PARA ALÉM DAS TRANÇAS PRETAS | Ana Lua Caiano tem um novo disco a sair e, por mor disso, falou com Lia Pereira, no Expresso. Aguardo o disco com alguma ansiedade. Acompanho a evolução artística desta cantautora com expectativa e admiração. Há nela qualquer coisa que me interessa particularmente: a capacidade de olhar para trás sem ficar presa ao que encontrou.
Ana Lua Caiano respeita o terreno que os seus avós pisaram, mas volta lá com outras sandálias. Escuta o que a rodeia com atenção e depois reorganiza os sons, desloca-os, envolve-os em novos ambientes. Ouvir Ana Lua é viajar por terras e ares já antes navegados, mas rasgando agora outras águas.
A ousadia verbal, a experimentação musical e a vontade de inventar coisas são marcas desta mulher que tem poesia para andar e cordas vocais para a dar a ouvir. Há nela uma inquietação que não parece procurar apenas novos sons, mas novas formas de os fazer existir.
Conhece a música de José Afonso, e isso percebe-se. Não necessariamente como citação ou influência direta, mas nessa vontade de reinventar sons, de mexer nos ambientes sonoros, de não aceitar a herança como coisa acabada. Recebe e devolve transformando. Participou em espetáculos de solidariedade com a Palestina, revelando uma preocupação que atravessa hoje uma parte significativa do meio artístico, em Portugal e no mundo. Há também aí uma forma de estar: estar atenta ao seu tempo, às suas chagas e às suas perguntas. Tem mundo porque se documenta. E porque viaja por outras artes. Cita autores e encontra referências fora da música, como quem sabe que uma linguagem nunca se constrói sozinha. Talvez a formação em Design de Comunicação lhe tenha deixado essa disciplina do olhar, essa vontade de depurar, de organizar e alinhar, com a precisão que essa área recomenda.
Esta conversa com Lia Pereira revela preocupações e vontades. Revela também inteligência e carácter. E talvez seja isso que também me interessa em Ana Lua Caiano: perceber que há ali alguém que não quer simplesmente fazer música. Quer descobrir o que pode fazer com ela. Como fez José Afonso.
As fotografias no jornal são de Rita Carmo.

