Marques Mendes está como Marcelo. A política é um electrodoméstico que se liga e desliga conforme a vontade de se pôr o ego a funcionar.
Fonte: Notícias ao minuto
Fonte: Notícias ao minuto
As pessoas mal informadas que nasceram depois de abril de 1974 não acreditam que os últimos cinquenta anos foram os mais felizes de toda a História de Portugal. Tudo avançou a partir daí. Foram conquistados direitos, e as pessoas tiveram acesso à Cultura e a melhorias significativas na Saúde e na Educação, bem como a possibilidade de escolhas materiais que lhes permitiram alcançar um melhor bem-estar. Antes dessa data, isto metia medo.
Os direitos foram conquistados com o esforço e a luta de gerações de minorias esclarecidas e preocupadas com o futuro do país. Chamavam-lhes progressistas. Durante o período que se seguiu à Revolução, foram adquiridos direitos e estabelecidos deveres que deram folgo a outras maneiras de pensar. Foram respeitadas minorias e foi possível sermos donos do nosso próprio corpo. Falhou a lei da eutanásia, por culpa de um Presidente papa-missas que deixou arrastar essa conquista por interrogações e desconfianças sem sentido. O tal Presidente que o foi sem merecer e que agora declara nunca mais falar de política, como se a política fosse o diabo. O diabo que o carregue.
Mas teve seguidores. A extrema-direita assumidamente salazarista entrou no Parlamento e arrastou para o seu catecismo a direita civilizada, que passou a não o parecer. Os retrocessos aconteceram, perante a nossa incredulidade. Como pode isto acontecer? Aconteceu.
Esta observação do Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos adverte para o óbvio: estamos a andar para trás. Os novos representantes dos eleitores que querem andar para trás são eleitos e fazem trinta por uma linha para garantir retrocessos. Direitos merecidos são postos em causa por políticos sem memória ou que fazem por esquecer o tormentoso passado. O que será que esta gente quer para os seus filhos e netos? Tudo a toque de caixa? Voltamos ao tempo da perseguição a quem é diferente de quem manda? Vamos todos ter de ser tristes, incultos e indignos lambe-botas dos escroques da extrema-direita e dos que se lhes aconchegam?
A resposta existe e aplica-se assim, em caixa-alta: NÃO, não queremos voltar a viver num país que não respeita toda a gente. Os novos fascistas chamam liberdade à discriminação. Dizemos não, e não estamos sozinhos. Somos pela liberdade para todos. A liberdade de discriminar não é liberdade. É fascismo. O que é que a direita civilizada ainda não percebeu?
Invadir e vandalizar um gabinete de um líder partidário é muito grave. No tempo de Salazar seria normal, se existissem líderes partidários a sério. A PIDE partia aquilo tudo e não se dizia nada a ninguém.
Mas em democracia não se percebe como aparece um gabinete tão bem desarrumadinho, quando o que era para resgatar pelos malandros delinquentes eram uns papéis fornecidos pela PJ ao ofendido líder, e que estavam em cima das mesas esperando pacientemente pela captura. Os malandros que andaram aos papéis devem andar a ver muitos filmes antigos de Hollywood. Era preciso tanto papel pelo ar? Tanto sinal exterior de vandalização? Agora a PJ quer ouvir os últimos a sair e os primeiros a entrar no dia seguinte. Agora é que isto vai ser um papelinho.
Imagem: Os Flintstones. Criados por William Hanna e Joseph Barbera, do estúdio Hanna-Barbera.
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António Dacosta, Dois limões em férias, 1983, óleo sobre tela. |
REGRESSO - A silly season já não existe. Todas as estações são tontas desde que o tonto fascista anima o território dos fascistas portugueses. Um cartaz promete que o traste vai salvar Portugal. O país inteiro mira a figura triste. Estranha esta salvação, proposta por um incendiário. Regresso com perguntas. Perguntas que me assaltam em permanência.
LÁ FORA - O genocídio continua em Gaza. As denúncias e as acções de solidariedade alastram pelo mundo inteiro. Em Portugal, as vozes de artistas e intelectuais opinadores ilustram jornais, debates televisivos, concertos de verão, palestras, simpósios, lançamentos de livros e aberturas de exposições. Vozes de quem vive em voz alta fazem-se ouvir. Por todo o mundo as pessoas revelam e manifestam solidariedade. A morte sai à rua sem aviso. Morre gente perante a indiferença de quem dirige politicamente a Europa. Em Gaza e no Médio Oriente morre-se todos os dias e são destruídas estruturas que provocam mossa na economia mundial e na vida das pessoas. Será que não há estadistas que façam frente ao destrambelhado americano e ao criminoso encartado de Israel?
CÁ DENTRO - A Polícia Judiciária já sabe quem esbardalhou o gabinete do pantomineiro Ventura? E já desmentiu as afirmações do chefe racista que incluem polícias da PJ como seus informadores? Ainda não se sabe nada? Mas, o que se passa? É assim tão difícil saber o que falhou na segurança de um sítio tão seguro? Ou o sítio onde se decide a nossa vida não é assim tão seguro e está aberto à pantominice? E já que estou com a mão na massa, ainda anda por aí quem acredite e até venere a figura rasca do líder do partido rasca a que os fascistas deram o nome de "chega"? Chega de quê? De "chega"?
ARTE - Resta a Arte para nos salvar? Resta a esperança na mudança? Faremos por isso. Escolhi António Dacosta para ilustrar o verão que está de saída. Vem aí setembro, o meu mês preferido. Avizinha-se trabalho e conhaque. Muito trabalho que me anima e entusiasma. Muito há para fazer, ouvir, ler, olhar. Bom regresso ao trabalho para toda a gente. Até já.
Dizem por aí que as ideologias já não fazem sentido. Já não há ideias. Não há esquerda nem direita. Há boas e más pessoas. Muito bem, então a malta de esquerda escolhe as suas boas pessoas e a de direita as suas. Pode ser que fique contente com o que sobra das boas pessoas de esquerda, e ficamos assim todos amigos. Alerta à população escrutinadora: a escória de extrema-direita não se inscreve neste concurso — enm eleitores, nem eleitos —, entendido?
José Afonso mudou a maneira de se ouvir música. Inventou novos sons, com instrumentos inspirados pelo corpo na matéria. Estão a ver a música de "Grândola, Vila Morena", por exemplo? O piso de gravilha foi instrumento musical. Também a ficha técnica de um disco de Fausto assinala uma sonoridade vinda de "papel na barba do Zeca", outro exemplo. Quando surgiram os gravadores portáteis, José Afonso comprou um para lançar lá para dentro sons que lhe vinham à cabeça, ou que ouvia no ruído dos dias. A intenção era obter registos para depois trabalhar e fazer músicas novas. Nunca se entendeu muito bem com aquilo, mas a produção de novas sonoridades não deixou de existir. Rejeitava a mediocridade e a pouca exigência com a música e a cultura em geral. Era exigente e culto. Um fazedor de Cultura com cê grande que respeitava origens transformando ambientes sonoros incipientes em grandes peças musicais. Sons que vivem na nossa memória e que nos continua a surpreender a cada audição do seu trabalho gravado. Trabalho que continua a ser reeditado para bem da nossa lucidez.
José Afonso foi a grande figura do meu crescimento individual e de muitas gerações de gente nascida em Portugal e não só. Figura genial que continua a ser estudada e a influenciar artistas de agora e a ser referência de cidadania. Não existe muita gente assim. Eu tive a sorte de ser seu amigo.
Em 2029 completam-se 100 anos sobre a data do seu nascimento. Vamos comemorar a sua vida. Uma vida extraordinária que continuará a ser lembrada.
Marcelo Rebelo de Sousa nasceu em berço político. Pai político com carreira e padrinho presidente do conselho de ministros. Ele próprio mergulhou na política muito cedo, resolvendo começar por contestar as políticas de progenitores e padrinhos. Foi um dos fundadores de um jornal que fazia perguntas e contestava respostas.
Depois da revolução ocupou vários lugares em vários desempenhos. Nunca mais parou, dedicando dezenas de anos ao comentário televisivo, exercendo assim influência. O exercício da influência foi de tal maneira eficaz que acabou por ser Presidente da República. Valente.
Como Presidente fez trinta por uma linha. Parlamentos dissolvidos por dá cá aquela palha, ingerências no governo, entretenimento fotográfico amador em tempo de serviço, declarações pouco responsáveis. Um político irresponsável que deu um péssimo Presidente. Actualmente rejeita o comentário político, provando a ideia que tem da política. A política foi uma maneira de afirmação pessoal. De carreira de sucesso sem que o sucesso se perceba muito bem por onde anda. A rejeição do comentário denota aversão à prática da política como cidadania. A política é demasiado importante para ser tratada como um mero aspirador caseiro. A atitude de Marcelo caracteriza-o. O homem sempre usou o que a vida lhe deu para fornecer bons acrescentos à sua boa vida. Marcelo agora só comenta Cultura e Arte e dá pontapés nos traseiros de quem se põe a jeito. É mesmo assim. Vi a cena numa reportagem televisiva. Ora bem: Cultura e Arte comenta mal, já no que diz respeito a pontapés no cu... Pode ser que se safe.
Presidente da Colômbia vai fechar 14 embaixadas. Começa bem, o preferido dos eleitores colombianos. As primeiras medidas são contra quem não é como ele. Gente de outros países, com outras ideias ou com outras maneiras de ver as coisas, vão logo de carrinho. O maluco da Argentina já não está só, com a sua ridícula motoserra. A loucura neoliberal negacionista instala-se. Querem estar orgulhosamente sós, como pretendia Salazar, o inspirador da inenarrável criatura cá da terra que odeia o progresso e a dignidade das pessoas até dizer chega. Tempos medonhos. Esta gente mete medo. São os novos fascistas, que isto é mesmo assim.
Da série Grandes Capas. The New Yorker. Art: Marcellus Hall.
Imagem obtida no laboratório do José Simões: https://misteriosorganismo.blogspot.com/
24 de julho de 2026 - Banhistas contemplam a praia de Moutchic, em Lacanau, no sudoeste de França, enquanto nuvens de fumo se elevam no céu, causadas pelo incêndio na Gironda.
Imagem: ParisMatch descoberta no laboratório do José Simões: mistérios do organismo
Fotografia © Maximilien Lamy / AFP
Programa JAZZ EM AGOSTO
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| Imagem - RTP |
ESTADO AO QUE ISTO CHEGOU - Ministros toscos e incompetentes dão alento ao primeiro-ministro: nunca se governou tão bem em Portugal. Os jornalistas não têm pedalada para acompanhar os lanços reformistas do maravilhoso governo. Montenegro instalou uma nova maneira de governar: passados duvidosos deixam de ter peso nas nomeações porque a avaliação eleitoral deu-lhe luz verde. Governo legítimo. Não há ministros manhosos.
ESPANHA ARDE - Já a minha avó me dizia: "Quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põe as tuas de molho". Todo o cuidado é pouco. A fantástica cidade de Madrid está cercada de chamas. Solidariedade com os nossos vizinhos.
FASCISMO AO COLO - Foi o meu amigo José Simões — https://misteriosorganismo.blogspot.com/2026/07/fascismo-ao-colo.html — que fez as contas: ainda estamos no mês sete do calendário e o estropício já vai em dezassete entrevistas para as televisões nacionais. Não assisti a nenhum dos comícios fascistas — nunca assisto — mas esta exagerada aritmética incomoda. Qual será a motivação para ouvir tanta disparatada mentira?
ELOGIO DO EXTRAORDINÁRIO - E amanhã há elogio. Até amanhã. E até lá... Bom sábado. Aguentem-se.
Uma criança de dezoito meses morre por descuido. Foi esquecida dentro de um carro e esteve lá durante horas, exposta à excessiva temperatura. Descuido? Negligência? Sim, pode ser tudo isso, mas tudo isso é acima de tudo uma tragédia. Imaginar o sofrimento de pais e familiares desta criança não corrige nada, mas ilustra a nossa ideia de solidariedade. Sentir este sofrimento não é possível, mas podemos estar lá perto. Esta tragédia inunda consciências. Sentimo-nos chocados. O que fazer perante tamanha negligência? Como reagir à tragédia? Pergunta sem resposta. A morte é uma grande tragédia, ponto. Esta anulação de um futuro que se pretendia promissor elimina promessas, uma educação, um projecto de vida que assim é interrompido. Tudo isto é mesmo muito triste. Perturba. É excessivamente mau. O que se passa com o mundo dos humanos? Como pode uma coisa destas acontecer? Que sofrimento.
O novo aeroporto promete encher baús. A figura aqui do retrato é um especialista em enchimentos. Os baús dos "construtores" de aeroportos vão ficar de cagulo. Ouvi-lo prometer que tudo vai correr melhor do que o desejado é performance de humor. Oxalá a festa acabe com a tomada de posso de um governo um bocadinho decente, e acabe com esta mania de encher as cidades de gente de fora mesmo quando tudo transborda de gente. Pessoal: não votem em quem promete mais aeroportos. Os comboios são a alternativa. Tudo tem preceito. Há limites para tudo. Mandem os aviões para a terra deles. Isto não é racismo - é razoabilidade. A cor dos aviões é a cor do dinheiro. Não é para servir as pessoas que andam a poluir os ares.
O primeiro-ministro diz que não vai de férias para já. Vai continuar a governar, porque isto não está para brincadeiras de verão. A ideia é não deixar os ministros ao deus-dará. Tenho uma notícia: os ministros estão quase todos de férias. O primeiro-ministro vai circular pelas alcatifas ministeriais em busca do mais esforçados governantes para com eles ir a despacho. Não se exclui uma ida aos algarves. Ou às praias do México, sei lá. O governo vai lançar um concurso recreativo intitulado: Onde está o Luís?A ministra da Cultura e afins está a elaborar o roteiro. Vai ser divertido perceber por onde o homem anda. Museus não estão no rally paper. Enfim: a ideia é um achado. Trabalhar quando toda a gente está de férias dá um descanso do caraças. E pode ser divertido.
DIZ-ME COM QUEM ANDAS... | Montenegro foi a Roma. Falou com orgulho num gasto em defesa, em negócio engendrado agora por lá, com beijos a Meloni e com um Nuno Melo radiante. Meloni ficou satisfeita com este acordo entre as direitas dos dois países. Tão fofinha. São muitos milhões gastos para nos defendermos, disse o primeiro-ministro de Portugal com um largo sorriso inundando-lhe a face. A face nunca perde. Parece de plástico. É sempre a falta de vergonha que prevalece. Lembrei-me dos cortes na cultura. Deve ser o pequeno contributo para pagar os navios italianos. Porca miséria.
DA SÉRIE GRANDES CAPAS | Imagens obtidas no laboratório do José Simões: https://misteriosorganismo.blogspot.com/
Foram cantadas, coreografadas e visualmente tratadas dezoito músicas. Ambientes dos tempos iniciais foram misturados com ideias musicais e visuais de agora. As projecções que inundaram o fundo cénico e os écrans gigantes mostraram rigor estético e capacidade criativa, sem os facilitismos que a IA permite, que se observam neste tipo de performances e que anulam visualmente os músicos. Nada disso aqui aconteceu. Competente rigor visual associou sons e imagens. No final não houve encores. Logo que os músicos se retiraram, som gravado de Brian Eno acompanhou-nos até à saída do recinto. Os amigos são para serem ouvidos. Este trabalho de David Byrne e da sua equipa fica na minha história pessoal de concertos ao vivo. Tudo ali foi espectacular. Mas confesso que também convivo muitas vezes com o trabalho de Byrne nas minhas audições diárias. Ele anda por aqui pelas estantes e a sua música também cá mora.
Elogio feito. David Byrne é extraordinário.
Imagens: Festival Ageas Cooljazz/DR