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MOVIMENTO DE HOMENS QUE APOIAM O MOVIMENTO DAS MULHERES CONSERVADORAS | Desculpem qualquer coisinha. Disse aqui que não me ia «meter» com Setúbal nunca mais. Mas há performances que não permitem o recato. Estou de volta, mas saio já. Descansem. É só para dizer umas coisas.
O cançonetista sexista, apologista da exaustão sexual nas suas canções, declara aqui aquilo que entende ser uma mulher «às direitas». Há nisto uma certa coerência: cada um define o mundo à medida daquilo que consegue imaginar. De facto, Setúbal foi «decorada» — leia-se: destruída patrimonialmente — por uma senhora. Apalhaçaram-se edifícios públicos, criaram-se esculturas ridículas e a cidade foi sendo «decorada» ao nível do cortinado e do reposteiro. A senhora foi-se embora, mas está «de volta», como o próprio nome do movimento que venceu as eleições ameaçou.
O Mercado do Livramento sofreu recentemente nova ornamentação. E a forma verbal é aqui muito bem aplicada. Resultado: hediondo. Ridículo.
«Ah, mas as pessoas gostam.»
Tudo bem. Tenho, no entanto, uma ideia que desmente outra, muito antiga: os gostos discutem-se. As pessoas que se habituem a perguntar, a discutir os assuntos e, sobretudo, a perceber que o gosto também se educa. Que se habituem a respeitar o património e a compreender que uma cidade não é uma sala de estar onde se muda o cortinado ao sabor da moda ou do gosto de autarcas pouco esclarecidos esteticamente. Ou com o esclarecimento "de senhora conservadora", como quer o arauto da peça.
E há as outras pessoas: as que não gostam e sabem por que não gostam; as que possuem uma relação com a cidade que não se esgota no «gosto» ou «não gosto»; as que têm alguma substância intelectual e estrutura cívica para discutir aquilo que lhes é apresentado como inevitável.
Dito isto, acrescento: agora é que está tudo bem. O Movimento das Mulheres Conservadoras tem uma voz masculina de elevada consciência política; a coligação vencedora — da qual o cançonetista faz parte activa — faz pendant com o partido racista e misógino; e a cidade quer ser Capital Nacional da Cultura em 2026, disseram-me. Não sei se é graça ou se querem mesmo levar isto a sério. Se for a sério, há qualquer coisa de extraordinariamente coerente nesta espécie de paradoxo: uma cidade que aspira a ser capital da cultura a celebrar, simultaneamente, a sua própria descaracterização. Talvez seja essa a nova ideia de cultura. Ou será apenas decoração? É que, como sabemos, há coisas que, depois de decoradas, já não precisam de ser pensadas. Pensar dá trabalho. Vale mais a pena pendurar cortinados e apetrechos decorativos por todo lado e chamar uma gutural voz que tudo explique sem que a voz lhe doa nem que o ridículo o incomode.