terça-feira, 19 de maio de 2020

POP MARX


António Guerreiro, no último Ípsilon introduzido no Público, traçou o trajecto da invenção "marxismo cultural". Excelente texto — como sempre — onde trajectos e razões são abordados e desmontados. Também por ali se encontram notas para reflexão. Modestamente, acrescento algumas.

Poderíamos simplificar: o marxismo cultural é uma invenção dos fascistas sem cultura. Mas esta seria a saída básica, sem razões para mais abordagens.
A expressão "marxismo cultural" foi inventada para o combate a todas as expressões de emancipação que despontaram no século vinte: Direito dos mais fracos ao ensino. Emancipação feminina. Liberdade de escolha entre ciência e religião, ou reconhecer a coexistência sem complexos. Reconhecimento de géneros para além dos ditados pelas convenções conservadoras. Direito ao desejo sem complexos de género. Direito a decidirmos o que fazer com o nosso corpo. Possibilidade de criação de família por pessoas do mesmo sexo. Liberdade de criação cultural e de sua fruição sem distinções de condição social. Enfim, liberdade e oportunidades para todos.
Estas ideias cresceram como cogumelos e tornaram-se drogas duras. Os adeptos do "bom-senso" e do "bom-gosto" nunca aceitaram tamanha agressão. Esconderam-se nos seus casulos e fizeram tudo para serem eles, e só eles, os conhecedores e naturais frequentadores dos territórios da excelência e das boas práticas, ungidos pelos deuses que criaram todas as coisas que lhes são úteis.
A expressão que culpa Marx de tudo o que é mau nasceu lá para os lados das américas, e espalhou-se por todo o lado com ganas de combate aos ateus e pelo restabelecimento da fé cristã como orientação única de vida, e em guerra com o crescimento do islamismo que grassa por todo o mundo. Claro que há nuances nas atitudes da direita. Nem todos os conservadores nos mandam para a Coreia, Cuba ou Venezuela ao vislumbre da mínima discordância, mas os adeptos da invenção "marxismo cultural", sim. Muitas vezes arrastam para este sítio mal frequentado gente que nunca fumou o tabaco marxista, mas que têm interesses culturais com cheiros nauseabundos. É exterminá-los, antes que fedam. O "marxismo cultural" é vírus que agride o conceito de família e dos bons costumes. O combate a este vírus tornou-se prioridade para gente como Trump e Bolsonaro. Os seus males não se comparam aos do Covid-19, coisa ligeira e passageira. A extrema-direita americana não se importa de ter um representante caricato. E no Brasil não importa que o líder seja um imbecil encartado. O que importa é o combate aos que querem reconhecimentos e direitos. Contra o "marxismo cultural" não existe um "fascismo cultural". A vida não é assim tão simples. Nem se pode concluir que a ignorância dá menos trabalho. As razões são políticas. Há uma direita que quer tudo como sempre foi. Novos nortes são uma grande barafunda. Deus nos livre desses males.

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segunda-feira, 18 de maio de 2020

domingo, 17 de maio de 2020

sábado, 16 de maio de 2020

Reencontros

Dia 18 inicia-se nova etapa nesta interrupção das nossas vidas. Os restaurantes vão reabrir apesar de todos os limites aos funcionamentos. O Restaurante Fidalgo é meu poiso frequente. 

Na DDLX Design Comunicação Lisboa, para além de fazermos a imagem da casa, concebemos o rótulo do vinho que Eugénio Fidalgo escolhe com saber e sabor. Este FONTE DAS MOÇAS chegou mesmo a tempo de estrear a reabertura no próximo dia 18, segunda-feira. O saboroso líquido corresponde às expectativas a que nos habituaram os vinhos da região de Lisboa. Excelente. Excelente também será este regresso a uma certa normalidade. A normalidade possível, é certo, mas desejável. Bom regresso. E boas escolhas.
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Na travagem brusca

Dias e dias em casa levaram muita gente a não deixar para amanhã o que pode ser feito hoje. 

Vem aí um novo projecto editorial online, que poderá experimentar versão em papel com o regresso dos dias melhores. Veremos. Interpretações dos dias neste intervalo das nossas vidas. São reflexões escritas e desenhadas que saem das gavetas do confinamento. A publicação de um primeiro bloco está marcada para a madrugada de dia 20, quarta-feira. A ideia partiu de João Paulo Cotrim, editor da Abysmo, e está a ser aplicada no terreno por nós, na DDLX.
É ler e olhar, porque isto não acaba assim.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Estar vivo é o contrário de estar morto

Aguarda-se a nomeação de Regina Duarte para o cargo de ministra da saúde, acumulando com o lugar que já tem no ministério da (pouca) cultura. 

Como já está habituada a tornar relativos os motivos da morte, está bem à vontade para desprezar a vida. É que nem toda a gente aguenta lidar com o mentecapto que botaram lá como presidente. Só mesmo uma mentecapta.
Fonte Expresso
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quarta-feira, 13 de maio de 2020

Apareceu brilhando...

O gabiru fascista do "Chega!, que já tresanda" considera-se um iluminado pela aparição mariana. Tem uma missão: salvar Portugal, quiçá o mundo. 

Os idiotas que o seguem cegamente devem ter visto nele uma aparição divina, de facto. Estamos com toda a certeza perante um novo fenómeno de fé. Já aconteceu no Brasil e nos EUA. Loucos vencem eleições e tentam governar. Em vão. Os governos das nações não são para ser entregues a vendedores de pomadas milagrosas. Estes messias valem o que valem; nada. Mas quem os admira e venera augura-lhes anseios de salvação. Gente parva sempre houve e sempre haverá. Os parvos não se importam de ter salvadores assim amalucados e egocêntricos como seus gurus. Revêm-se neles. Há um problema: alguns chegam ao topo. O fascista da Cofina faz tudo o que for preciso para dar nas vistas. Até quer ser o quarto pastorinho, valha-lhe a santa.
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Livro de vida





Tem 102 páginas. Formato: 21,5X15 cm. Na capa o nome do autor e o título: Gerhard Richter Snow-White. À folha de rosto antecipa-se uma página em vegetal onde está impresso, a prata, o nome da editora/galeria: Waco Works of Art. Na badana que dobra vinda da contracapa foi inscrita a ficha técnica. 

Nem mais uma palavra. Ao todo são 100 trabalhos que reproduzem intervenções de Richter a tinta acrílica e lápis. Data de publicação: 2006. É o volume mais caro guardado no sítio dos livros arte da minha biblioteca. Literalmente o segundo mais caro, mas em comparação com um Tápiès quatro vezes maior, com o triplo das páginas e fartura de texto. Os livros de arte são caros. Facto. Mas este Richter provoca-me constantemente. Visito-o com frequência. Rentabilizado. Mesmo sem palavras diz-me tanto. E é-me tão caro.
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terça-feira, 12 de maio de 2020

Da indigência intelectual


Este assunto não mereceria grandes incómodos, não fosse o caso de ter passado a assunto sério discutido na Assembleia da República e tudo.

Nuno Melo, da tribuna europeia, lançou o morteiro. Os professores que organizam as lições de história pela televisão, resolveram usar uma peça existente na casa, em que o historiador Rui Tavares apela aos petizes que encorpem o exército comunista que está a dominar o mundo. Os seus zelosos compatriotas, instalados nas tribunas nacionais, perceberam o perigo denunciado e vá de interpelar o governo comunista que dirige Portugal, pela voz do deputado Telmo, um competente arauto da cruzada contra o perigo que assola o planeta e arredores. Temos, portanto, uma tropa unida e corajosa, arregimentada com o novel e corajoso representante da Cofina no parlamento, que nos salvará desta desgraça emergente. Ninguém nega a esdrúxula coragem destes valorosos guerreiros. Que ninguém se atreva a fazer-lhes frente — a política é para os políticos profissionais; os cidadãos eleitores é comer e calar — nesta constante luta pela limpeza racial e contra a imposição de ideologias malfeitoras. Nunca tenham medo de ser ridículos. O medo do ridículo tolhe a coragem. Força.
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segunda-feira, 11 de maio de 2020

Ólhó Repórter
















Estes escritos no confinamento que aqui vou partilhando, vão ao fundo de tempos tão distantes como saudosos. Num baú de plástico encontrado na cave — os baús de madeira dos nossos avós já só existem nas histórias — encontrei jornais que não consigo colocar no recipiente do papel a reciclar. Não sou saudosista. Nada me detém no passado. Tudo me alimenta a vontade de olhar para o futuro, mas há pérolas que brilham como lanterna em caverna escura. Entre primeiros números do JL, exemplares do Se7e e do Diário de Lisboa em que sou mencionado por boas razões, e Blitz de várias temporadas, encontrei alguns exemplares do Repórter de Setúbal. 

O Repórter foi um jornal, semanário, que nasceu da vontade e esforço de uma pernada de amigos. Muitos andam por aí — não somos assim tão velhos —, mas já há desaparecidos em combate. O combate pela vida, que nos é agora tão caro.O exemplar que trago à colação — saiu em 29 de dezembro de 1984 — traz dentro uma preciosa entrevista a José Afonso, conduzida pelo Mariano Gonçalves — então director do jornal em exercício. Alternava com Tapum Ferreira. Carlos Catalão era o director adjunto —, e por este vosso amigo, que aqui fazia a sua estreia na carreira de jornalista, encerrada logo após a saída deste número. Só acompanhei o entrevistador principal porque conhecia José Afonso, e era tido como conhecedor do seu trabalho. Nesta edição já eu falava da obra gráfica na obra de José Afonso. E já pensava o que penso hoje, mas hoje com a vantagem de já ter produzido uma exposição com o trabalho visual dos treze LPs editados por Zeca, com os grafismos dos designers José Santa-Bárbara, Alberto Lopes, José Brandão e João de Azevedo, os feitores das imagens das capas e arranjos gráficos.

A entrevista recolheu opiniões de José Afonso sobre a sua passagem pela cidade. A linhas tantas refere a dificuldade que tiveram os fundadores do Círculo Cultural. "Não foi fácil pormos o Círculo Cultural de pé," diz. O círculo funcionou nas instalações onde hoje está a Casa Da Cultura | SetúbalA direita fascista tentou, de maneira caluniosa e vil, boicotar a constituição de uma coutada de "esquerdistas, drogados, passadores de droga e de outras práticas imorais". O costume para a época. Costume que não mudou assim tanto. É ver o deputado europeu Nuno Melo acusar o Ministério da Educação por passar nas aulas da nova telescola um programa do historiador Rui Tavares.

O Repórter teve projecto gráfico meu e era paginado por mim, em casa, na véspera de ir para a máquina. Isto quando os computadores nem miragem eram. Tudo montado em acetatos transparentes, em sentido invertido, com precisão literalmente milimétrica.
Este jornal teve a ousadia de misturar Setúbal com outros saberes. Representou, naquele tempo, a ideia que defendo para uma comunicação social regional, sim, mas com os olhos postos no mundo. Reconheço que é difícil manter um projecto assim. Este acabou por não se aguentar. Foi pena. Agora leio este exemplar como se tivesse acabado de sair. E sinto-me bem, com saudades do futuro.



As fotografias são do Armando Reis. O guedelhudo barbudo que está ali sentado ao lado do entrevistado sou eu. Foi isto.
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Humanidade sem humanidade

É difícil ter opinião sobre a monstruosidade real. Sem ficção. Como é isto possível? A filosofia, a psicologia, a sociologia terão respostas. Eu não. facebook



sábado, 9 de maio de 2020

Ignorância não é solução

É costume dizer-se nestas ocasiões: isto vale o que vale. É verdade. E o que é verdade hoje pode não ser amanhã. Mas estas sondagens de agora revelam uma possível verdade que nos pode dar algum descanso. 

O insuportável labrego da Cofina não tem tanta gente a segui-lo — na sua cruzada criminosa racista e fascista — como ele próprio fazia crer. Não nos permite sestas descansadas. Continuamos a ter de estar alerta e a denunciar o sem-maneiras e seus apoiantes. Mas percebermos que nem tudo está podre é um alívio. A promoção da ignorância e os ataques à democracia não podem dar frutos. Um bom fim-de-semana para todos. Em casa, mas com boas notícias.
Fonte Expresso
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quinta-feira, 7 de maio de 2020

Uns e outros

A polémica vale o que vale. Um assunto que discrimina cidadãos não deveria ser assunto. Mas é. 

O que mais me incomodou e revoltou nesta polémica foi a resposta do deputado fascista ao jogador da selecção de futebol. Para o energúmeno que se senta na extrema direita do parlamento, um jogador de futebol da selecção nacional não se deveria pronunciar politicamente. Esta atitude tem tudo de salazarenta: a política é para os políticos. O energúmeno não está enganado porque é um fascista. Mas, já agora, um tão graduado em Direito pode achar uma coisa destas? O animal é mesmo assim uma figura tão brilhante e mestrada e doutorada em direito? Ou não passa de uma besta quadrada? Logo ele, que comenta futebol e faz política. Catarina Martins e António Costa puseram-no no seu lugar de aprendiz de tribuno fascista. Mas, não sei se repararam, o pretenso tribuno atirou logo com as últimas sondagens à cara de Catarina, que tinha atirado as atitudes do parvalhão para o caixote do lixo. Quem vai para o caixote do lixo, quando há um eleitorado fascista a crescer? Ele sabe o que anda a fazer. É preciso ser denunciado. Sempre. Mas há quem só oiça vozes de burros, meu caro Quaresma.
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quarta-feira, 6 de maio de 2020

Levante-se o réu


Passaram hoje setenta anos sobre um episódio que mudou os julgamentos políticos em Portugal. Acusado pelo regime de traição, Álvaro Cunhal, em tribunal, dá a volta ao texto e acusa os fascistas que o acusavam. Frase histórica: "Que se sentem os fascistas no banco dos réus".

A partir daí os seus camaradas de partido passaram a assumir a condição de militantes, usando o tribunal como palco para a denúncia das atrocidades do regime. Hoje é difícil entender as atitudes de homens e mulheres que lutaram contra o regime imposto por Salazar e pelos grandes empresários de então. O regime protegia a corrupção instalada. As populações sofriam na pele com a imposição de um sistema repressivo que perseguia, prendia, torturava e matava. A mais reprovável miséria minava a vida do povo. A oposição combatia na clandestinidade. Os militantes inscritos na prioridade de combater o regime eram cidadãos ilegais. A legalidade era o fascismo: a delação e o ódio eram legais.
Famílias de militantes comunistas foram separadas. Filhos enviados para o exterior para sua própria protecção. Cunhal esteve preso anos a fio. Foi torturado. Na prisão desenhou, escreveu, traduziu. Foi um homem com capacidades invulgares. O seu trabalho artístico e literário está publicado.
Hoje, em democracia, e para as gerações que nasceram em liberdade política e cultural, tudo isto é inimaginável. Até parece que foi excessivo e inútil. Mas não foi. Foram estas atitudes que nos deram a possibilidade de ter hoje um regime democrático. E depois de Abril foram estes democratas que construíram a democracia. Sim, a democracia não foi obra apenas dos partidos que formaram governos. os projectos de lei foram elaborados e depois votados, primeiro na Assembleia Constituinte e depois na Assembleia da República, pelos deputados que construíram a democracia em Portugal. Álvaro Cunhal teve desempenho fundamental. Sempre foi um democrata que aceitou as regras da situação que ajudou a construir.
Bem sabemos que ainda hoje existe quem esteja sempre com a pistola acusatória pronta a disparar. Quem defende a democracia que releva o bem estar das pessoas, a cultura, o humanismo, a solidariedade, é prontamente enviado para a Coreia do homenzinho das experiências bélicas, para a Venezuela, para Cuba e mais não sei para onde. Há quem não veja, ou não queira ver, que nem todos pensamos da mesma maneira porque somos todos diferentes. Imaginar um regime como o da Coreia do Norte implantado aqui, ou achar que é isso que a esquerda quer, é mais ou menos como não ter medo de ser ridículo.
Alinho estas palavras, neste fim de dia em que passam setenta anos sobre esta data histórica, para relembrar Álvaro Cunhal. Ele merece ser relembrado.

Fotografia de Carlos Lopes
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Sebastião Salgado

 

Conhece o terreno. Sabe o que se está a passar. Pede a retirada dos invasores ilegais. O Brasil tem uma dívida para com os seus primeiros habitantes. 

São preocupações de alguém que associa o talento de grande artista à solidariedade para com quem sofre a injustiça de ser ameaçado na sua terra, e é vulnerável às ameaças de agora. Fazendeiros ilegais são criminosos sem lei. Gente desprezível que não conhece pingo de generosidade ou humanismo. A vida das pessoas vale uma bagatela perante o lucro desenfreado. Muito obrigado, Sebastião Salgado.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Meu caro amigo





As atitudes do iletrado irresponsável que se senta actualmente na cadeira da presidência, no Palácio do Planalto, trouxeram-me à memória um episódio que revela bem o desprezo que esta gente adepta de ditaduras e da anulação do conhecimento nutre pelas pessoas de cultura e pela cultura em si. E consequentemente pela vida das pessoas, como se viu no tempo dos militares e se tem visto agora, com esta tropa fandanga no poder.

Nos primeiros anos da década de 1980, o Brasil, então em ditadura, experimentou um processo de decadência política e económica que só terminou com o fim do regime dos militares, em 1984.
Em 1982, Sérgio Godinho viajou até lá. Já tinha sido detido uma vez naquele país, em 1971. Permaneceu na prisão durante dois meses. Desta vez o domicílio prisional durou pouco mais de um mês. Motivo das detenções: crime de divulgação cultural. Teatro e música não são perfume para ditadores.
Em Portugal a notícia foi recebida em choque. José Afonso residia em Vila Nogueira de Azeitão. No dia 4 de Dezembro desse ano, atirou a doença para trás das costas — na altura já a avançar a passos largos — e iniciou uma estruturada campanha de solidariedade com Sérgio Godinho. Assumi a tarefa de tratar da reprodução e distribuição de um documento/abaixo-assinado, "sugerindo" a libertação do seu colega, a enviar ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal. O dito documento acabou por não chegar ao Palácio das Necessidades, por razões óbvias: Sérgio foi libertado uns dias depois. A sua libertação resultou de uma gigantesca acção de solidariedade encetada por gente da cultura e das esquerdas de Portugal, do Brasil e de muitas outras geografias. José Afonso estava sempre na primeira fila destas manifestações solidárias.
Sérgio Godinho já esteve três vezes em sessões Muito cá de casa, na Casa Da Cultura | Setúbal. Em 17 de Maio do ano passado, apresentámos Estocolmo, o seu mais recente livro. Antes do encontro na sala José Afonso, estivemos à conversa. Passou-se então o seguinte: como descobri os originais com o texto de José Afonso e as assinaturas dos portugueses solidários, resolvi oferecer aquele documento único ao ex-prisioneiro da ditadura militar brasileira. Fiquei com uma cópia da folha A4 assinada por José Afonso. Está aqui. Assim como algumas imagens que documentam uma amizade.
As ditaduras reprimem, prendem e matam. Em tempo de elogio destes tempos, é tempo de denunciá-los.
Fascismo nunca mais, mesmo.

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segunda-feira, 4 de maio de 2020

A bolha

Atitudes que se inscrevam fora das normas que alguns instituem, provocam por vezes desabafos violentos. Quando aqui, nesta geringonça, lançamos opiniões sobre o que que nos dá na bolha, há malta que concorda e há quem passe ao lado. Mas também há quem discorde, com toda a legitimidade. As opiniões são todas bem vindas. Muitas acrescentam dimensão ao protesto, mas também pode acontecer a divergência total. Fixe. 

Há contudo quem adopte o modelo de acção que socialmente se designa por terrorismo. Ou seja, o pessoal vem para aqui e desabafa umas alarvidades que arrasam tudo e todos, convocando logo um exército de Salazares e Venturas e seus "pensamentos", legitimando o estado mental em que se encontram desde que nasceram até agora. Acontece algumas vezes. Não muitas, é certo, e sabem porquê? Levam logo com uma acção de bloqueio pelas trombas. A gente anda aqui para ter opiniões, mas não nascemos para sofrer.
Ao longo da vida criamos a nossa bolha. Escolhemos os amigos que nos escolheram a nós. Acrescentamos conhecimentos, divertimentos e preocupações comuns. Criámos uma grande bolha onde cabe tudo o que amamos. Foi difícil, mas foi bom. Gostamos de aqui estar.
Às vezes, ao nosso lado, circulam bolhas que nos surpreendem. É bom. Mas também flutuam por aí bolhas embaciadas que nos provocam rejeição. Nada que retire brilho a quem quer que seja. Muito pelo contrário. Somos diferentes e cabemos todos nas bolhas que fomos formando.
As bolhas onde circulam os exércitos da depuração das raças, da rigorosa classificação dos géneros, da abstinência política em prol da eficácia ditatorial, da boçalidade retórica ao invés da capacidade de argumentação, são de imediato sopradas para a indiferença. Na nossa bolha só entra quem a gente quer. Questão de higiene.

Imagem: DNA de DAN, performance de Maikon K.

domingo, 3 de maio de 2020

Pivot ou parvot?

Só agora vi a tão falada entrevista que Marta Temido deu à SIC. O pivot de jornais que entrevistou a ministra tem taras. Cismas. Por exemplo: cismou que haveria de ser o moralista de serviço por mor da pandemia, e vá de dar sermões a torto e a direito, em pose de sacerdote em altar de pechisbeque. Houve quem achasse aquilo o máximo. Até António Costa o elogiou em directo. 

Com a ministra da saúde a coisa correu-lhe mal. Perguntas mais que respondidas em outros cenários foram para ali chamadas como se o Rodrigo das perguntas fosse um homenzinho pouco esclarecido. Desempenhou bem este papel, mas correu-lhe mal o foguetório perguntador. Com uma invejável paciência, Marta Temido respondeu-lhe educadamente e sem hesitações. O homem é um tarado que só pensa em palco. Esta pandemia deu-lhe calores de repórter de guerra. Quando não estava ao serviço queixava-se, nas redes sociais, de não estar no campo de batalha. O palco faz-lhe tanta falta que seguiu o exemplo do seu colega da RTP que escreve livros a metro e... vá de publicar também histórias de ler e esquecer. O tal palco televisivo permite a estes escrevinhadores de cordel vendas esdrúxulas e contas bancárias robustas. A visibilidade dá-lhes ganas de protagonismo justiceiro de trazer por casa. São uns parolos armados em heróis. Às vezes as ganas dão em nada. Foi o que aconteceu ao justiceiro moralista Rodrigo. Paciência, um dia não são dias. Perdeu uma batalha, mas a guerra ainda não acabou.
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sábado, 2 de maio de 2020

Wonderful world

O extraordinário Trump Lexivias ligou a Marcelo. Um encanto de um senhor encantador. 

Como não tinha mais nada para fazer — o programa sobre ovnis que estava a seguir na Fox foi para intervalo —, resolveu dar os parabéns ao seu maravilhoso colega desse fantástico país que é Espanha, perdão, Portugal. Não se sabe se quis tirar nabos da púcara. Tipo: que detergente andam a inalar os formidáveis portugueses?, ou será que esse povo encantador aplica gel sanitário directamente nos seus valentes pulmões?
É que Trump Lexivias é um grande especialista em pandemias, mas a gente anda sempre a aprender uns com os outros. E, facto, Trump Lexívias é um estupendo ser humano, mas enormemente humilde. Nunca os EUA tiveram um presidente assim. Grandessíssima verdade. 
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sexta-feira, 1 de maio de 2020

Que a voz não te esmoreça

Era uma vez em Chicago. Gente que trabalhava de sol a sol lutou por uma existência mais digna. 

Foi violento. A polícia foi chamada. Doeu. Mas o resultado da luta daqueles trabalhadores fez-se ouvir pelo mundo inteiro. Ainda hoje se ouve. Desde então, as vidas de quem trabalha mudaram. Mas nada está assegurado. A extrema-direita ganha terreno. Conquistas e direitos estão a ser postos em causa por energúmenos sem escrúpulos. Há muito por fazer. Buscamos conhecimento, amamos, trabalhamos, fazemos por estar bem, porque queremos ser felizes em vida. Queremos viver. Bem. Ser felizes.
Vivamos o 1º de Maio, pois.

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quarta-feira, 29 de abril de 2020

Miguel Portas

Nasceu no primeiro dia de maio de 1958. Morreu na véspera do 25 de Abril de 2012. Já passaram oito anos. Conheci-o em 2009. Recordo-o agora na véspera do dia em que se assinala o seu nascimento. Recordação pessoal, só isso.

Um amigo comum, o Henrique Guerreiro, sugeriu ao Miguel que eu fizesse uma proposta de imagem para a campanha do Bloco de Esquerda. Vinham aí eleições legislativas. Miguel Portas era o director de campanha. Discutimos as ideias iniciais num jantar entre amigos, em minha casa. Miguel foi claro: "faz o que quiseres, mas que haja política e não falte alegria". Disse mais coisas que me fazem voltar com frequência à memória daquele jantar. Trabalhei horas seguidas no fim-de-semana que se seguiu. Trabalho unipessoal, em frente ao mac, e depois partilhado no ateliê. Proposta aprovada, e roda viva normal iniciada. O ateliê, na altura na Rua do Carmo, era diariamente visitado pelo Miguel, pelo Francisco Louçã, pelo Daniel Oliveira e pelo Pedro Sales. A Paulete Matos fez as fotografias dos candidatos. Trabalho frenético, como se imagina. Convívio enriquecedor.
Nas últimas horas antes do dia de encerramento da campanha, eu e o Miguel ficámos no ateliê a finalizar pormenores. Ao fim da noite, já cansados, percebemos que o nosso mal era fome. Fomos jantar. Saímos do restaurante às duas da manhã do dia seguinte com apetites de mais conversa e outros entretenimentos líquidos. Conversámos até quase ser dia. Percebi, ali a sós com aquele homem tão disponível para os outros, o entusiasmo que o abraçava quando a política é a vontade de resolver problemas e anunciar esperanças. Quando a cultura tem de ser autêntica e só faz sentido partilhada. Quando a solidariedade não é caridade porque é um dever encontrarmos respostas para o sofrimento. A compaixão é conceito filosófico contra o egoísmo. Percebi, naquele curto período de tempo, o carácter e a sólida cultura de alguém que só imaginava a vida vivendo-a com intensidade, alegria, solidariedade e vontade de dar a volta a isto. Diz que se chama Utopia, a esta vontade. Que seja, mas podemos fazer tanta coisa antes de nos aproximarmos da desilusão.
As eleições aconteceram. Os resultados surpreenderam. Fiquei com a ideia de que a intervenção do Miguel, como director de campanha, foi decisiva para a surpresa. Mas ele não parecia surpreendido. Vitórias e derrotas cimentavam-lhe o carácter. Só é derrotado quem nada faz para fazer valer as suas razões.
Outros envolvimentos lhe moldaram a intensa existência. Escreveu e publicou livros. Fez programas de televisão. Dirigiu publicações impressas. Foi eleito para o parlamento europeu. Sempre com a preocupação política por perto. Tudo é política, pensava. E tinha razão.
Entretanto íamos tendo encontros. Continuávamos a conversa anterior que acabava sempre no clássico: temos que combinar um jantar, para pôr a vida em dia.
Mas a vida parou para ele. Não foram possíveis jantares, nem copos, nem campanhas políticas. A memória do que podíamos ainda conviver deixa-me triste.
Foi muito bom conhecer Miguel Portas. Recordo-o com saudade. Tantas vezes me lembro do que pensaria disto tudo — deputados de extrema-direita no parlamento, Europa a afundar-se… — e adivinho uma possível resposta: isto acontece; temos é que fazer qualquer coisa. É o que fazemos. É o que o Miguel faria.

terça-feira, 28 de abril de 2020

A morte fica-lhes tão bem

Não tarda nada, este energúmeno organiza uma manifestação do seu povo contra o Supremo Tribunal de Justiça. 

E que tal fechar o Senado e o Supremo? Isso é que era. E depois fazer um "churrasquinho" acompanhado dos seus seguidores incondicionais. As famílias dos mortos que os enterrem. Ele não é coveiro de fracos que morrem com uma "gripezinha" ou um "resfriadinho". Ele é coveiro de uma nação inteira.
Fonte Expresso
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segunda-feira, 27 de abril de 2020

História simples e breve

Em 1976 saiu o álbum Com as Minhas Tamanquinhas. É o trabalho mais directamente político de José Afonso. Andam por lá denúncias, ironias, gozos tremendos. 

Quando José Afonso convidou João de Azevedo para conceber graficamente a capa do disco, havia uma grande distância a separá-los. João estava em Itália, Zeca em Setúbal. A encomenda foi feita com a tecnologia possível na época: telefone fixo. Zeca ligou ao João solicitando a tarefa. O briefing foi feito assim: Zeca cantarolou ao telefone a música que dá nome ao álbum e descreveu a ideia geral da coisa. Entendido o pretendido, João envia de Roma para Setúbal, por correio, o resultado final, com três hipóteses para escolha. A ilustração mantinha-se, mas os fundos eram à escolha do freguês Zeca. Um era azul mais ou menos turquesa, outro era num amarelo para o torrado, e a terceira escolha era o rosa que veio a ser escolhido pelo dito freguês. Esta história foi-me contada pelo João.
José Afonso ficou radiante com este trabalho. Disse-mo a mim. Eu também. E foi isto. Mais uma vez: muito obrigado, João.
Imagem: João de Azevedo e José Afonso em Roma. 1976. Ano de edição de Com as Minhas Tamanquinhas. Zeca foi a Roma em acções de solidariedade.
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domingo, 26 de abril de 2020

João de Azevedo | Homenagem

Alinhei estas palavras para a apresentação da última exposição de João de Azevedo em Setúbal. Foi na Festa da Ilustração - Setúbal 2019, ano em que José Afonso completaria noventa anos de idade. Repito aqui o texto, agora em jeito de homenagem

José Afonso escreveu e cantou músicas novas. Mudou o mundo da música portuguesa. Mudou maneiras de fazer música, de transmitir sons, de ouvir. Para a divulgação do seu trabalho gravado convidou competentes designers que foram vestindo os LPs que ía lançando para nosso prazer e sorte. João de Azevedo foi um dos convocados. Concebeu a capa de Com as Minhas Tamanquinhas. Convidámos o artista para alargar a ideia gráfica deste trabalho. Sugerimos que o título se mantivesse e que o trabalho fosse desenvolvido a partir dessa ideia inicial. Respondeu com entusiasmo. Em maio de 2015 fizemos a exposição na galeria da Casa Da Cultura | Setúbal. Agora, quando se assinalam os noventa anos do nascimento do poeta/cantor, renovámos o convite. Novos trabalhos serão acrescentados aos expostos há quatro anos. Depois de Linha Clara, de Cristina Sampaio, a Festa continua com João de Azevedo e as suas “tamanquinhas”. Será com esta exposição que evocaremos o aniversário de José Afonso, nascido em 2 de Agosto de 1929. 
Ícaro povoa estas superfícies de cor e inquietação. Os naufrágios das embarcações a abarrotar de gente que foge da fome e de ameaças várias, são há muito tempo preocupação do artista. João de Azevedo tem o mundo todo no lado de dentro das suas preocupações. Estas pinturas são interpretações de sentimentos, contando sempre com a experiência das histórias vividas. São maneiras de interpretar a realidade. Realidade preenchida de sofrimentos mas também de alegrias. 
Assinalamos a alegria de termos vivido no tempo de José Afonso.
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João de Azevedo

Morreu João de Azevedo. Sabia que estava doente, mas em recuperação. Esta notícia é um choque. 

Conheci João de Azevedo quando o convidei para desenvolver a ideia da capa do álbum de José Afonso Com as Minhas Tamanquinhas. José Afonso convidou-o para tratar da imagem da capa deste seu disco quando o João estava em Itália. Décadas depois convidei-o eu para fazer "mais capas" das "Tamanquinhas" para mostrar na Casa Da Cultura | Setúbal. A exposição foi uma surpresa. O empenho do artista em homenagear o seu amigo Zeca revelou-nos trabalhos de excepção, e transformou-se numa das exposições que me deram mais gosto preparar. Ficámos amigos. Muito amigos. Um dia iremos recordá-lo como ele merece. Não consigo dizer mais nada. Só isto: obrigado, João.
Imagem: visita de Zélia Afonso à galeria da Casa da Cultura, aquando da montagem da exposição.
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