sábado, 5 de setembro de 2026

Vale tudo

Todos percebemos que o assalto ao gabinete foi uma encenação. Também sabemos o que aquela gente quer com a moção de censura, por causa de um ministro que não está para reconhecer as razões dos fascistas, independentemente da fragilidade política que o sustenta com evidente dificuldade. Percebemos que o líder fascista é capaz de tudo, como acontece com qualquer líder fascista. 

A propaganda é a prioridade. A transmissão da mentira é útil às suas sinistras intenções. Os gigantescos cartazes espalhados por todo o país não desmentem esta ideia: falem de nós, nem que para isso se invente o que for preciso. Os jornais e os jornalistas, com certeza instruídos pelos donos das empresas de comunicação, dão palco às criaturas de Ventura. O próprio Ventura é chamado a dizer coisas a toda a hora. As criaturas confirmam as mentiras e os dislates do chefe supremo, que se autonomeia um enviado pelo divino. Palco não lhes falta. Fazem a agenda e defendem-na com garra, nem que a voz lhes doa. Chegam a desmentir-se no mesmo debate. Envergonham-se disso? Nunca. A falta de vergonha na cara é a imagem destes cretinos.

Mas estão contentes com esse espetáculo mediático? Nem pensar. Querem tudo. Querem que seja divulgado unicamente o que inventam. Saudades do lápis azul. Bons salazaristas. O inenarrável deputado/veterinário privado de Ventura não gosta de jornalistas. Os da Lusa são nojentos, diz. E adianta que vai fechar a agência logo que o seu partido chegue ao poder. Percebemos que os fascistas pretendem elaborar a comunicação que querem que seja ouvida, lida e falada. Os jornalistas são um empecilho aos seus intentos. Nada de novo existe na ameaça. Sempre pensaram assim, os fascistas.

Imagem: cartoon de Nuno Saraiva - Inimigo Público 

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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A sofisticação da morte

O governo de Benjamin Netanyahu continua a fazer sofrer uma população inteira — um povo que se vê expulso do seu território, sem qualquer respeito pelas regras estabelecidas internacionalmente. Uns seres sem classificação foram de Portugal apoiar o genocídio que dizem não existir. Chamar-lhes seres humanos não condiz com qualquer classificação razoável. Não são classificáveis; envergonham-nos.

A morte sai à rua todos os dias. As pessoas em Gaza são assassinadas sem qualquer hesitação. E não é com "falinhas mansas" que tudo acontece: é com material bélico. Pessoas tornam-se alvos a abater. As crianças são alvos porque é o futuro daquele povo que querem apagar do mapa. A existência de um povo anula-se assim: à bomba e ao tiro. Em pleno século XXI, são usadas armas de destruição cada vez mais sofisticadas. Estes poderes autoritários só pensam na sofisticação do mal e na aplicação da violência. A morte fica-lhes a matar.

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Gloria Steinem



Texto de Helena Vasconcelos no facebook: Durou séculos, durou milénios. Impingiram-nos a ideia de que era muito melhor ser "feminina" do que ser” feminista”. As mulheres deviam ser belas e amáveis, os homens podiam ser horrendos, fisicamente, mas não importava porque tinham “ideias”. Quando as feministas começaram a falar alto, as “ideias” não importavam e propagandeavam como eram feias, bigodudas, malcriadas e sem atrativos ( para os homens). Nunca fui na conversa e quando “descobri” Gloria Steinem – que morreu ontem, com 92 anos (1934-2026) – percebi tudo. Gloria era linda, sexy, destemida, feminista sem complexos nem temores. Quando apareceu ( nos anos 1960) como “coelhinha”, na Playboy – o suprassumo da objetivação da mulher – o escândalo não podia ter sido maior. Para as feministas tratou-se de uma traição – Gloria era jornalista e “infiltrou-se “para escrever sobre esse tema – para os outros só demonstrava que ela “era como as outras” – um belo corpo, uma mulher belíssima cujas ideias não eram para levar a sério.

Mas Gloria Steinem impôs-se: jornalista de rigor inatacável, escritora, defensora dos Direitos Humanos, fez campanhas sem fim contra a mutilação genital feminina, contra a Guerra do Vietname e a do Golfo e apoiou sem reservas causas como Black Lives Matter, a reunificação das Coreias, os direitos reprodutivos das mulheres e dos direitos LGBTQ. Uma guerreira, sempre bela, sempre inspiradora.
Mais “uma das minhas” que parte.
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O crime compensa?

Com tanta falsidade a circular por aí, já não basta procurar a verdade: é preciso uma candeia, uma bússola e muita paciência. É que a mentira espalha-se com uma facilidade quase inacreditável, quando encontra quem a queira vender como verdade — e quem esteja disposto a comprá-la sem pedir comprovativo.

Tempos estranhos. Tudo parece mentira. Desconfiamos de tudo. Tememos sempre o pior. E o mais inquietante é que, demasiadas vezes, descobrimos que o pior não era uma previsão pessimista. Era simplesmente a mentira a mostrar todo o seu esplendor.

Será em novembro que os americanos vão finalmente perceber o lamaçal em que Trump os meteu? O homem delibera assistido por uma insensatez aparentemente infantil. Os exercícios de egocentrismo imbecil são de divulgação diária. A credibilidade da América é destruída à velocidade de cada discurso do biltre. Reconstruí-la vai dar trabalho. Muito trabalho. A América decente terá de se esforçar durante anos para limpar o estrago causado ao mundo neste período em que o crime deixou de ser crime para passar a ser apresentado como virtude; a mentira, como estratégia; e o autoritarismo, como dádiva divina. É uma extraordinária inversão de valores: quem mente é um visionário, quem ameaça é um líder, quem trapaceia é um vencedor e quem acredita na trapaça é um vulgar imbecil que se julga vencedor também.

Aguardemos, portanto, que Trump vá pregar para longe e chame para a viagem o Ventura dos chiliques e dos amoques — dava jeito à decência e razoabilidade aqui do jardim —, mais todos os fascistas de serviço pelo mundo. Já fedem. À naftalina das ideias juntam o cheiro do crude e do lixo que espalham sem reciclar. Gente assim, tão mal-cheirosa, pode ir para bem longe. Para Marte, talvez. Musk já ligou os motores dos foguetões?

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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Tão fofinhos, os fascistas


FASCISTAS CENSURAM GOVERNO | Moção é uma loção. E os fascistas, pelos vistos, querem mesmo é limpar a pele para poderem posar, impecavelmente indignados, nos vídeos das redes sociais.

Passam a vida à procura de cosméticos: uma moção aqui, uma espuma ali, qualquer coisa que produza bolha suficiente para alimentar o circo diário nas televisões e nas ditas redes sociais.

No partido com nome de detergente ainda não perceberam que não há loção suficientemente eficaz para limpar a pele dos grunhos — muito menos para lhes lavar as ideias.

Continuem a esfregar. Talvez um dia consigam remover a sujidade. As ideias, essas, parecem ser mais difíceis de encontrar. Logo, também mais difíceis de limpar.

Voltem para os buracos onde vegetavam. Deixem as pessoas viver.

Cretinos.
Imagem: cartoon de Nuno Saraiva - Inimigo Público

Homenagem

CASSANDRA WILSON | 1955 - 2026

Fotografia: Mark Seliger. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Deambulatório

https://www.facebook.com/reel/1091200273415126 

MOVIMENTO DE HOMENS QUE APOIAM O MOVIMENTO DAS MULHERES CONSERVADORAS | Desculpem qualquer coisinha. Disse aqui que não me ia «meter» com Setúbal nunca mais. Mas há performances que não permitem o recato. Estou de volta, mas saio já. Descansem. É só para dizer umas coisas.

 
O cançonetista sexista, apologista da exaustão sexual nas suas canções, declara aqui aquilo que entende ser uma mulher «às direitas». Há nisto uma certa coerência: cada um define o mundo à medida daquilo que consegue imaginar. De facto, Setúbal foi «decorada» — leia-se: destruída patrimonialmente — por uma senhora. Apalhaçaram-se edifícios públicos, criaram-se esculturas ridículas e a cidade foi sendo «decorada» ao nível do cortinado e do reposteiro. A senhora foi-se embora, mas está «de volta», como o próprio nome do movimento que venceu as eleições ameaçou.
 
O Mercado do Livramento sofreu recentemente nova ornamentação. E a forma verbal é aqui muito bem aplicada. Resultado: hediondo. Ridículo.
«Ah, mas as pessoas gostam.»
Tudo bem. Tenho, no entanto, uma ideia que desmente outra, muito antiga: os gostos discutem-se. As pessoas que se habituem a perguntar, a discutir os assuntos e, sobretudo, a perceber que o gosto também se educa. Que se habituem a respeitar o património e a compreender que uma cidade não é uma sala de estar onde se muda o cortinado ao sabor da moda ou do gosto de autarcas pouco esclarecidos esteticamente. Ou com o esclarecimento "de senhora conservadora", como quer o arauto da peça.
 
E há as outras pessoas: as que não gostam e sabem por que não gostam; as que possuem uma relação com a cidade que não se esgota no «gosto» ou «não gosto»; as que têm alguma substância intelectual e estrutura cívica para discutir aquilo que lhes é apresentado como inevitável.
 
Dito isto, acrescento: agora é que está tudo bem. O Movimento das Mulheres Conservadoras tem uma voz masculina de elevada consciência política; a coligação vencedora — da qual o cançonetista faz parte activa — faz pendant com o partido racista e misógino; e a cidade quer ser Capital Nacional da Cultura em 2026, disseram-me. Não sei se é graça ou se querem mesmo levar isto a sério. Se for a sério, há qualquer coisa de extraordinariamente coerente nesta espécie de paradoxo: uma cidade que aspira a ser capital da cultura a celebrar, simultaneamente, a sua própria descaracterização. Talvez seja essa a nova ideia de cultura. Ou será apenas decoração? É que, como sabemos, há coisas que, depois de decoradas, já não precisam de ser pensadas. Pensar dá trabalho. Vale mais a pena pendurar cortinados e apetrechos decorativos por todo lado e chamar uma gutural voz que tudo explique sem que a voz lhe doa nem que o ridículo o incomode. 
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Design de comunicação

 Da série Grandes Grafismos. Yayoi Kusama. 





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domingo, 30 de agosto de 2026

Elogio do extraordinário

EUAN UGLOW | Diz-se que Uglow pintava pouco. Demorava um ror de tempo até dar um quadro por terminado. Terminado? É precisamente essa ideia de inacabado que torna estas pinturas fascinantes.

De que falamos quando falamos de um trabalho terminado? Um trabalho está terminado quando o artista decide partir para outro? Será mesmo o artista quem decide?

Desconfio que Uglow confiava nas certezas do tempo. O Tempo, que é um grande escultor, como pretendia Yourcenar, mas que talvez tenha mais certezas do que nós, é quem decide. Quem vê pode sugerir acabamentos, mas não desmente a arrogância do tempo. E ainda bem. O Tempo tudo decide. E não traz livro de reclamações.

Uglow morreu em 2000, no dia 31 de agosto, com sessenta e oito anos. Passam amanhã vinte e seis anos sobre esse fim. Deixou-nos vivíssimas interpretações de naturezas-mortas e de poses do corpo humano. Leituras únicas.

Não percebi se, até hoje, foi recordado condignamente depois do seu desaparecimento físico. Sei dizer que falamos de grande Arte e de um grande pintor, que merece ser visitado com persistência.

Mostrou-nos uma realidade muito pessoal. Figuração única. Mostrou-nos outra realidade. E essa realidade é extraordinária.

Euan Uglow foi um grande artista visual do nosso tempo.

Euan Uglow - 10 March 1932 – 31 August 2000




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sábado, 29 de agosto de 2026

A boçalidade não mata, mas mói

Aquela coisa que à primeira impressão aparenta ser uma pessoa, e que está à frente de uma organização de malfeitores que parece ser um partido político, vai avançar com uma moção de censura ao governo se Montenegro não substituir Luís Neves até à próxima terça-feira.
 
Nunca pensei torcer para que não seja demitido um ministro da Administração Interna de um governo de direita tão à direita, mas perante esta ofensiva de um cretino que só ameaça, que remédio... Esperemos que Montenegro não ceda. Esperemos que a moção de censura faça cair no ridículo a associação de malfeitores e o seu vaidoso-mentiroso chefe.
 
Apesar de já sabermos que aquela gente que o segue bebe as suas mentiras como se estivesse perante um arauto dos seus mais rigorosos anseios, temos que admitir que o que desejam como correção é sempre pior do que o que querem corrigir. Quanto pior, melhor. O ministro deveria mentir, acusando os imigrantes de todos os males que nos acontecem. Fez o contrário. Tem outras pedras no caminho, e não é um exemplo de comportamentos, já sabemos. Mas para o biltre foi apenas esse o seu grande mal. E agora não se cala. Grita, vomita ódio. Malcriado e mal-formado. O costume. 
 
Os ditames da rentrée política são propalados por essas diatribes do cretino que dita as regras aos sessenta cretinos e cretinas com assento parlamentar. E as televisões e as redes sociais espojam-se na lama que ele larga. Já não é possível termos decência no debate? Será que estamos a assistir ao fim da política?

Ilustração: Nuno Saraiva. 

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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Receituário

 

PARA ALÉM DAS TRANÇAS PRETAS | Ana Lua Caiano tem um novo disco a sair e, por mor disso, falou com Lia Pereira, no Expresso. Aguardo o disco com alguma ansiedade. Acompanho a evolução artística desta cantautora com expectativa e admiração. Há nela qualquer coisa que me interessa particularmente: a capacidade de olhar para trás sem ficar presa ao que encontrou.
 
Ana Lua Caiano respeita o terreno que os seus avós pisaram, mas volta lá com outras sandálias. Escuta o que a rodeia com atenção e depois reorganiza os sons, desloca-os, envolve-os em novos ambientes. Ouvir Ana Lua é viajar por terras e ares já antes navegados, mas rasgando agora outras águas.
A ousadia verbal, a experimentação musical e a vontade de inventar coisas são marcas desta mulher que tem poesia para andar e cordas vocais para a dar a ouvir. Há nela uma inquietação que não parece procurar apenas novos sons, mas novas formas de os fazer existir.
 
Conhece a música de José Afonso, e isso percebe-se. Não necessariamente como citação ou influência direta, mas nessa vontade de reinventar sons, de mexer nos ambientes sonoros, de não aceitar a herança como coisa acabada. Recebe e devolve transformando. Participou em espetáculos de solidariedade com a Palestina, revelando uma preocupação que atravessa hoje uma parte significativa do meio artístico, em Portugal e no mundo. Há também aí uma forma de estar: estar atenta ao seu tempo, às suas chagas e às suas perguntas. Tem mundo porque se documenta. E porque viaja por outras artes. Cita autores e encontra referências fora da música, como quem sabe que uma linguagem nunca se constrói sozinha. Talvez a formação em Design de Comunicação lhe tenha deixado essa disciplina do olhar, essa vontade de depurar, de organizar e alinhar, com a precisão que essa área recomenda.
 
Esta conversa com Lia Pereira revela preocupações e vontades. Revela também inteligência e carácter. E talvez seja isso que também me interessa em Ana Lua Caiano: perceber que há ali alguém que não quer simplesmente fazer música. Quer descobrir o que pode fazer com ela. Como fez José Afonso.
 
As fotografias no jornal são de Rita Carmo.
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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Os interruptores da política


Marques Mendes está como Marcelo. A política é um electrodoméstico que se liga e desliga conforme a vontade de se pôr o ego a funcionar.

Enquanto comentadores, revelavam tácticas e estratégias. Só isso. Ao contrário do que anunciavam: sem preocupações com «a vida das pessoas» ou «o que é melhor para o país e o mundo». Sem política; em modo vidente, com bola de cristal da loja das baratezas.
Marcelo, como praticante egocêntrico, cumpriu o objectivo. Foi o que quis ser, apesar de em modo exuberante e tolo.
Este senhor não conseguiu o que pretendia. Como não foi chamado ao palco principal, sai de cena. Regressa a um papel que nunca deveria ter abandonado: quedo, teria sido um político incrível; calado, teria sido um cidadão exemplar.
O melhor para si, senhor doutor. Fique bem assim, sem qualquer vontade de andar em bicos dos pés.

Fonte: Notícias ao minuto

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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Constatação do óbvio




As pessoas mal informadas que nasceram depois de abril de 1974 não acreditam que os últimos cinquenta anos foram os mais felizes de toda a História de Portugal. Tudo avançou a partir daí. Foram conquistados direitos, e as pessoas tiveram acesso à Cultura e a melhorias significativas na Saúde e na Educação, bem como a possibilidade de escolhas materiais que lhes permitiram alcançar um melhor bem-estar. Antes dessa data, isto metia medo.

 

Os direitos foram conquistados com o esforço e a luta de gerações de minorias esclarecidas e preocupadas com o futuro do país. Chamavam-lhes progressistas. Durante o período que se seguiu à Revolução, foram adquiridos direitos e estabelecidos deveres que deram folgo a outras maneiras de pensar. Foram respeitadas minorias e foi possível sermos donos do nosso próprio corpo. Falhou a lei da eutanásia, por culpa de um Presidente papa-missas que deixou arrastar essa conquista por interrogações e desconfianças sem sentido. O tal Presidente que o foi sem merecer e que agora declara nunca mais falar de política, como se a política fosse o diabo. O diabo que o carregue.

Mas teve seguidores. A extrema-direita assumidamente salazarista entrou no Parlamento e arrastou para o seu catecismo a direita civilizada, que passou a não o parecer. Os retrocessos aconteceram, perante a nossa incredulidade. Como pode isto acontecer? Aconteceu.

 

Esta observação do Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos adverte para o óbvio: estamos a andar para trás. Os novos representantes dos eleitores que querem andar para trás são eleitos e fazem trinta por uma linha para garantir retrocessos. Direitos merecidos são postos em causa por políticos sem memória ou que fazem por esquecer o tormentoso passado. O que será que esta gente quer para os seus filhos e netos? Tudo a toque de caixa? Voltamos ao tempo da perseguição a quem é diferente de quem manda? Vamos todos ter de ser tristes, incultos e indignos lambe-botas dos escroques da extrema-direita e dos que se lhes aconchegam?

A resposta existe e aplica-se assim, em caixa-alta: NÃO, não queremos voltar a viver num país que não respeita toda a gente. Os novos fascistas chamam liberdade à discriminação. Dizemos não, e não estamos sozinhos. Somos pela liberdade para todos. A liberdade de discriminar não é liberdade. É fascismo. O que é que a direita civilizada ainda não percebeu?

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Aos papéis

Invadir e vandalizar um gabinete de um líder partidário é muito grave. No tempo de Salazar seria normal, se existissem líderes partidários a sério. A PIDE partia aquilo tudo e não se dizia nada a ninguém. 

Mas em democracia não se percebe como aparece um gabinete tão bem desarrumadinho, quando o que era para resgatar pelos malandros delinquentes eram uns papéis fornecidos pela PJ ao ofendido líder, e que estavam em cima das mesas esperando pacientemente pela captura. Os malandros que andaram aos papéis devem andar a ver muitos filmes antigos de Hollywood. Era preciso tanto papel pelo ar? Tanto sinal exterior de vandalização? Agora a PJ quer ouvir os últimos a sair e os primeiros a entrar no dia seguinte. Agora é que isto vai ser um papelinho. 

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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Pré-histórias e matérias-primas

Muito abordado durante a silly season específica das férias por um punhado de mulheres conservadoras, desconfortáveis com os avanços civilizacionais, foi o estafado assunto de que as mulheres têm obrigações específicas que as prendem à casa, à cozinha e às fraldas das crias. Esse raminho de mulheres muito conservadoras quer tudo como antigamente. 
 
Para uma inenarrável deputada, Feminismo é o contrário de machismo. Ou seja: Mulheres contra homens. A criaturinha confunde Feminismo com femismo e perora nesse movimento perfeitamente imbecil que quer a mulher de regresso à actividade de arear tachos e mudar fraldas, ir à missa aos domingos de manhã (ou à tarde, como o seu chefe), e servir o jantar ao marido depois de lhe passar as calças a ferro. Bem, ela é deputada. Para a cozinha arear tachos e panelas vão as outras. Ela nasceu para mandar. E as outras para "ensinar" os mais novos a serem parvos e parvas como elas parecem. Claro que foi a luta Feminista que lhes permitiu serem deputadas e terem palco para dizerem os disparates a que habituaram as idiotas e os idiotas que as seguem. É essa a luta dessas mulheres que anseiam por um novo movimento nacional feminino. À antiga, que a "modernidade" só traz devassidão e luxúria. Ostentar o disparate contra a razoabilidade é preciso. A defesa da estupidez fica~lhes a matar. 
 
A deputada do partido que é racista, xenófobo, vigarista e machista juntou-se a um grupo de outras mulheres e até participou num podcast do jornal Expresso, juntando-se a uma activista ridícula de extrema-direita que ainda se aloja no PSD, e com outra do partido de extrema-direita mesmo, filha de um conhecido fascista, que foi convidada pelo jornal para ter um palco em que as políticas raquíticas da direita são expostas como grandes descobertas. O jornal promove-as como grandes vultos do pensamento luso. Deve ser cedência aos novos co-proprietários descendentes de Berlusconi. Há quem diga que estes debates entre gente que parece parva fazem falta. Fazem falta para quê?

Imagem: Os Flintstones. Criados por William Hanna e Joseph Barbera, do estúdio Hanna-Barbera. 

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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Já não há silly season

António Dacosta, Dois limões em férias, 1983, óleo sobre tela.

REGRESSO - A silly season já não existe. Todas as estações são tontas desde que o tonto fascista anima o território dos fascistas portugueses. Um cartaz promete que o traste vai salvar Portugal. O país inteiro mira a figura triste. Estranha esta salvação, proposta por um incendiário. Regresso com perguntas. Perguntas que me assaltam em permanência.

LÁ FORA - O genocídio continua em Gaza. As denúncias e as acções de solidariedade alastram pelo mundo inteiro. Em Portugal, as vozes de artistas e intelectuais opinadores ilustram jornais, debates televisivos, concertos de verão, palestras, simpósios, lançamentos de livros e aberturas de exposições. Vozes de quem vive em voz alta fazem-se ouvir. Por todo o mundo as pessoas revelam e manifestam solidariedade. A morte sai à rua sem aviso. Morre gente perante a indiferença de quem dirige politicamente a Europa. Em Gaza e no Médio Oriente morre-se todos os dias e são destruídas estruturas que provocam mossa na economia mundial e na vida das pessoas. Será que não há estadistas que façam frente ao destrambelhado americano e ao criminoso encartado de Israel?  

CÁ DENTRO - A Polícia Judiciária já sabe quem esbardalhou o gabinete do pantomineiro Ventura? E já desmentiu as afirmações do chefe racista que incluem polícias da PJ como seus informadores? Ainda não se sabe nada? Mas, o que se passa? É assim tão difícil saber o que falhou na segurança de um sítio tão seguro? Ou o sítio onde se decide a nossa vida não é assim tão seguro e está aberto à pantominice? E já que estou com a mão na massa, ainda anda por aí quem acredite e até venere a figura rasca do líder do partido rasca a que os fascistas deram o nome de "chega"? Chega de quê? De "chega"?

ARTE - Resta a Arte para nos salvar? Resta a esperança na mudança? Faremos por isso. Escolhi António Dacosta para ilustrar o verão que está de saída. Vem aí setembro, o meu mês preferido. Avizinha-se trabalho e conhaque. Muito trabalho que me anima e entusiasma. Muito há para fazer, ouvir, ler, olhar. Bom regresso ao trabalho para toda a gente. Até já.

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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Memorial das ideias

Dizem por aí que as ideologias já não fazem sentido. Já não há ideias. Não há esquerda nem direita. Há boas e más pessoas. Muito bem, então a malta de esquerda escolhe as suas boas pessoas e a de direita as suas. Pode ser que fique contente com o que sobra das boas pessoas de esquerda, e ficamos assim todos amigos. Alerta à população escrutinadora: a escória de extrema-direita não se inscreve neste concurso — enm eleitores, nem eleitos —, entendido?

Ora, quem esse disparate defende, defende precisamente o que sempre defendeu a sua ideologia imobilista de direita: a política é para os políticos, e o pessoal tem é que seguir umas iluminadas criaturas, ungidas por deuses cruéis e ajustadores, porque essas inenarráveis criaturas é que sabem o que é bom para o seu povo. Esta malta até se esquece — ou nunca soube — que esses ajustadores são os piores pecadores, mas enfim...
O que está a acontecer ao mundo não nos descansa. Não nos devemos calar ou assobiar para o lado, mas é preciso colocar outros tinteiros na nossa impressora mental. Pensar, repensar e criar novos caminhos. Olhar em volta e contemplar a beleza sem os atropelos da feiura. Voltar a olhar e verbalizar o nosso contentamento. Escrever, desenhar, ler, olhar, nadar, brincar, pintar, imaginar, dormir, sonhar, acordar, abrir bem os olhos, escrever, desenhar... Fazer acontecer. Criar desassossego. Parados? Isso é que não.
Cá estarei nos últimos dias de agosto. Desejo-vos uns bons dias, com muito descanso.
A frase deste cartaz pertence a José Afonso. Escreveu-a no álbum "Galinhas do Mato". O desenho é, claro, de Hugo Pratt. Resolvi convocar dois génios para este desabafo antes do descanso. Contento-me com pouco: o melhor é suficiente.

domingo, 2 de agosto de 2026

Moralidade imoral

As palavras ficam sem jeito. Tudo o que era já não é. Vermos gente sem classificação olhar para esta tragédia como se de uma invasão de bárbaros se tratasse, é de uma imoralidade criminosa.

Não falam dos jovens mortos por terem caído na esparrela da extrema-direita internacional. A morte de pessoas não conta para esta gente inqualificável. O bocado de esterco que dirige o partido fascista português entrou logo em direto (o costume) em todas as televisões nacionais. Os seus colegas, os responsáveis por esta originalidade criminosa — Fascistas americanos, os governantes de Israel, o governo de Marrocos, os fascistas espanhóis e de outros pavimentos conspurcados —, ficam em recatado silêncio. Só a besta quadrada portuguesa usa o palco diário que a imprensa lhe acautela. Mas não está sozinho. Uma chusma de cretinos e cretinas cá do burgo embarcam na jangada da vergonha. Insultam quem sofre porque foi manipulado. Encontram estratégias criminosas: todos os que não são como nós são criminosos. A situação já está para lá de qualquer designação razoável. A solidariedade e a compaixão cristã já nem são evocadas. São passado. Coisa antiga. Será isto a democracia? Ou será que essa ideia política é já uma utopia de uma esquerda antiquada? Pelo menos de bondade precisamos. Pensem nisso, caros e caras governantes da Europa. Estamos convosco (que remédio). Estejam com quem sofre. E connosco, vá. Que é quase a mesma coisa. É que quem sofre mesmo na pele precisa de compaixão, não de agressão.

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