sábado, 12 de setembro de 2026

A espuma da semana

Major Tom
PRESCRIÇÃO | Ao cuidado dos deputados da oposição a sério, que chumbaram, juntamente com os deputados que apoiam o Governo da Nação, a moção de censura do partido dos estouvados fascistas.

Já que as grandes preocupações políticas do momento são programadas pelo partido estouvado, fazia-se assim: mandava-se Luís Neves de novo para a PJ, onde foi feliz — embora na PJ seja fácil ser feliz, porque é uma excelente polícia e já o era antes de Luís Neves — e, para que as coisas se resolvessem sem mais atrasos, colocava-se o Bispo de Setúbal como pároco da PJ. Como o prelado se diverte em jantares com os estouvados, podia ser que, no confessionário, o estouvado-mor confessasse o que aconteceu verdadeiramente no assalto ao seu gabinete, já que é o único que parece ter lá estado na hora do crime. Tenho dúvidas — o biltre é capaz de tudo, até de se chamar santo a si próprio —, mas sempre seria uma tentativa.

E para o Ministério da Administração Interna ia o Major Tom. Ele aqui farta-se de ladrar aos porcos do vizinho; mesmo do outro lado da cerca, os porcos reagem ruidosamente, mas acabam por ir para a pocilga. Era só.

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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Manhattan já está a arder






Foi há 25 anos. Isto é uma guerra
, pensei e disse à minha gente. Éramos três a percorrer a Quinta Avenida. Tínhamos o voo para Lisboa marcado para essa tarde do dia 11. Aquele passeio pela avenida seria o último da viagem à cidade que nunca dorme, dizem (há cidades que dormem?). No dia anterior tínhamos estado em território das Torres. Este relato é de quem esteve perto da tragédia e sentiu o sofrimento humano. 

Era cedo. Quem trabalhava na big city caminhava em passada larga, a caminho dos lugares das suas ocupações diárias. De repente, ouve-se um estrondo, seguido do romper de uma fumarada espessa pelos ares. Estávamos a pouco mais de dois quilómetros da zona atacada. As pessoas interrogavam-se. "Foi um avião contra o Empire State Building", "Foram estes", "Foram aqueles", "Foram aqueloutros". Abrem-se as portas de um carro. O proprietário quer que as notícias que passam no rádio sejam ouvidas por todos. Afinal, tinha sido um avião contra uma das Torres Gémeas. E agora mais outro contra a outra. O espanto tornou-se preocupação e sofrimento. A destruição e a morte tornavam-se uma preocupação generalizada na cidade. E no mundo, é claro. Uma mulher muito jovem tentava falar com o namorado, que pegara cedo ao trabalho nas torres. O desespero fazia-lhe estremecer o corpo. Todos nos sentíamos solidários.

 

Depois foi assistir ao desfile da gente agredida por aquele acto hediondo. Cruzámo-nos com aquelas figuras humanas cobertas de uma poeira uniformemente cinzenta, de fato completo e pasta pela mão, ou em mangas de camisa, ou mesmo de tronco nu. Gente de carne e osso que mais parecia saída de esculturas de Juan Muñoz. Não as figuras sorridentes, mas outras, agora, esculpidas num realismo que convocava a tristeza da destruição.

Mergulhámos nas notícias. O hotel, próximo de Times Square, facilitava a curiosidade. Ali aguardávamos informações de Bush, o presidente taralhoco. Ficámos mais cinco dias em Manhattan. Agora estávamos na cidade mais segura do mundo. Aviões militares rompiam frequentemente os ares. Assistimos a acções de solidariedade com as vítimas. A rua estava tão frequentada como sempre.

 

No regresso, viajámos num avião que nos disseram ser o maior do mundo. Foi no domingo seguinte que partiram para a Europa os primeiros europeus que ainda permaneciam na cidade. Fizemos escala em Frankfurt e chegámos a Lisboa pela noitinha.

Fomos os primeiros portugueses a chegar a Portugal, informou-nos uma jornalista de uma estação de televisão. Lá me dispus a ir a um programa dar algumas opiniões sobre o assunto. Um programa da manhã. Com gente aos pulos e cantores manhosos em exibição. Enfim, ninguém é perfeito. E eu sinto-me muito próximo da imperfeição mais perfeita quando cedo nestes assuntos de empata-audiências.

 

Manhattan é um sítio incrível. Adorámos. Mas nunca estamos sozinhos no mundo. E o mundo esteve mal por aqueles dias. Tudo piorou. E continua a piorar. Não se vê solução. George Bush era o presidente naquele tempo. A sua administração parecia umbater no fundo. Mas o asqueroso Donald Trump veio desmentir essa ideia. Com este presidente, tudo é possível. Já percebemos. Os terroristas agora são outros. Agora treinados a partir de Washington por um alucinado. Tudo piorou.

 

NOTA DE RODAPÉ: Na mesma data, mas em anos diferentes, em 1973, ocorreu o golpe de Estado no Chile: militares liderados pelo general fascista Augusto Pinochet, com o apoio da administração norte-americana de então, bombardearam o Palácio de La Moneda. Tenho assinalado este acontecimento todos os anos, quando abordo esta data. Este ano, dei maior relevo aos ataques em Nova Iorque, por seassinalarem 25 anos e também porque eu estava lá. Fica feito o esclarecimento.

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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Lena Afonso



Era assim que era conhecida pelos amigos. Vi na página — Facebook — do Henrique (Guerreiro) que tinha morrido a Lena. Morte inesperada que nos deixa sem saber o que dizer. Deixa-nos neste «redondo vocábulo», como escreveu e cantou o seu pai. E é mais uma «soma agreste» que cresce entre amigos desaparecidos.

Tivemos sorte em ter-te como amiga.

Obrigado por isso.

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Design de comunicação


DA SÉRIE GRANDES CAPAS |  The New Yorker. Art: Lennart Gäbel.
Capa de Outono, a sair em 14 de setembro de 2026. Lennart Gäbel ilustra o ambiente do metro de Nova Iorque — um cenário reconhecido por quem por lá passa todos os dias.
«Queria captar o quão inspiradores podem ser os vários estilos de moda que se veem pela cidade», afirmou o autor. O resultado está à vista: um trabalho lindíssimo.
Amanhã, sexta-feira, dia 11 de setembro, assinalam-se 25 anos sobre o ataque a Nova Iorque. Falaremos disso. 
Até amanhã.
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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

E os manicómios são para os malucos

A gente até percebe que opinadores da direita mais opinativa se levem muito a sério e defendam que mais ninguém tenha opinião. A política é para os políticos e para quem os apoia. Já Salazar defendia e aplicava severamente a missiva. São opiniões. Mas defenderem assim, às claras, estas ideias adeptas do imobilismo e da indiferença faz alguma confusão a quem, como eu, acorda e começa a olhar para todo o lado com vontade de comentar tudo o que mexe. Devemos ser malucos para estes opinadores limitadores. Só pode. Só eles podem comentar o que lhes dá na realíssima gana, mesmo que o que lhes passa pela cabeça seja só merda.
 
Imagem retirada de publicação em mistérios do organismo, blogue do José Simões
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Dançar Educação e Cultura


A Quorum Dance Company completou, em 2025, vinte anos. É uma estrutura absolutamente extraordinária, que saiu da cabeça de um visionário dos nossos dias: Daniel Cardoso. Ontem, passou na RTP2 um documentário que não me deixa mentir.

As coreografias de Daniel Cardoso vão buscar ideias ao fundo dos tempos, transformando pensamentos profundos em acções contemporâneas. Contemporaneidade que convoca a autenticidade. Daniel é também um bailarino excepcional, que não quer ficar sozinho. Cria actividade para quem tem talento e vontade de encontrar uma outra maneira de dançar e de estar com quem aprecia a Arte e as suas consequências. Rigor estético em todos os segmentos. As consequências da arte são o melhor que pode acontecer a um país. O mundo culto conhece esta estrutura cultural. Daniel Cardoso e a sua companhia já pisaram muito chão por esse mundo fora. Não param de trabalhar e de ser aplaudidos.
Por cá, a Quorum Dance Company é apoiada pelo município da Amadora. Não tem apoios do Estado. Mas devia. São as artes que fazem avançar as sociedades. «A Educação e a Cultura são o melhor de um país», diz, às tantas, Daniel Cardoso. Tem razão.
 
O documentário na RTP2 é um excelente contributo para que se perceba o esforço e o percurso desta gente, que merece toda a nossa atenção. Eu vou ficar atento. Não quero perder nem mais um passo das bailarinas e dos bailarinos da Quorum Dance Company.
Não os percam de vista. É para vosso bem.
 
https://quorumdancecompany.com/


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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Humor com humor se paga

Malta que profissionalmente faz rir vai encontrar-se num espetáculo que reúne muita malta da área. Convidaram um caso sério do humor americano para encimar o cartaz.
 
Mas esse caso sério é mesmo um caso sério no que diz respeito a opiniões políticas, que dizimam qualquer atitude política decente — digo eu, que não concordo com as posições da vedeta convidada.
 
Acontece que, entre os restantes convidados portugueses, também há quem não concorde com o convidado americano e cancelou a sua participação em protesto pela presença da dita vedeta. É uma atitude. E com estes eu concordo.
 
E então acontece o esperado: parece que aquilo está a dar para o torto. E a gente sabe: o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita.

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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

No tempo em que os animais falavam

O homem-sapo português congratulou-se, entusiasmado, com a vitória dos herdeiros de Hitler na Alemanha. A mulher-Hitler (lamento, mas não encontrei animal mais repugnante para a ilustrar) ficou radiante e, empolgada com o seu característico patriotismo, agradeceu a Musk e a todos os nazis. Valentona.

O homem-sapo chama "abrir de olhos" a esta cegueira colectiva que está a afectar quase metade da população votante alemã. E, claro, vieram logo à baila as "fronteiras sem controlo" — como eles gostam de dizer — e a maldade discriminatória e ameaçadora.
Tudo isto faz sentido. Lá como cá, alastra o bafiento ambiente fascista. Lá como cá, revelam-se já as saudades das ditaduras cruéis e miseráveis. Hitler e Salazar são os evidentes heróis destes palhaços sem graça. Combater quem não é como eles é o motivo. O circo está instalado. E com feras.
A líder nazi alemã pratica no seu recato tudo aquilo que condena em público. Contradição? Nada disso. Atacar quem é diferente, desde que não seja dos nossos, é a razão da luta desta gente tão amiguinha do seu povo.
Chama-se a isso coerência. Coerência fascista. E exige a coerência do nosso combate.

Contradigo-me?

O passado e o presente perdem a força — Já os enchi, já os esvaziei,
E vou cumprir a minha próxima viragem do futuro.

Tu que, lá do alto, estás à escuta! O que tens para me dizer?
Olha para o meu rosto enquanto aspiro a aproximação furtiva da noite,
(Fala com honestidade, ninguém mais te ouve, e permanecerá só mais 
      um minuto).

Contradigo-me?
Muito bem, então contradigo-me
(Sou imenso, contenho multidões).

Walt Whitman. FOLHAS DE ERVA. Canto de Mim Mesmo (Secção 51)

(Edição: Relógio D'Água. Tradução de Maria de Lourdes Guimarães. Prémio de tradução Pen Club, 2002)

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domingo, 6 de setembro de 2026

Elogio do extraordinário









GREAT LOVES | Esta colecção Great Loves da Penguin Books é um bom exemplo de como o design editorial pode reinterpretar clássicos da literatura com sofisticação, contenção e apelo comunicativo, adicionando-lhes contemporaneidade.

O fascínio deste projeto gráfico reside no saber traduzir temas emocionais complexos — a paixão, a obsessão, a compaixão, a traição, a vulnerabilidade — através de uma linguagem visual extremamente depurada. A reduzida moldura em negro com o selo distintivo no topo convoca a necessária coerência da coleção, funcionando como uma "janela" para a essência narrativa. A escolha da tipografia sem serifa, sóbria e equilibrada no rodapé, garante que o foco permaneça inteiramente na ilustração central, sem ocupar excessivamente o olhar. As ilustrações criam uma saliente sensação de profundidade e ocultação. A gradação de tons evoca visualmente a ideia de algo que se esconde ou se adensa, como a própria narrativa. São metáforas perfeitas: estruturas repetitivas e frias, mas simultaneamente enigmáticas, que despertam a vontade de exploração — curiosidade que poderá ser satisfeita com a leitura. A intenção do design é essa convocação.

Resumindo e elogiando: a Penguin Group entrega nesta colecção um trabalho gráfico de excelência. Ao abdicar do óbvio ou do figurativo direto, o design aposta na sugestão do simbolismo visual para evocar o tom atmosférico da obra. Trata-se de uma solução estética sem tempo cronometrado que valoriza o livro enquanto objeto visual e convida o leitor à reflexão antes mesmo de mergulhar na leitura. Estes pequenos livros fazem parte das minhas referências estéticas há muito tempo; devoro-os e volto lá frequentemente para apreciar a competência do grafismo. Cheguei a comprar um ou outro exemplar sem me preocupar com o conteúdo incluso. Mesmo aí, não me desiludi: a Great Loves dá a conhecer muitos dos melhores textos dos melhores autores. Tudo nesta coleção é extraordinário. Viva ela. 


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sábado, 5 de setembro de 2026

Vale tudo

Todos percebemos que o assalto ao gabinete foi uma encenação. Também sabemos o que aquela gente quer com a moção de censura, por causa de um ministro que não está para reconhecer as razões dos fascistas, independentemente da fragilidade política que o sustenta com evidente dificuldade. Percebemos que o líder fascista é capaz de tudo, como acontece com qualquer líder fascista. 

A propaganda é a prioridade. A transmissão da mentira é útil às suas sinistras intenções. Os gigantescos cartazes espalhados por todo o país não desmentem esta ideia: falem de nós, nem que para isso se invente o que for preciso. Os jornais e os jornalistas, com certeza instruídos pelos donos das empresas de comunicação, dão palco às criaturas de Ventura. O próprio Ventura é chamado a dizer coisas a toda a hora. As criaturas confirmam as mentiras e os dislates do chefe supremo, que se autonomeia um enviado pelo divino. Palco não lhes falta. Fazem a agenda e defendem-na com garra, nem que a voz lhes doa. Chegam a desmentir-se no mesmo debate. Envergonham-se disso? Nunca. A falta de vergonha na cara é a imagem destes cretinos.

Mas estão contentes com esse espetáculo mediático? Nem pensar. Querem tudo. Querem que seja divulgado unicamente o que inventam. Saudades do lápis azul. Bons salazaristas. O inenarrável deputado/veterinário privado de Ventura não gosta de jornalistas. Os da Lusa são nojentos, diz. E adianta que vai fechar a agência logo que o seu partido chegue ao poder. Percebemos que os fascistas pretendem elaborar a comunicação que querem que seja ouvida, lida e falada. Os jornalistas são um empecilho aos seus intentos. Nada de novo existe na ameaça. Sempre pensaram assim, os fascistas.

Imagem: cartoon de Nuno Saraiva - Inimigo Público 

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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A sofisticação da morte

O governo de Benjamin Netanyahu continua a fazer sofrer uma população inteira — um povo que se vê expulso do seu território, sem qualquer respeito pelas regras estabelecidas internacionalmente. Uns seres sem classificação foram de Portugal apoiar o genocídio que dizem não existir. Chamar-lhes seres humanos não condiz com qualquer classificação razoável. Não são classificáveis; envergonham-nos.

A morte sai à rua todos os dias. As pessoas em Gaza são assassinadas sem qualquer hesitação. E não é com "falinhas mansas" que tudo acontece: é com material bélico. Pessoas tornam-se alvos a abater. As crianças são alvos porque é o futuro daquele povo que querem apagar do mapa. A existência de um povo anula-se assim: à bomba e ao tiro. Em pleno século XXI, são usadas armas de destruição cada vez mais sofisticadas. Estes poderes autoritários só pensam na sofisticação do mal e na aplicação da violência. A morte fica-lhes a matar.

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Gloria Steinem



Texto de Helena Vasconcelos no facebook: Durou séculos, durou milénios. Impingiram-nos a ideia de que era muito melhor ser "feminina" do que ser” feminista”. As mulheres deviam ser belas e amáveis, os homens podiam ser horrendos, fisicamente, mas não importava porque tinham “ideias”. Quando as feministas começaram a falar alto, as “ideias” não importavam e propagandeavam como eram feias, bigodudas, malcriadas e sem atrativos ( para os homens). Nunca fui na conversa e quando “descobri” Gloria Steinem – que morreu ontem, com 92 anos (1934-2026) – percebi tudo. Gloria era linda, sexy, destemida, feminista sem complexos nem temores. Quando apareceu ( nos anos 1960) como “coelhinha”, na Playboy – o suprassumo da objetivação da mulher – o escândalo não podia ter sido maior. Para as feministas tratou-se de uma traição – Gloria era jornalista e “infiltrou-se “para escrever sobre esse tema – para os outros só demonstrava que ela “era como as outras” – um belo corpo, uma mulher belíssima cujas ideias não eram para levar a sério.

Mas Gloria Steinem impôs-se: jornalista de rigor inatacável, escritora, defensora dos Direitos Humanos, fez campanhas sem fim contra a mutilação genital feminina, contra a Guerra do Vietname e a do Golfo e apoiou sem reservas causas como Black Lives Matter, a reunificação das Coreias, os direitos reprodutivos das mulheres e dos direitos LGBTQ. Uma guerreira, sempre bela, sempre inspiradora.
Mais “uma das minhas” que parte.
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O crime compensa?

Com tanta falsidade a circular por aí, já não basta procurar a verdade: é preciso uma candeia, uma bússola e muita paciência. É que a mentira espalha-se com uma facilidade quase inacreditável, quando encontra quem a queira vender como verdade — e quem esteja disposto a comprá-la sem pedir comprovativo.

Tempos estranhos. Tudo parece mentira. Desconfiamos de tudo. Tememos sempre o pior. E o mais inquietante é que, demasiadas vezes, descobrimos que o pior não era uma previsão pessimista. Era simplesmente a mentira a mostrar todo o seu esplendor.

Será em novembro que os americanos vão finalmente perceber o lamaçal em que Trump os meteu? O homem delibera assistido por uma insensatez aparentemente infantil. Os exercícios de egocentrismo imbecil são de divulgação diária. A credibilidade da América é destruída à velocidade de cada discurso do biltre. Reconstruí-la vai dar trabalho. Muito trabalho. A América decente terá de se esforçar durante anos para limpar o estrago causado ao mundo neste período em que o crime deixou de ser crime para passar a ser apresentado como virtude; a mentira, como estratégia; e o autoritarismo, como dádiva divina. É uma extraordinária inversão de valores: quem mente é um visionário, quem ameaça é um líder, quem trapaceia é um vencedor e quem acredita na trapaça é um vulgar imbecil que se julga vencedor também.

Aguardemos, portanto, que Trump vá pregar para longe e chame para a viagem o Ventura dos chiliques e dos amoques — dava jeito à decência e razoabilidade aqui do jardim —, mais todos os fascistas de serviço pelo mundo. Já fedem. À naftalina das ideias juntam o cheiro do crude e do lixo que espalham sem reciclar. Gente assim, tão mal-cheirosa, pode ir para bem longe. Para Marte, talvez. Musk já ligou os motores dos foguetões?

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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Tão fofinhos, os fascistas


FASCISTAS CENSURAM GOVERNO | Moção é uma loção. E os fascistas, pelos vistos, querem mesmo é limpar a pele para poderem posar, impecavelmente indignados, nos vídeos das redes sociais.

Passam a vida à procura de cosméticos: uma moção aqui, uma espuma ali, qualquer coisa que produza bolha suficiente para alimentar o circo diário nas televisões e nas ditas redes sociais.

No partido com nome de detergente ainda não perceberam que não há loção suficientemente eficaz para limpar a pele dos grunhos — muito menos para lhes lavar as ideias.

Continuem a esfregar. Talvez um dia consigam remover a sujidade. As ideias, essas, parecem ser mais difíceis de encontrar. Logo, também mais difíceis de limpar.

Voltem para os buracos onde vegetavam. Deixem as pessoas viver.

Cretinos.
Imagem: cartoon de Nuno Saraiva - Inimigo Público

Homenagem

CASSANDRA WILSON | 1955 - 2026

Fotografia: Mark Seliger. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Deambulatório

https://www.facebook.com/reel/1091200273415126 

MOVIMENTO DE HOMENS QUE APOIAM O MOVIMENTO DAS MULHERES CONSERVADORAS | Desculpem qualquer coisinha. Disse aqui que não me ia «meter» com Setúbal nunca mais. Mas há performances que não permitem o recato. Estou de volta, mas saio já. Descansem. É só para dizer umas coisas.

 
O cançonetista sexista, apologista da exaustão sexual nas suas canções, declara aqui aquilo que entende ser uma mulher «às direitas». Há nisto uma certa coerência: cada um define o mundo à medida daquilo que consegue imaginar. De facto, Setúbal foi «decorada» — leia-se: destruída patrimonialmente — por uma senhora. Apalhaçaram-se edifícios públicos, criaram-se esculturas ridículas e a cidade foi sendo «decorada» ao nível do cortinado e do reposteiro. A senhora foi-se embora, mas está «de volta», como o próprio nome do movimento que venceu as eleições ameaçou.
 
O Mercado do Livramento sofreu recentemente nova ornamentação. E a forma verbal é aqui muito bem aplicada. Resultado: hediondo. Ridículo.
«Ah, mas as pessoas gostam.»
Tudo bem. Tenho, no entanto, uma ideia que desmente outra, muito antiga: os gostos discutem-se. As pessoas que se habituem a perguntar, a discutir os assuntos e, sobretudo, a perceber que o gosto também se educa. Que se habituem a respeitar o património e a compreender que uma cidade não é uma sala de estar onde se muda o cortinado ao sabor da moda ou do gosto de autarcas pouco esclarecidos esteticamente. Ou com o esclarecimento "de senhora conservadora", como quer o arauto da peça.
 
E há as outras pessoas: as que não gostam e sabem por que não gostam; as que possuem uma relação com a cidade que não se esgota no «gosto» ou «não gosto»; as que têm alguma substância intelectual e estrutura cívica para discutir aquilo que lhes é apresentado como inevitável.
 
Dito isto, acrescento: agora é que está tudo bem. O Movimento das Mulheres Conservadoras tem uma voz masculina de elevada consciência política; a coligação vencedora — da qual o cançonetista faz parte activa — faz pendant com o partido racista e misógino; e a cidade quer ser Capital Nacional da Cultura em 2026, disseram-me. Não sei se é graça ou se querem mesmo levar isto a sério. Se for a sério, há qualquer coisa de extraordinariamente coerente nesta espécie de paradoxo: uma cidade que aspira a ser capital da cultura a celebrar, simultaneamente, a sua própria descaracterização. Talvez seja essa a nova ideia de cultura. Ou será apenas decoração? É que, como sabemos, há coisas que, depois de decoradas, já não precisam de ser pensadas. Pensar dá trabalho. Vale mais a pena pendurar cortinados e apetrechos decorativos por todo lado e chamar uma gutural voz que tudo explique sem que a voz lhe doa nem que o ridículo o incomode. 
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