DA SÉRIE GRANDES CAPAS | O fascismo é uma minhoca, não é?
DA SÉRIE GRANDES CAPAS | O fascismo é uma minhoca, não é?
António de Castro Caeiro faz hoje anos. Sessenta, para sermos exactos. Uma vida dedicada ao ensino e à divulgação da Filosofia. E a produzir maneiras de observarmos a vida. Pensar. Explicar o que é a Filosofia.
António de Castro Caeiro tem livros publicados que convocam a vantagem de olharmos à nossa volta com todos os sentidos despertos. Participei, como designer, em vários por ele escritos e editados pelo João Paulo Cotrim, na Abysmo. O João Paulo foi a ligação. Ligou-nos às muitas «sessões de esclarecimento filosófico» nos encontros «Filosofia a Pés Juntos», em Setúbal, e a lançamentos de livros. Em Fevereiro deste ano estivemos juntos para falarmos do seu «Sobre os Sentimentos». Foi um encontro com ele e com Fernando Cabral Martins, que animou a minha exposição «As Palavras», na Biblioteca Camões, em Lisboa. Festejo aqui este aniversário porque o António é meu amigo e porque temos muita coisa em comum, como podem comprovar. Mas também porque ele é um nome a fixar, no panorama das artes e do pensamento destes dias em que vivemos e resistimos.
Festejo aqui este aniversário porque o António é meu amigo e porque temos muita coisa em comum, como podem comprovar.
Parabéns, António. Vamos continuar.
ELOGIO DO EXTRAORDINÁRIO | Há sempre a tentação de anichar ao terreno da decadência as obras da maturidade de quem fez coisas extraordinárias na vida. Para alguns, Pedro Almodóvar calçou esses patins. Para mim, não. Explico.
Um filme de Almodóvar é sempre uma caixa com surpresa dentro. Não uma caixa de Pandora, recheada de tormentos e tragédias, mas antes uma caixa de conteúdos diversos — coisinhas simples, mas também sofisticadas, dúvidas, hesitações várias, demências e rigores estéticos sempre surpreendentes — que parecem saídos do saco do Pai Natal. Há prenda para todos? Não, nem tudo tem de ter um final ao gosto de toda a gente. Esse esforço pertence a quem conta a história. Este Natal Amargo passa ao lado do Natal da forma tradicional como se entende. Sente-se o realizador em várias personagens. A angústia e o conflito com que se debate ao escrever um argumento. Há diálogos que nos trazem o Almodóvar dos filmes que o tornaram nome maior da arte cinematográfica. Mas a densidade agora convocada para os diálogos e para os ambientes é um assombro de talento. Ainda dá para sorrir, ou rir baixinho, mas não há lugar para gargalhadas. Neste aspecto, segue a linha do filme anterior — O Quarto ao Lado —, onde o direito à eutanásia, que tanto apoquenta as pessoas muito conservadoras, é colocado como tema superior de registo artístico.
Este filme de Pedro Almodóvar é um filmaço. Todos os filmes de Almodóvar ficam para a história da compreensão dos nossos dias. Isso é extraordinário.
DEAMBULATÓRIO | Pedro Chorão é nome grado da Arte contemporânea. Também foi professor e gostou muito de o ser. A pintura é a sua respiração. Pinta todos os dias. A obra não pára de crescer. Tem exposições programadas para os tempos mais próximos. Uma dessas exposições vai ser aplicada por mim em sítio de reconhecido valor patrimonial. Depois falamos.
DA SÉRIE GRANDES CAPAS | O autor do desenho é Barry Blitt, e a autora do texto é Françoise Mouly, editora de arte da The New Yorker.
NATAL AMARGO | É o novo filme de Almodovar. E um novo filme de Almodovar é um acontecimento. Voltaremos à conversa depois do ansiado visionamento. Não percam. Até já.
Mas tenho uma história para contar, que me desculpem os caçadores de autores de obituários. Não o sou, apenas recordo quem respeito. José Viale Moutinho escreveu-me uma carta onde me sugeria a publicação de um livro seu. Eu tinha acabado de constituir a Estuário e o autor dos textos que deu a conhecer a poesia de José Afonso e os seus envolvimentos queria editar lá. Eu, empenhado na edição de "O Teodolito" de Luiz Pacheco, e de "Terral" de Miguel de Castro, não consegui responder a tempo. Fui indelicado, eu sei. Mas o José Viale Moutinho percebeu a embrulhada em que eu estava metido. Trocámos algumas mensagens (por carta, que naquele tempo era mesmo assim), mas acabámos por não fazer a edição. As razões foram duas: eu não tinha tempo nem dinheiro para enviar para impressão tanto livro de seguida. Lembro-me do fim de uma das suas cartas. Dizia assim: "você é um chato". Tinha razão. Fui um chato. O homem queria mesmo editar na Estuário e eu não percebi isso. Fui um chato mesmo. Fizemos as pazes em conversa por telefone (meio de comunicação mais avançado para a época). "Não há aqui pazes a fazer. Continue a fazer livros bonitos". Bonito serviço, pensei. Chama-se a isto bofetada de luva branca.
Eu gostava muito do José Viale Moutinho. Jornalista corajoso. Escritor de mão segura e cabeça culta. Homem bom. Nem me tinha apercebido de que ele já tinha mais de oitenta anos. A juventude da sua escrita não o fazia entender. Prova que a juventude não está na mente nem no que se faz. Mas o tempo está lá, e é implacável. Este fim é uma tristeza. A morte é um fim trágico. Sempre. Muito obrigado, meu amigo.
FRÁGIL | A vida é assim: frágil, como a definiu numa das suas mais viajadas canções. Jorge Palma foi um intenso viajante, mesmo quando não saía do seu lugar. Um andarilho, como se definiu José Afonso nos seus cantares iniciais. Jorge Palma cantou em estações de metro e em ruas deste agitado mundo tão alheio às diferenças. Ele quis ser diferente. Foi um cantor de todos os protestos quotidianos. Bem preenchido de excessos. Com a liberdade a instigar-lhe o corpo e a mente. Despertou os sentidos e nunca mais ficou quieto. Este fim físico do cantor desperta-nos essa vontade de não ficarmos calados e quedos. Como cantou o seu amigo Sérgio (Godinho): «Ficar parado? Antes o poço da morte que tal sorte». Pois é — a morte, essa ceifeira de vidas, leva-nos um dos nossos artistas mais livres. Um inventor de sons, que pedia ajuda às palavras para completar ideias. A liberdade que cantou fica agora nos nossos sentidos. A nossa liberdade de criar e imaginar irá ser sempre recordar artistas como Jorge Palma. Ele ajudou-nos muito. Muito obrigado, Jorge.
Em Berlim, capital de uma Alemanha em alerta pelo crescimento absurdo da extrema-direita, venceu a Esquerda. Berlim é de Esquerda porque a Esquerda berlinense compreende o seu tempo.
É preciso falar verdade e responder a quem vive problemas reais. A Esquerda perde quando se perde em distracções woke. A Esquerda não é woke: não relativiza as diferenças, assume-as. Denuncia, apresenta soluções e debate opiniões com transparência. A razão da Esquerda afirma-se como a verdadeira alternativa ao imobilismo que gera o desespero. A Esquerda faz política, não caridade. Preocupa-se com a democracia, valoriza a Cultura e reconhece na Arte o motor da análise crítica. São estas preocupações que alimentam o debate de ideias — indispensáveis à construção da Democracia. Viva a Esquerda de Berlim. Nazi-fascismo nunca mais!
DA SÉRIE GRANDES CAPAS | O fascismo é uma minhoca, não é?
ELOGIO DO EXTRAORDINÁRIO
EU QUE JÁ FUI EU | O título está bem apessoado, mas poderia perfeitamente ser este: «O que já foi ainda é». O texto de Paula Parente Pinto (curadora), na folha de sala, define trajectos. Estamos em território de reconhecimento de um passado que insiste em reinventar-se.
O que aqui se revela é o gesto da artista perante a matéria encontrada. O reaproveitamento de materiais outrora de uso útil (ou nem por isso), e a sua integração em novos suportes, dá-lhes novas formas de vida. Pequenas utilidades (ou nem por isso) são transformadas em novos símbolos, agora simplesmente visuais, sem a necessidade de responder a um uso. É da vida e dos «produtos» que a animam que falamos, quando abordamos estes trabalhos de Maria José Oliveira. O objecto muda de lugar, mas fica um lastro que denuncia outros comportamentos. Outros testemunhos de percurso. O reconhecimento que a artista acumula por esse mundo fora é testemunho da competência dessa vontade de mudar trajectos. A utilidade tem agora outra exigência, para nosso bom proveito.
Paula Parente Pinto termina o texto dizendo: «Num mundo irreversivelmente materialista, o que é surpreendente é o reconhecimento de que a sua capacidade transformativa está no gesto e na pergunta, na contínua interrogação que nos coloca: “o que pensas disto?” E é a crença na resposta humana que faz com que o mistério persista».
EU QUE JÁ FUI EU | Maria José Oliveira | MNAC — Museu Nacional de Arte Contemporânea Chiado, Lisboa.
Até 4 de Outubro de 2026.
𝗠𝗔𝗜𝗦 𝗟𝗢𝗡𝗚𝗘 𝗤𝗨𝗘 𝗔 𝗖𝗢𝗜𝗦𝗔 𝗠𝗔𝗜𝗦 𝗟𝗢𝗡𝗚𝗘 𝗱𝗲 𝗭𝗶𝗻𝗻𝗶𝗲 𝗛𝗮𝗿𝗿𝗶𝘀 no 𝗧𝗲𝗮𝘁𝗿𝗼 𝗣𝗮𝘂𝗹𝗼 𝗖𝗹𝗮𝗿𝗼.