Dizem por aí que as ideologias já não fazem sentido. Já não há ideias. Não há esquerda nem direita. Há boas e más pessoas. Muito bem, então a malta de esquerda escolhe as suas boas pessoas e a de direita as suas. Pode ser que fique contente com o que sobra das boas pessoas de esquerda, e ficamos assim todos amigos. Alerta à população escrutinadora: a escória de extrema-direita não se inscreve neste concurso — enm eleitores, nem eleitos —, entendido?
Ora, quem esse disparate defende, defende precisamente o que sempre defendeu a sua ideologia imobilista de direita: a política é para os políticos, e o pessoal tem é que seguir umas iluminadas criaturas, ungidas por deuses cruéis e ajustadores, porque essas inenarráveis criaturas é que sabem o que é bom para o seu povo. Esta malta até se esquece — ou nunca soube — que esses ajustadores são os piores pecadores, mas enfim...
O que está a acontecer ao mundo não nos descansa. Não nos devemos calar ou assobiar para o lado, mas é preciso colocar outros tinteiros na nossa impressora mental. Pensar, repensar e criar novos caminhos. Olhar em volta e contemplar a beleza sem os atropelos da feiura. Voltar a olhar e verbalizar o nosso contentamento. Escrever, desenhar, ler, olhar, nadar, brincar, pintar, imaginar, dormir, sonhar, acordar, abrir bem os olhos, escrever, desenhar... Fazer acontecer. Criar desassossego. Parados? Isso é que não.
Cá estarei nos últimos dias de agosto. Desejo-vos uns bons dias, com muito descanso.
A frase deste cartaz pertence a José Afonso. Escreveu-a no álbum "Galinhas do Mato". O desenho é, claro, de Hugo Pratt. Resolvi convocar dois génios para este desabafo antes do descanso. Contento-me com pouco: o melhor é suficiente.
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