domingo, 26 de abril de 2020

E depois do adeus? Adeus?


As comemorações do 25 de Abril foram, afinal, bastante concorridas. Como não houve praias, nem esplanadas, houve quem se apercebesse — se calhar pela primeira vez — que havia uma data a comemorar. Data que transformou a nossa vida em comum. O Presidente, no seu discurso oficial, foi claro, e, como a malta estava em casa, provavelmente até o ouviu.

Também nunca como ontem houve tanta gente a ouvir José Afonso. Muitos ouvem falar de um Zeca Afonso que foi "cantor político" ou "cantor de intervenção", seja lá isto o que for. As novas gerações conhecem esta obra monumental através de divulgações incipientes, muitas com má imagem, feitas por almas bem intencionadas que as colocam no youtube. À venda existem dois álbuns dos primórdios. Nas televisões, no dia comemorativo, passou de novo um espectáculo inenarrável gravado o ano passado, em que os participantes interpretam José Afonso como se de um artista de music hall se tratasse. Não sei se será exigência excessiva minha, mas sinceramente acho que aquilo não são orquestrações que se façam para uma música que foi concebida para ser o seu oposto. Foi a rejeição daquilo que motivou todos os músicos que viram em Zeca a viragem: Sérgio, Fausto, José Mário, Adriano. E perdoem-me mais uma vez o mau-feitio, mas não é de "música de intervenção" que falamos. A designação é redutora. Peço desculpa se ofendi alguém. O que estes senhores fizeram e fazem é música do mundo. Feita com autenticidade e paixão pelos territórios de origem, certo, mas com a percepção de que não estamos sozinhos. A música que estes senhores fazem, fazem-nos ter orgulho na música que se faz por cá, porque é do melhor que se faz por esse mundo fora.
Assim sendo, o que deveria ser feito agora que a poeira assentou? A resposta não pode ser outra: insistir para que esta obra maior da música portuguesa seja reeditada em cd e vinil, e colocada nas plataformas de difusão agora existentes.
Estou a par de alguns desenvolvimentos neste sentido. Sou amigo das pessoas da família que estão a tratar do assunto. E sei que isto não anda nem desanda devido a uma burocracia com solução. A solução depende muito do poder político. Vontade política. Na Assembleia da República, na anterior legislatura, foram apresentadas propostas interessantes. Não chegou, pelos vistos.
Pergunto: podemos dar-nos ao luxo de não ter acessível ao mundo a obra de um dos nossos maiores? A resposta não é difícil.

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sábado, 25 de abril de 2020

Chico Buarque

Vai colocar cravos vermelhos  na sua janela e cantar Grândola, vila morena "alto e bom som" 
Há pessoas tão grandes que têm o mundo todo dentro delas.
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O que faz falta

Pela primeira vez na minha vida assisti às comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República. Pela televisão, é claro. Prefiro a rua. O momento em que se desce a avenida da Liberdade é tempo de felicidade. 

Assisti aos discursos dos nossos representantes. O discurso do Presidente da República foi claro, mas excessivo na busca de justificações. Logo o do Presidente, que deveria deixar a caravana passar, e ignorar latidos distantes. O deputado fascista da Cofina viu ali chamas para a fogueira que insiste em acender. Repugnante. O deputado do CDS/PP chegou-se ao fascista em observações execráveis, e saiu antes de tocar o Hino. Enfim, patriotismos de caserna.
Tenho ainda a dizer que gostei dos discursos de todos os outros deputados. Distanciaram-se quanto baste da insistida polémica e foram objectivos na interpretação da nova realidade.
Enfim, esperemos que a crise passe e para o ano lá estaremos na Avenida da Liberdade a comemorar o fim do fascismo e o exercício da democracia. Ah, é verdade, e a lutar contra o fascista sem vergonha que se senta agora no parlamento, assim como contra os que o apoiam sem hesitações. São rascas, mas perigosos. Como escreveu José Afonso: O que faz falta é avisar a malta.
25 de Abril sempre!

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Liberdade

A presença das formigas
José Afonso
A presença das formigas
Nesta oficina caseira
A regra de três composta
Às tantas da madrugada

Maria que eu tanto prezo
E por modéstia me ama
A longa noite de insónia
Às voltas na mesma cama
Liberdade
Liberdade

Quem disse que era mentira
Quero-te mais do que à morte
Quero-te mais do que à vida

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Fotografar a imaginação

Fotografar não é fácil. Com as tecnologias ao alcance de todos a coisa piorou. Hoje toda a gente acha que faz uma fotografia brilhante. E faz, para guardar no computador e mostrar aos amigos. 

Mas a fotografia que nos faz meditar e olhar para outros horizontes não cabe neste cartão de memória. Fotografar é mostrar outras coisas. É olhar, e, como naquele momento que Cartier-Bresson definiu como decisivo, perceber o que ali se passou. A fotografia conta histórias. Podem ser reportadas da realidade, ou podem ser encenadas, mas é sempre a arte que regista aquele momento irrepetivel.
Pratico com a fotografia uma relação de grande amor. Às vezes imagino-me uma daquelas personagens de Pirandello que acordam com outra personalidade e actividade em outro lugar qualquer. Gostava de acordar arquitecto em outro sítio e fotografar a arquitectura que muda vidas e comportamentos. Enfim, pancadas.
Profissionalmente, como designer ou art director, já tive a sorte de trabalhar com grandes fotógrafos. Convoco dois deles, os mais próximos, depois de incontáveis trabalhos — exposições, folhetos, cartazes, livros. Dois fotógrafos muito diferentes na procura do alvo, mas ambos rigorosos na exigência: Maurício Abreu e João Francisco Vilhena. O João Francisco já esteve na galeria da Casa Da Cultura | Setúbal, com uma exposição de retratos, em ambiente de grande proximidade com os fotografados. O Maurício vai expôr em breve. Apesar de a fotografia se poder perceber online, uma exposição de originais desenhada com o fotógrafo é sempre outra coisa. Outros fotógrafos vão aparecer por cá. Vamos estar atentos aos roubos de almas.
Estas fotografias são deles. A primeira do Maurício, recolhida em terras que o encantam, e a segunda é do João Francisco, no seu convívio com Saramago em Lanzarote. Também aqui coloco alguns livros que fizemos juntos. Há mais, mas estes estão-me mais próximos. Muito próximos. Fazem parte de mim.
Obrigado, Maurício e João. Temos que combinar sair, quando sairmos disto.

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Imbecis no topo do mundo


Bolsonaro, confrontado pelos jornalistas com o número de mortes no Brasil, responde sem hesitações que não é coveiro. Explicado.

Trump, o iluminado salvador do mundo e de todos os seus males, sugere a injecção de desinfectante e a exposição ao sol como maneira de resolver o caos. Médicos e cientistas ficam incrédulos perante tanta ignorância e falta de vergonha em exibi-la. Mas os eleitores continuam estupefactos perante tanta sabedoria. É a cultura dos imbecis a dominar o mundo.
Fonte Expresso
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Corrupção política e metáforas literárias

Não sei se a metáfora dos ratos que abandonam o navio serve para definir este rato de esgoto. 

O musaranho que lá fica, apesar de ser humanamente inconsciente e mentalmente atrasado, quer ser ditador. Candidatou-se elogiando a ditadura. Quem votou nele sabia disso, apesar de não saber o que é uma ditadura. Este espécime asqueroso serviu para lançar e entronar o atrasado mental. Os eleitores foram enganados pela sua própria ignorância. Outra possibilidade de metáfora: voltou-se o feitiço contra o feiticeiro.
Força Brasil. É correr com estes analfabetos ruins.
Fonte The intercept brasil
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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Livros, livros e mais livros

Hoje comemora-se o livro. O livro como objecto de desejo, companhia e vontade de saber coisas. 
Pela parte que me toca o desejo de possuir um livro é revelado pelo chamamento da capa. Faço capas para livros há muitos anos. Não me lembro de ter feito capas para maus livros. E espero que os autores não tenham ficado desagradados com o meu trabalho. Confesso que já me vi tentado a comprar um livro seduzido pela capa. Também me acontece nos discos de música — A ECM é irresistível. Este estado mental dissipa-se com a entrada em cena da spotify, mas eu mantenho a nostalgia, e às vezes ainda tenho recaídas. Confesso: sou consumidor, ainda frequento as estantes. Voltemos aos livros. Também consumo, e não encontrei alternativa nos suportes ditos muito inteligentes ligados por fios ou por wireless. Mantenho a ligação profissional: concepção de layout, capa, edição e divulgação. A minha vida nesta vida começou com o convite de António Mega Ferreira para vestir livros do Circulo de Leitores. Depois a moda estendeu-se a outras editoras. E a vida continua.
Neste dia mundial do livro é da gente do livro que me lembro. Escritores, editores, revisores, designers, agentes literários, impressores, promotores, livreiros, leitores. Tenho muitos amigos em todas estas actividades. Bons amigos. Os melhores. E tenho saudades do convívio directo com a malta da Snob, da abysmo, da Culsete — editores e livreiros que insistem na independência e na qualidade e surpresa da inovação — e da Casa Da Cultura | Setúbal, e de todos os leitores e animadores culturais que me animam os dias.
Resolvi colocar aqui na montra algumas capas que fiz para livros que gostei muito de ler. Reli agora passagens. Os dois primeiros exemplares aqui retratados esclareceram-me dúvidas neste tempo de bem-estar duvidoso. Os outros reli para esclarecer recordações. Adorei reviver momentos que me fizeram, em outro tempo, avivar sentimentos e atitudes. E não é para isto que vamos às livrarias e temos bibliotecas pessoais?
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terça-feira, 21 de abril de 2020

Brincar com coisas sérias

Isto acaba por ter a sua graça. O director do Observador também já escreveu ao governo a pedir uma esmolinha. Agora é este recalcitrante empreendedor neoliberal da Cofina que vem reivindicar apoio de todos nós.

Faz sentido. Eles que passam a vida a denunciar apoios a escritores e artistas inúteis que só escrevem e representam coisas que o povo não percebe. Assim sim. o Estado só deve apoiar o que dá lucro. Nada de pedantices para satisfação de meia dúzia de intelectuais. A comunicação deve ser feita como o povo gosta. Mesmo que para isso se tenha que polvilhar a notícia ou a investigação de generosas fantasias. O povo gosta tanto de ver os intelectuais em sofrimento. A Arte e a razoabilidade que se lixem. Viva a estupidez. Viva o lixo televisivo.
Fonte Esquerda net
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Notícias do confinamento

Cavaco não vai? Que pena! 

A vontade já não era muita. O confinamento é desculpa. Mas é melhor assim. Faz lá uma falta...
Fonte Expresso
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domingo, 19 de abril de 2020

Celebrar a coragem

O 25 de Abril comemora-se sempre. Foi a partir desta data que nos foi permitido viver em liberdade. Logo, esta comemoração faz-se todos os dias, quando um homem quiser. 

Mas não é como o Natal. O Natal não se celebra no parlamento. Assim como a Páscoa, ao contrário do que pensa o deputado do CDS/PP João Almeida, que se viu muito incomodado por a Páscoa não ter sido comemorada e o 25 de Abril sim. Quem lhe terá posto na cabeça que as coisas funcionam assim? E logo a ele, que é deputado. Um tonto ridículo, mas deputado. O seu líder veio igualmente manifestar-se contra festejos no parlamento. E, claro, o deputado fascista da Cofina também: o alarve não perde uma oportunidade para desrespeitar o sistema, como ele diz. Enfim, tenta baralhar-se tudo, como de costume. Confunde-se confinamento da população com ritualização parlamentar. Os deputados não estão a trabalhar? Com regras, facto, mas vão lá e é assim que tem de ser. O sistema democrático não se suspende. Nunca. Os eleitos podem perfeitamente representar-nos no parlamento neste ritual de celebração da democracia. Democracia que permitiu aos Almeidas, Chicões e Venturas da triste vida manifestarem-se contra tudo o que faz lembrar Abril.
Dito isto: acontece que nunca assisti a comemorações institucionais pela televisão, e nunca fui à Assembleia da República celebrar coisa nenhuma. Comemoro o 25 de Abril todos os dias — praticando a liberdade que me foi conferida a partir dessa data — e, no dia propriamente dito, na rua. Gosto de estar com a minha gente contra essa gentinha que prefere sempre celebrações de fantasias. Na casa onde se exerce a democracia a um nível institucional, a coerência de se manter viva uma data que permitiu esta existência é saudável para o sistema.
O meu 25 de Abril este ano vai ser em casa, mas não vou estar sozinho. Vamos estar uns com os outros. Vamos recordar e celebrar um dia que nos mudou a vida. Para melhor. Para uma vida decente vivida sem refúgios perante a ameaça fascista. A frase de José Afonso que apliquei neste cartaz define a acção dos que lutaram — alguns morreram — pela defesa da liberdade. Bocage também defendeu a "Liberdade querida e suspirada que o despotismo acérrimo condena". Estou com Zeca e Bocage. Prefiro os melhores.

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sábado, 18 de abril de 2020

Receituário

Mais uma apreciação de PARÍCUTIN, de Gonçalo Duarte. Desta vez na edição deste sábado do Expresso, e pelo teclado de Sara Figueiredo Costa. O texto está reproduzido aqui de carreirinha:

Parícutin é nome de vila mexicana e é com a erupção inesperada de um vulcão na sua região agrícola que abre o livro de estreia de Gonçalo Duarte, depois de várias histórias curtas publicadas em volumes coletivos. Essa sequência inicial de oito pranchas coloca em cena Dionísio Pulido, agricultor surpreendido nos milheirais por um forte cheio a enxofre, depois pelo surgimento de fumo, em seguida pela constatação de que há um vulcão a erguer-se das entranhas da terra. A história é verídica, mas não é o registo de factos que ocupa a narrativa deste livro. Desaparece Pulido e entra em cena uma outra figura, aparentemente dominada por um eco de si mesma e entretanto ocupada com a construção de uma casa. A relação não é unívoca e esta mudança de cenário e personagens começa por parecer um corte profundo na solidez da narrativa, até se perceber que a linha que atravessa este livro não é a da sequência de acontecimentos, mas antes a desregrada sucessão de pensamentos livres que marca parte considerável da nossa atividade cerebral. Gonçalo Duarte cria uma acutilante corrente de consciência visual e narrativa que coloca no movimento de deambulação do pensamento o eixo dos acontecimentos, por vezes aproximando-se de um registo onírico, outras vezes de um delicado delírio em vigília com visitas abruptas ao inconsciente. Há outras personagens em cena, mas como Dionísio Pulido, não é tanto no cenário de uma história que a sua presença se regista, e sim no inferno pessoal que se vai desdobrando no pensamento cuja atividade se regista. Os diferentes estilos visuais, a alternância entre diálogo e solilóquio, os contrastes na composição das pranchas e na relação entre texto e imagem acentuam esse tom de divagação, mas a polifonia não deixa perder o fio que se estende desde os fumos do vulcão mexicano até às erupções emocionais de cada dia. Como uma descida aos infernos, sem outra viagem que não a das sinapses. / SARA FIGUEIREDO COSTA
PARÍCUTIN
Gonçalo Duarte
Chili Com Carne, 2020, 80 págs., €10
Banda desenhada

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Filipe Duarte | Homenagem

Geringonças há muitas, seus palermas

A pandemia ditou novos patamares de convivência política. Presidência e Governo falam a uma só voz. 

No parlamento, a distância entre esquerda e direita ficou mais reduzida no sentido de se resolver esta crise medonha; exceptuando a insistência troglodita do deputado fascista da Cofina. Ontem, o energúmeno esbracejava um toque de violino enquanto o deputado Pedro Delgado Alves falava. Gestos aplicáveis à discussão dos futebóis a que o alarve se habituou. Mas foi bem arrumado no seu lugar pelo deputado Delgado. Enfim, as entidades políticas e os seus representantes vão-se ajeitando conforme as circunstâncias. A política é isto mesmo. E é saudável que assim seja. Chamaram um dia a este tipo de acordos "geringonça". Em tom depreciativo, é claro. Acontece que passamos a nossa vida de todos os dias neste bricolage. Funcionar na política é bom. A perfeição não existe. E quem acha que sim, que existe, é quem quer o leme para correções totalitárias. Os intolerantes é que aplicam a intolerância.
Que venham as geringonças, desde que não sejam mal engerocadas.

Fonte DN
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quinta-feira, 16 de abril de 2020

quarta-feira, 15 de abril de 2020

RUBEM FONSECA | HOMENAGEM.
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O HOMEM SEM QUALIDADES | O mundo acordou incrédulo e preocupado aquando da eleição deste energúmeno como presidente dos Estados Unidos da América. O mundo não queria acreditar que um louco varrido egocêntrico podia chegar a presidente dos Estados Unidos da América. A Casa Branca parece ter virado manicómio. O mundo habitou-se aos dislates e disparates do cretino. Agora, o cretino vai retirar o apoio proporcional que o país que gere — como se de uma empresa se tratasse, e de que é um mau patrão — atribui à Organização Mundial de Saúde. Em tempo de pouca saúde para a população mundial, o presidente dos Estados Unidos da América só pensa em fazer política rasca junto do seu eleitorado. Tenta a todo o custo, e como se o ridículo não existisse, culpar a Organização Mundial de Saúde de todas as culpas que ele próprio carrega. O homem habituou-se, nas suas empresas, a tratar mal toda a gente. Adorava despedir e humilhar. Agora, que chegou onde chegou, trata mal a humanidade inteira. Os meios diplomáticos internacionais consideram esta decisão um crime contra a humanidade. Então, se assim é, os oficiais de diligências do Tribunal de Haia que rumem à Casa Branca. Ou é preciso chamar os enfermeiros?
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DO DELÍRIO | Bolsonaro apela à normalidade perante a anormalidade. Apoiantes seus manifestam-se contra quem sugere a sensatez. Familiares de doentes mortos com COVID 19 atacam médicos, culpando-os de incompetência. O presidente tem sempre razão. Ele está com Deus e os profissionais de saúde ainda não perceberam. Cada morto é uma vítima da incredulidade da ciência.
Mais acima, em outro território mal governado, Trump acusa de mentir quem o confronta com as suas mentiras. Isto parece andar tudo ao contrário. Esta pandemia apanhou mentecaptos a dirigir populações imensas. Gente que os segue como se de deuses se tratassem. Líderes iletrados e egocêntricos garantem o céu a populações que os ouvem sem interrogações, arriscando a própria vida. O vírus da estupidez alastra. A confusão impera. O mundo é um local perigoso. Muito perigoso.

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terça-feira, 14 de abril de 2020

CRIMINOSOS DOMÉSTICOS | Parece que acontece todos os dias a toda a hora. No ano passado foi o que foi. Este ano, com este convívio forçado, as coisas só podem estar a piorar. O confinamento permite que o outro esteja ali à mão de semear. Põe-se a jeito. Passa a ser um objecto da casa: ora de desejo, ora indesejado. As leis existentes já permitem o castigo destes criminosos domésticos. Mas o mal vem muito lá de trás. São muitos anos de cultura discriminatória: pópós e pistolas para os meninos; tachinhos e vestidinhos para as meninas. Cor de rosa para as meninas; azul para os meninos, e assim sucessivamente. Crescem e levam os pópós para a cozinha, cilindrando tudo o que lhes aparece pela frente, e rasgam os vestidinhos que já não podem nem ver. Forram-se de azul que é para serem mais homens. São homens de barba e pila rijas. Os maiores. Aqui quem manda sou eu. Quem não obedece leva. A pequena história do confinamento vai-nos trazer surpresas. Ou talvez não. A selvajaria é diária. Consequente. Crime a mais, crime a menos? Hediondo, sempre.
Fonte Expresso
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segunda-feira, 13 de abril de 2020

SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO | O nosso futuro foi adiado. Indeterminadamente. As férias de verão já foram. O natal em família poderá não ser como as famílias querem. Enquanto não houver vacina não há refrescos ao ar livre, nem convívios à lareira. Entretanto temos que suportar as medidas que nos protegem tolhendo os movimentos. E esse é também um outro problema. Já há revoltas. Os "arautos da liberdade e da justiça" já andam numa roda viva. Os comunicadores da Cofina mentem e não desmentem. Têm agora um deputado que lhes dá a maior segurança. Um fascista repugnante que não se importa de fazer figuras tristes. Autarcas em busca de protagonismo parolo saltam para os écrans em pose de heróis denunciadores e reivindicativos. As Felgueiras, os Júdices, os perguntadores da RTP e os idiotas inúteis que povoam as redes sociais andam num desalinho. Nas conferências de imprensa pergunta-se se chove sobre o molhado. Ignoram-se respostas e volta-se a perguntar o anteriormente perguntado. É uma festa que os comunicadores de vão-de-escada não dispensam.
Convoquei Shakespeare para o título deste badalar porque defendo que é na literatura que encontramos a melhor maneira de olhar para isto. Temos essa vantagem. O fascista da Cofina e os comentadores manhosos desprezam o conhecimento que os denuncia. Vamos ter de denunciar muita coisa. Esta gente é perigosa e não se preocupa com o nosso futuro. Preferem o passado e um futuro manhoso para eles próprios. Sim, eles não se importam com sofisticações artísticas e literárias. São toscos e malcriados. Só lhes interessa a criação de riqueza financeira. A deles, é claro. Num futuro próximo veremos o que vai mudar. Depende de nós. Não de todos, mas dos que temos saudades do futuro. Vamos lá a ver se tudo isto não passou de um pesadelo.
Fonte Expresso
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domingo, 12 de abril de 2020


DOMINGO | Um conto de Henrique Rui, contado em desenhos pelo André Ruivo. Henrique Ruivo sabia inventar histórias. Na galeria da Casa Da Cultura | Setúbal, estão penduradas algumas. Lá voltaremos, logo que o sinal desta peste passe. Bom domingo.
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sábado, 11 de abril de 2020

POLÍCIA INTERNACIONAL DE DEFESA DO ESTADO | O título é intencionalmente provocatório. Refiro-me ao SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) e a comparação com a polícia do regime salazarista não é inocente. Claro que a PIDE torturava e matava mais. Vivíamos em ditadura. "Cá fora" não se sabia o que se passava "lá dentro". Só se perceberam os crimes depois da revolução, em democracia. Os relatos são arrepiantes. 

O SEF é um organismo que "nos protege" dos estrangeiros malfeitores. Aqui começam as semelhanças com a polícia do político criminoso Salazar. O outro é sempre alguém que não está aqui para se portar bem. O estrangeiro é sempre um intruso. É preciso haver a certeza absoluta de que um intruso não vai ser um problema. Ora, se é tratado à partida como intruso o problema é evidente. Parte-se logo do principio de que o meliante vai roubar ou até matar sem dó nem piedade, e, nem que seja com uns sopapos valentes, vamos ter de perceber quem é o potencial criminoso que ali está.  

O recente problema sanitário anulou todas as outras notícias. O assunto de um cidadão ucraniano assassinado nas instalações do SEF por agentes desta polícia passou pelos alinhamentos noticiosos como cão por vinha vindimada. Pelo que sai cá para fora, ficamos a perceber que o homem vinha tentar trabalhar. Só isso. Nunca o senhor imaginou que estava num país onde ainda se mata quem se imagina ser diferente. Deixou familiares em sofrimento na sua terra. O ministro da Administração Interna condenou o crime. A actuação de uma instituição policial de um país põe em causa o próprio Estado. Há vida para lá da pandemia. Todos os outros atropelos à cidadania não podem ser arredados. Os contornos do crime têm de ser apurados e os seus executores julgados. Provavelmente teremos o deputado fascista da Cofina em defesa dos agentes criminosos. A polícia tem de ser assim. Tem de nos proteger a nós contra os "outros". O circo populista instalado na feira do egocentrismo já tem voz no parlamento e aproveita todos os palcos para mentir e baralhar. 

Falo nisto porque acabei de ler o Duelo — Contenda: podemos confiar no SEF? —, no Expresso, entre Mamadou Ba e um dirigente de um sindicato que representa os inspectores do SEF. O sindicalista inicia o seu texto com esta pérola: "Não fosse a gravidade do que se passou no aeroporto de Lisboa — um cidadão ucraniano morreu nas instalações do SEF, tendo a autópsia concluí­do que a causa da morte foram agressões —, e eu responderia que esta pergunta é ofensiva".
É preciso ter uma grande lata. É preciso não ter a mínima noção de como utilizar as palavras. Claro que Mamadou está na coluna do Não. E termina o seu texto assim: "A obsolescência do SEF decorre desta exigência ética de rutura com a visão do migrante como ameaça a vigiar em permanência, como se de um potencial criminoso se tratasse".
Pois, é isso mesmo.
Imagem: agendas SOS Racismo para o ano de 2020. Concebidas e produzidas pela DDLX. Ilustração de João de Azevedo, incluídas na série que desenvolveu e a que deu o título: Refugiados e agressão policial. 
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sexta-feira, 10 de abril de 2020

AINDA HÁ BOAS NOTÍCIAS | Andava aqui que nem vos conto. Assim fiquei muito mais descansado. Vá, altezas realezas: ide vestir uma farpela decente para assistirdes à telemissa. Não saiam do Paço, não vá o diabo do vírus apanhar-vos na curva. Saúde e bichas.
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quinta-feira, 9 de abril de 2020

A QUEDA | O título é de Camus. A Queda de Camus é um livro. Um livro fora do comum. Genial. Mas a queda de que se fala agora prende-se com as actividades de muitos de nós. Os artistas dos palcos e de todas as áreas performativas estão de rastos. A actividade parou por completo. Os esforços online não adiantam nada à sobrevivência de gente que trabalhou no duro e com entusiasmo para nosso desfrute. Mas hoje venho aqui falar de outro sector. Tenho entre os meus melhores amigos editores, livreiros, escritores, tradutores, impressores e gente de muitos outros ofícios ligados aos livros. As livrarias estão fechadas. As livrarias são as montras desta actividade que, já mesmo muito antes da incursão deste vírus que lhes é alheio, não andavam lá muito bem. Com este maldito atropelo a coisa foi de mal a pior. Um desastre. A FNAC pôs-se a milhas do assunto. A venda online parece estar reservada às multinacionais. A Amazon continua a encher os bolsos do homem mais rico do mundo. Pois é: quem se lixa são as livrarias independentes que corajosamente investem em ser lugares com livreiros lá dentro. Gente que tem este negócio porque gosta de ter livros em volta e de envolver-se neles. Apresentá-los às pessoas. Está tudo nos livros. Está tudo na literatura. Até este vírus manhoso que nos devora a vida. São os livros que vão contar esta história no futuro. Não são as tretas que muitos põem a circular nas chamadas redes sociais que às vezes de sociais nada têm.
É nestes meus amigos que penso neste momento. Incluo-me na cena, já que parte substancial da minha actividade anda por estes trilhos. Já todos percebemos que o que aí vem não é lá muito bem vindo. Os apoios do Estado não serão solução para tudo e a reabertura não vai ser fácil. Voltaremos à vida, é certo. Mas não vai ser fácil. Temos pela frente vários combates. Temos que exigir políticas de apoio ao sector promovendo a leitura como maneira basilar de educação e cultura. Temos que combater a extrema-direita agora representada no parlamento pelo fascista da Cofina. A extrema-direita que só pensa em prender, censurar e deseducar, mentido descaradamente, e apelando aos instintos básicos dos incautos. É o conhecimento que combate a ignorância. A cultura terá de estar na primeira linha pela defesa do sistema democrático. Já aqui o disse em data anterior mas repito: Em 46 anos de democracia fez-se mais pelo bem estar das populações do que nos restantes 881 anos de história.
Voltaremos à vida. À nossa vida. Voltaremos a encontrar-nos em muitos Muito cá de casa, na Casa Da Cultura | Setúbal, para falarmos de livros e do nosso futuro. Voltaremos a ter por lá os livros que a Snob, a abysmo e a Culsete nos colocam à disposição. Vamos voltar a estar juntos em livrarias, encontros literários, lançamentos, comemorações, performances várias, enfim, vamos estar aí, mas vamos mesmo ter que trabalhar mais ainda.
A ignorância e a estupidez não nos vencerão.
Fonte Público/ípsilon
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quarta-feira, 8 de abril de 2020

FILOSOFIA A PÉS JUNTOS A FILOSOFIA EM CONVÍVIO 

O ponto é percebermos onde se cruza a filosofia clássica com o pensamento nos dias de hoje. A contemporaneidade chamada à pedra pelas ideias antigas. Percebermos que isto anda tudo ligado e que o que está a acontecer hoje não é nada nunca visto. António de Castro Caeiro — Professor de filosofia e tradutor de poesia clássica grega — assegura a pés juntos que tudo se repete. O ser humano não tem assim tanta imaginação.

Estas conversas tornam-se um instrumento útil para a compreensão do presente, ajudando-nos a perceber e a combater o susto lançado por Nelson Rodrigues no século passado: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.

FILOSOFIA A PÉS JUNTOS cresceu na curiosidade das pessoas. O que constou fez o seu caminho. Hoje estas “aulas” de António de Castro Caeiro são participadas por um público esclarecido e "perguntador". Pretendemos polvilhar de seriedade intelectual tudo o que aqui se propõe.

Esta iniciativa tem a colaboração permanente de João Paulo Cotrim, que estimula os diálogos e alonga a conversa. Uma das sessões contou com o poeta José Anjos, que associou a filosofia a outras preocupações.

As próximas sessões ao vivo serão anunciadas logo que possível. Enquanto isso não acontece podemos ver as emissões do programa de António de Castro Caeiro gravado para a RTP, no sítio da Casa da Cultura.
Até breve.
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terça-feira, 7 de abril de 2020

EM VOZ ALTA | A Grande Poesia Portuguesa pelos Artistas Unidos


É um projecto de Jorge Silva Melo, director dos Artistas Unidos. 
Poesia dita com o cunho de cada actor que a interpreta. Cada um destes EM VOZ ALTA é uma representação que ombreia com o bom teatro, com a melhor literatura, com a perfeita defesa da dignidade dos autores ditos.
E que autores já por cá passaram: Alberto de Lacerda, Gomes leal, Luiz de Camões, Carlos de Oliveira, Manuel Gusmão, Manuel da Fonseca, Alexandre O'Neill, José Afonso, Bocage, José Régio, Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira.
A poesia reunida de David Mourão-Ferreira, lançada na Gulbenkian, no dia 16 de dezembro do ano passado, foi apresentada aqui no dia 28 de novembro. Antecipação de leituras em sala a abarrotar.
Para além da excelência das apresentações na Sala José Afonso, houve uma das sessões que aconteceu na Casa d’Avenida. Estava por lá pendurada uma exposição que concebi para assinalar os noventa anos de José Afonso, logo fazia sentido fazermos lá o recital. Vieram para a leitura Lia Gama, Nuno Gonçalo Rodrigues e Luís Meireles. Lia Gama Foi amiga de Zeca. Mas a emoção não fez estremecer a leitura. Emoção pessoal contida em momento de emoção generalizada.
Para estas leituras, Jorge Silva Melo convoca uma equipa de luxo: Maria João Luís, Lia Gama, Luís Lucas, Nuno Gonçalo Rodrigues, Luís Meireles, Manuel Wiborg, Catarina Wallenstein, para além dele próprio.
Agora, nestes tempos de retenção caseira, os Artistas Unidos gravaram em casa novos poemas de novos poetas. Estão à nossa disposição no site da Casa da Cultura: http://www.casadacultura-setubal.pt/
Até breve.
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RECEITUÁRIO | O meu amigo Simao Palmeirim veio à Casa Da Cultura | Setúbal sem sair de casa. É assim que se resolvem as coisas, quando as coisas não vão bem. Mas os dias vão melhorar, e ouvir o Simão faz bem.
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