanha da Cartier, uma das marcas mais premium e high-profile do mundo. De facto, é um cheiro a mofo que não se aguenta, Doutor Moedas. Já o Doutor está aí no ponto. Uma tentação. Só não perde a cabeça quem já desistiu de].

CONTAR TROCOS | Não vi a entrevista. Só li o texto da
Martha
. Percebo que o tal de Moedas está a precisar de ir ao
Instituto de Oftalmologia Dr. Gama Pinto
. Mas pior ainda do que a falta de vista são as vistas curtas. E mais esta: quem se mete com a Mónica leva... Espero que um par de patins, em Lisboa.

domingo, 28 de março de 2021

Design de comunicação





DA SÉRIE GRANDES CAPAS | A escolha é da Creative Review, que contemplou mais uns  quantos trabalhos para a selecção do melhor publicado em 2020.
 

Eu escolhi estes. Um deles — New Yorker — já tinha sido chamado a figurar aqui neste lugar. Assunto encerrado por agora. Não tarda nada há mais .

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sábado, 27 de março de 2021

Dia Mundial do Teatro


SENTIR
| Agora chama-se resiliência à capacidade de resistir. A palavra foi adaptada de outra disciplina, a Física, para designar a capacidade que temos de resistir às ameaças. Depois de um mergulho profundo, voltamos à tona e à chamada normalidade. Vamos ficar todos bem, diz-se. Somos uns sempre-em-pé. 

De toda a gente que trabalha na cultura, é o pessoal dos espectáculos que mais sofre com esta enormidade pandémica. As cortinas fecharam por tempo indeterminado. A malta foi para casa. Uns tentaram fazer outras coisas, outros não conseguem fazer mais nada. São artistas. Precisam de pisar os estrados onde nos mostram o seu talento. A sua imensa e intensa vontade de fazer rir, meditar, ver as diferenças das coisas. Precisamos de sentir isso. Fernando Pessoa tem razão — como quase sempre, aliás — quando diz: sentir é compreender. Não podemos ficar rendidos aos miseráveis entretenimentos televisivos que nos remetem para a absoluta indigência mental. Já temos os livros, é certo, e a televisão por cabo que nos propõe viagens e sonhos, mas precisamos de estar com vocês ali, nas tábuas, ao vivo. 

TEATRO é outra palavra adaptada a circunstâncias diversas. Fala-se em teatro sempre que se quer definir acção no terreno. Fala-se em teatro das operações ou em teatro de guerra. Os políticos, quando estão no teatro da política, declamam que estamos em guerra contra um inimigo desconhecido. Estamos de facto nesse teatro. E nessa guerra. É esse inimigo que estamos a combater. Todos. E vamos vencê-lo. Temos que voltar às salas de espectáculo, aos anfiteatros, às galerias, aos cafés, aos restaurantes, às esplanadas, aos passeios pela cidade, mas, confesso, tenho acima de tudo saudades de voltar a ver os meus amigos actores e actrizes a trabalhar. O teatro interpreta a vida. E sem essa interpretação a vida é uma merda. 

Muito obrigado. Muito obrigado mesmo. E até breve.

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Ricardo Guerreiro Campos







A DOR DÓI, O BOI MUGE | Ricardo Guerreiro Campos expôs na galeria da Casa da Cultura - Setúbal em fevereiro de 2016. Originalidade didáctica em saudável convívio com entusiasmo e rigor. Teatralização de formas conjugadas em espaço vivo e actuante. Transformação de matéria com sentido inteligível da forma e da cor. Exposição/instalação com apresentação do crítico de arte e professor Carlos Vidal que disse assim:  

CONSTRUIR FORMAS: A TAREFA DO AUTOR E DO OBSERVADORO trabalho pictórico realizado pelo Ricardo Campos no seu ano de finalista da FBAUL (2014) levou à letra a expressão “trabalho pictórico”. Primeiro, porque se tratava de um trabalho mesmo – o autor preparava, arranjava ou cortava os suportes, muitas vezes rectângulos de madeira de baixa altura e dimensão em extensão horizontal, preparava, construía o suporte onde fazia inscrever um fragmento de imagem. Em segundo lugar, dir-se-ia que essa “imagem” era sempre pictórica, ou fantasmagoricamente pictórica não sendo puramente da ordem da pintura: evocava o preto e branco do desenho quanto o preto e branco da fotografia.

Por fim, não só o suporte como também a imagem eram trabalhados, retalhados, reduzidos ao fragmento quase ilegível de tão subtil. O ponto de partida para o pequeno desenho inscrito na larga e horizontal “linha” ou pedaço de madeira podia ser a fotografia ou um frame de um vídeo, mas uma imagem trabalhada era/é, sobretudo, um fragmento (uma boca, mão, uma linha branca num rectângulo maior, etc.), fragmento esse que, devido à sua escala e forma de presença, ora não era visto, ora era/é visto como aquilo que não era (não é): um desenho, uma fotografia p/b, uma parte da própria ripa quando os nós se faziam notar. O que parece não é – se algo parece um desenho, é porque é uma pintura (o contrário também é aplicável).

De outro modo, havia um jogo e um trabalho: o trabalho supunha a feitura do suporte e da imagem, o jogo tratava de nos fazer oscilar entre imagens (quando a imagem central, um corpo, por exemplo), entre imagens e entre o pequeno e o grande formato, pois o trabalho convocava o exterior à imagem e nele integrava a não-imagem, ou seja, aqui, o vazio.
E o formato, grande ou pequeno tudo aqui parece ser da ordem do indecidível, é fruto tanto da imagem como do seu exterior, quer dizer, a imagem é todo o campo do suporte, ora preenchido, ora esvaziado: esvaziado de imagem mas contaminado por esta.
Uma palavra que podemos ir buscar pode ser “interactividade”. A imagem joga com o que a rodeia, teatraliza todo o campo (e a realidade da cenografia e do teatro não é estranha ao autor, com experiência no terreno); a imagem interage com o vazio e espaço que a cerca/rodeia. Dessa envolvente a imagem deixa de o ser para, tudo no seu conjunto, ser antes FORMA, outra Realidade (pois muitas vezes a imagem é Realista e a capacidade de representação do autor vem à superfície).

Mas a FORMA é o conjunto da imagem, do que a rodeia e do suporte. Esta interacção é interior ao “trabalho pictórico”, é esta interacção que faz de um trabalho um “trabalho pictórico” e não apenas um desenho ou uma pintura, se não quisermos usar o termo “instalação” (também viável). Esta realidade interna é interactiva, disse, mas também performativa.
O “trabalho pictórico” é performativo porque as suas partes relacionam-se e fazem-se umas às outras ou umas com as outras. Trata-se, portanto, de uma performance pictórica. Mas há, no Ricardo Campos, uma outra vontade: não só a que o liga ao teatro, mas também à arte como campo que pode formar o visível, o gosto pelo visível, o gosto pictórico ou, numa perspectiva digamos “humanista”, o autor não deixa de estar ligado à arte como coisa potenciadora de educação e formação, frequentando mesmo um mestrado em Educação Artística.
Então teremos de concluir que a arte educa porque impõe ao espectador um trabalho, que é um trabalho de ver e construir o visível. Um trabalho paralelo, claro, ao do artista. Que vê, constrói e volta a ver. E dessa conjugação nascem as Formas. [
Carlos Vidal, 2016] 

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sexta-feira, 26 de março de 2021

Mónica Garcia







Em Maio de 2018 Mónica Garcia expunha na galeria da Casa da Cultura - Setúbal. Recordo agora as palavras que alinhámos para descrever o acontecimento. Acrescento que foi uma das mais marcantes exposições na galeria da Casa. 

A ZONA | Monica Garcia é artista visual. Vai ter, na galeria da Casa Da Cultura | Setúbal, uma instalação que mete materiais que se transformam e alteram tudo todos os dias. Eu diria que esta exposição vai ser muitas exposições. Nos dois últimos parágrafos do texto que escreveu para a publicação que explica A ZONA, diz:
"Na Zona, ponto, linha e mancha expressam-se utilizando a força da gravidade, a pressão atmosférica, a densidade, a distância e o tempo, como suporte para criar uma poesia espacial através da exploração dos limites da plasticidade do material com que tais elementos são formados.
O processo revela-se tão importante quanto o resultado. Recorrendo a ciclos temporais para a reconfiguração do espaço, a Zona pode ser encarada como uma instalação space-time specific, onde diversos pontos de contacto vibram entre si dentro de um laboratório de observações".

quinta-feira, 25 de março de 2021

Jean-Jacques Pardete


Morreu o meu amigo Jean-Jacques Pardete. Amigo de muitos anos e de muitas exposições e outras acções. Todos os anos convivíamos na Festa da Ilustração - Setúbal. Na montagem das exposições e na fruição da Festa. E como eu gostava de me encontrar com ele. Divertido, com um sentido de humor tortuoso, encontrava sempre uma piada lúcida para contornar um atropelo. Eu gostava muito do Jean-Jacques. Este fim entristece-me. Homenageio-o assim.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Jasper Johns



HÁ UM PRINCÍPIO PARA TUDO | Nasceu longe dos enleios artísticos e culturais. Depois da tropa foi para a grande cidade. 

Em Nova Iorque, Jasper Johns conhece Robert RauschenbergMerce CunninghamMarcel Duchamp, John Cage e Leo castelli. A amizade com Castelli, que conheceu numa exposição colectiva em que participou, levou a que o galerista organizasse a sua primeira exposição individual. O trabalho de Jasper Johns foi desde muito cedo reconhecido pelos seus pares e classificadores. Os motivos muito gráficos — bandeiras, mapas, cartas e impressos — eram transformados pela acção do seu gesto pessoal e intransmissível. O tratamento que deu à bandeira norte-americana ficou célebre.

Estas páginas têm mais informação com uma certa utilidade: www.tate.org.uk/  e arteref.com/

Vamos viajando da maneira possível.

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segunda-feira, 22 de março de 2021

Chalupas negacionistas



VÍRUS, AMIGO, A MALTA ESTÁ CONTIGO | Esta gente não pode ser levada a sério. 

Esta maluca do cabelo azul consegue dizer sem se rir e sem tino que não é contra o vírus que se manifesta, mas sim contra o combate ao vírus. Isto é: vírus, cumpre o teu dever. Com liberdade, que a malta não gosta de confinamentos completamente desnecessários. Contra as vacinas. Pelas rezas. Sem máscara. Sem protecção. Sem cérebro. As inanidades que brotam destas bocas porcas são um insulto a quem respeita o outro. Anormais básicos. Ignorantes encartados.

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Jina Nebe

 

REAIS PRESENÇAS |
Jina Nebe
expôs pinturas e fotografias, na galeria da
Casa Da Cultura | Setúbal
, em Novembro de 2019. Foi outra das participações estrangeiras na programação da galeria da Casa. E eu escrevinhei umas palavras na folha de sala. As citações que as antecedem servem para que a coisa se "perceba" melhor.


Toda a arte verdadeira é abstracta na sua estrutura.
Se o fotógrafo não é um descobridor, então não é um artista. Paul Strand

Eu não fotografo a natureza. Fotografo as minhas visões.
Fotografaria uma ideia antes de um objecto, um sonho antes de uma ideia. Man Ray 



IMPREVISÍVEL REALIDADE | Há imagens que nos impõem surpresa e assombro. Quando se viaja por estradas aéreas é a distância que dita a observação. O mundo é limitado e atingível. Está ao nosso alcance, mas os limites são imperceptíveis. 

A vontade de representação passa à necessidade de se encontrarem contornos. Tornar visível num plano o que se observou de tão longe. A complexidade passa a simplicidade. Aqui, observamos relevos em sucessões de cores e sombras. Jina Nebe convoca os materiais mais diversos para esta vontade de se exprimir. Esta exposição são várias exposições. A artista quis mostrar aqui - talvez por ser esta a primeira vez que expõe na cidade -, a diversidade do seu trabalho. Circulamos por trilhos que nos são estranhos. Há por ali muita rota. Muito caminho percorrido pela densidade das impressões fotográficas, da diluição das tintas, das raspagens mais agressivas. Caminhamos pelo ar. Podemos até levitar. Quem nos impede? Estes trabalhos devem ser vistos com os olhos e a mente disponíveis para a mudança. Mudar é bom, quando se muda para melhor. Para quê fazer o que já foi feito? Para quê insistir na facilidade da habilidade? 

O artista deve surpreender. Sempre".


Enquanto a realidade não o permite, podemos "frequentar" outros trabalhos neste local: Jina Nebe

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domingo, 21 de março de 2021

Dia Mundial da Poesia

Eu, que não tenho nenhuma certeza, sinto que a poesia é isto:

Gamy Fernandes





ENLEIOS E AMARRAS | No dia 5 de novembro de 2016 abria à nossa curiosidade, na Casa da Cultura - Setúbal, uma exposição de pinturas de Gamy Fernandes. Os apetrechos de pesca são o motivo. Título da mostra: Enleios e Amarras. 

Os desenvolvimentos expostos abordam pela forma e cor objectos e texturas que procuram uma linguagem própria. Uma estética pessoal. Entre a procura e o disfarce. Entre a melancolia e a alegria. Ambientes desgastados, mas trazidos até aqui em alusão a uma actividade que se enleia na vida dura de gente viva. Convoquei para a folha de sala e para as paredes da galeria um texto de Raúl Brandão que pudesse servir  as filosofias de circunstância. Diz assim: 

O Sol já se pôs e não vi o raio verde... O Mundo não existe, o mundo é a luz. 

Tão bom, não é? Foi assim, já lá vão cinco anos. Quem quiser conhecer melhor o trabalho de Gamy Fernandes pode aceder ao seu sítio aqui no pedaço: gamyfernandes.wixsite.com/

Assim vamos recordando o passado, esperando melhores dias para o futuro.

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