e outras tácticas futuras
Só o facto da memória dos povos ser tracejante explica o entusiasmo das bandeirinhas. Lembro três ocasiões em que as bandeirinhas andaram lúbricas à solta, num frenesim idêntico. Durante o desfile lisboeta que empurrou o escol do país para as naus que rumariam a Alcácer Quibir, após o vexatório Ultimato inglês, e na abertura da Exposição Universal de Lisboa, em 1940. Um momento em que o país foi apanhado de calças na mão e duas manifestações que consagravam um poder de insânia larvar. É obra!
Fidelino de Figueiredo, em nota apensa à sua História de Portugal, transcreve um documento de época que, com detalhes, retrata a exaltação da fidalguia que havia penhorado cão, irmã solteira, cortinados, brasões, as próprias "letras" das hipotecas, a fim de participar no luxo do cortejo que se revelaria final. Foi um espectáculo que, pela sua dimensão de potlach (- a uma escala de irracionalidade que hoje volta a distinguir-nos com dois submarinos), causa ou risos ou náuseas, arrumando qualquer nacionalismo no expositor dos congelados.
Julgava-se que pelo menos disso estávamos isentos mas o Euro 2004 trouxe-nos uma regressão infinita. Hoje, os meus compatriotas, buzinam como carneiros melancólicos a quem excitou o tilt dos flippers, e, apesar de gostar de futebol, suspeito que o Euro representa o «turning point» que empurra o país de um longo eclipse para a devassa final. É a altura de emigrar.
Não me lembro de ter visto bandeirinhas quando o Saramago ganhou o Nobel ou o António Damásio o êxito internacional. João Magueijo continua a viver em Londres, por falta de condições para fazer investigação científica em Portugal, e não há uma única escola secundária no país que tenha um piano. Os espanhóis, apesar de três bolas na trave, perderam por mérito de um golo um tanto fanado do Nuno Gomes mas o que é facto é que hoje os trunfos que a economia portuguesa joga são espanhóis e que até a zona do Alqueva, o nosso último grande empreendimento, é maioritariamente deles. Deve ser mais catarse que por convencimento que buzinam os meus compatriotas, cada bandeira a alucinar um gambosino.
O "génio do pintelho", que sabia o que a casa gasta, ganhou o Leão em Veneza, e espalhou ele mesmo umas bandeirinhas nos fotogramas seguintes, à míngua de quem celebrasse com ele. Mas no fim, lúcido, deu-se por sodomizado por um mangalho astronómico que não correspondia à média, baixa, do país.
Em ritmo tracejante, janela sim janela não, as bandeirinhas cobrem o país como uma gelatina à cata de osso, ou um perdigueiro de lambarice claudicante. É compreensível que tenha sido um brasileiro o apóstolo. Em S. Paulo, durante o Campeonato do Mundo da Coreia, encontrei num semáforo um faquir que, entre sinais, engolia vidro e cuspia fogo sobre a bandeirinha brasileira. Explica-me o amigo que me transportava: «este tipo tem de ser faquir porque tem a desgraça de ser honesto e não conseguir roubar!». Há dois anos, ainda não imaginava que em Portugal, a tão breve trecho, seria útil abrir uma escola de faquires... e que os desequilíbrios económicos e sociais se instalariam inexoravelmente, sem um ai, um sinal de revolta, um bardamerda, afeiçoados à fatalidade que o fado, fanhosamente, entre fífias, afaga. Estranha coincidência a do fado estar na moda no momento em que o país voluntariamente se amesquinha! Coincidências que ilustram "uma estranha forma de vida".
Entretanto, o Alberto Pimenta lançou um livro notável (editada pela Teorema) e é acolhido pelo silêncio. Os jornais, as rádios, as televisões, não lhe dedicam um grama de atenção. Deve ser o custo de não escrever letras para o João Braga! E em Setúbal, onde uma excelente encenação de Harold Pinter não tem o público que merece, três mulheres respondem pelo crime de aborto porque o povinho, no fundo, no fundo, suspeita de tudo o que é indiciado, a bem ou a mal. As prioridades estão todas trocadas, e mesmo nas bandeirinhas não se sabe se é o vento que as move ou o tecido que as mexe.
Coragem, portugueses, a "retoma das lancheiras" já palpita ao cheiro das bandeirinhas - a miséria não usa meios tons e faz-se ao esplêndido! E depois, José, que fazer dos paninhos? Da esfera armilar, tão indutora de pecados? De tantos pauzinhos em alta? Avanço uma hipótese ? queimem-se! Há-de ser a fogueirinha tão famosa como a que consumiu a Biblioteca de Alexandria, pois não vale uma simulação de Rui Costa as Tábuas de Hermes Trimegisto, e uma canelada de Petit «O Piolho Viajante»? Coragem Portugueses, o futebol é a metástase mais prometedora!
E, desconfiado que o expediente das bandeirinhas não será o suficiente para os quartos de final, a generosidade assiste-me e forneço outras tácticas para o jogo.
Primeira, recorrer ao truque que num jardim zoológico se usou para pôr os pandas a copular: durante os jogos, passar em placards gigantes acoplados às balizas jogadas gloriosas dos pretéritos antepassados, Travaços, Eusébio, Futre e Nené. Que Poborsky não se sentirá inibido ao ver, em simultâneo e em escala gigante, o saudoso Futre a fintar os polvos galegos, ou o Eusébio a desfeitear Pelé? Enquanto aos nossos, proezas tamanhas provocarão espontâneas vibrações de panda.
Segunda: a hipótese holográfica.
Na marginal da Póvoa do Varzim há um talho que se chama "Eça de Queirós". É o que está certo. Só que sobre a carne que alimentava as ideias impenitentes no Eça, esses embriões selvagens, correu o rio de Heraclito, e a memória que validava o nome ? revejo o escritor de monóculo ao balcão, a pedir, "... dê-me oitocentos gramas de acém redondo, ó Ramires!" é hoje um fantasma no cristalino. Mas podemos elevar esta sugestão a uma ilusão holográfica, a semear pelos relvados do futebol. Fugacíssimas "aparições" a deflagrar pelo campo, num ritmo intermitente que não permita o ónus da prova, e que turvem olhos e canetas dos adversários. Flashes de Eça de Queirós a bater-se com uns túbaros, de Bulhão Pato a chupar as amêijoas, ou de Cardoso Pires a debicar um whisky, a rebentar por entre as pernas de Zidane, no momento em que o atleta se prepara para bater o penalty. Visões que não duram mais que um décimo de segundo mas que, subliminarmente, abarrotam a perplexidade dos adversários. E à defesa, armados dos seus dons da ubiquidade, Fernando Pessoa e João Pedro Grabato Dias. A vitória tem de começar por ser retiniana, antes de se tornar muscular.
E até lá compatriotas, que continue o desproporcionado concerto das buzinas, que fiquem áfonos de gritar «Portugal, Portugal» - eu retiro-me a rever «Um dia Inesquecível» de Ettore Scola, uma fita tremenda onde dois seres frágeis e sós partilham o segredo e os receios da sua diferença, enquanto à volta uma unanimidade irracional corrompe os corações e os lugares com os agoureiros da morte. E como afino os íntimos desacordos e o país é este patético desperdício de energias, pobre matéria dissipada, aí vai bombarda:
O FECHO DO BOMBARDIER
1
A língua do cão desagua
na fonte santa. Num incessante
regateio, os sinos ao longe
forçam ribeiras, gorjeios.
Comes areias, no recosto
dominical, atenta na tv
à matança das focas. De paulada
em paulada se dá folga
à estatística. Em golfos
rubros. Num frémito
apertas a cabeça do terrier
para que não veja a morte
catódica, e na Ponta do Ouro
titilem as vogais da carne.
2
Pára. O primeiro-ministro debita.
Tem o raciocínio entaramelado
pela lembrança de ter sido corvo,
e capacito-me da crueldade do bem.
De miúda, o ensejo de conhecer os comboios
por dentro, de subsistir no que se evita
quando a locomotiva talha
as trevas na charneca e a esperança
infecta um olho à criança atada
ao cepo da pobreza, ao aviltamento
da mãe que se vende aos espanhóis
para comprar a fiado. Esta gente,
pelas mil abscissas do trovão,
quer impôr imposto ao grito.
3
Tinha atirado com a toalha ao chão,
a ulcerada chapa de ferro
que jazia junto ao poço. E
aos seus desapontados buracos
acudia o verde, tufos de ervas
feias e raquitícas. E assim intuí:
"os comboios não são eternos."
O que lhes dá um hálito humano,
a fanada loquacidade do galo
capão. Poucos anos depois
li no jornal que havia vagas
no Bombardier e pus a mãe
no asilo. Há escolha entre
o que amamos e quem amamos?
4
Um noivo na aldeia, ria a bandeiras
despregadas c "o colega de trabalho.
Foi o que me tramou" os santos,
a pílula. Dez anos a montar janelas
em chapas que serão velozes.
Também eu fui um bebé
recoberto d' ouro, estúpida papoila
que as galochas de um cauteleiro
pisaram. Será invisível o ópio
que nos aveluda as veias? O sinistro
perseguia-me, comprei um cão.
Por cicatrizes penso, assopradas
no zinco, vidro e ar condicionado.
O maquinista devia ser ministro.
5
Mensalmente, envernizam-me a cólera
com o subsídio do desemprego.
Cheira a mijo prensado, a neura, há
tanto que não mudo a roupa da cama.
Minguo, dois maços por dia p' ra
três salchichas e um ovo, é fado
com desrima no pulmão, não ganha
pr' a vidinha nem se compromete.
Revejo imagens de minha mãe
a entrar em pranto nos penhores,
ou a jogar ao prego c' os espanhóis.
Que emoção quando feríamos
um dedo e o calor do sangue
devolvia uma vida pujante.
6
Dezoito meses d' ecos à procura
de autor. De uma voz coriácea
e fidedigna ao espelho;
de um amo... mesmo desprovido
de beleza, e de quem se comente
os filhos ou como esquece
o panamá no café. Dezoito
meses pelados por um governo implume.
Desabrochará, o primeiro dia após
o subsídio, numa queimadura de 1º
grau que já se move, sorridente.
Peludo, como as partes, será o fogo
e fora de si, extasiados, os orifícios
do meu corpo planarão sem brevet.
7
A vantagem dum cão é que não tem
fachada, promissórias românticas.
Nem a morte, cravado o gume
até ao cabo, lhe revela dissimetrias.
Pude então fazê-lo sem a custódia
duma lágrima. A pele, o desosso.
Comovi-me por afinal não ter
mais carne que um coelho - moída
só dava para almôndegas. Parecia
que voltava à cantina do Bombardier.
Convidei dois antigos colegas.
E vinho à discrição. Adoraram.
Foi uma risada quando sugeri
que comíamos os tomates do ministro.
António Cabrita
domingo, 20 de junho de 2004
sábado, 19 de junho de 2004
Chico Buarque
Fez a banda passar, despertando em Drummond de Andrade a vontade de falar na alegria de que o seu povo precisava. Viveu a música do seu país e do mundo sempre pelo lado dos que se preocupam em lhe acrescentar algo de novo. Acrescentou. Foi pioneiro da música nova do seu país. Depois desatou a escrever. Tendo feito de melhor que por aí tem saído. Já aqui falei do admirável "Budapeste".
Mas o que interessa estar a falar do que toda a gente sabe?
Francisco Buarque de Holanda Faz hoje sessenta anos. Quem diria? Até parece que foi ontem que ouvimos repetidamente o "Samba de Orly", "Tanto Mar", "Pedaço de mim" ou "Almanaque".
Ficou triste quando estragaram a festa em Portugal. Escreveu então "Tanto mar", 2ª edição, revista, gravada para o disco com o título genérico: "Chico Buarque".
Nós estamos muito contentes, por termos apreciado tão bem a sua obra.
E estamos contentes por esta festa de aniversário.
Parabéns, pá.
JTD
sexta-feira, 18 de junho de 2004
Gonçalo M. Tavares
O António Cabrita forneceu-me, com entusiasmo, o livro de Gonçalo M. Tavares: "Biblioteca".
Numa breve nota, o autor justifica a prosa desta forma: "O ponto de partida deste livro é a obra dos autores - Nunca aspectos biográficos. Uma ideia ou apenas uma palavra mais usada pelo escritor (por vezes, mesmo associações inconscientes e puramente individuais) estão na origem do texto. Mas cada fragmento segue o seu ritmo próprio.
O percurso de leitura poderá ser determinado pelo acaso ou pela vontade dirigida (e não apenas pela sequência da paginação). Agrada-me a ideia de que alguém possa ler alguns destes textos fragmentos hoje e outros daqui a alguns anos."
Acontece que é difícil deixar a leitura deste livro. Os autores estão todos lá, de uma forma ou outra. Sente-se a pulsação de cada escritor que o Gonçalo convoca. Só para dar um arzinho do que digo, passo para aqui um dos curtos texto do livro. Pode ser Arthur Miller, e reza assim:
" Nenhum homem é feliz apenas com um frigorífico, um ordenado, uma mulher e duas cervejas. Nenhuma lâmpada tem tanta luz que baste uma lâmpada para permaneceres alegre por dentro.
Tenho que sair - disse ele, e bateu com a porta.
Titulo: Biblioteca
Autor: Gonçalo M. Tavares
Capa: Margarida Baldaia
Edição: Campo das Letras
JTD
Numa breve nota, o autor justifica a prosa desta forma: "O ponto de partida deste livro é a obra dos autores - Nunca aspectos biográficos. Uma ideia ou apenas uma palavra mais usada pelo escritor (por vezes, mesmo associações inconscientes e puramente individuais) estão na origem do texto. Mas cada fragmento segue o seu ritmo próprio.
O percurso de leitura poderá ser determinado pelo acaso ou pela vontade dirigida (e não apenas pela sequência da paginação). Agrada-me a ideia de que alguém possa ler alguns destes textos fragmentos hoje e outros daqui a alguns anos."
Acontece que é difícil deixar a leitura deste livro. Os autores estão todos lá, de uma forma ou outra. Sente-se a pulsação de cada escritor que o Gonçalo convoca. Só para dar um arzinho do que digo, passo para aqui um dos curtos texto do livro. Pode ser Arthur Miller, e reza assim:
" Nenhum homem é feliz apenas com um frigorífico, um ordenado, uma mulher e duas cervejas. Nenhuma lâmpada tem tanta luz que baste uma lâmpada para permaneceres alegre por dentro.
Tenho que sair - disse ele, e bateu com a porta.
Titulo: Biblioteca
Autor: Gonçalo M. Tavares
Capa: Margarida Baldaia
Edição: Campo das Letras
JTD
quarta-feira, 16 de junho de 2004
Demencial
"Aquilo a que assistimos nos últimos dias em torno da selecção nacional atingiu proporções demenciais. Sentimos que se trata de um fenómeno de patriotismo, mas, como declarou o sociólogo Carlos Fortuna, de um patriotismo a baixo custo. Por um lado, não exige grande esforço: uma bandeira à janela, e já está. Por outro lado, poderá ter o seu reverso ao mínimo desaire, e foi o que começou a acontecer.
Mas durante uns dias foi a demência. O meu telemóvel promete comentários de Humberto Coelho depois de cada jogo - basta ligar para um número. E passeando nas avenidas novas não contenho uma gargalhada solitária. Os brasileiros chamam "orelhão" ao lugar onde podemos efectuar uma chamada telefónica em plena rua. Pois aquilo que tem habitualmente a forma de uma orelha aparece agora com a forma de uma bola de futebol no interior da qual enviaremos mensagens urgentes, notícias de doenças súbitas, dramas empolgados, testemunhos de amor. Tanto delírio não augura nada de bom. Vamos mesmo ganhar?"
Eduardo Prado Coelho, Público
Mas durante uns dias foi a demência. O meu telemóvel promete comentários de Humberto Coelho depois de cada jogo - basta ligar para um número. E passeando nas avenidas novas não contenho uma gargalhada solitária. Os brasileiros chamam "orelhão" ao lugar onde podemos efectuar uma chamada telefónica em plena rua. Pois aquilo que tem habitualmente a forma de uma orelha aparece agora com a forma de uma bola de futebol no interior da qual enviaremos mensagens urgentes, notícias de doenças súbitas, dramas empolgados, testemunhos de amor. Tanto delírio não augura nada de bom. Vamos mesmo ganhar?"
Eduardo Prado Coelho, Público
terça-feira, 15 de junho de 2004
reBlogue
Problemas de audição ...
O primeiro-ministro garantia no domingo à noite: "Entendo a mensagem que nos quiseram dar". Pareceu-me logo que não era o caso. Vista a Imprensa de segunda-feira, lidos os comentadores da direita neoliberal, confirmo: não percebeu, não perceberam.
Ao contrário daquilo que pensam, os eleitores não podem apenas escolher entre concordar com a governação, ou não querer pagar a factura da governação. Não. Podem também, muito mais simplesmente, não concordar com a governação.
Nenhum outro Governo desde o do Bloco Central, em 1983, iniciou o seu mandato com tanta disponibilidade do eleitorado para apoiar - doesse o que doesse - o saneamento e a recuperação da coisa pública. Mas, em dois anos, o Governo de Durão Barroso mostrou-se incapaz de o fazer e, em vez de tirar o país de um buraco, meteu-nos num beco sem saída.
"Aguenta Portugal!" podia ser aceitável para os eleitores, mas era preciso que tivessem confiança no resultado desse esforço. Acontece que não têm!
Jorge WemansCausa Nossa
O primeiro-ministro garantia no domingo à noite: "Entendo a mensagem que nos quiseram dar". Pareceu-me logo que não era o caso. Vista a Imprensa de segunda-feira, lidos os comentadores da direita neoliberal, confirmo: não percebeu, não perceberam.
Ao contrário daquilo que pensam, os eleitores não podem apenas escolher entre concordar com a governação, ou não querer pagar a factura da governação. Não. Podem também, muito mais simplesmente, não concordar com a governação.
Nenhum outro Governo desde o do Bloco Central, em 1983, iniciou o seu mandato com tanta disponibilidade do eleitorado para apoiar - doesse o que doesse - o saneamento e a recuperação da coisa pública. Mas, em dois anos, o Governo de Durão Barroso mostrou-se incapaz de o fazer e, em vez de tirar o país de um buraco, meteu-nos num beco sem saída.
"Aguenta Portugal!" podia ser aceitável para os eleitores, mas era preciso que tivessem confiança no resultado desse esforço. Acontece que não têm!
Jorge Wemans
segunda-feira, 14 de junho de 2004
The end
O filme chegou ao fim. Este FESTROIA correu o pano. Para o ano há mais, provavelmente. Assim o queiram os apoiantes.
A fita que arrecadou o golfinho mais valioso foi "Bom Dia monsieur Shlomi" do israelita Shemi Zarhin. Merecida vitória, apesar de o meu favorito ser "O Estado do Tempo" do polaco Jerzy Stuhr. Mas, assim como assim, gostei dos dois. Aliás houve muito bom cinema neste FESTROIA. Também houve mau, mas enfim...
"Bom Dia monsieur Shlomi" é um hino ao entendimento entre os seres humanos. Uma homenagem às pessoas aparentemente vulgares. O argumento de Shemi Zarhin revela-nos uma boa ideia de cinema: Um jovem negligenciado é descoberto por um professor que não descansa enquanto não o releva para um plano superior entre os seus pares. O rapaz tem qualidades e vai delas dando conta gradualmente. Usa os seus cozinhados (onde é um mestre) para unir os desavindos. A cozinha ao serviço da paz e do amor. A cozinha aliada à inteligência, bem entendido. E como nós sabemos como essa coligação funciona bem. Um bom filme, apenas com um senão, na minha opinião: A deficiente fotografia. Mal dos poucos recursos, talvez.
Não vale a pena falar da cerimónia em si, pois não? Ai vale? É que tudo aquilo me parece tão manhoso que é melhor esquecer. A pepineira suburbana no seu melhor. Os políticos locais em "traje de luces" dando prémios a artistas com chinelos de enfiar no dedo. Claro, estamos em Setúbal. É Verão. Para quê tirar os pirosos fatos da naftalina? Não os vimos em nenhuma projecção. Apareceram para o social. Pobre gente e pobre social.
O presidente da Câmara e a vereadora da cultura, saíram a grande velocidade do Forum Luisa Todi, logo após a entrega dos prémios. Era preciso ir para o desfile das inenarráveis marchas populares. As marchas em Setúbal constituem um lamentável espectáculo ao estilo latino-americano. Até parece que estamos numa aldeia mexicana, sem ofensa. Mas talvez estejam mais consentâneas com as preocupações culturais dos dirigentes autárquicos.
Nós vamos continuar a ver cinema, não é verdade? E quanto ao FESTROIA, até para a ano.
JTD
A fita que arrecadou o golfinho mais valioso foi "Bom Dia monsieur Shlomi" do israelita Shemi Zarhin. Merecida vitória, apesar de o meu favorito ser "O Estado do Tempo" do polaco Jerzy Stuhr. Mas, assim como assim, gostei dos dois. Aliás houve muito bom cinema neste FESTROIA. Também houve mau, mas enfim...
"Bom Dia monsieur Shlomi" é um hino ao entendimento entre os seres humanos. Uma homenagem às pessoas aparentemente vulgares. O argumento de Shemi Zarhin revela-nos uma boa ideia de cinema: Um jovem negligenciado é descoberto por um professor que não descansa enquanto não o releva para um plano superior entre os seus pares. O rapaz tem qualidades e vai delas dando conta gradualmente. Usa os seus cozinhados (onde é um mestre) para unir os desavindos. A cozinha ao serviço da paz e do amor. A cozinha aliada à inteligência, bem entendido. E como nós sabemos como essa coligação funciona bem. Um bom filme, apenas com um senão, na minha opinião: A deficiente fotografia. Mal dos poucos recursos, talvez.
Não vale a pena falar da cerimónia em si, pois não? Ai vale? É que tudo aquilo me parece tão manhoso que é melhor esquecer. A pepineira suburbana no seu melhor. Os políticos locais em "traje de luces" dando prémios a artistas com chinelos de enfiar no dedo. Claro, estamos em Setúbal. É Verão. Para quê tirar os pirosos fatos da naftalina? Não os vimos em nenhuma projecção. Apareceram para o social. Pobre gente e pobre social.
O presidente da Câmara e a vereadora da cultura, saíram a grande velocidade do Forum Luisa Todi, logo após a entrega dos prémios. Era preciso ir para o desfile das inenarráveis marchas populares. As marchas em Setúbal constituem um lamentável espectáculo ao estilo latino-americano. Até parece que estamos numa aldeia mexicana, sem ofensa. Mas talvez estejam mais consentâneas com as preocupações culturais dos dirigentes autárquicos.
Nós vamos continuar a ver cinema, não é verdade? E quanto ao FESTROIA, até para a ano.
JTD
domingo, 13 de junho de 2004
A Esquerda ganhou
A Esquerda ganhou. Foi a maior vitória de sempre. A Direita tenta desvalorizar: Diz que isto não tem importância; As eleiçôes são europeias, não nacionais. A falta de respeito pelos eleitores é evidente. As pessoas não contam. O tio Deus Pinheiro desvaloriza tudo. Parece que até ganhou as eleições. Não é uma derrota de ninguém, diz ele. Nem com a colagem ao Euro do futebol se safaram. Os argumentos são de mau perdedor. O ridículo tem nome, chama-se "Coligação PSD/CDS".
JTD
JTD
reBlogue
Futebolândia
Deprimidos pela recessão sem perspectivas, carenciados de causas mobilizadoras, vestimos as janelas e varandas de bandeiras nacionais, num insólito excesso patrioteiro, em penhor da ambicionada glória nos estádios do Euro 2004. É o reino da futebolândia em todo o seu esplendor; só falta substituir a esfera armilar pela imagem de uma bola de futebol. Comparadas com a exaltação futebolística, as eleições europeias parecem cada vez mais um "fait divers". Simbolicamente, a bandeira azul da UE como que saiu de cena...
Vital MoreiraCausa Nossa
Deprimidos pela recessão sem perspectivas, carenciados de causas mobilizadoras, vestimos as janelas e varandas de bandeiras nacionais, num insólito excesso patrioteiro, em penhor da ambicionada glória nos estádios do Euro 2004. É o reino da futebolândia em todo o seu esplendor; só falta substituir a esfera armilar pela imagem de uma bola de futebol. Comparadas com a exaltação futebolística, as eleições europeias parecem cada vez mais um "fait divers". Simbolicamente, a bandeira azul da UE como que saiu de cena...
Vital Moreira
E agora?
O que fazemos às bandeirinhas? Pobre país que entrega o seu orgulho a uma equipa de futebol. Quem se lembrou desta palhaçada pseudo-patrioteira de pendurar bandeiras por todo o lado? Ah, foi um brasileiro? Qual, aquele que ajoelha os atletas a rezar no balneário? E que reconhece em Pinochet uma grande figura política mundial? Talvez seja bom encaminhá-lo para o Chile. O seu amigo Augusto precisa de apoio. Avance homem, os amigos são para as ocasiões.
BN
BN
quarta-feira, 9 de junho de 2004
Sousa Franco
Sousa Franco morreu. Em campanha eleitoral. Combateu pelo que acreditava até hà bocadinho.
Morreu um grande português.
JTD>
Morreu um grande português.
JTD>
Paisagem em estreia
Estreia hoje a "Paisagem" no Teatro de Bolso. Os preparativoa para esta estreia desaconselharam-me a ida às sessões do FESTROIA. Foi necessário retocar alguns promenores na imagem da peça. O costume...
Mas ainda vi "Bad boys", de Aleksi Makela - Filandia. Um filme onde a esquizofrenia paranóica e o fervor religioso se misturam dando lugar à mais pura paranóia. Gostei.
O António Cabrita já me ligou. Vamos ver projecções hoje à tarde, depois de almoço.
Quanto à peça do TAS: muita merda para todos os actores e técnicos da companhia.
JTD
Mas ainda vi "Bad boys", de Aleksi Makela - Filandia. Um filme onde a esquizofrenia paranóica e o fervor religioso se misturam dando lugar à mais pura paranóia. Gostei.
O António Cabrita já me ligou. Vamos ver projecções hoje à tarde, depois de almoço.
Quanto à peça do TAS: muita merda para todos os actores e técnicos da companhia.
JTD
segunda-feira, 7 de junho de 2004
Setúbal apetece
Por estes dias, Setúbal vive dias de interessante divulgação cultural. Há o FESTROIA, com tudo o que o rodeia (Rui Henriques Coimbra, no ano passado, falava na sua habitual crónica no Expresso do cosmopolitismo vivido nesta cidade no período do festival). É verdade. Parece que estamos numa terra de sonhos. O ambiente é de festa, de férias bem passadas. Também o TAS resolveu estrear a sua nova peça, associando-se a estes ares. A estreia é já na próxima quarta-feira. Chamaram-lhe PAISAGEM E OUTROS LUGARES. Os textos são de Harold Pinter. Bem, do resto já falei num post anterior.
Continua em grande estilo, o FESTROIA. Os filmes são porreiros, mas acima de tudo, é a boa onda do convívio entre quem gosta de cinema que nos anima nestes dias felizes. Ontem vi PROTEUS. Um singular filme que aborda o racismo na África do Sul em 1725. A homossexualidade nos campos de trabalhos forçados e a relação entre dois prisioneiros levados à morte por esse crime. Um bom filme. Isento de tabus e de hipocrisias balofas.
Vou continuar atento à festa do cinema, apesar de hoje e amanhã partilhar essa atenção com a estreia da peça do TAS.
Quarta-feira chega a Setúbal o meu amigo António Cabrita, que como habitualmente, vem para contar a história para o Expresso.
Iremos almoçar nas esplanadas da Fonte Nova e conversar imenso sobre os nossos projectos próximos. Isto tudo ilustrado com cinema e teatro pelo meio.
JTD
Continua em grande estilo, o FESTROIA. Os filmes são porreiros, mas acima de tudo, é a boa onda do convívio entre quem gosta de cinema que nos anima nestes dias felizes. Ontem vi PROTEUS. Um singular filme que aborda o racismo na África do Sul em 1725. A homossexualidade nos campos de trabalhos forçados e a relação entre dois prisioneiros levados à morte por esse crime. Um bom filme. Isento de tabus e de hipocrisias balofas.
Vou continuar atento à festa do cinema, apesar de hoje e amanhã partilhar essa atenção com a estreia da peça do TAS.
Quarta-feira chega a Setúbal o meu amigo António Cabrita, que como habitualmente, vem para contar a história para o Expresso.
Iremos almoçar nas esplanadas da Fonte Nova e conversar imenso sobre os nossos projectos próximos. Isto tudo ilustrado com cinema e teatro pelo meio.
JTD
domingo, 6 de junho de 2004
Ana Sousa Dias
Ana Sousa Dias nunca faz gazeta, às segundas-feiras, no canal 2. Por isso mesmo recebeu o Grande Prémio Gazeta 2003, pelo programa "Por Outro Lado". Uma maneira de distinguir quem melhor sabe fazer perguntas em televisão. Em declarações ao PÚBLICO diz "Gosto neste prémio do facto de ser atribuído por jornalistas, pois é sempre bom ter o reconhecimento dos pares". Comentou ainda o agradável facto deste prémio ter sido atrbuído a um jornalista "free-lancer".
O PÚBLICO refere ainda:
"Ana Sousa Dias tinha experiência de jornais diários (esteve no PÚBLICO) e revistas e considera-se sobretudo uma jornalista de imprensa, mas diz que está numa "fase muito boa", pois as experiências de TV e rádio estão "a correr muito bem". Por outro lado, sente-se contente por ver reconhecido um "trabalho que é contra a corrente, por não ter agitação nem agressividade". "O facto de não ser uma entrevista de actualidade permite que haja um envolvimento diferente com os entrevistados, um certo intimismo. Mas dá muito trabalho a preparar", disse ainda.
Carlos Fino recebeu a Gazeta de Mérito pelo seu trabalho de cobertura da guerra no Iraque, "em que sobressaíram o sentido de oportunidade, o empenho, a coragem, o espírito de sacrifício e uma qualidade geral concretizada numa série de reportagens que constituem um ponto alto no jornalismo de guerra"
Parabéns, Ana.
JTD
O PÚBLICO refere ainda:
"Ana Sousa Dias tinha experiência de jornais diários (esteve no PÚBLICO) e revistas e considera-se sobretudo uma jornalista de imprensa, mas diz que está numa "fase muito boa", pois as experiências de TV e rádio estão "a correr muito bem". Por outro lado, sente-se contente por ver reconhecido um "trabalho que é contra a corrente, por não ter agitação nem agressividade". "O facto de não ser uma entrevista de actualidade permite que haja um envolvimento diferente com os entrevistados, um certo intimismo. Mas dá muito trabalho a preparar", disse ainda.
Carlos Fino recebeu a Gazeta de Mérito pelo seu trabalho de cobertura da guerra no Iraque, "em que sobressaíram o sentido de oportunidade, o empenho, a coragem, o espírito de sacrifício e uma qualidade geral concretizada numa série de reportagens que constituem um ponto alto no jornalismo de guerra"
Parabéns, Ana.
JTD
Cinema a jorros
Faço por ficar por Setúbal neste período. Arranjo forma de controlar trabalhos por aqui, e assisto ao maior número possível de sessões do FESTROIA. Um festival de cinema, ainda por cima com estas características - pequenas cinematografias - tem de tudo. Acontecem projecções excelentes, mas também estamos arriscados a apanhar valentes secas. Vale, contudo, sempre a pena. Como diz o outro: sempre se convive, sempre se conhece mais gente. Já que por aqui ando, resolvi partilhar as minhas experiências deste ano. Começou bem. Ontem, sábado, assisti a dois filmes muito interessantes, no mínimo.
Na primeira sessão da noite, passou a "curta" I'LL SEE YOU IN MY DREAMS de Miguel Angél Vivas. Um muito jovem realizador que, espero, vai dar que falar. O filme é notável. Na realização, na fotografia, no desempenho dos actores. Com destaque para Adelino Tavares, São José Correia e Sofía Aparício. Uma uma história de zombies, que sem explicação aparente, invadem uma pequena aldeia. Fotografia e efeitos especiais muito apreciáveis. Parabéns Miguel.
A segunda fita tem como tradução para português: O ESTADO DO TEMPO. É de um realizador polaco, Jerzy Stuhr, homem de teatro que se dedica ao cinema desde 1994. O filme conta a história de um homem que abandona a família para se refugiar num convento. É descoberto pela mulher, em plena actuação, como membro de um grupo musical dos monges, que saiu para uma festa de religiosos. Entretanto, cá fora já tudo se tinha alterado. O regime político mudou, e a família está integrada nos mais obscuros enredos desse regime. O homem altera, ingenuamente, os comportamentos da sua gente, retirando-se posteriormente de novo. Uma obra onde é impossível não estabelecer paralelo com outro filme que marcou o FESTROIA do ano passado: ADEUS LENINE. É um filme muito divertido, onde algum latente moralismo é anulado por essa atitude de diversão. Poderá ser um dos grandes filmes deste festival.
JTD
Na primeira sessão da noite, passou a "curta" I'LL SEE YOU IN MY DREAMS de Miguel Angél Vivas. Um muito jovem realizador que, espero, vai dar que falar. O filme é notável. Na realização, na fotografia, no desempenho dos actores. Com destaque para Adelino Tavares, São José Correia e Sofía Aparício. Uma uma história de zombies, que sem explicação aparente, invadem uma pequena aldeia. Fotografia e efeitos especiais muito apreciáveis. Parabéns Miguel.
A segunda fita tem como tradução para português: O ESTADO DO TEMPO. É de um realizador polaco, Jerzy Stuhr, homem de teatro que se dedica ao cinema desde 1994. O filme conta a história de um homem que abandona a família para se refugiar num convento. É descoberto pela mulher, em plena actuação, como membro de um grupo musical dos monges, que saiu para uma festa de religiosos. Entretanto, cá fora já tudo se tinha alterado. O regime político mudou, e a família está integrada nos mais obscuros enredos desse regime. O homem altera, ingenuamente, os comportamentos da sua gente, retirando-se posteriormente de novo. Uma obra onde é impossível não estabelecer paralelo com outro filme que marcou o FESTROIA do ano passado: ADEUS LENINE. É um filme muito divertido, onde algum latente moralismo é anulado por essa atitude de diversão. Poderá ser um dos grandes filmes deste festival.
JTD
quinta-feira, 3 de junho de 2004
Camarada Lu Is
Passou nos jornais da noite, na televisão. O primeiro-ministro recebeu uma comitiva de jovens do Seixal.
Os jovens exibiam, pendurada ao peito, uma fotocópia de uma fotografia de Luis Rodrigues. Para quem não sabe, Luis Rodrigues foi candidato à Assembleia da República, nas últimas legislativas, pelo Distrito de Setúbal. Foi eleito. É, portanto, deputado da nação. A pergunta é: O que leva aquela rapaziada a exibir aquela fotocópia de uma forma tão ridícula?
Será que foi iniciativa daqueles jovens em homenagem ao seu amado líder?
Será que o Partido do governo desencantou o passado maoista do seu presidente, e vai passar a exibir as fotografias dos dirigentes ostensivamente, seguindo as tradições orientais? Ou terá sido para o presidente do partido se lembrar do candidato distrital, com vista a uma promoçãozinha?
O que foi não sei. Mas lá que esta gente está definitivamente a ensadecer, isso é notório.
Já não há noção do ridículo, nem pingo de vergonha.
JTD
Os jovens exibiam, pendurada ao peito, uma fotocópia de uma fotografia de Luis Rodrigues. Para quem não sabe, Luis Rodrigues foi candidato à Assembleia da República, nas últimas legislativas, pelo Distrito de Setúbal. Foi eleito. É, portanto, deputado da nação. A pergunta é: O que leva aquela rapaziada a exibir aquela fotocópia de uma forma tão ridícula?
Será que foi iniciativa daqueles jovens em homenagem ao seu amado líder?
Será que o Partido do governo desencantou o passado maoista do seu presidente, e vai passar a exibir as fotografias dos dirigentes ostensivamente, seguindo as tradições orientais? Ou terá sido para o presidente do partido se lembrar do candidato distrital, com vista a uma promoçãozinha?
O que foi não sei. Mas lá que esta gente está definitivamente a ensadecer, isso é notório.
Já não há noção do ridículo, nem pingo de vergonha.
JTD
quarta-feira, 2 de junho de 2004
Os lugares da paisagem
A peça que o Duarte Victor está a encenar para o grupo de que é director, o TAS, está na fase de nervos e entusiasmo. Pelo menos eu estou entusiasmado. O texto é excelente. Os actores perceberam isso. Sabem muito bem o que é um bom texto de teatro. Estes actores há muito que passaram o estado de paixão e enamoramento pelo que fazem. Amam o que fazem. constroem personagens com a sabedoria do entendimento. Tratam os autores por tu. desafiam personagens. Sabem o que fazem.
Eu, tento embrulhar tudo aquilo: Desenhei objectos, pintei telões, discuti ideias, enfim , fiz o melhor do que sou capaz. Veremos se me safo. Estou impressionado com o profissionalismo da equipa de produção. O António Rosa, já se sabe, é excelente a mandar luzes. O João Gaspar até mete impressão a resolver todos os problemas. Mas fiquei muito agradado em trabalhar com o João Carlos. Isto porque o conhecia mal e não me tinha apercebido do seu grande talento e da sua capacidade de trabalho. que bom trabalhar com gente assim.
A estreia é já no próximo dia nove. A peça vai estar em cena até dezasseis de Julho, no Teatro de Bolso, em Setúbal. Eu acho que vale a pena.
PAISAGEM E OUTROS LUGARES
Uma peça e quatro sketches de Harold Pinter
Encenação: Duarte Victor
Cenografia | Design | Imagem: José Teófilo Duarte
Traduções: Jorge Silva Melo, Pedro Marques, Paulo Eduardo Carvalho, Francisco Frazão e Graça P. Corrêa
Interpretes: Célia David, Carlos Rodrigues, Duarte Victor, Isabel Ganilho, Maria Simões, Miguel Assis, José Nobre, Sónia Martins, Susana Brito
Produção executiva: João Gaspar
Banda sonora e sonoplastia: Miguel Ramos
Luminotecnia: António Rosa
Montagem e contra-regra: João Carlos
Guarda-roupa: Mercedes Lança
Secretariado: Ângela Rosa
JTD
Eu, tento embrulhar tudo aquilo: Desenhei objectos, pintei telões, discuti ideias, enfim , fiz o melhor do que sou capaz. Veremos se me safo. Estou impressionado com o profissionalismo da equipa de produção. O António Rosa, já se sabe, é excelente a mandar luzes. O João Gaspar até mete impressão a resolver todos os problemas. Mas fiquei muito agradado em trabalhar com o João Carlos. Isto porque o conhecia mal e não me tinha apercebido do seu grande talento e da sua capacidade de trabalho. que bom trabalhar com gente assim.
A estreia é já no próximo dia nove. A peça vai estar em cena até dezasseis de Julho, no Teatro de Bolso, em Setúbal. Eu acho que vale a pena.
PAISAGEM E OUTROS LUGARES
Uma peça e quatro sketches de Harold Pinter
Encenação: Duarte Victor
Cenografia | Design | Imagem: José Teófilo Duarte
Traduções: Jorge Silva Melo, Pedro Marques, Paulo Eduardo Carvalho, Francisco Frazão e Graça P. Corrêa
Interpretes: Célia David, Carlos Rodrigues, Duarte Victor, Isabel Ganilho, Maria Simões, Miguel Assis, José Nobre, Sónia Martins, Susana Brito
Produção executiva: João Gaspar
Banda sonora e sonoplastia: Miguel Ramos
Luminotecnia: António Rosa
Montagem e contra-regra: João Carlos
Guarda-roupa: Mercedes Lança
Secretariado: Ângela Rosa
JTD
terça-feira, 1 de junho de 2004
reBlogue
Já chegámos a Lisboa?
Embora sempre a tenha ouvido desde que me conheço, ignoro a origem histórica da frase usada pelos continentais para caricaturar situações e comportamentos disparatados: ?Já chegámos à Madeira??. Ao contrário do que muitos possam pensar, essa origem será muito anterior à era jardinista, embora só depois dela se tenha tornado um verdadeiro clássico. O jardinismo emprestou uma pertinência mais anedótica e folclórica do que nunca à famosa frase. E quando no resto do país acontecem coisas de bradar aos céus, lá se questiona invariavelmente se já aqui se chegou.
Mas os tempos estão a mudar. O exemplo da Madeira, em vez de constituir uma surrealista extravagância insular, parece ter conquistado definitivamente o coração dos mais excelsos corifeus da civilização ?laranja? continental. No recente congresso do PSD regional, o empresário e deputado Dias Loureiro afirmou que o seu sonho era ver Portugal transformado numa ?imensa Madeira?. (Presume-se que, entre outras coisas, gostaria de exportar para o continente o liberalíssimo regime vigente na região em matéria de incompatibilidades entre interesses económicos privados e cargos políticos). O próprio Pinto Balsemão, tão atacado por Jardim como um dos cérebros da conspiração marxista da comunicação social, não resistiu a prestar vassalagem ao seu arqui-inimigo. Quanto a Durão Barroso, proclamou o inultrapassável patriotismo de Jardim depois deste ter ameaçado com a saída da Madeira da União Europeia. Só faltou mesmo Manuela Ferreira Leite enaltecer o défice zero das contas regionais e apresentá-lo como lição ao rectângulo despesista que tantas dores de cabeça lhe dá. Mas a arrogância e má-criação da ministra nos debates parlamentares comprovam como aprendeu depressa os superiores ensinamentos de Jardim.
O último congresso do PSD nacional confirmou a tendência. Durão Barroso acusou o governo de Carlos César de ameaçar as liberdades democráticas nos Açores, ao mesmo tempo que celebrava as excelências incomparáveis do jardinismo. Ou denunciava, no mais retinto estilo jardinista, uma tenebrosa conspiração comunista para desestabilizar o regime democrático durante o Rock in Rio e o Euro-2004. Finalmente, a campanha eleitoral para as Europeias tornou-se um festival de insultos dos partidos da direita, onde nem sequer é poupada a aparência física do prof. Sousa Franco. Tudo jardinismo puro, requintadíssimo.
Por isso, Jardim que se cuide. No estado em que estão as coisas no rectângulo, ou ele aproveita a onda para emigrar para lá e tomar de assalto o laranjal ?cubano?, ou então tem de rever radicalmente o seu estilo se quiser manter a inconfundível originalidade de marca. Neste caso, promovendo na Madeira uma escola de boas-maneiras e chá das cinco. Não seria, além do mais, um surpreendente e irresistível cartaz turístico? O ?Já chegámos à Madeira?? passaria definitivamente à história, e a má-criação e boçalidade ?cubana? faria os educadíssimos madeirenses lançarem o desafio: ?Já chegámos a Lisboa?? Já imaginaram o efeito bombástico que teria ver Jaime Ramos transformado em príncipe da etiqueta?
Vicente Jorge SilvaCausa Nossa
(este texto será publicado na próxima edição de "Garajau", "quinzenário sério e cruel" do Funchal)
Embora sempre a tenha ouvido desde que me conheço, ignoro a origem histórica da frase usada pelos continentais para caricaturar situações e comportamentos disparatados: ?Já chegámos à Madeira??. Ao contrário do que muitos possam pensar, essa origem será muito anterior à era jardinista, embora só depois dela se tenha tornado um verdadeiro clássico. O jardinismo emprestou uma pertinência mais anedótica e folclórica do que nunca à famosa frase. E quando no resto do país acontecem coisas de bradar aos céus, lá se questiona invariavelmente se já aqui se chegou.
Mas os tempos estão a mudar. O exemplo da Madeira, em vez de constituir uma surrealista extravagância insular, parece ter conquistado definitivamente o coração dos mais excelsos corifeus da civilização ?laranja? continental. No recente congresso do PSD regional, o empresário e deputado Dias Loureiro afirmou que o seu sonho era ver Portugal transformado numa ?imensa Madeira?. (Presume-se que, entre outras coisas, gostaria de exportar para o continente o liberalíssimo regime vigente na região em matéria de incompatibilidades entre interesses económicos privados e cargos políticos). O próprio Pinto Balsemão, tão atacado por Jardim como um dos cérebros da conspiração marxista da comunicação social, não resistiu a prestar vassalagem ao seu arqui-inimigo. Quanto a Durão Barroso, proclamou o inultrapassável patriotismo de Jardim depois deste ter ameaçado com a saída da Madeira da União Europeia. Só faltou mesmo Manuela Ferreira Leite enaltecer o défice zero das contas regionais e apresentá-lo como lição ao rectângulo despesista que tantas dores de cabeça lhe dá. Mas a arrogância e má-criação da ministra nos debates parlamentares comprovam como aprendeu depressa os superiores ensinamentos de Jardim.
O último congresso do PSD nacional confirmou a tendência. Durão Barroso acusou o governo de Carlos César de ameaçar as liberdades democráticas nos Açores, ao mesmo tempo que celebrava as excelências incomparáveis do jardinismo. Ou denunciava, no mais retinto estilo jardinista, uma tenebrosa conspiração comunista para desestabilizar o regime democrático durante o Rock in Rio e o Euro-2004. Finalmente, a campanha eleitoral para as Europeias tornou-se um festival de insultos dos partidos da direita, onde nem sequer é poupada a aparência física do prof. Sousa Franco. Tudo jardinismo puro, requintadíssimo.
Por isso, Jardim que se cuide. No estado em que estão as coisas no rectângulo, ou ele aproveita a onda para emigrar para lá e tomar de assalto o laranjal ?cubano?, ou então tem de rever radicalmente o seu estilo se quiser manter a inconfundível originalidade de marca. Neste caso, promovendo na Madeira uma escola de boas-maneiras e chá das cinco. Não seria, além do mais, um surpreendente e irresistível cartaz turístico? O ?Já chegámos à Madeira?? passaria definitivamente à história, e a má-criação e boçalidade ?cubana? faria os educadíssimos madeirenses lançarem o desafio: ?Já chegámos a Lisboa?? Já imaginaram o efeito bombástico que teria ver Jaime Ramos transformado em príncipe da etiqueta?
Vicente Jorge Silva
(este texto será publicado na próxima edição de "Garajau", "quinzenário sério e cruel" do Funchal)
reBlogue
Pachachi afastada afastado do poder...
O preferido dos EUA para a presidência do Iraque era o sunita Adnan Pachachi. Este rejeitou o convite, justificando-o num comunicado de quatro alíneas, que abaixo se reproduz.
Baghdad, 01 de Junho de 2004
Meus amigos,
a) Sou da opinião que ninguém ia achar muita piada a um Pachachi de 81 anos a aparecer na televisão...já nos basta a Lili Caneças;
b) Apesar do meu nome ser perfeito para o cargo, olhando para o que tem acontecido ao povo iraquiano nos últimos tempos, acho que o meu adjunto Toden Rabadi ia ter problemas em que o levassem a sério;
c) As minhas filhas Mijati e Escan Karada pediram-me para não aceitar o cargo, com medo do gozo de que iam ser alvo;
d) Não quero morrer tão cedo...
Ass: Adnan Pachachi
Nelson Desblogueador de conversa
O preferido dos EUA para a presidência do Iraque era o sunita Adnan Pachachi. Este rejeitou o convite, justificando-o num comunicado de quatro alíneas, que abaixo se reproduz.
Baghdad, 01 de Junho de 2004
Meus amigos,
a) Sou da opinião que ninguém ia achar muita piada a um Pachachi de 81 anos a aparecer na televisão...já nos basta a Lili Caneças;
b) Apesar do meu nome ser perfeito para o cargo, olhando para o que tem acontecido ao povo iraquiano nos últimos tempos, acho que o meu adjunto Toden Rabadi ia ter problemas em que o levassem a sério;
c) As minhas filhas Mijati e Escan Karada pediram-me para não aceitar o cargo, com medo do gozo de que iam ser alvo;
d) Não quero morrer tão cedo...
Ass: Adnan Pachachi
Nelson Desblogueador de conversa
segunda-feira, 31 de maio de 2004
Queixinhas!
O estado em que o país está tem um culpado: o PS.
A siuação económica tem um responsável. O défice tem nome: Sousa Franco.
Se algo correr mal no Euro, há um culpado: Carlos Carvalhas.
Se a retoma não espreitar quem são os culpados? Os sindicatos.
A arrogância insuportável também tem nome: Francisco Louçã.
Se a actual coligação de governo não ganhar as eleições, quem é o culpado? A oposição que se atreve a concorrer. E o povo que nela vota. Pois claro.
E por fim temos o governo que não é culpado de nada. De nada mesmo. É a vitima de tanta inconsideração.
BN
A siuação económica tem um responsável. O défice tem nome: Sousa Franco.
Se algo correr mal no Euro, há um culpado: Carlos Carvalhas.
Se a retoma não espreitar quem são os culpados? Os sindicatos.
A arrogância insuportável também tem nome: Francisco Louçã.
Se a actual coligação de governo não ganhar as eleições, quem é o culpado? A oposição que se atreve a concorrer. E o povo que nela vota. Pois claro.
E por fim temos o governo que não é culpado de nada. De nada mesmo. É a vitima de tanta inconsideração.
BN
A moda do insulto
A ministra Manuela Ferreira Leite, irritada certamente com algum aspecto menos confessável, perdeu completamente as estribeiras (será que se pode dizer isto de um Ministro?) e lançou uma série de pedradas verbais em direcção ao deputado socialista Eduardo Cabrita. Tudo isto por causa do LEO, que nada tem a ver com a Juve do mesmo, mas significa Lei de Enquadramento Orçamental. Que disse Ferreira Leite (se eu dissesse "Manuela" estaria a cometer um insulto?)? O seguinte: "O senhor é que está fora do Leo. O senhor que veio cá fazer ontem se está a fazer as mesmas perguntas?". E a seguir, numa fase mais empolgada: "O senhor não leu o relatório, não sabe o que perguntar, o senhor não merece o ordenado que recebe e é com isso que se devia preocupar", "o senhor faz perguntas de um ignorante". Dois breves comentários: esperemos que o novo Director-Geral dos Impostos mereça o ordenado que vai ganhar; e em segundo lugar, são os ignorantes que costumam fazer perguntas, não aqueles que já sabem.
Eduardo Prado Coelho Segunda-feira, 31.Maio.2004 Público
Eduardo Prado Coelho Segunda-feira, 31.Maio.2004 Público
quinta-feira, 27 de maio de 2004
O Descalabro
Pouco terei a acrescentar à notável sequência de "cartoons" de Luís Afonso nos últimos números do PÚBLICO: em meia dúzia de desenhos notáveis, Luís Afonso diz o essencial. E o essencial é simples: tudo aquilo que podíamos prever sobre as consequências de uma intervenção americana no Iraque se confirmou e excedeu as mais negras previsões. As soluções são agora complexas e constituem saídas estreitas de resultados indecisos - como Loureiro dos Santos nos explicou num brilhante artigo publicado há dias. Ou como Garcia Leandro já nos tinha exposto na televisão.
Eduardo Prado Coelho Segunda-feira, 24.Maio.2004 Público
Eduardo Prado Coelho Segunda-feira, 24.Maio.2004 Público
quarta-feira, 26 de maio de 2004
Fumo branco no congresso
O congresso do PSD, no fim-de-semana, fez uma justa homenagem ao chefe tribal do Funchal. Toda a tribo do continente se desfez em elogios ao comediante de serviço. Parece que a democracia na Madeira é um exemplo a seguir por todo o país. Afinal, nos Açores é que existe o tal défice democrático. A notícia que se segue, publicada no PÚBLICO, parece desvendar o mistério do candidato social democrata. A Nação pode respirar de alívio; depois da retoma, teremos Jardim como candidato ganhador.
Finalmente viveremos em democracia plena, como na Madeira. O desenvolvimento vai alastrar a lusa pátria. Estremecemos com a notícia. Esperamos ansiosos por tão inesperada graça. Valha-nos Deus!
Se Santana Não Avançar
Jardim prepara candidatura
contra Cavaco Silva
"Alberto João Jardim, apesar de não ter assumido directamente a sua própria candidatura, garantiu que se Santana Lopes não avançar, Cavaco Silva terá um concorrente da direita na corrida a Belém. "Cavaco Silva não terá caminho livre", advertiu o presidente do governo regional no domingo passado, numa das saídas da missa, enquanto Durão Barroso, no congresso nacional do PSD, pedia um voto de confiança para "encontrar uma solução no momento certo". Se Santana Lopes desistir, afiança Jardim, "vai aparecer alguém que vai obrigar o centro e a direita a escolher entre os colaboracionistas com o regime e aqueles que defendem a afronta com esse mesmo sistema".
Tolentino de Nóbrega
Terça-feira, 25 de Maio de 2004 Público
Finalmente viveremos em democracia plena, como na Madeira. O desenvolvimento vai alastrar a lusa pátria. Estremecemos com a notícia. Esperamos ansiosos por tão inesperada graça. Valha-nos Deus!
Se Santana Não Avançar
Jardim prepara candidatura
contra Cavaco Silva
"Alberto João Jardim, apesar de não ter assumido directamente a sua própria candidatura, garantiu que se Santana Lopes não avançar, Cavaco Silva terá um concorrente da direita na corrida a Belém. "Cavaco Silva não terá caminho livre", advertiu o presidente do governo regional no domingo passado, numa das saídas da missa, enquanto Durão Barroso, no congresso nacional do PSD, pedia um voto de confiança para "encontrar uma solução no momento certo". Se Santana Lopes desistir, afiança Jardim, "vai aparecer alguém que vai obrigar o centro e a direita a escolher entre os colaboracionistas com o regime e aqueles que defendem a afronta com esse mesmo sistema".
Tolentino de Nóbrega
Terça-feira, 25 de Maio de 2004 Público
terça-feira, 25 de maio de 2004
Arquitecturas
Ana Sousa Dias oferece-nos dos melhores momentos de televisão da actualidade. Sabe escolher os convidados e sabe conversar com eles. Segunda-feira à noite chamou para dar ao badalo o arquitecto Nuno Teotónio Pereira. Nuno faz da arquitectura uma forma de tentar fazer os outros felizes. Os seus projectos são feitos de dentro para fora. A principal preocupação é colocar as pessoas em locais onde se sintam pessoas. Falou do abandono dos centros das cidades e do flagelo da ocupação dos campos por ideias de desenvolvimento que ficaram ultrapassadas antes de passarem ao debate sobre os erros urbanisticos. Mais um bom momento de televisão.
JTD
JTD
segunda-feira, 24 de maio de 2004
Monarquia em bikini
O casamento real provocou uma onda de revivalismo monárquico no nosso país. Há quem tenha saudades de um passado em constantes salamaleques pelas cabeças coroadas reinantes. Até Marcelo Rebelo de Sousa falou no referendo. Não há razões para nos preocupar-nos, como tudo o que não tem importância, isto também passa. Eduardo Prado Coelho escreveu uma divertida crónica no Público de hoje, que acaba assim:
"Mas a grande cena era no café. Aqui todos os fantasmas vinham ao de cima e cruzavam-se numa vozearia feita de incomunicabilidade. Um homem interrogava-se num tom de reflexão sobre as fraquezas humanas: "que levará uma mulher a deixar tudo o que tem graça e a não poder mais andar de bikini?". E repetia: "porque ela já não pode andar de bikini", como se fosse uma alienação dramática que sintetizava todo anacronismo da monarquia. Mas de uma outra mesa uma mulher proclamava: "Estes não são como os nossos políticos. Em Portugal qualquer pessoa pode ser político, sabiam? Estes são ensinados desde pequenos a governarem". Era pena que o princípio democrático não lhe fosse óbvio, mas não me dei ao trabalho de abrir um debate de fundo. Limitei-me a notar que na Europa governavam pouco, era mais uma coisa simbólica. Como a senhora vivia em plena terra dos símbolos, a existência destes tornava-se imperceptível. "Ela, a rainha, não é como estas nossas foleiras que usam um vestido e depois deitam-no fora ou dão às criadas. Disse-me uma amiga minha que ela aproveita os tecidos e com eles faz vestidos novos.". Comovi-me logo com a ideia da rainha, de dedal e linha na mão, a passajar os vestidos na sala de estar do palácio real enquanto sua alteza real vê a televisão.
Como irá fazer Letízia com os vestidinhos das festas? Uma coisa já nós sabemos: não os vai transformar em bikinis..."
Eduardo Prado Coelho Segunda-feira, 24.Maio.2004 Público
"Mas a grande cena era no café. Aqui todos os fantasmas vinham ao de cima e cruzavam-se numa vozearia feita de incomunicabilidade. Um homem interrogava-se num tom de reflexão sobre as fraquezas humanas: "que levará uma mulher a deixar tudo o que tem graça e a não poder mais andar de bikini?". E repetia: "porque ela já não pode andar de bikini", como se fosse uma alienação dramática que sintetizava todo anacronismo da monarquia. Mas de uma outra mesa uma mulher proclamava: "Estes não são como os nossos políticos. Em Portugal qualquer pessoa pode ser político, sabiam? Estes são ensinados desde pequenos a governarem". Era pena que o princípio democrático não lhe fosse óbvio, mas não me dei ao trabalho de abrir um debate de fundo. Limitei-me a notar que na Europa governavam pouco, era mais uma coisa simbólica. Como a senhora vivia em plena terra dos símbolos, a existência destes tornava-se imperceptível. "Ela, a rainha, não é como estas nossas foleiras que usam um vestido e depois deitam-no fora ou dão às criadas. Disse-me uma amiga minha que ela aproveita os tecidos e com eles faz vestidos novos.". Comovi-me logo com a ideia da rainha, de dedal e linha na mão, a passajar os vestidos na sala de estar do palácio real enquanto sua alteza real vê a televisão.
Como irá fazer Letízia com os vestidinhos das festas? Uma coisa já nós sabemos: não os vai transformar em bikinis..."
Eduardo Prado Coelho Segunda-feira, 24.Maio.2004 Público
quarta-feira, 19 de maio de 2004
reBlogue
Ou há moralidade...
A presidente da Câmara municipal de Leiria diz que esta cidade não é menos do que Viseu e que por isso também quer uma universidade pública. Tem toda a razão. Dado que para criar novas universidades não é preciso que elas sejam necessárias nem que se justifiquem os seus custos, penso que depois de Viseu todas as demais capitais de distrito devem ter uma, devendo o Governo oferecê-las imediatamente a Viana do Castelo, Bragança, Leiria, Santarém, Setúbal e Beja.
Proponho mesmo que doravente seja aditado um novo direito fundamental à Constituição, a saber, o direito a ter uma universidade pública ao pé da porta. Nisto não pode haver filhos dilectos e enteados desprezados..
Vital MoreiraCausa Nossa
A presidente da Câmara municipal de Leiria diz que esta cidade não é menos do que Viseu e que por isso também quer uma universidade pública. Tem toda a razão. Dado que para criar novas universidades não é preciso que elas sejam necessárias nem que se justifiquem os seus custos, penso que depois de Viseu todas as demais capitais de distrito devem ter uma, devendo o Governo oferecê-las imediatamente a Viana do Castelo, Bragança, Leiria, Santarém, Setúbal e Beja.
Proponho mesmo que doravente seja aditado um novo direito fundamental à Constituição, a saber, o direito a ter uma universidade pública ao pé da porta. Nisto não pode haver filhos dilectos e enteados desprezados..
Vital Moreira
segunda-feira, 17 de maio de 2004
reBlogue
Mourinho para o Chelsea, já!
Criança na vitória, criança na derrota. O guerreiro treinador do Porto, José Mourinho, não sabe perder. Acha que o seu clube perdeu por culpa do árbitro, que Jorge Costa foi mal expulso, que o segundo golo do Benfica não foi legal. Mas Mourinho bem podia reconhecer, pelo menos para dentro da sua consciência, esta evidência: o jogo esteve bom até ao fim da primeira parte. Na segunda, as duas equipas tentaram essencialmente acertar nas canelas do adversário e usaram a velha táctica de ganhar nos cartões. E, neste particular, o Porto até mostrou maior vontade de vencer. Depois de Fernando Aguiar ter mostrado o caminho com Derlei (agressão que o árbitro não viu e, pelo que se viu na TV, única verdadeira injustiça cometida contra o Porto ontem), foi Jorge Costa, foi Maniche, foi Nuno Valente a irem às pernas ou a entrarem à cotovelada. Mourinho não tem de queixar-se de nada a não ser da indisciplina dos seus jogadores: à volta da bola pode valer tudo, mas dentro do campo, não. Que vá rapidamente fazer declarações incendiárias para os tablóides britânicos, é o meu sincero desejo.
André Belo Barnabé
Criança na vitória, criança na derrota. O guerreiro treinador do Porto, José Mourinho, não sabe perder. Acha que o seu clube perdeu por culpa do árbitro, que Jorge Costa foi mal expulso, que o segundo golo do Benfica não foi legal. Mas Mourinho bem podia reconhecer, pelo menos para dentro da sua consciência, esta evidência: o jogo esteve bom até ao fim da primeira parte. Na segunda, as duas equipas tentaram essencialmente acertar nas canelas do adversário e usaram a velha táctica de ganhar nos cartões. E, neste particular, o Porto até mostrou maior vontade de vencer. Depois de Fernando Aguiar ter mostrado o caminho com Derlei (agressão que o árbitro não viu e, pelo que se viu na TV, única verdadeira injustiça cometida contra o Porto ontem), foi Jorge Costa, foi Maniche, foi Nuno Valente a irem às pernas ou a entrarem à cotovelada. Mourinho não tem de queixar-se de nada a não ser da indisciplina dos seus jogadores: à volta da bola pode valer tudo, mas dentro do campo, não. Que vá rapidamente fazer declarações incendiárias para os tablóides britânicos, é o meu sincero desejo.
André Belo Barnabé
sexta-feira, 14 de maio de 2004
Exercícios de memória
A intervenção de José Eduardo Agualusa na escola Bocage, em Setúbal, foi memorável. O escritor exercitou as suas memórias, transformando-as em sumarentas histórias; relatos de vida. A participação dos alunos foi surpreendente. Memorável, mesmo.
Já que falamos de memória, aqui vai um extracto do capítulo "Vidas Irrelevantes", do seu mais recente livro: "O Vendedor de Passados".
"A memória é uma paisagem em movimento. Vemos crescer por sobre as acácias a luz da madrugada, as aves debicando a manhã, como um fruto. Vemos, além, um rio sereno e o arvoredo que o abraça. Vemos o gado pastando lento, um casal que corre de mãos dadas, meninos dançando o futebol, a bola brilhando ao sol (um outro sol). Vemos os lagos plácidos onde nadam os patos, os rios de águas pesadas onde os elefantes matam a sede. São coisas que ocorrem diante dos nossos olhos, sabemos que são reais, mas estão longe, não as podemos tocar. Algumas estão já tão longe, e o comboio avança tão veloz, que não temos a certeza de que realmente aconteceram. Talvez as tenhamos sonhado. Já nos falta a memória, dizemos, e foi apenas o céu que escureceu."
O lançamento deste magnífico livro é na próxima terça-feira, dia 18, depois das vinte e duas horas, na discoteca "Com Vento", em Santos.
A apresentação será feita por António Lobo Antunes (Tudo pode acontecer).
Lá estarei para dar um abraço ao meu amigo José Eduardo Agualusa. A noite promete.
Titulo: O VENDEDOR DE PASSADOS
Autor: José Eduardo Agualusa
Capa: Henrique Cayatte
Edição: Dom Quixote
JTD
quinta-feira, 13 de maio de 2004
O ranhoso e o rançoso
Ontem, quarta-feira à noite, no Lux. Lançamento do mais recente livro de Eduardo Prado Coelho, desta vez em diálogo com Ana Calhau.
Um livro de partilha afectiva e de grande labor estético. Titulo: "DIA POR AMA".
Apresentação feita por Helena Vasconcelos e Henrique Cayatte. Serviço competente e bem humorado.
Depois das oratórias elogiosas e dos agradecimentos por parte dos autores, passa-se ao habitual convívio de copo na mão. Circunstância que se desenvolve muito agradavelmente graças à simpatia de Manuel Reis e seus colaboradores.
Entre os convidados estavam Vasco Graça Moura e António Mega Ferreira. Não se viam, segundo o cumprimento inicial, hà já algum tempo. Diz Mega para Vasco: "Então você chamou-me ranhoso? Disse que a esquerda era ranhosa?" Que não, diz Vasco "Eu disse a esquerda parlamentar, não me referia a toda a esquerda". "Ah, bom", reponde Mega, "É que eu ia responder-lhe: Na classificação de esquerda e direita basta trocar uma letra; se a esquerda é ranhosa a direita é rançosa".
Os senhores "Expo" lá continuaram no seu animado diálogo. A amizade pode não ter ideologia.
JTD
Um livro de partilha afectiva e de grande labor estético. Titulo: "DIA POR AMA".
Apresentação feita por Helena Vasconcelos e Henrique Cayatte. Serviço competente e bem humorado.
Depois das oratórias elogiosas e dos agradecimentos por parte dos autores, passa-se ao habitual convívio de copo na mão. Circunstância que se desenvolve muito agradavelmente graças à simpatia de Manuel Reis e seus colaboradores.
Entre os convidados estavam Vasco Graça Moura e António Mega Ferreira. Não se viam, segundo o cumprimento inicial, hà já algum tempo. Diz Mega para Vasco: "Então você chamou-me ranhoso? Disse que a esquerda era ranhosa?" Que não, diz Vasco "Eu disse a esquerda parlamentar, não me referia a toda a esquerda". "Ah, bom", reponde Mega, "É que eu ia responder-lhe: Na classificação de esquerda e direita basta trocar uma letra; se a esquerda é ranhosa a direita é rançosa".
Os senhores "Expo" lá continuaram no seu animado diálogo. A amizade pode não ter ideologia.
JTD
terça-feira, 11 de maio de 2004
Vendedor de Passados
O escritor angolano José Eduardo Agualusa, vai estar em Setúbal, na Escola Secundária Bocage (antigo liceu), na próxima Quinta-feira. Agualusa é um dos mais importantes escritores de lingua portuguesa da actualidade. É também autor de saborosíssimas crónicas na Pública (separata do Público, aos Domingos).
O convite para este encontro com o escritor, partiu da associação de pais da escola, e destina-se a proporcionar aos alunos um contacto directo com um autor, cujos textos foram estudados ao longo do ano lectivo.
José Eduardo Agualusa acaba de publicar mais um livro. Titulo: "O Vendedor de Passados". Segundo a nota do editor, trata-se da história de "Félix Ventura. Um senhor que escolheu um estranho ofício: Vendedor de passados falsos. Os seus clientes, prósperos empresários, políticos, generais, enfim, a emergente burguesia angolana, têm o futuro assegurado. Falta-lhes, porém, um bom passado. Félix fabrica-lhes uma genealogia de luxo, memórias felizes, consegue-lhes os retratos dos ancestrais ilustres. A vida corre-lhe bem. Uma noite entra-lhe em casa, em Luanda, um misterioso estrangeiro à procura de uma identidade angolana. E então, numa vertigem, o passado irrompe pelo presente e o impossível começa a acontecer. Sátira feroz, mas divertida e bem humoprada, á actual sociedade angolana, - O Vendedor de Passados - é também (ou principalmente) uma reflexão sobre a construção da memória e os seus equívocos."
O encontro com Agualusa é às cinco horas da tarde, no auditório José Saramago. Apesar de estar destinado aos alunos, quem quiser aparecer, será recompensado com uma agradável conversa, disso não tenho dúvidas. É bom ouvir este escritor, que para além de escrever superiormente é também um admirável contador de histórias.
Sejam bem-vindos.
JTD>
O convite para este encontro com o escritor, partiu da associação de pais da escola, e destina-se a proporcionar aos alunos um contacto directo com um autor, cujos textos foram estudados ao longo do ano lectivo.
José Eduardo Agualusa acaba de publicar mais um livro. Titulo: "O Vendedor de Passados". Segundo a nota do editor, trata-se da história de "Félix Ventura. Um senhor que escolheu um estranho ofício: Vendedor de passados falsos. Os seus clientes, prósperos empresários, políticos, generais, enfim, a emergente burguesia angolana, têm o futuro assegurado. Falta-lhes, porém, um bom passado. Félix fabrica-lhes uma genealogia de luxo, memórias felizes, consegue-lhes os retratos dos ancestrais ilustres. A vida corre-lhe bem. Uma noite entra-lhe em casa, em Luanda, um misterioso estrangeiro à procura de uma identidade angolana. E então, numa vertigem, o passado irrompe pelo presente e o impossível começa a acontecer. Sátira feroz, mas divertida e bem humoprada, á actual sociedade angolana, - O Vendedor de Passados - é também (ou principalmente) uma reflexão sobre a construção da memória e os seus equívocos."
O encontro com Agualusa é às cinco horas da tarde, no auditório José Saramago. Apesar de estar destinado aos alunos, quem quiser aparecer, será recompensado com uma agradável conversa, disso não tenho dúvidas. É bom ouvir este escritor, que para além de escrever superiormente é também um admirável contador de histórias.
Sejam bem-vindos.
JTD>
segunda-feira, 10 de maio de 2004
reBlogue
A Madeira fora da União Europeia!?
No encerramento do congresso do PSD - Madeira, Alberto João Jardim afirmou que em 2008 a Madeira terá de decidir se lhe interessa continuar na União Europeia ou não, dependendo isso da continuidade da atribuição de fundos comunitários. Para além da insólita ideia de a Região poder decidir sobre tal assunto, a simples ligação da permanência na UE ao recebimento de fundos deixa entender bem a natureza da adesão europeia de Jardim, puramente venal, como se vê.
Embora ele não o tenha dito, é evidente que com a mesma lógica ele poderia dizer também que algures no futuro a Madeira decidirá se lhe interessa continuar ou não integrada na República Portuguesa, dependendo isso da continuidade da recebimento dos chorudos fundos do orçamento do Estado, como até agora...
Se fosse permitido um pensamento cínico seria caso para dizer: antes cedo do que tarde!
Vital MoreiraCausa Nossa
No encerramento do congresso do PSD - Madeira, Alberto João Jardim afirmou que em 2008 a Madeira terá de decidir se lhe interessa continuar na União Europeia ou não, dependendo isso da continuidade da atribuição de fundos comunitários. Para além da insólita ideia de a Região poder decidir sobre tal assunto, a simples ligação da permanência na UE ao recebimento de fundos deixa entender bem a natureza da adesão europeia de Jardim, puramente venal, como se vê.
Embora ele não o tenha dito, é evidente que com a mesma lógica ele poderia dizer também que algures no futuro a Madeira decidirá se lhe interessa continuar ou não integrada na República Portuguesa, dependendo isso da continuidade da recebimento dos chorudos fundos do orçamento do Estado, como até agora...
Se fosse permitido um pensamento cínico seria caso para dizer: antes cedo do que tarde!
Vital Moreira
sábado, 8 de maio de 2004
Ólhó Daniel, Ólhó Daniel...
A um padre brasileiro, saiu-lhe na rifa uma paróquia portuguesa. Ouvi isto na SIC, nas noticias das oito.
O dito padre canta que se desunha. Canta mal, é certo. Mas canta na missa, e com a ajuda da técnica lá gravou um CD. O disco é ridículo, mas o que é isso? No país do Frei Câmara todas as demonstrações de fé são uma ajuda para a boa vontade entre os homens. Portanto, o padre fez muito bem. Dizem-me as notícias que em pequeno queria ser palhaço. Deus não dorme...
JTD
O dito padre canta que se desunha. Canta mal, é certo. Mas canta na missa, e com a ajuda da técnica lá gravou um CD. O disco é ridículo, mas o que é isso? No país do Frei Câmara todas as demonstrações de fé são uma ajuda para a boa vontade entre os homens. Portanto, o padre fez muito bem. Dizem-me as notícias que em pequeno queria ser palhaço. Deus não dorme...
JTD
sexta-feira, 7 de maio de 2004
reBlogue
Notícias da pedófililia
Só me deu vontade de partir a televisão...
Ontem, ao chegar a casa e ligar a televisão, fui bombardeado com a notícia da prisão domiciliária de Carlos Cruz. Ora, pensei eu, qual é o melhor canal para me irritar com as tiradas brilhantes dos jornalistas? TVI, pois claro. Tomei dois calmantes e lá mudei eu para o ex-canal de inspiração cristã.
Depois de me rir um pouco com algumas perguntas e teorias dos 'jornalistas', eis que chega um carro à porta da casa de Carlos Cruz. Abre-se o vidro e aparece Lili Caneças, a própria em carne, plástico e osso.
Este foi o diálogo travado entre a repórter da TVI e a tia Lili:
TVI - Lili, Lili, em directo para a TVI, veio felicitar Carlos Cruz pela sua saída da prisão?
LC - Eu sou muito amiga do Ricardo Sá Fernandes e venho felicitá-lo pelo excelente trabalho que fez. Eu nem conheço o Carlos Cruz muito bem...
TVI - Mas então... e Carlos Cruz?
LC - Pois, como lhe disse, eu nem o conheço muito bem, venho apenas felicitar o Ricardo.
Foi nesta altura que o efeito dos calmantes passou e estive a ponto de partir a televisão... O que esta gente faz para aparecer nas 'notícias'...
P.S. Vou agora a casa de uma amiga minha felicitá-la pelo facto de o F.C.P. ter ganho o campeonato e estar presente nas finais da taça de Portugal e da Liga dos Campeões. É que o pai dela é amigo do Pinto da Costa e eu ao Pinto da Costa nem o conheço muito bem, só falei com ele uma vez...
Carlos Vilela Desblogueador de conversa
Só me deu vontade de partir a televisão...
Ontem, ao chegar a casa e ligar a televisão, fui bombardeado com a notícia da prisão domiciliária de Carlos Cruz. Ora, pensei eu, qual é o melhor canal para me irritar com as tiradas brilhantes dos jornalistas? TVI, pois claro. Tomei dois calmantes e lá mudei eu para o ex-canal de inspiração cristã.
Depois de me rir um pouco com algumas perguntas e teorias dos 'jornalistas', eis que chega um carro à porta da casa de Carlos Cruz. Abre-se o vidro e aparece Lili Caneças, a própria em carne, plástico e osso.
Este foi o diálogo travado entre a repórter da TVI e a tia Lili:
TVI - Lili, Lili, em directo para a TVI, veio felicitar Carlos Cruz pela sua saída da prisão?
LC - Eu sou muito amiga do Ricardo Sá Fernandes e venho felicitá-lo pelo excelente trabalho que fez. Eu nem conheço o Carlos Cruz muito bem...
TVI - Mas então... e Carlos Cruz?
LC - Pois, como lhe disse, eu nem o conheço muito bem, venho apenas felicitar o Ricardo.
Foi nesta altura que o efeito dos calmantes passou e estive a ponto de partir a televisão... O que esta gente faz para aparecer nas 'notícias'...
P.S. Vou agora a casa de uma amiga minha felicitá-la pelo facto de o F.C.P. ter ganho o campeonato e estar presente nas finais da taça de Portugal e da Liga dos Campeões. É que o pai dela é amigo do Pinto da Costa e eu ao Pinto da Costa nem o conheço muito bem, só falei com ele uma vez...
Carlos Vilela Desblogueador de conversa
Paisagem e outros lugares
Estou a tentar "achar" a imagem para a peça de Harold Pinter que o meu amigo João Duarte Victor vai encenar. Encontrei uma "solução" minimalista para resolver o problema. A estreia é dia 9 de Junho no teatro de bolso, em Setúbal. Espero que gostem.
PAISAGEM E OUTROS QUADROS
Uma peça e cinco sketches
Traduções: Jorge Silva Melo, Pedro Marques, Paulo Eduardo Carvalho, Francisco Frazão e Graça P. Corrêa
Encenação: Duarte Victor
Cenografia | Imagem: José Teófilo Duarte
Interpretes: Célia David, Carlos Rodrigues, Duarte Victor, Maria Simões, Miguel Assis, José Nobre, Sónia Martins, Susana Brito
Produção executiva: João Gaspar
Banda sonora e sonoplastia: Miguel Ramos
Luminotecnia: António Rosa
Montagem e contra-regra: João Carlos
Guarda-roupa: Mercedes Lança
Secretariado: Ângela Rosa
HAROLD PINTER
Nascido em 1930, Harold Pinter começou por ser actor (com o nome David Baron) e em 1957 escreveu a sua primeira peça, THE ROOM. Autor fundamental do teatro contemporâneo, encenou e representou em algumas das suas mais de trinta peças, que foram traduzidas e encenadas por todo o mundo. Escreveu também para rádio, televisão e cinema, onde é difícil esquecer a colaboração com Joseph Losey. Recebeu já diversos prémios e distinções: recentemente, o título de Companion of Honour da Rainha.
In Artistas Unidos n’a capital
JTD
quinta-feira, 29 de abril de 2004
Europeias em cromos
O fadista Nuno da Câmara Pereira, verdadeiro herdeiro do trono português, cedeu às fraquezas da república, e alistou-se na coligação PSD/CDS ao Parlamento Europeu. É a figura número dezasseis. Há quem pense que é o mais custoso da colecção.
quarta-feira, 28 de abril de 2004
reBlogue
Um pimbalhão dá sempre mais hipismo ao desfile
De acordo com o Portugal Diário, Alberto João Jardim disse hoje que "a Madeira poderia viver independente" e "não seria um país miserável", apoiando a sua convicção num estudo económico-financeiro que o governo regional encomendou.
Aguarda-se que José Manuel Durão Barroso encomende idêntico estudo para apurar quanto pouparia o continente com a independência da Madeira.
Claro que tudo isto é um tremendo erro.
Portugal perder Alberto João seria o mesmo que a TVI perder Manuela Moura Guedes, ou a maioria da Câmara de Setúbal perder o cantor Toy.
Um pimbalhão dá sempre mais hipismo ao desfile.
Júlio Queiros Sadinos
De acordo com o Portugal Diário, Alberto João Jardim disse hoje que "a Madeira poderia viver independente" e "não seria um país miserável", apoiando a sua convicção num estudo económico-financeiro que o governo regional encomendou.
Aguarda-se que José Manuel Durão Barroso encomende idêntico estudo para apurar quanto pouparia o continente com a independência da Madeira.
Claro que tudo isto é um tremendo erro.
Portugal perder Alberto João seria o mesmo que a TVI perder Manuela Moura Guedes, ou a maioria da Câmara de Setúbal perder o cantor Toy.
Um pimbalhão dá sempre mais hipismo ao desfile.
Júlio Queiros Sadinos
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Endereço errado
António Ribeiro Ferreira comprava armas a mil paus. Teresa de Sousa era voz da AOC (“uma espinha encravada na garganta do dr. Cunhal”). José Manuel Fernandes escrevia textos sobre as maravilhas da Albânia, na “Voz do Povo”. Durão Barroso roubava mobília ao Conselho Directivo da Faculdade de Direito. E agora, a gente que os ature mais as suas diatribes contra a esquerda e o seu passado tenebroso. Andaram a divertir-se quando eram cachopos e depois ainda vêm cobrar a factura.
Daniel Oliveira Barnabé
António Ribeiro Ferreira comprava armas a mil paus. Teresa de Sousa era voz da AOC (“uma espinha encravada na garganta do dr. Cunhal”). José Manuel Fernandes escrevia textos sobre as maravilhas da Albânia, na “Voz do Povo”. Durão Barroso roubava mobília ao Conselho Directivo da Faculdade de Direito. E agora, a gente que os ature mais as suas diatribes contra a esquerda e o seu passado tenebroso. Andaram a divertir-se quando eram cachopos e depois ainda vêm cobrar a factura.
Daniel Oliveira Barnabé
Gastão
O Grande Prémio de Poesia da APE/CTT acaba de ser atribuído ao poeta e ensaísta Gastão Cruz, que recentemente publicou "Rua de Portugal" na Assírio e Alvim. Trata-se de uma justíssima recompensa que apetece saudar com particular entusiasmo. Porque na distinção de um livro o que está em causa é a vida de alguém que desde sempre dedicou à poesia uma atenção especial, e em particular à poesia moderna e contemporânea (embora Gastão Cruz tenha estado sempre em permanente diálogo com os poetas clássicos, sobretudo com Luís de Camões, Sá de Miranda ou Camilo Pessanha). Donde, o Gastão surge como poeta, com uma obra exemplar de sobriedade e rigor, mas também como um acompanhante ensaístico da sua geração, como alguém que deu uma imensa atenção a poetas anteriores (saliente-se Carlos de Oliveira, referência dominante, ou Eugénio de Andrade, Ruy Belo ou Herberto Helder), e nos últimos tempos, dada a ligação que teve com o universo do teatro, como um verdadeiro animador cultural (escolar e não só), através da organização frequente de sessões de leitura de poesia em que uma outra forma de pensar e dizer se tem vindo a impor.
Eduardo Prado Coelho Quarta-feira, 28 de Abril de 2004 Público
Eduardo Prado Coelho Quarta-feira, 28 de Abril de 2004 Público
segunda-feira, 26 de abril de 2004
reBlogue
Três dias depois
Nasci no dia 28 de Abril de 1974, três dias depois da Revolução (ou, como se diz agora, para não aborrecer ninguém, da Evolução) dos Cravos. Por isso, a minha experiência do 25 de Abril é exactamente igual à da generalidade das pessoas de direita que viveram naquela época: não mexi uma palha para que a Revolução se desse, não a desejei e não estava minimamente convencido de que fosse necessária.
Tal como o 25 de Abril, também eu celebrarei este ano o 30º aniversário. Diz-me o sr. Ministro da Presidência que os 30 anos são a idade da maturidade e que, por causa disso, a Revolução deixará cair o “r”. Eu, que tenho a fama de ser imaturo (entre outras), não quero perder esta oportunidade de mostrar que já sou um homenzinho, e decidi deixar cair também o meu próprio “r” inicial. Podem começar a tratar-me por Icardo.
Ricardo de Araújo Pereira em texto publicado no Barnabé
Nasci no dia 28 de Abril de 1974, três dias depois da Revolução (ou, como se diz agora, para não aborrecer ninguém, da Evolução) dos Cravos. Por isso, a minha experiência do 25 de Abril é exactamente igual à da generalidade das pessoas de direita que viveram naquela época: não mexi uma palha para que a Revolução se desse, não a desejei e não estava minimamente convencido de que fosse necessária.
Tal como o 25 de Abril, também eu celebrarei este ano o 30º aniversário. Diz-me o sr. Ministro da Presidência que os 30 anos são a idade da maturidade e que, por causa disso, a Revolução deixará cair o “r”. Eu, que tenho a fama de ser imaturo (entre outras), não quero perder esta oportunidade de mostrar que já sou um homenzinho, e decidi deixar cair também o meu próprio “r” inicial. Podem começar a tratar-me por Icardo.
Ricardo de Araújo Pereira em texto publicado no Barnabé
(R)evolução
Parece apenas mais um texto para alimentar a polémica. Não é. É outra forma de abordar o tema, fazendo ligações com outros comportamentos humanos. Aqui fica a conclusão:
- Em relação há polémica revolução/evolução, o debate torna-se mais claro à luz desta problemática. É evidente que houve no início uma revolução a que se seguiu uma evolução. Neste ponto Morais Sarmento tem razão. Mas é também manifesto que existe uma dimensão performativa na palavra "revolução" que permite dizer "eu faço uma revolução na minha vida". A revolução é da ordem do fazer. Quanto à "evolução", ela é mais algo que se enuncia deste modo: "há uma evolução na minha vida" - é algo que se descreve, que se verifica, que se deixa acontecer, mas que pertence às estratégias fatais que nos envolvem. A revolução é sempre de uma visibilidade exuberante: descentra as existências, cria voragens e precipícios, acelera a história e o coração. A evolução é invisível (daí que seja preciso uma campanha publicitária para a tornar visível), passa numa espécie de sonambulismo criador mas retraído, fica antes do sujeito, empurra-o para a história que se faz inconscientemente nas suas próprias mãos.
Da revolução poder-se-á dizer o que Michel Leiris escreveu desdobrando a palavra por dentro: "Révolution: solution de tous rêves?". A palavra "revolução" sonha, a palavra "evolução" caminha sem energia nem imaginário. Falar na Revolução de Abril é procurar manter o performativo da paixão. Aragon escreveu: "a mulher é o futuro do homem".
Eduardo Prado Coelho Público
- Em relação há polémica revolução/evolução, o debate torna-se mais claro à luz desta problemática. É evidente que houve no início uma revolução a que se seguiu uma evolução. Neste ponto Morais Sarmento tem razão. Mas é também manifesto que existe uma dimensão performativa na palavra "revolução" que permite dizer "eu faço uma revolução na minha vida". A revolução é da ordem do fazer. Quanto à "evolução", ela é mais algo que se enuncia deste modo: "há uma evolução na minha vida" - é algo que se descreve, que se verifica, que se deixa acontecer, mas que pertence às estratégias fatais que nos envolvem. A revolução é sempre de uma visibilidade exuberante: descentra as existências, cria voragens e precipícios, acelera a história e o coração. A evolução é invisível (daí que seja preciso uma campanha publicitária para a tornar visível), passa numa espécie de sonambulismo criador mas retraído, fica antes do sujeito, empurra-o para a história que se faz inconscientemente nas suas próprias mãos.
Da revolução poder-se-á dizer o que Michel Leiris escreveu desdobrando a palavra por dentro: "Révolution: solution de tous rêves?". A palavra "revolução" sonha, a palavra "evolução" caminha sem energia nem imaginário. Falar na Revolução de Abril é procurar manter o performativo da paixão. Aragon escreveu: "a mulher é o futuro do homem".
Eduardo Prado Coelho Público
domingo, 25 de abril de 2004
Liberdade
O discurso do 25 de Abril não fica completo sem se falar de José Afonso. Parece-me óbvio. Ele foi a voz que se insurgiu com mensagens cifradas, de pendor surrealista. Contudo a linguagem poética é de uma qualidade tal, que não se fica pelo panfleto. Nunca foi esse o caminho de Zeca; O dogma, a palavra fácil, não são o chão que pisa.
Foi uma voz dos inconformados. De todos os que lutam pelo que é mais universal e cosmopolita.
No dia de hoje, apetece-me passar para aqui, um poema incluido no trabalho "Coro dos Tribunais", que refere a longa noite de resistência, de clandestinidade, mas também do amor e da esperança.
A PRESENÇA DAS FORMIGAS
A presença das formigas
Nesta oficina caseira
A regra de três composta
Às tantas da madrugada
Maria que eu tanto prezo
E por modéstia me ama
A longa noite de insónia
Às voltas na mesma cama
Liberdade liberdade
Quem disse que era mentira
Quero-te mais do que à morte
Quero-te mais do que à vida
JTD
Foi uma voz dos inconformados. De todos os que lutam pelo que é mais universal e cosmopolita.
No dia de hoje, apetece-me passar para aqui, um poema incluido no trabalho "Coro dos Tribunais", que refere a longa noite de resistência, de clandestinidade, mas também do amor e da esperança.
A PRESENÇA DAS FORMIGAS
A presença das formigas
Nesta oficina caseira
A regra de três composta
Às tantas da madrugada
Maria que eu tanto prezo
E por modéstia me ama
A longa noite de insónia
Às voltas na mesma cama
Liberdade liberdade
Quem disse que era mentira
Quero-te mais do que à morte
Quero-te mais do que à vida
JTD
Vivam
Vivam, apenas
Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.
Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.
Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.
E principalmente não pensem na morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.
Vivam, apenas.
A morte é para os mortos!
José Gomes Ferreira. Viver sempre também cansa. 1931
Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.
Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.
Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.
E principalmente não pensem na morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.
Vivam, apenas.
A morte é para os mortos!
José Gomes Ferreira. Viver sempre também cansa. 1931
sexta-feira, 23 de abril de 2004
Perguntar não ofende
Terá sido nestas premissas que o nosso governo se baseou para falar em "Evolução", em vez de "Revolução"?
"More revolutions have succeeded in their first assault than, once
successful,
have been brought to a standstill and held there. Revolution is not a
permanent state, it must not develop into a lasting state. The full spate of
revolution must be guided into the secure bed of evolution."
-- Adolf Hitler (Discurso aos Governadores do Reich, 6 de Julho de 1933)
"For as soon as the party had taken over power, and this new condition of
affairs was consolidated, I looked upon it as a matter of course that the
Revolution should be transformed into an evolution."
-- Adolf Hitler (Discurso no Reichstag, 30 de Janeiro de 1937)
Não levem a mal. Perguntar não ofende.
"More revolutions have succeeded in their first assault than, once
successful,
have been brought to a standstill and held there. Revolution is not a
permanent state, it must not develop into a lasting state. The full spate of
revolution must be guided into the secure bed of evolution."
-- Adolf Hitler (Discurso aos Governadores do Reich, 6 de Julho de 1933)
"For as soon as the party had taken over power, and this new condition of
affairs was consolidated, I looked upon it as a matter of course that the
Revolution should be transformed into an evolution."
-- Adolf Hitler (Discurso no Reichstag, 30 de Janeiro de 1937)
Não levem a mal. Perguntar não ofende.
quarta-feira, 21 de abril de 2004
O guarda Portas
A NATO diz que os submarinos de Paulo Portas não fazem falta nenhuma.
Portas diz que não; fazem falta, sim senhor. O governo é soberano e sabe muito bem o que faz.
Eu, pessoalmente, já me sinto mais segura. Com os submarinos colocados na costa Atlântica, ficamos mais protegidos da armada americana.
É melhor assim, com amigos destes, nunca se sabe...
É que aqui, já houve mouros.
JFC>
Um conforto moderno
Um conforto moderno
Jaz neste orfanato
Que dizer do meu inferno?
Que dizer do meu olfacto?
Mais de três mil metros
Andei eu a passo
Já tenho o siso mais certo
Já sei aquilo que faço
O que é preciso é ter jeito
Neste bom recato
Que dizer do meu inferno?
Que dizer do meu olfacto?
José Afonso Escrito na prisão de Caxias
Jaz neste orfanato
Que dizer do meu inferno?
Que dizer do meu olfacto?
Mais de três mil metros
Andei eu a passo
Já tenho o siso mais certo
Já sei aquilo que faço
O que é preciso é ter jeito
Neste bom recato
Que dizer do meu inferno?
Que dizer do meu olfacto?
José Afonso Escrito na prisão de Caxias
terça-feira, 20 de abril de 2004
Ingerências
Durão Barroso criticou as primeiras medidas tomadas por Zapatero como primeiro-ministro de Espanha.
Há quem diga que o actual primeiro-ministro português já foi ministro dos negócios estrangeiros.
Eu não me lembro. Acho mesmo que isso não é possível. Como é que um antigo responsável pela diplomacia de um país, diz agora tanto disparate? Não, não é possível, mesmo.
JFC
Há quem diga que o actual primeiro-ministro português já foi ministro dos negócios estrangeiros.
Eu não me lembro. Acho mesmo que isso não é possível. Como é que um antigo responsável pela diplomacia de um país, diz agora tanto disparate? Não, não é possível, mesmo.
JFC
domingo, 18 de abril de 2004
Quem bloga...
Há diversos tipos de blogue, e com as mais variadas intenções.
Há os que servem para contar a vidinha, apenas interessando aos amigos pessoais. São úteis e apreciáveis para quem quer revelar ideias e sentimentos a amigos colocados em múltiplos lugares do planeta.
Há os divulgadores. Actuando em áreas específicas e ligando quem actua nessas áreas.
Há os de participação social, com preocupações mais próximas da cidadania.
Há os que revelam actividades pessoais, com opiniões políticas ou filosóficas ou literárias ou até de crítica social.
Há os humorísticos. Como o GATO FEDORENTO.
Nem todos têm participação dos leitores. Em alguns, não faz sentido, noutros faz.
SADINOS ou BARNABÈ, apesar das diferenças, foram criados para a participação. O mais intensa possível.
Os ABRUPTO, AVIZ ou CAUSA NOSSA, por exemplo, existem para que os seus mentores exprimam opiniões de um forma imediata e continuada. Os seus post’s são posteriormente, e com muita frequência, citados na imprensa. Aqui não faz sentido a participação “popular”.
Tudo isto é legítimo e louvável. Mas tudo tem um senão. Tal como em outras áreas da cidadania, também aqui se cometem, por vezes, excessos.
É com a intenção de tornar estas coisas razoáveis, que se procede a alguma “fiscalização” de opiniões menos respeitadoras de outras participações. Não concordo em chamar a isso censura. A nossa liberdade termina onde começa a dos outros. Nem todos estaremos dispostos a suportar ofensas pessoais sem sentido, vindas de militantes anonimatos.
No BLOGOPERATÓRIO também não permitimos comentários. Quem quer cá vir vem, quem não quer não vem. A intenção não é actuar socialmente, mas sim permitir a divulgação do que gostamos e do que nos preocupa, sempre com a ideia de partilha.
O SADINOS tem a sua utilidade neste constante frequentar por parte dos habitantes da cidade de Setúbal.
Mas como em tudo há os limites do bom senso. A crítica frontal e assumida é, na minha opinião, um excelente exercício de participação. O insulto e a insinuação gratuitas, não têm qualquer outro interesse que não seja o de retirar credibilidade aos projectos.
JTD
Há os que servem para contar a vidinha, apenas interessando aos amigos pessoais. São úteis e apreciáveis para quem quer revelar ideias e sentimentos a amigos colocados em múltiplos lugares do planeta.
Há os divulgadores. Actuando em áreas específicas e ligando quem actua nessas áreas.
Há os de participação social, com preocupações mais próximas da cidadania.
Há os que revelam actividades pessoais, com opiniões políticas ou filosóficas ou literárias ou até de crítica social.
Há os humorísticos. Como o GATO FEDORENTO.
Nem todos têm participação dos leitores. Em alguns, não faz sentido, noutros faz.
SADINOS ou BARNABÈ, apesar das diferenças, foram criados para a participação. O mais intensa possível.
Os ABRUPTO, AVIZ ou CAUSA NOSSA, por exemplo, existem para que os seus mentores exprimam opiniões de um forma imediata e continuada. Os seus post’s são posteriormente, e com muita frequência, citados na imprensa. Aqui não faz sentido a participação “popular”.
Tudo isto é legítimo e louvável. Mas tudo tem um senão. Tal como em outras áreas da cidadania, também aqui se cometem, por vezes, excessos.
É com a intenção de tornar estas coisas razoáveis, que se procede a alguma “fiscalização” de opiniões menos respeitadoras de outras participações. Não concordo em chamar a isso censura. A nossa liberdade termina onde começa a dos outros. Nem todos estaremos dispostos a suportar ofensas pessoais sem sentido, vindas de militantes anonimatos.
No BLOGOPERATÓRIO também não permitimos comentários. Quem quer cá vir vem, quem não quer não vem. A intenção não é actuar socialmente, mas sim permitir a divulgação do que gostamos e do que nos preocupa, sempre com a ideia de partilha.
O SADINOS tem a sua utilidade neste constante frequentar por parte dos habitantes da cidade de Setúbal.
Mas como em tudo há os limites do bom senso. A crítica frontal e assumida é, na minha opinião, um excelente exercício de participação. O insulto e a insinuação gratuitas, não têm qualquer outro interesse que não seja o de retirar credibilidade aos projectos.
JTD
quarta-feira, 14 de abril de 2004
Aprovada a morte de Amina por lapidação
O Supremo Tribunal da Nigéria ratificou a condenação à morte de Amina por lapidação. Apenas adiaram a sentença em virtude de ainda estar a amamentar o seu filho. Depois será enterrada até ao pescoço e, em seguida, apedrejada, a menos que um dilúvio de e-mails repudiando a condenação faça com que as autoridades nigerianas voltem atrás na decisão. Através de uma campanha de assinaturas como esta salvou-se uma outra mulher na mesma situação. Não se perde nada, mas ganha-se no sentido humanitário. Não duvidem e façam-no por favor. Safira também será lapidada porque teve um filho depois de divorciada. A Amnistia Internacional pediu apoio através da sua página web.
Por favor, façam circular esta mensagem.
Vão lapidar outra mulher na Nigéria e desta vez reuniram-se poucas assinaturas:
Não custa nada: Basta entrar no site (link abaixo) e assinar. A carta já está feita.
Amnistia Internacional
Vamos apoiar reenviando essa mensagem a todos os seus contactos?
Como diz a mensagem, realmente não nos custa nada, e para Amina pode significar a VIDA!!!
Por favor, façam circular esta mensagem.
Vão lapidar outra mulher na Nigéria e desta vez reuniram-se poucas assinaturas:
Não custa nada: Basta entrar no site (link abaixo) e assinar. A carta já está feita.
Amnistia Internacional
Vamos apoiar reenviando essa mensagem a todos os seus contactos?
Como diz a mensagem, realmente não nos custa nada, e para Amina pode significar a VIDA!!!
Memórias de Adriano
Descobri, agora mesmo, um sítio onde se escondia o Adriano Correia de Oliveira. Foi boa, a descoberta. Isabel Correia de Oliveira é a mentora, e todos podem dar o seu contributo.
Lembro-me de uma frase de Adriano, escrita no trabalho que fez em conjunto com Manuel da Fonseca - "Que nunca Mais":
"Que nunca mais os meninos nasçam em bairros de lata, gostem de faltar à escola e aprendam ofícios de estalo e safanão"
JTD
terça-feira, 13 de abril de 2004
Maré alta
Experimentem ler este texto de Sérgio Godinho esquecendo a melodia. Eu não consigo.
É nitidamente letra para ser musicada. Ou então, foram feitas em simultâneo; letra e música.
Conclusão: O processo criativo coube ao seu autor. Nós ficámos com uma grande canção. É preciso aprender a nadar, não é? Lá isso é!
MARÉ ALTA
Aprende a nadar, companheiro
Aprende a nadar, companheiro
Que a maré se vai levantar
Que a maré se vai levantar
Que a liberdade está a passar por aqui
Que a liberdade está a passar por aqui
Que a liberdade está a passar por aqui
Maré alta
Maré alta
Maré alta
Os sobreviventes>, Sérgio Godinho, gravado no Strawberry studio, Chateau d'Herouville - França,
em Abril de 1971
JTD>
Dou?
CANÇÂO
Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo:
— mãe, dou-lho ou não?
Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo:
— mãe, dou-lho ou não?
Dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir:
— mãe, dou-lho ou não?
Eugénio de Andrade
segunda-feira, 12 de abril de 2004
Júlio Pomar | João Lobo Antunes
Júlio Pomar e João Lobo Antunes falaram com Maria João Avilez na SIC.
Bonita entrevista. Lobo Antunes guardou o bisturi e falou de Arte com a visão de um cirurgião permanente. Não dos hospitais, mas da vida de todos os dias. Um arguto observador da obra do pintor.
A obra analisada foi o conjunto de desenhos feitos para "Guerra e Paz" de Tolstoi. Pomar encantou, como sempre, com o desfile de metáforas com que povoa o seu discurso.
Em tempos, numa conversa com Helena Vaz da Silva, Júlio Pomar respondeu acerca de como se explica um quadro, como acontece:
"Tropeço na palavra explicação. Gostaria de dizer que deixei de procurar explicações. Ou gostaria de ter deixado? O mais das vezes explicar uma coisa é fazê-la render a curto prazo, é fechá-la e deixá-la. Mais me apaixona ver o que passa por ela, o que com ela parece ter relação, do que estar a impor o fim que é a explicação. A levar a água ao meu moinho. Sou um sedentário e gostaria que o meu moinho fosse nómada".
Agora, passados mais de vinte anos, diz que o que mais lhe interessa é subir a escada do ateliê e pintar. Pinta várias peças em simultâneo. Diz que são elas, as telas, que o conduzem. Piscam-lhe o olho e ele limita-se a obedecer. Foi Pomar que disse um dia que "Um quadro já lá tem tudo, o pintor limita-se a descobrir essa verdade".
Foi bom conversar com eles.
JTD
domingo, 11 de abril de 2004
Não canto porque sonho
Titulo de um poema de Eugénio de Andrade, que Fausto musicou e cantou em parceria com José Afonso no seu trabalho "P'ró que der e vier", gravado em Madrid e em Lisboa, entre Abril e Outubro de 1974, com produção de Adriano Correia de Oliveira e José Niza. É um bom disco de Fausto, com a marca do tempo que então se vivia. O poema de Eugénio, a composição de Fausto e a interpretação em diálogo com Zeca, fazem desta canção uma referência na música da época. Fiquemos com o texto. JTD
Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.
Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.
Canto porque o amor me apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
por vê-los nus e suados
sábado, 10 de abril de 2004
Em Abril, memórias mil
Não me comove o já serôdio abrilismo de pacotilha. O 25 de Abril foi há trinta anos, e os meus amigos de mais ou menos essa idade, não souberam o que era o fascismo, e ainda bem.
Também não me emociono com os "saudosos" anos de implantação da República. Ainda não existia como criatura e os relatos soam como algo muito longe. O bem que estes históricos acontecimentos nos fizeram é imenso. São bens adquiridos, por nós utilizados como vulgar electrodoméstico. Mas vale a pena recordar o melhor, o que ficou depois da poeira.
Vamos fazê-lo aqui durante o mês de Abril.
Começamos com José Afonso, poeta. Um poema não musicado, escrito em Março de 1981. JTD
TU MORRES TODOS OS DIAS
Tu morres todos os dias
libertando telefonemas
diante da minha mágoa
exposta à ira dos dias
levo-te cravos vermelhos
flores recentes da estação
Morres e vais caminhando
sobre uma estrada de fumo
o lume que nos sustenta
Já não cheira não tem vida
À vezes vens-me à lembrança
descalça ao longo da praia
Vivo terrores de madraço
Com dívidas acumuladas
Seguindo de perto o tráfego
Saberei um dia amar-te
Tu morres tu pontificas
eu respiro a tua sombra
Ai repouso do guerreiro
Sobre o abismo repousas
quarta-feira, 7 de abril de 2004
Picasso e a guerra
Picasso tem direito, no início da ocupação, como muitos outros, a uma visita da gestapo, que lhe vasculha o atelier.
Um oficial nazi, ao ver sobre uma mesa uma fotografia de Guernica, interroga-o:
- Foi o senhor que fez isto?
Resposta de Picasso:
- Não, foram vocês.
Titulo: Picasso por Picasso
Organização: Paul Désalmand
Tradução: Mário Dias Correia
Capa: Fotografia de Man Ray
Edição: Contexto
O provincianismo português
O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subornização inconsciente e feliz.
O sindroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.
Se há característico que imediatamente distinga o provincianismo, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas.
Fernando Pessoa, Textos de crítica e de Intervenção
O sindroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.
Se há característico que imediatamente distinga o provincianismo, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas.
Fernando Pessoa, Textos de crítica e de Intervenção
quarta-feira, 31 de março de 2004
A cor do voto
Saramago avisou que o seu mais recente livro era para causar polémica.
Os livros também servem para isso? Claro. Mas acima de tudo, estamos perante uma obra que interroga, que levanta questões sobre a participação das pessoas na democracia. Quase na generalidade, a nossa participação como cidadãos está reduzida ao voto. Saramago numa abordagem interessante:
"Em geral não costumo votar, mas hoje deu-me para aqui, A ver se isto vai servir para alguma coisa que valha a pena. Tantas vezes foi o cântaro à fonte, que por fim lá deixou ficar a asa, No outro dia também votei, mas só pude sair de casa às quatro, Isto é como a lotaria, quase sempre sai branco, Ainda assim, há que persistir, A esperança é como o sal, não alimenta, mas dá sabor ao pão, durante horas e horas estas e mil outras frases, igualmente inócuas, igualmente neutras, igualmente inocentes de culpa, foram esmiudadas até à última sílaba, esfareladas, viradas do avesso, pisadas no almofariz sob o pilão das perguntas, Explique-me que cântaro é esse, Porque é que a asa se soltou na fonte, e não durante o caminho, ou em casa, Se não era seu costume votar, porque é que votou desta vez, Se a esperança é como o sal, que acha que deveria ser feito para que o sal fosse como a esperança, Como resolveria a diferença de cores entre a esperança, que é verde, e o sal, que é branco, Acha realmente que o boletim de voto é igual a um bilhete de lotaria,"
Titulo: Ensaio sobre a Lucidez
Autor: José Saramago
Edição: Caminho
JTD
terça-feira, 30 de março de 2004
Michael Nyman
A minha amiga Sandra Passos ligou-me:"Vamos ver o Michael Nyman? Vai estar no coliseu no dia 15 de Abril".
E eu:"Vamos a isso!"
Tenho a impressão que nunca faltei a um concerto, em Portugal, deste inglês, londrino, autor da música de "O Piano". Não é esta a sua obra que mais me impressiona, mas é boa música. Todos os discos de Michael Nyman são uma surpresa e uma festa. Gosto muito de "O Cozinheiro, o Ladrão, a mulher Dele e o Amante", que animou o filme com o mesmo nome.
Em Lisboa vai estar com Sarah Leonard e com um quarteto de cordas. Vai ser, concerteza, um espectáculo memorável. JTD
Michael Nyman | Concerto
Dia 15. Abril. Coliseu de Lisboa
22 horas
domingo, 28 de março de 2004
Onde fica Auschwitz?
Porque ontem foi Dia Mundial do Teatro, fui ver a peça que o Teatro Animação de Setúbal tem em cena.
O trabalho é assinado por Carlos Curto e Rui Zink, e é uma interessante interpretação dos problemas levantados pela chamada Era da Informação. A Era do Faz-de-conta elevada a expressão de plena existência.
O tempo em que há quem pretenda que quem não aparece na televisão não existe. A sátira aos comportamentos pouco humanos dos passatempos televisivos. A violência sobre os cidadãos desprotegidos. A crítica às expressões artísticas pouco integradas no seu tempo. Tudo isto abordado com uma inteligência e com um sentido do humor que ultrapassa, não poucas vezes, o real.
Mas atenção, não é a anulação do real pelo imaginário. O que aqui se representa, não se insere numa classificação divertida das recentes formas de teatralidade ligeira. As referências são literárias. Lá encontramos, escondidos nas muito boas interpretações dos actores, Júlio Dantas e George Orwell. Só para dar dois exemplos que me pareceram óbvios. Dantas surge como motivo que inspira a sátira ao teatro declamado e puritano. Orwel, porque quando escreveu 1984, vislumbrou a sociedade actual. A sociedade controlada pelo poder, no caso real o poder económico. E o que são as estações de televisão e os jornais de “referência”, senão eficazes instrumentos dos detentores do poder económico? O "Big Brother" está aí e a gente às vezes não dá por isso.
Sobre o titulo da peça, e porque já foi alvo de ataques e interpretações menos correctas, tenho a dizer o seguinte: Um titulo não é, bastas vezes, uma ilustração literal do que se vai passar. É sim uma sugestão para a leitura, sempre com a intenção promocional, é certo, mas em muitos casos metafórica.
Dou apenas três exemplos, que me surgem ao acaso. Quando a escritora Fernanda Botelho lança o titulo: “Esta Noite Sonhei com Brueghel”, não está a fazer um tratado sobre a vida e obra do pintor. Quando José Saramago escreve “Manual de Pintura e Caligrafia” não está a pensar ensinar ninguém a pintar ou a fazer letrinhas bem alinhadas. E Já agora, quando António Mega Ferreira fala de “A Borboleta de Nabokov”, não está a falar do fascínio do criador de “Lolita” por esta espécie. Na peça do TAS, "Onde fica Auschwitz?" é a expressão do pretexto para os cortes que nos fazem pensar. O actor Carlos Rodrigues, assume um ar de pinguim taralhoco que apenas faz essa pergunta, sempre que a violência se está a tornar preocupante. Tão pouco e tanto.
E pronto. É o que me é possível dizer, pelo menos para já, sobre esta obra de humor um pouco escuro, mas com enorme claridade na exposição argumentativa. JTD
O trabalho é assinado por Carlos Curto e Rui Zink, e é uma interessante interpretação dos problemas levantados pela chamada Era da Informação. A Era do Faz-de-conta elevada a expressão de plena existência.
O tempo em que há quem pretenda que quem não aparece na televisão não existe. A sátira aos comportamentos pouco humanos dos passatempos televisivos. A violência sobre os cidadãos desprotegidos. A crítica às expressões artísticas pouco integradas no seu tempo. Tudo isto abordado com uma inteligência e com um sentido do humor que ultrapassa, não poucas vezes, o real.
Mas atenção, não é a anulação do real pelo imaginário. O que aqui se representa, não se insere numa classificação divertida das recentes formas de teatralidade ligeira. As referências são literárias. Lá encontramos, escondidos nas muito boas interpretações dos actores, Júlio Dantas e George Orwell. Só para dar dois exemplos que me pareceram óbvios. Dantas surge como motivo que inspira a sátira ao teatro declamado e puritano. Orwel, porque quando escreveu 1984, vislumbrou a sociedade actual. A sociedade controlada pelo poder, no caso real o poder económico. E o que são as estações de televisão e os jornais de “referência”, senão eficazes instrumentos dos detentores do poder económico? O "Big Brother" está aí e a gente às vezes não dá por isso.
Sobre o titulo da peça, e porque já foi alvo de ataques e interpretações menos correctas, tenho a dizer o seguinte: Um titulo não é, bastas vezes, uma ilustração literal do que se vai passar. É sim uma sugestão para a leitura, sempre com a intenção promocional, é certo, mas em muitos casos metafórica.
Dou apenas três exemplos, que me surgem ao acaso. Quando a escritora Fernanda Botelho lança o titulo: “Esta Noite Sonhei com Brueghel”, não está a fazer um tratado sobre a vida e obra do pintor. Quando José Saramago escreve “Manual de Pintura e Caligrafia” não está a pensar ensinar ninguém a pintar ou a fazer letrinhas bem alinhadas. E Já agora, quando António Mega Ferreira fala de “A Borboleta de Nabokov”, não está a falar do fascínio do criador de “Lolita” por esta espécie. Na peça do TAS, "Onde fica Auschwitz?" é a expressão do pretexto para os cortes que nos fazem pensar. O actor Carlos Rodrigues, assume um ar de pinguim taralhoco que apenas faz essa pergunta, sempre que a violência se está a tornar preocupante. Tão pouco e tanto.
E pronto. É o que me é possível dizer, pelo menos para já, sobre esta obra de humor um pouco escuro, mas com enorme claridade na exposição argumentativa. JTD
sábado, 27 de março de 2004
sexta-feira, 26 de março de 2004
Fotografia hoje
SEBASTIÃO SALGADO vem a Portugal e vai estar no CCB a convite da revista VISÃO, para uma conferência sobre O Fotojornalismo Hoje.
Salgado é também o presidente do júri do IV Prémio VISÃO Fotojornalismo.
Para além do enorme talento como fotojornalista, Sebastião Salgado é detentor de uma presença cativante como orador.
As suas ideias acerca do mundo e do seu estado de conservação ao nível humano, são visões de um homem que conhece por dentro as suas misérias e sofisticações. Um olhar atento e competente sobre a vida e a luta pela sobrevivência de grande parte das mulheres e homens do planeta. JTD
Conferência: O Fotojornalismo Hoje
Oradores: Sebastião Salgado, Lélia Wanick Salgado, Robert Koch e Ruth Eichhorn
Moderador: Carlos Cáceres Monteiro
Local: Centro Cultural de Belém (Sala Quedá)
Dia 27 de Março, 16 horas
Entrada livre
quarta-feira, 24 de março de 2004
Aqui mesmo ao lado, em Espanha, estão a ver?
António Mega ferreira Faz O jogo das palavras todas as quintas-feiras na Visão.
Na última, termina com uma frase que recupera a expressão utilizada nas eleições nos Estados Unidos. Deu-lhe a volta, e ainda ficou melhor, na minha opinião:
"Para aqueles que acham que é a economia que resolve tudo (até os resultados eleitorais) aqui está uma boa lição, mesmo à nossa porta: é a política, estúpidos!"
JTD
Na última, termina com uma frase que recupera a expressão utilizada nas eleições nos Estados Unidos. Deu-lhe a volta, e ainda ficou melhor, na minha opinião:
"Para aqueles que acham que é a economia que resolve tudo (até os resultados eleitorais) aqui está uma boa lição, mesmo à nossa porta: é a política, estúpidos!"
JTD
Honestidade intelectual
Quando um dos meus quadros não me agrada, quando não o acho bom, não é autêntico, mas assino-o da mesma maneira, para que não acusem outra pessoa. Pablo Picasso
Um divertido livro que nos revela o genial Picasso na primeira pessoa.
O que ele pensava dos amigos, da ditadura, dos maçadores, da pintura e dos pintores.
Estou a reler esta obra editada em 2000, pela Contexto. É uma sugestão. Penso que a edição não está esgotada.
Titulo: Picasso por Picasso
Organização: Paul Désalmand
Tradução: Mário Dias Correia
Capa: Fotografia de Man Ray
Edição: Contexto
JTD
Um divertido livro que nos revela o genial Picasso na primeira pessoa.
O que ele pensava dos amigos, da ditadura, dos maçadores, da pintura e dos pintores.
Estou a reler esta obra editada em 2000, pela Contexto. É uma sugestão. Penso que a edição não está esgotada.
Titulo: Picasso por Picasso
Organização: Paul Désalmand
Tradução: Mário Dias Correia
Capa: Fotografia de Man Ray
Edição: Contexto
JTD
terça-feira, 23 de março de 2004
Parabéns a você
Lúcia, a "última pastorinha" de Fátima, faz hoje 97 anos. No convento carmelita de Coimbra onde vive, as dezoito monjas que ali vivem em clausura vão poder conversar durante o almoço [enaaa!] e dar um abraço à aniversariante [iuupiiii!]. Estragadas com mimos, hein?
ruitavares Barnabé
Lúcia, a "última pastorinha" de Fátima, faz hoje 97 anos. No convento carmelita de Coimbra onde vive, as dezoito monjas que ali vivem em clausura vão poder conversar durante o almoço [enaaa!] e dar um abraço à aniversariante [iuupiiii!]. Estragadas com mimos, hein?
ruitavares Barnabé
segunda-feira, 22 de março de 2004
Eles Não Conhecem o Herman
De segunda a sexta-feira, o canal brasileiro GNT tem o mérito de apresentar um dos melhores "talk-shows" que alguma vez passaram na televisão em Portugal. É o Programa do Jô, um "remake" do modelo americano tal como é o HermanSic, mas a milhas de distância do português. É que o Jô Soares tem o condão de não humilhar publicamente os seus convidados (mesmo quando o seu interlocutor pensa que é a reencarnação de Jesus Cristo), conseguindo sempre retirar uma belíssima história da vida daqueles que aceitam ir ao programa.
Ele até pode brincar com as situações, mas com graça, sem roçar o ordinário ou o boçal a que estamos habituados na televisão portuguesa e, em particular, no HermanSic. E ainda por cima tem piada. Mais: ele é culto. Não tem uma cultura superficial só de televisão ou do "metier" como mostra o Herman.
De uma maneira geral, Jô sabe do que fala e valoriza a conversa dos seus convidados. Mas também não assume a atitude do sabichão enfadado. Pelo contrário. Sabe ouvir e deixa-se surpreender pelas histórias dos seus convidados. E esse é talvez o seu maior mérito. O Programa do Jô é aliás um somatório de qualidades: tem bom "papo" como dizem os brasileiros, boa música (muito jazz) e um ambiente descontraído, sem o "show off" de HermanSic.
Por tudo isto, fico espantada quando consulto alguns artigos brasileiros sobre o apresentador e verifico que o Jô é muito criticado por falar mais do que os seus convidados. Ah! Isso é porque não conhecem o Herman!
SOFIA RODRIGUES, Público. Domingo, 21 de Março de 2004
Ele até pode brincar com as situações, mas com graça, sem roçar o ordinário ou o boçal a que estamos habituados na televisão portuguesa e, em particular, no HermanSic. E ainda por cima tem piada. Mais: ele é culto. Não tem uma cultura superficial só de televisão ou do "metier" como mostra o Herman.
De uma maneira geral, Jô sabe do que fala e valoriza a conversa dos seus convidados. Mas também não assume a atitude do sabichão enfadado. Pelo contrário. Sabe ouvir e deixa-se surpreender pelas histórias dos seus convidados. E esse é talvez o seu maior mérito. O Programa do Jô é aliás um somatório de qualidades: tem bom "papo" como dizem os brasileiros, boa música (muito jazz) e um ambiente descontraído, sem o "show off" de HermanSic.
Por tudo isto, fico espantada quando consulto alguns artigos brasileiros sobre o apresentador e verifico que o Jô é muito criticado por falar mais do que os seus convidados. Ah! Isso é porque não conhecem o Herman!
SOFIA RODRIGUES, Público. Domingo, 21 de Março de 2004
domingo, 21 de março de 2004
Helder show
Acabo de chegar da sessão organizada por Fátima Medeiros, na Culsete, em Setúbal. Foi notável. Fátima apresentou a iniciativa com entusiasmo e bem. Manuel Medeiros falou sobre a relação dos poetas e dos editores com os livreiros. Foi eloquente e objectivo. Manuel Rosa falou sobre o prazer de dar corpo a um livro e, respondendo a Manuel Medeiros, sobre o papel do livreiro na sua promoção. Fernando Cabral Martins apresentou Helder Moura Pereira, com a expressão do profundo conhecimento da sua obra.
Chegou a vez de Helder. Brilhante. Entre o emocionado e o emocionante, ofereceu-nos uma saborosa tarde de conversa. Percorreu os livros que tem escrito, lendo os poemas que o fizeram como poeta. Leu um lindíssimo inédito. Foi muito bom estar ali. Bela forma de comemorar a poesia. JTD
Chegou a vez de Helder. Brilhante. Entre o emocionado e o emocionante, ofereceu-nos uma saborosa tarde de conversa. Percorreu os livros que tem escrito, lendo os poemas que o fizeram como poeta. Leu um lindíssimo inédito. Foi muito bom estar ali. Bela forma de comemorar a poesia. JTD
Dia da poesia
Há um adesivo que se tira, um cheiro
a fritos que se leva. E não é tudo.
O coração admirado por lhe ligarem,
o corpo agitado como alma
intanquila, e tantas más ideias na cabeça.
Lá da janela, com um livro na mão,
acenavas-me, adeus, imaturo homem,
adeus. Obrigado, Deus meu, mais
uma vez, por tudo isto e mais o que
não fiz, nem o casaco tiraste e logo
me atacaste, talvez gostasses desse cheiro
a fritos e do meu ar assim distraído.
Helder Moura Pereira, A TUA CARA NÃO ME É ESTRANHA", Assírio & Alvim.
a fritos que se leva. E não é tudo.
O coração admirado por lhe ligarem,
o corpo agitado como alma
intanquila, e tantas más ideias na cabeça.
Lá da janela, com um livro na mão,
acenavas-me, adeus, imaturo homem,
adeus. Obrigado, Deus meu, mais
uma vez, por tudo isto e mais o que
não fiz, nem o casaco tiraste e logo
me atacaste, talvez gostasses desse cheiro
a fritos e do meu ar assim distraído.
Helder Moura Pereira, A TUA CARA NÃO ME É ESTRANHA", Assírio & Alvim.
sábado, 20 de março de 2004
António Cabrita
Como amanhã é dia de poesia, estas páginas já estão a comemorar. Hoje vamos conviver com António Cabrita. Poeta, crítico, homem do cinema, da imagem, das opiniões intensas e sérias sobre a Arte e a natureza dos artistas. O poema aqui colocado está prantado no livro "Os Abysmos da Mão", publicado pela Íman, em 2001.
Os olhos em tudo são inábeis,
menos no sonho. Para mais
em Abril,
com os aguaceiros a rilhar
as velas persianas de ripinha
e o condenar à espórtula
as salamandras. E
que me impede de sofucar?
O roçar do tempo nos teus pulmões,
os olhos em tudo inábeis,
menos
nas mãos que me desposam.
Por isso perdura o que amo
no incicratizável susto
do mexicano Salvador Novo:
"Um domingo
Epifania
não voltou mais a casa".
O mapa da retina?
A menina dos meus olhos,
o seu punho no meu gume.
E pronto. Até amanhã e boa poesia. JTD
Os olhos em tudo são inábeis,
menos no sonho. Para mais
em Abril,
com os aguaceiros a rilhar
as velas persianas de ripinha
e o condenar à espórtula
as salamandras. E
que me impede de sofucar?
O roçar do tempo nos teus pulmões,
os olhos em tudo inábeis,
menos
nas mãos que me desposam.
Por isso perdura o que amo
no incicratizável susto
do mexicano Salvador Novo:
"Um domingo
Epifania
não voltou mais a casa".
O mapa da retina?
A menina dos meus olhos,
o seu punho no meu gume.
E pronto. Até amanhã e boa poesia. JTD
quinta-feira, 18 de março de 2004
Domingo é dia de poesia
O próximo domingo é dia mundial da Poesia. Como vivo em Setúbal, vou aceitar o convite que Fátima Medeiros me dirigiu, e lá estarei na sua livraria, a Culsete, às cinco horas da tarde. O programa é de primeira. Vão lá estar os meus amigos Helder Moura Pereira e Manuel Rosa. Helder é um poeta que surpreende em cada livro que vai tendo a gentileza de pôr cá fora. Manuel é o seu editor - O homem da Assìrio & Alvim. É também o responsável pele estética das publicações. O livro que editou de Helder, para além da belíssima capa, é uma grande demonstração do talento do poeta. O titulo é divertido: "A TUA CARA NÃO ME É ESTRANHA". Aqui vai o primeiro texto da obra.
"As coisas passaram-se assim: meu avô
teve um desgosto de amor, quis matar-se.
Atirou-se do Castelo de S. Filipe
mas não se matou, ficou ali, primeiro
a gemer e depois inconsciente, julgava
que tinha morrido. Um pastor de ovelhas
encontrou-o e levou-o para o hospital.
No hospital meu avô percebeu
que não tinha morrido, a irmã da gerente
interessou-se por ele e casaram.
Do casamento nasceram três filhos,
meu pai foi um deles. Sou portanto neto
do acaso e o acaso é o meu pai."
Não se esqueçam, é no próximo domingo. JTD
"As coisas passaram-se assim: meu avô
teve um desgosto de amor, quis matar-se.
Atirou-se do Castelo de S. Filipe
mas não se matou, ficou ali, primeiro
a gemer e depois inconsciente, julgava
que tinha morrido. Um pastor de ovelhas
encontrou-o e levou-o para o hospital.
No hospital meu avô percebeu
que não tinha morrido, a irmã da gerente
interessou-se por ele e casaram.
Do casamento nasceram três filhos,
meu pai foi um deles. Sou portanto neto
do acaso e o acaso é o meu pai."
Não se esqueçam, é no próximo domingo. JTD
Mano preto/mano branco
Os meus amigos Jaime Pinho e Alberto Lopes, professores na Escola Secundária D. João II, em Setúbal, lançaram-me o desafio: Editar o trabalho dos alunos do 9º ano da escola sobre o problema colonial. Desafio aceite. Os testemunhos recolhidos pelos estudantes são de uma impressionante qualidade humana. O racismo e o colonialismo tratados como nunca o foram até hoje. Relatos reais e emocionantes. O livro, com o titulo "Mano preto/mano branco", será colocado nas livrarias a partir de segunda-feira.
O extraordinário escritor angolano Pepetela, é o autor do sentido prefácio.
É esse texto que aqui partilho convosco.
"Este trabalho que professores e alunos do 9º ano da Escola Secundária D. João II nos apresentam é comovente por mais que uma razão. Por um lado, pelo labor de recolher testemunhos de vidas que não puderam viver, os jovens são levados a reflectir sobre experiências alheias e neste caso vivências em países muito afastados pela geografia senão pela emoção. E também fazem as pessoas recordar os seus passados, hoje com certo distanciamento psicológico, mas certamente ainda com muito sentimento. Adivinha-se facilmente uma lágrima num canto de olho em cada resposta dada.
Para a juventude portuguesa, o passado ainda recente de Portugal (e particularmente o seu passado colonial) deve ser qualquer coisa que se entende quando se estuda, mas pouco se sente, porque pouco falado em casa, quase envergonhadamente escondido. São trabalhos como este que fazem as pessoas entrarem na pele do outro e sentirem com ele as amarguras e o sofrimento que regimes sociais injustos possam ter produzido em povos com os quais conviveram. Conhecer as injustiças da situação colonial, reconhecer que os nossos antepassados talvez afinal não tenham sido tão heróicos como muitos se esforçaram por nos fazer crer e que terão mesmo que inconscientemente contribuído para o sofrimento dos outros, isso não nos diminui, nem sequer diminui os nossos antepassados. Reconhecer as nossas fraquezas significa ter uma grande força de carácter e capacidade de mudança.
Para que as pessoas tenham um relacionamento mais sadio e mais puro, é necessário que se saiba exactamente aquilo que as afastou a um momento dado. Então, as diferenças entre as pessoas podem ser compreendidas, aceites como um bem inestimável e servir para um enriquecimento mútuo. É o que pode e deve passar-se com os povos de Portugal e de Angola e de Moçambique, para só referirmos os que estão relacionados neste estudo. Poderíamos alargar a ideia para todos os povos do mundo.
Pessoalmente, gostaria de agradecer ao colectivo desta escola por me terem dado a conhecer este trabalho tão belo e me honrarem pedindo-me estas modestas linhas."
Titulo: Mano preto/mano branco
Autores: alunos do 9º ano da Escola Secundária D. João II. Setúbal
Capa: Ilustração de Eurico Coelho
Design/paginação: José Teófilo Duarte | Eva Monteiro [DDLX]
Edição: Estuário Publicações
JTD
O extraordinário escritor angolano Pepetela, é o autor do sentido prefácio.
É esse texto que aqui partilho convosco.
"Este trabalho que professores e alunos do 9º ano da Escola Secundária D. João II nos apresentam é comovente por mais que uma razão. Por um lado, pelo labor de recolher testemunhos de vidas que não puderam viver, os jovens são levados a reflectir sobre experiências alheias e neste caso vivências em países muito afastados pela geografia senão pela emoção. E também fazem as pessoas recordar os seus passados, hoje com certo distanciamento psicológico, mas certamente ainda com muito sentimento. Adivinha-se facilmente uma lágrima num canto de olho em cada resposta dada.
Para a juventude portuguesa, o passado ainda recente de Portugal (e particularmente o seu passado colonial) deve ser qualquer coisa que se entende quando se estuda, mas pouco se sente, porque pouco falado em casa, quase envergonhadamente escondido. São trabalhos como este que fazem as pessoas entrarem na pele do outro e sentirem com ele as amarguras e o sofrimento que regimes sociais injustos possam ter produzido em povos com os quais conviveram. Conhecer as injustiças da situação colonial, reconhecer que os nossos antepassados talvez afinal não tenham sido tão heróicos como muitos se esforçaram por nos fazer crer e que terão mesmo que inconscientemente contribuído para o sofrimento dos outros, isso não nos diminui, nem sequer diminui os nossos antepassados. Reconhecer as nossas fraquezas significa ter uma grande força de carácter e capacidade de mudança.
Para que as pessoas tenham um relacionamento mais sadio e mais puro, é necessário que se saiba exactamente aquilo que as afastou a um momento dado. Então, as diferenças entre as pessoas podem ser compreendidas, aceites como um bem inestimável e servir para um enriquecimento mútuo. É o que pode e deve passar-se com os povos de Portugal e de Angola e de Moçambique, para só referirmos os que estão relacionados neste estudo. Poderíamos alargar a ideia para todos os povos do mundo.
Pessoalmente, gostaria de agradecer ao colectivo desta escola por me terem dado a conhecer este trabalho tão belo e me honrarem pedindo-me estas modestas linhas."
Titulo: Mano preto/mano branco
Autores: alunos do 9º ano da Escola Secundária D. João II. Setúbal
Capa: Ilustração de Eurico Coelho
Design/paginação: José Teófilo Duarte | Eva Monteiro [DDLX]
Edição: Estuário Publicações
JTD
quarta-feira, 17 de março de 2004
Viva quem canta, viva quem escreve
A história de um homem que escreve o que for preciso. O regresso de um congresso de escritores anónimos em Istambul, leva-o a fazer escala em Budapeste. A lingua húngara, "A única que o diabo respeita", e o enamoramento com a sua professora, fazem-no andar num corrupio entre o Rio de Janeiro e a nova cidade de eleição. Escreve romances, com pseudónimo, que se tornam grandes sucessos. Uma dessas obras é a "autobiografia" de um alemão que aprende português escrevendo no corpo de mulheres nuas.
O retrato de um escritor anónimo que vive dividido entre dois livros, duas mulheres, duas cidades, dois idiomas.
É o novo romance de Chico Buarque.
Vale a pena ouvir a opinião de José Saramago: "Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre o arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro."
Titulo: BUDAPESTE
Autor: Chico Buarque
Capa: Atelier Henrique Cayatte, com a colaboração de Rita Múrias.
Edição: Dom Quixote
JTD
O retrato de um escritor anónimo que vive dividido entre dois livros, duas mulheres, duas cidades, dois idiomas.
É o novo romance de Chico Buarque.
Vale a pena ouvir a opinião de José Saramago: "Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre o arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro."
Titulo: BUDAPESTE
Autor: Chico Buarque
Capa: Atelier Henrique Cayatte, com a colaboração de Rita Múrias.
Edição: Dom Quixote
JTD
terça-feira, 16 de março de 2004
Fia-te na virgem e não corras...
Após o encontro com o Presidente da República
Durão Barroso: "Não há ameaças credíveis dirigidas ao nosso país"
O primeiro-ministro, Durão Barroso, assegurou hoje que não há "qualquer ameaça [terrorista] credível dirigida contra o nosso país", na sequência dos atentados terroristas de 11 de Março em Madrid que mataram 201 pessoas e feriram mais de 1500.
Público, hoje.
Durão Barroso: "Não há ameaças credíveis dirigidas ao nosso país"
O primeiro-ministro, Durão Barroso, assegurou hoje que não há "qualquer ameaça [terrorista] credível dirigida contra o nosso país", na sequência dos atentados terroristas de 11 de Março em Madrid que mataram 201 pessoas e feriram mais de 1500.
Público, hoje.
domingo, 14 de março de 2004
11-M
A televisão avariou há um mês e o homem que devia nunca chegou a aparecer. As imagens de Atocha não entraram lá em casa. (Que ao menos o horror, que me dói no estômago, fique longe da sala de jantar). Manolo Montálban, se fosses vivo, talvez amanhã no "El Pais" escrevesses as palavras que eu precisava de ler. Hoje, não me sais da cabeça (precisava de ti amanhã, mas no teu lugar vão estar os períodos infelizmente monocórdicos do Eduardo Mendoza).
Ao revolver os mortos pelo terror em Madrid, e os estilhaços do 11-M, penso em ti e na falta que me fazes, e em Fernando Assis Pacheco, que se fosse vivo estaria hoje em Madrid, exercendo a sua "profissão dominante". A nossa vida prossegue: ontem, na rua Tomás Ribeiro e em Madrid, um rapaz e uma rapariga muito feios beijaram-se desalmadamente, abrindo janelas na barragem do terror, como a mulher que estendia roupa quando começaram os ataques americanos a Bagdad.
Sim, eu sei que serão cada vez mais os que irão repetir que só ao lado de George Bush se pode combater o terrorismo e que não pode haver "hesitações" nem "mas". Aturdidos estamos.
Gostava de estar hoje em Madrid à sua beira, Assis Pacheco, a vê-lo respirar, a assistir à sua respiração. Foi consigo, quando pela primeira vez lá estive, que aprendi a amá-la, à Madrid das "calles" e "plazas", das comidas, das livrarias, dos livros de bolso vendidos no chão, da maravilhosa língua que você adorava, dos cafés, dos jazz bar. A "profissão dominante" juntou-nos lá uma vez - e, em vida, nunca lhe agradeci isso como deve ser. Nos textos de Fernando Assis Pacheco vive o seu amor por toda a Espanha - Assis foi um poeta maior, que por demasiado tempo abdicava de publicar, distribuindo poemas fotocopiados por alguns que entendia privilegiar, chegando ao jornal às oito da manhã e apanhando o autocarro para Campo de Ourique ao fim da tarde, escrevendo na sua máquina, quando já todos arranhávamos o "microsoft word", "cosas preciosas" que ficaram nos arquivos de "O Jornal". "(...) Pode morrer tudo aos poucos/na memória mas nunca Almería/ a praia de basalto e ali ao pé/uma certa fonda de esquina/onde tu e eu emborcámos/caray que óptimo Albariño/com peixe na grelha e do manchego/no pão alvo em grandes fatias/nem aqueles noites de Málaga/em que torcíamos a camisa/ e tu aproveitavas para contar/ metade da tua longa vida (Estradas do Sul, Verão de 58, A Musa Irregular). Sobre Atocha, o melhor texto seria o seu, escrito talvez em português e espanhol, línguas irmanadas.
Ana Sá Lopes, Público.
Ao revolver os mortos pelo terror em Madrid, e os estilhaços do 11-M, penso em ti e na falta que me fazes, e em Fernando Assis Pacheco, que se fosse vivo estaria hoje em Madrid, exercendo a sua "profissão dominante". A nossa vida prossegue: ontem, na rua Tomás Ribeiro e em Madrid, um rapaz e uma rapariga muito feios beijaram-se desalmadamente, abrindo janelas na barragem do terror, como a mulher que estendia roupa quando começaram os ataques americanos a Bagdad.
Sim, eu sei que serão cada vez mais os que irão repetir que só ao lado de George Bush se pode combater o terrorismo e que não pode haver "hesitações" nem "mas". Aturdidos estamos.
Gostava de estar hoje em Madrid à sua beira, Assis Pacheco, a vê-lo respirar, a assistir à sua respiração. Foi consigo, quando pela primeira vez lá estive, que aprendi a amá-la, à Madrid das "calles" e "plazas", das comidas, das livrarias, dos livros de bolso vendidos no chão, da maravilhosa língua que você adorava, dos cafés, dos jazz bar. A "profissão dominante" juntou-nos lá uma vez - e, em vida, nunca lhe agradeci isso como deve ser. Nos textos de Fernando Assis Pacheco vive o seu amor por toda a Espanha - Assis foi um poeta maior, que por demasiado tempo abdicava de publicar, distribuindo poemas fotocopiados por alguns que entendia privilegiar, chegando ao jornal às oito da manhã e apanhando o autocarro para Campo de Ourique ao fim da tarde, escrevendo na sua máquina, quando já todos arranhávamos o "microsoft word", "cosas preciosas" que ficaram nos arquivos de "O Jornal". "(...) Pode morrer tudo aos poucos/na memória mas nunca Almería/ a praia de basalto e ali ao pé/uma certa fonda de esquina/onde tu e eu emborcámos/caray que óptimo Albariño/com peixe na grelha e do manchego/no pão alvo em grandes fatias/nem aqueles noites de Málaga/em que torcíamos a camisa/ e tu aproveitavas para contar/ metade da tua longa vida (Estradas do Sul, Verão de 58, A Musa Irregular). Sobre Atocha, o melhor texto seria o seu, escrito talvez em português e espanhol, línguas irmanadas.
Ana Sá Lopes, Público.
sexta-feira, 12 de março de 2004
Eu não, mas como o compreendo
Eu Vejo o Herman SIC
Aos domingos à noite tenho sempre a mesma dúvida e acabo sempre também por tomar a mesma decisão. Dou o benefício da dúvida ao Herman SIC. Chamem-me masoquista, mas os pequenos (e cada vez mais curtos) momentos de humor vão sendo ainda razão para aguentar muitas das coisas inacreditáveis que o programa tem. Uma opção de difícil defesa até para mim, pelo grande desequilíbrio do programa e porque, no final, acabo por nunca ficar satisfeito com a escolha.
Além da incapacidade de Herman José para fazer um programa do género "talk show" de entretenimento (nas conversas que tem com os seus convidados, ou falha na abordagem, ou nos temas que escolhe, e é deselegante, inoportuno), Herman SIC está virado cada vez mais para dentro e cada vez menos para o espectador. Um exemplo: aquele cartaz com letras de músicas populares alemãs, transportado por duas moças, e que passa repetidamente pelo palco. É claro que Herman José e a sua trupe se divertem com aquilo, mas irrita-me que ignorem quem está do outro lado, retirando o papel que cabe ao espectador. Tem piada uma vez, mas já cansa. Para quem gosta do humor de Herman José, o programa é um falhanço - e nem sequer vou falar do "pseudo" episódio com Lili Caneças. O próprio Herman terá sentido a necessidade de dar espaço ao seu humor e a novas personagens que não cabem na noite de domingo e criou os Papéis ReSIClados. Mas talvez não fosse preciso se o Herman SIC não resvalasse para caminhos para lá do aceitável.
José J. Mateus, Público, Quinta-feira, 11 de Março de 2004
Aos domingos à noite tenho sempre a mesma dúvida e acabo sempre também por tomar a mesma decisão. Dou o benefício da dúvida ao Herman SIC. Chamem-me masoquista, mas os pequenos (e cada vez mais curtos) momentos de humor vão sendo ainda razão para aguentar muitas das coisas inacreditáveis que o programa tem. Uma opção de difícil defesa até para mim, pelo grande desequilíbrio do programa e porque, no final, acabo por nunca ficar satisfeito com a escolha.
Além da incapacidade de Herman José para fazer um programa do género "talk show" de entretenimento (nas conversas que tem com os seus convidados, ou falha na abordagem, ou nos temas que escolhe, e é deselegante, inoportuno), Herman SIC está virado cada vez mais para dentro e cada vez menos para o espectador. Um exemplo: aquele cartaz com letras de músicas populares alemãs, transportado por duas moças, e que passa repetidamente pelo palco. É claro que Herman José e a sua trupe se divertem com aquilo, mas irrita-me que ignorem quem está do outro lado, retirando o papel que cabe ao espectador. Tem piada uma vez, mas já cansa. Para quem gosta do humor de Herman José, o programa é um falhanço - e nem sequer vou falar do "pseudo" episódio com Lili Caneças. O próprio Herman terá sentido a necessidade de dar espaço ao seu humor e a novas personagens que não cabem na noite de domingo e criou os Papéis ReSIClados. Mas talvez não fosse preciso se o Herman SIC não resvalasse para caminhos para lá do aceitável.
José J. Mateus, Público, Quinta-feira, 11 de Março de 2004
quinta-feira, 11 de março de 2004
quarta-feira, 10 de março de 2004
Manuel Rosa
Recebi um convite para a inauguração de uma exposição de escultura de Manuel Rosa.
Manuel é o responsável editorial da Assírio & Alvim. Há muito que não nos presenteava com o seu trabalho no campo das artes plásticas. Como a escultura que dele se conhece é de muito recomendável apreciação, a expectativa é enorme.
Hoje é, portanto, dia de festa. E a festa é na galeria Lino António, Escola António Arroio, às seis horas da tarde.
Lá estarei para dar um abraço ao Manuel e para limpar a vista.
JTD
Manuel é o responsável editorial da Assírio & Alvim. Há muito que não nos presenteava com o seu trabalho no campo das artes plásticas. Como a escultura que dele se conhece é de muito recomendável apreciação, a expectativa é enorme.
Hoje é, portanto, dia de festa. E a festa é na galeria Lino António, Escola António Arroio, às seis horas da tarde.
Lá estarei para dar um abraço ao Manuel e para limpar a vista.
JTD
segunda-feira, 8 de março de 2004
Hoje é dia da mulher
NESTES ÚLTIMOS TEMPOS
Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças
Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?
Que diremos do lixo do seu luxo - de seu
Viscoso gozo da nata da vida - que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?
Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?
Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?
Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto
Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?
Sophia de Mello Breyner Andressen, Obra Poética. Caminho.
Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças
Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?
Que diremos do lixo do seu luxo - de seu
Viscoso gozo da nata da vida - que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?
Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?
Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?
Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto
Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?
Sophia de Mello Breyner Andressen, Obra Poética. Caminho.
domingo, 7 de março de 2004
Então, não há problema...
Será que este PP é o partido da misóginia colectiva?
«Para o CDS-PP, que na discussão de ontem se fez representar pelo deputado Miguel Paiva, a importância do clitóris é, conforme o próprio disse ao PÚBLICO, "algo subjectiva". O deputado reconhece que tem uma função essencial no prazer sexual mas "para além disso a sua mutilação não afecta nenhuma função vital", nomeadamente, como sublinha, "a função reprodutiva".»
Notícia do PÚBLICO
«Para o CDS-PP, que na discussão de ontem se fez representar pelo deputado Miguel Paiva, a importância do clitóris é, conforme o próprio disse ao PÚBLICO, "algo subjectiva". O deputado reconhece que tem uma função essencial no prazer sexual mas "para além disso a sua mutilação não afecta nenhuma função vital", nomeadamente, como sublinha, "a função reprodutiva".»
Notícia do PÚBLICO
sexta-feira, 5 de março de 2004
O padre aborto
Um padre de aspecto chunga, resolveu informar as crianças sobre a malvadez do aborto. Vai daí, e toca de imprimir um panfleto com literatura e imagens indescritíveis. A ignorância e a má fé da beatífica criatura chocaram quem viu o execrável documento. A Igreja parece estar com os mesmos problemas do PP - Demasiados animais raivosos à solta.
BN
BN
Tão pouco independente...
O semanário INDEPENDENTE publica hoje na primeira página as fotografias de personagens públicas mostradas aos rapazes da Casa Pia, envolvidos no processo de pedófilia. Todos os portugueses que já apareceram mais do que duas vezes nos jornais estão lá. O titulo diz: "Porquê?". Tudo isto é insinuante e de gosto bastante duvidoso. Não sei o que se diz no miolo do jornal visto não o ter comprado (Era o que faltava, a intenção era esssa). Este jornal parece atravessar uma grave crise, mas fazer tudo e mais alguma coisa para vender papel, é repugnante.
JFC
JFC
quinta-feira, 4 de março de 2004
Miguel de Castro
Outro poeta a merecer visita. Miguel de Castro é o pseudónimo literário de Jasmim Rodrigues da Silva.
Homem de grandes qualidades para além da poética, claro. Divertido contador de histórias, cultiva a amizade, o afecto das mulheres:“Esses seres admiráveis”, o gosto pelo bom vinho e pelo apaladado mastigar das iguarias culinárias. Autor do saboroso e único “Bacalhau à Jasmim”, um dos pratos que gosta de preparar para os amigos. Tribo a que tenho a sorte de pertencer. Sadinos
FELICIDADE
Subiste ao meu pescoço de repente
E, sôfrega, beijaste-me na boca.
Foi numa tarde azul... julguei-te louca!
Na rua passeava tanta gente!
Depois. do mesmo modo irreverente
Sussuráste o meu nome com voz rouca,
E de novo senti a tua boca
Deslizando, molhada, a língua quente...
Alugámos um quarto na cidade
Donde se via o mar com velas brancas,
E amei-te, devagar, o corpo nú...
Foram dias de ardente felicidade.
Tinham curvas sensuais as tuas ancas,
Era belo o relevo do teu cu!
Poema do livro OS SONETOS (Estuário, 2002)
JTD
Homem de grandes qualidades para além da poética, claro. Divertido contador de histórias, cultiva a amizade, o afecto das mulheres:“Esses seres admiráveis”, o gosto pelo bom vinho e pelo apaladado mastigar das iguarias culinárias. Autor do saboroso e único “Bacalhau à Jasmim”, um dos pratos que gosta de preparar para os amigos. Tribo a que tenho a sorte de pertencer. Sadinos
FELICIDADE
Subiste ao meu pescoço de repente
E, sôfrega, beijaste-me na boca.
Foi numa tarde azul... julguei-te louca!
Na rua passeava tanta gente!
Depois. do mesmo modo irreverente
Sussuráste o meu nome com voz rouca,
E de novo senti a tua boca
Deslizando, molhada, a língua quente...
Alugámos um quarto na cidade
Donde se via o mar com velas brancas,
E amei-te, devagar, o corpo nú...
Foram dias de ardente felicidade.
Tinham curvas sensuais as tuas ancas,
Era belo o relevo do teu cu!
Poema do livro OS SONETOS (Estuário, 2002)
JTD
Ai as pedrinhas...
Tempos atrás falámos do problema que são as pedras da calçada soltas, em Lisboa.
Foi então proposto que a CML contratasse Tino de Rans para compor os caminhos da cidade. juntáva-se a fome com a vontade de comer; Tino exercia a sua profissão, e a comunicação social cor-de-rosa a sua, cobrindo a actividade do mais mediático calceteiro. Verificamos que as pedras do chão lisboeta continuam em grande liberdade. Ontem assisti a uma projecção de um dos bloquinhos de pedra sobre uma montra. Foi na baixa. A senhora que inadvertidamente fez o remate, ficou lívida. Mas teve sorte. O vidro da montra aguentou o embate sem quebrar. Esta senhora teve sorte, mas estamos todos sujeitos a que isto nos aconteça. Senhor presidente da câmara, por favor ligue para o Tino. Olhe que o chão de Lisboa está a desfazer-se. Até mesmo os dos caminhos para Belém.
BN
terça-feira, 2 de março de 2004
Uma ferida na existência
Fernando Luis Sampaio é um poeta de grandessíssima qualidade, que só peca pela preguiça. Mas o pouco que publica é, seguramente, do melhor que por aí se vai lendo. Manuel de Freitas, no EXPRESSO, diz: "O que distingue F.L.Sampaio, para lá da prudência rara com que tem publicado, é a riqueza contida e quase asfixiante das imagens e uma equilibrada tensão expressiva que sugere, não poucas vezes, a proximidade do silêncio"
Deixo aqui um poema do seu mais recente livro.
Deixa o dia cerrar fileiras
depois do cansaço reúne
em teu redor o seu fulgor
derradeiro
Uma camisa aqui, a escova de dentes,
livros, no chão a alma
suficiente para novos lábios
desfazerem o ferido afecto.
A tua vida espalha-se como o mercúrio
solto há-de voltar a juntar-se
por virtude tua ou coragem
porque mesmo derrotado
o sonho é um abrigo iluminado pela inquietude,
uma ferida na existência.
Escadas de Incêndio, Quetzal, 2000.
JTD
Deixo aqui um poema do seu mais recente livro.
Deixa o dia cerrar fileiras
depois do cansaço reúne
em teu redor o seu fulgor
derradeiro
Uma camisa aqui, a escova de dentes,
livros, no chão a alma
suficiente para novos lábios
desfazerem o ferido afecto.
A tua vida espalha-se como o mercúrio
solto há-de voltar a juntar-se
por virtude tua ou coragem
porque mesmo derrotado
o sonho é um abrigo iluminado pela inquietude,
uma ferida na existência.
Escadas de Incêndio, Quetzal, 2000.
JTD
segunda-feira, 1 de março de 2004
Falso Retrato de Andy Warhol
não penso
transcrevo conversas telefónicas ou falo
com a noite de new york
ou não falo e gravo a voz dos outros filmo
obsessivamente a morte
ou não filmo e multiplico cadeiras eléctricas
excito-me
sou o centro do mundo dos outros e
não existo
ou é a vida que me atravessa o sexo
e finjo a morte ou cintilo
como o diamante
Al Berto, "O Medo". Contexto-1991
transcrevo conversas telefónicas ou falo
com a noite de new york
ou não falo e gravo a voz dos outros filmo
obsessivamente a morte
ou não filmo e multiplico cadeiras eléctricas
excito-me
sou o centro do mundo dos outros e
não existo
ou é a vida que me atravessa o sexo
e finjo a morte ou cintilo
como o diamante
Al Berto, "O Medo". Contexto-1991
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