sábado, 11 de abril de 2026

María
Emília Brederode Santos 
foi uma daquelas mulheres que marcam os lugares e as pessoas que com ela conviveram. Foi percursora como pedagoga e como política. Dirigiu instituições ministeriais. Fundou maneiras de ensinar. Com Ana Maria Bettencourt tratou de tudo para a criação da Escola Superior de Educação de Setúbal. A Educação e a Cidadania (assim, em caixa alta) devem-lhe muito. Portugal deve muito a esta Mulher (em caixa alta, claro) que foi grande em tudo o que fez.

Permitam-me uma nota pessoal. Conheci Maria Emília ainda Medeiros Ferreira estava entre nós. Conheci Medeiros Ferreira pelas nossas opiniões nos blogues: ele, no Bichos Carpinteiros e eu, no BlogOperatório. O primeiro encontro com Maria Emília e Medeiros Ferreira foi bem disposto e com motivos para continuarmos a conviver. Convivemos. Maria Emília era de uma simpatia contagiante. Uma mulher alegre e bem disposta que revelava coisas novas em cada conversa. Depois da morte do marido continuámos a encontrar-nos por aí em lançamentos de livros de amigos, exposições e outras combinações culturais e políticas em defesa desta tão frágil democracia em risco. Ela estava preocupada com a nova balbúrdia fascista. A última vez que estivemos juntos foi em janeiro, em casa de amigos. Daí a dias íamos todos votar contra essa balbúrdia. Votámos. Ela ainda votou, é claro. Penso que terá sido o seu último contributo político em defesa da democracia e da liberdade.

Eu gostava muito da Maria Emília Brederode dos Santos. Tenho a certeza que mesmo quem não a conheceu, se a tivesse conhecido, teria a minha opinião. Era uma mulher admirável. Um ser humano excepcional. Muito Obrigado, Maria Emília. Foi bom viver no seu tempo.
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Quando a corja topa da janela

São o que for preciso. Uns apoiam Trump, outros Putin, outros Trump e Putin e outros não sabem muito bem o que fazer para ter apoio e palco. O palco é a uma tentação que lhes dá visibilidade e que lhes poderá dar poder, pensam (pouco e mal, mas pensam). Todos são contra a imigração. Todos são por "nós primeiro" e os outros todos que vão para longe, para a terra deles, que cada um nasce onde nasce porque foi deus que assim o quis.
Há os mais discretos e há os espalhafatosos. Avançam e recuam em discursos de ódio, conforme recomendam os barómetros eleitorais. Ainda respeitam esses condimentos democráticos, mas só pensam em acabar com esses empecilhos ao restabelecimento da nova ordem fascista. Trump está a tratar disso lá na terra dele. Tudo está a fazer para condicionar o voto democrata, e até já fala em continuar ao leme mesmo depois do permitido, mas sem dizer o que tenciona fazer para manter a embarcação nestas águas turvas. A maçada das eleições pode dar lugar ao descanso da ditadura.
O fim da democracia dava muito jeito. Meloni não quer imigrantes. Meloni quer imigrantes. Em que ficamos? Ficamos com os imigrantes que nos servirem, os outros que vão morrer longe, no mar, quando tentam salvar a pele e matar a fome. Solidariedade? Humanidade? Que marcas são essas? Podem comercializar-se?
Em Portugal calhou-nos o maior dos pantomineiros. Utiliza a opinião como quem usa um lenço de papel que depois deita fora com a opinião lá assoada. Um nojo. Responde com mentiras e pergunta mentido. Tudo pode mudar de manhã para a tarde, e, se o dia for longo, ainda faz serão. A mentira e o dislate podem ser usados quando o homem quiser.
Nas chefias das extremas direitas sempre existiram os corruptores e os corruptos. Trump, por exemplo, não imagina que existam diferenças entre gerir uma firma e governar um país. Governa os EUA com se fosse uma empresa imobiliária e de serviços com sede na sua propriedade. Toda a sua família faz negócios a partir da Casa Branca. Estes espécimes inventados por um qualquer deus menor foram agora apoiar o seu corrupto amigo húngaro. Motivo: está em maus lençóis. Os que detêm o poder querem mantê-lo e os que têm sede e querem chegar ao pote (Lembram-se desta tirada magnífica?) fazem o que for preciso para lá chegar. Se for preciso até partem o pote. E se o pote for de petróleo... Venha a nós. O filho mais novo do candidato a ditador americano que o diga. Resumindo: a alternativa na Hungria não é flor que se aproxime de nariz mais sensível, mas é o que os húngaros têm para já no mercado eleitoral como alternativa ao candidato a poder perpétuo. Saiu do mesmo ninho de víboras, mas diz que vai ser diferente. Eles dão-se como as cobras porque são maus como as cobras. Há ali uma vontade reptiliana de atacar, matar, eliminar. Estão organizados em bandos de malfeitores. São malfeitores.
O Sérgio (Godinho) convidou os seus amigos Adriano, Fausto e José Afonso para participarem no seu álbum Campolide (1979), escrevendo e cantando uma quadra (ao gosto popular, como às vezes se diz) da autoria de cada um. José Afonso escreveu e cantou esta: "Disse-me um dia um careca/Quando uma cobra tem sede/Corta-lhe logo a cabeça/Encosta-a bem à parede". Enfim, metáforas.

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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Os novos vampiros

 
Dino Risi, Ettore Scola e Mario Monicelli descobriram OS NOVOS MONSTROS, em filme notável que mostra onde leva a indiferença humana face à solidariedade. Os novos políticos neoliberais trazem esse espírito para a política. A insensibilidade social é de uma agressividade fora da lei O imobilismo de quem se encosta ao que se pensa inevitável ajuda. São os novos vampiros. José Afonso nunca nos abandonou. 
 
Seguro diz que vai avisar, vai alertar, vai ver o que se passa. Mas vai ser discreto. Não quer incomodar muito. E não passa disto. As pessoas ficam assim descansadas até à próxima visita. Sobre a nova lei que os patrões querem impor à razoabilidade, Montenegro declarou que tem em conta os alertas do senhor Presidente (avisador) da República, mas acrescenta que a concertação social pode querer uma coisa e o parlamento outra, e o parlamento é que conta. Claro que o homem está perfeitamente descansado. Passos Coelho não precisa de se esforçar com mais apelos laterais. O partido fascista está lá para ajudar a aprovar o bafio que emana da política bafienta. No governo mais tecnicamente incompetente em democracia, o primeiro-ministro adota a linguagem totalitária que o seu aliado mais à direita tanto aprecia. É mentiroso, farroncas, impostor e incompetente. Três salazares? Para quê? Já lá está um Luís e um André. O resto faz-se devagar, com a ajuda dos estribeiros do Chega que estão a ocupar os lugares lustrosos da nação.
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quinta-feira, 9 de abril de 2026

O invertebrado holandês

O secretário-geral da NATO é já considerado o mais destacado invertebrado da política contemporânea. Bajula Trump, absorve mordomias e dobra a espinha por qualquer ditador ou corrupto poderoso. 
 
Tem cara de estúpido, porta-se como se o fosse e até parece mesmo que o é. Mas provavelmente não o é. É apenas um videirinho que se meteu na política porque viu que aquilo até dava para viver bem desde que se tivesse a capacidade de dobrar a coluna até 90 graus. Sempre houve gente assim, mas agora está a haver em excesso. A gente vira-se e lá está um a dizer coisas. O mundo parece um circo dos arrabaldes. Os ilusionistas pediram licença para negociar. Os palhaços ricos ficaram na tenda a dar ordens.
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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Rezar na era da técnologia

As religiões adoram o fim da vida. Depois disto é que vais ser. Isto é só uma passagem. Isto está tudo na Bíblia, e no Corão e no raio que os parta. São imortais, estes mortais. Nós, os que incréus, os hereges, os que não temem divindades de fantasia, estamos condenados. Espera-nos o inferno. Ainda bem que houve um Papa que acabou com o purgatório. Ainda bem que as leis eternas são decretadas pelos mortais, que asim se protegem de ir lá parar. O purgatório era do piorio.

Ainda bem que seres humanos (será que o são?) que decretam os fins das heresias, se combatem entre si. Crentes contra crentes. Os deuses certificam-se em diferentes conservatórias, parece. Uns têm agora um representante na terra, que decreta a partir de uma Casa Branca a brancura plena do planeta. O fim de quem não o adora. Gasta fortunas em armas tecnologicamente avançadíssimas e duplica a sua pessoal. Matar anima a economia e desenvolve a tecnologia. Sim, estamos perante um pretendente ao trono de Deus. Um louco imbecil foi ungido. Até anuncia o fim de civilizações culturalmente riquíssimas só porque lhe apetece. É venerado por uma chusma de crentes enfurecidos. O Senhor esteja convosco. Tenhamos medo. Muito medo.
 
O muno inteiro regressa à crença, dizem alguns cronistas. Informam-nos da mudança de paradigma e anunciam a razoabilidade do irrazoável. As guerras servem para as conquistas entre deuses enraivecidos. As guerras são excelentes. Dão dinheiro. No Brasil um está preso, mas a língua portuguesa está bem representada. Em Portugal o enviado de um deus maluco tem o seu representante sempre aos berros contra tudo o que não aprova, que é tudo o que é recomendável. Contra o outro, o diferente, o que pensa melhor do que ele. E já manda nisto de braço dado com quem diz que manda à séria e que faz tudo bem, e que nunca ninguém fez melhor. Estão todos a ficar como o "amaricano". Estão bem uns para os outros. Há quem diga que é mesmo contra o Cristo. Há agora um Crito nacional, nacionalista mesmo, que se pensa ele o preferido de Deus pai. Vem nas redes sociais. Ajoelha-se sempre que vê uma cruz. Presta contas ao pai, com toda a certeza. Mas isto dizem-me, não confirmo nem desminto. Que fiquem com Deus e que Deus os proteja.
 
O mundo está doente com estes doentes ao leme. Há quem diga que isto não é problema religioso. De facto não é. O problema religioso é uma vantagem económica para eles. Mas eles querem tudo. A economia e a política com poder lá dentro. A religião é o envelope que guarda a pouca vergonha que ainda não querem mostrar. Mas cada vez mais o envelope esgaça. A vergonha escorre desse embrulho em jorros de sangue que não é o deles. Eles têm os fiéis que os seguem cegamente. Apelam à liberdade, como se as regras da democracia fossem empecilhos à liberdade deles. Os fascistas regressaram sem vergonha. Os nazis já se saúdam como romanos de outros tempos nas arenas da superioridade. A religião ajuda muito os arautos da fé. Todos querem ir para o reino dos céus, mas pelo sim pelo não vão orando para que o seu corpo se mantenha por cá muito tempo. De preferência o tempo que for preciso para ganharem muito dinheiro. Talvez o alarve que tem a profissão de "homem mais rico do mundo" já esteja a preparar a abertura de umas filiais bancários no reino dos céus. Essa massa toda não pode ficar assim ao deus dará, não é verdade.
 
Imagem: cartoon de André Carrilho
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domingo, 5 de abril de 2026

O cheiro da Liberdade (2)

A música foi a primeira das artes a despertar-me os sentidos. Claro que até aos doze anos ouvi o Festival da Canção com o entusiasmo de um parolo em crescimento. Mas o entusiasmo foi esmorecendo até que, a partir do momento em que passei a frequentar a revista Mundo da Canção, toda a cantoria vociferada em Portugal, pelos cançonetistas portugueses que só ouvia por descuido, foi atirada para o lixo. João Paulo Guerra chamou nacional-cançonetismo a esse insuportável ruído, em trocadilho com as premissas ideológicas nazis. Bem achado. Toda aquela algazarra sonora metia nojo. A publicação de o Mundo da Canção, e mais tarde de o Musicalíssimo, permitiram-me que acedesse a outros sons. O nome de José Afonso apareceu-me impresso pela primeira vez nestas publicações. Passei também a pedir documentação a embaixadas de países livres e civilizados. Também por aí fui tendo informações apesar de bem longe do pretendido. 

Antes de Abril de 1974 comecei a ouvir outros sons graças ao Mundo da Canção. Achava o nome da revista foleiro, mas era o que havia, e o conteúdo era apreciável, apesar da forma.  O Musicalíssimo surgiu depois, já em liberdade: em liberdade muito do que tínhamos ansiado passou a ser concretizado. Os jornais tinham bons suplementos culturais e surgiu imprensa de referência com especificidade cultural: o Se7e e o Blitz são apenas dois exemplos, mas também o JL esmiuçava curiosidades com substância. Até passámos a ter acesso à imprensa cultural estrangeira. A Interview, de Andy Warhol e Wilcock, surpreendia e animava. Mais tarde, em finais dos anos 1980, toram aparecendo por cá outras publicações incríveis, com grafismos fora de tudo o que era feito até aí. The Face e Arena marcaram-me, pelo conteúdo e pelo embrulho gráfico. A City informou-me e a The New Yorker deu-me asas. A sério, aquilo faz-nos voar. Ainda hoje. Guardo resmas destas publicações únicas, agora valiosas. 

A Arte que experimenta foi preenchendo os meus ouvidos e cérebro. A literatura com as palavras que interessam foram guardadas nas estantes que eu próprio desenhei e até construí. Prefiro a surpresa ao imobilismo. É isso que exijo a mim mesmo. Voltarei a este assunto nestas conversas sobre Abril que tenciono publicar durante todo este mês. Bom dia de Abril. Até já.

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sábado, 4 de abril de 2026

O cheiro da Liberdade (1)

Abril das mentiras e dos proverbiais auspícios de chuva deixaram de definir este tempo de liberdade. Para mim Abril é mesmo o do dia da Liberdade. Levantei-me como habitualmente, mas fui interrompido no trajeto entre o quarto e o duche pela minha mãe. Hoje não vais ter aulas, decretou. Percebi de imediato. A televisão passava música sinfónica e Fernando Balsinha divulgava um comunicado do Movimento das Forças Armadas. O meu pai já tinha saído e eu saí logo de seguida, deixando a minha mãe em cuidados. Era puto, mas já tinha vontade de ver coisas, como é natural num puto.

Fui direitinho para a Praça Bocage, onde já havia muita gente. Foi aqui que ouvi pela primeira vez um discurso político em liberdade. Aliás, se não há liberdade não há discurso. O discurso que ouvi foi lido por Carlos Jorge Luz, jovem militante antifascista que se tornou meu amigo, e mais tarde prestigiado professor na área das matemáticas. O discurso do Carlos Jorge despertou-me e entusiasmou-me. Os dias seguintes foram um desassossego. Tudo mudou em horas. Tudo era possível. Começámos a ter acesso a tudo o que nos era até aí inacessível. O dia 25 de Abril de 1974 marcou o início da minha vida adulta. Eu era um adolescente com a curiosidade a libertar-se por todos os poros. Uma alegria imensa misturada com luta política e procura de conhecimento. Nunca seria o que sou sem a descoberta das coisas boas da vida, que para mim eram o acesso à cultura alternativa: ao teatro, à música que o fascismo proibiu, aos livros que valem a pena. 

O café Tamar era o sítio onde a malta se encontrava. José Afonso, que eu conhecia como símbolo, cruzou-se um dia comigo e sentou-se bem perto, numa das mesas. Conversávamos de umas mesas para as outras, com o à-vontade que a situação permitia. Lembro-me da primeira conversa que tive com o Zeca. E acho que me lembro de quase todas as outras. O conhecimento de José Afonso e da sua obra mudou a minha vida para sempre. O 25 de Abril foi iniciado por uma música de José Afonso. O meu 25 de Abril é essa música e é José Afonso. Sempre.

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Elogio do Vinho


Gosto de vinho. Gosto de ler sobre vinho. Gosto do gosto do vinho. Sempre associei o vinho a outros conhecimentos. A ligação das cepas aos seus terrenos, ao ambiente, às tradições que envolvem os trabalhos vitivinícolas. 

 
Tive bons mestres. Percebi as escolhas de José Quitério nos seus imperdíveis textos no Expresso. Mais tarde conheci David Lopes Ramos, que me ajudou em algumas escolhas e com quem tive saborosos almoços gastronómicos e coloquiais. Fui muitas vezes com o António Mega Ferreira ao Isaura, na rua de Paris, onde o dono era escanção. Aprendi lá muito. O Mega Ferreira chegou a ter uma crónica no Independente sobre restaurantes, onde associava a prosa gastronómica a livros e outros objetos culturais, onde o vinho era tratado como produto de cultura. Habituei-me a gostar de vinho sem os tropeções provocados pelo excesso alcoólico. Fiz o meu caminho. Vou bebendo e aprendendo. Aprende-se sempre. Não acho graça nenhuma à associação que se faz do vinho a cantores manhosos, por exemplo. Será que a ignorância cultural pode ser associada a um bom vinho? Cada um sabe de si. Eu não creio, mas não confirmo nem desminto. De qualquer maneira: afastem de mim esse cálice.
 
Abordo aqui este assunto por causa da crónica de Pedro Garcias no Público — Fugas — de Hoje. O Público é para mim uma academia de topo de frequência diária. Estão lá instalados os melhores cronistas que a pátria alberga. Claro que muitos já foram aqui mencionados. Alguns são até meus amigos. Não conheço Pedro Garcias pessoalmente, mas já é muito cá de casa. Aparece por aqui todas as semanas. Os sábados são dia de Fugas no jornal. As crónicas ELOGIO DO VINHO servem o precioso líquido como ele deve ser servido: envolto em ambiente exigente, com cultura, gosto e abordagem social. Hoje, o cronista resolveu falar de algo que o impressionou: a peça CATARINA E A BELEZA DE MATAR FASCISTAS. O autor arranja sempre maneira de abordar situações que vão para lá das vinhas e dos trabalhos vinhateiros. Isto anda tudo ligado. A opinião sobre o trabalho de Tiago Rodrigues escorreu para as páginas do jornal em letra de forma e de forma notável. Termina com uma sugestão ao ministro da Educação: "A peça devia ser exibida em todo o país e em todas as escolas do ensino secundário e superior. Se o ministro da Educação quiser fazer alguma coisa pela educação cívica e a democracia, já sabe". 
 
A leitura do texto de Pedro Garcias deve ser acompanhada por um bom vinho. Pode ser um alentejano, em homenagem a Catarina. Ler Pedro Garcias é um gosto. Celebremos a inteligência e a sofisticação engarrafada. À nossa.
 
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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Velhos são os trapos

A Constituição da República Portuguesa fez 50 anos e houve discursos, evocações e celebrações. Os primeiros envolvidos estiveram lá e deixaram-se fotografar. Esta fotografia emociona porque se percebe que, apesar das bengalas e da floresta de cabelos brancos e até da falta deles, estas pessoas estão bem vivas e despertas para a necessidade de estarmos com os olhos bem abertos. 
 
Isso mesmo foi percebido durante os discursos. Estas pessoas foram insultadas por um energúmeno — um mentiroso sem escrúpulos que assume o triste papel de líder dos fascistas — que gritou e esbracejou contra os ideais da decência. Houve antigos deputados que se sentiram insultados ao ponto de terem de abandonar aquele recinto transformado pelo inenarrável fascista em circo rasca.
 
Fica então aqui esta fotografia que testemunha a decência. Foi gente decente que escreveu e publicou a Constituição da República Portuguesa em 1976. Bem hajam. E muito obrigado, senhoras e senhores deputados e constitucionalistas.
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quinta-feira, 2 de abril de 2026

SG gigante


Há quem refira a Sérgio Godinho assim. Mas o Sérgio gosta mesmo é de estar com pessoas, sem gigantismos quixotescos. Foi o que fizemos hoje, na Snob. Conversámos, lemos, bebemos vinho e até cantámos. Foi tão bom estar ali. O espaço exterior desta livraria é tão agradável. Vamos continuar a andar por lá. Aprebndemos e divertimo-nos. Isso é bom. Obrigado a quem esteve e até breve. 

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Receituário

 SÉRGIO GODINHO, HOJE NA SNOB | Bom dia, é só para lembrar que é hoje que a Rosa (Azevedo) e eu vamos estar à conversa com o Sérgio (Godinho), que dispensa apresentações e que nos falará sobre o seu mais recente livro, que são histórias sobre a morte que, logo após leitura de uma delas nos deixa mortinhos por ler todas. E podem ser lidas sem se respeitar a numeração de página, assim como se lê o Livro do Desassossego, do outro.
Então, vá, apareçam por lá. Um bom dia dos 50 ANOS DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA para toda a gente. Celebremos. Merecemos.

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São as regras da democracia, estúpido!

A Constituição da República Portuguesa celebra hoje 50 anos. Foi aprovada pelos partidos que participaram na institucionalização da Democracia. Hoje é um instrumento fundamental para a sua defesa. Os novos fascistas só pensam em destruí-la. Os novos fascistas que tentam instalar o ódio racista, misógino e xenófobo. Contra os que querem subverter as nossas regras, respondemos com as regras da solidariedade e da decência democráticas. Derrotámos os velhos fascistas. Derrotaremos também os novos defensores das ideias velhas tristes e odiosas. Responderemos com a inteligência democrática, com solidariedade, tolerância e decência. É assim que se pratica a liberdade. Este dia merece ser celebrado. Um bom dia para toda a gente.

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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Homenagem


ARMANDO ALVES
Morreu Armando Alves. Partiu de Estremoz para Lisboa e depois para o Porto, onde estudou, trabalhou e ficou para sempre. Fez parte do famoso grupo Quatro Vintes, com Ângelo de Sousa, Jorge Pinheiro e José Rodrigues, devido à nota que alcançaram no curso de pintura. Pintou, e bem, mas foi no design gráfico que se destacou. Activo na intervenção cívica, foi uma das minhas grandes referências como artista e como ser humano. Guardo com todos os cuidados muitos trabalhos que idealizou. É mais um dos grandes nomes da cultura contemporânea que nos deixa. Muito obrigado, Armando Alves. Foi bom viver no teu tempo.
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Mário Viegas


Morreu já lá vão 30 anos. Percebi isso agora porque esta traquitana me informou do que aqui publiquei há 10 anos. Apetece-me repetir a cena: Foi bom tê-lo por cá. Mas faz falta. Fazem sempre falta os que acrescentaram qualquer coisa à normalidade dos dias. Lembremos Mário Viegas. Sempre.

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segunda-feira, 30 de março de 2026

Racismo não é opinião

O mais desbragado racismo está a invadir a sociedade. As escolas são pasto para gente sem escrúpulos que exibe o seu primarismo cultural em ofensas agressivas sem qualquer fundamento. Um destacado influenciador de extrema-direita, do grupo Reconquista (reconquista de quê?) aparece num vídeo publicado nas suas redes, e trespassado em delírio pelos seus pares, em recalcitrante denúncia do diretor do Agrupamento de Escolas José Saramago, com sede no Poceirão, concelho de Palmela. 

Esse esforçado aliado do partido de extrema-direita que tem sessenta deputados no parlamento, mente com todos os dentes que tem na boca e bigode e tudo. Diz o rapaz que estamos perante a primeira escola muçulmana do país, onde são estimulados os cultos correspondentes. Para se pensar que o que diz é verdadeiro, regista o nascimento do diretor da escola em território indiano, quando se trata de um português nascido em Moçambique. A espoleta para a "denúncia" pelo inenarrável nacionalista foi uma missiva interna enviada por correio eletrónico para todos os professores da escola, sugerindo que as confissões religiosas de todos os alunos fossem respeitadas. Ora, o que o diretor desta escola fez é o que o respeito por todos os cidadãos exige. São as leis de um estado laico e republicano. São regras que existem em Portugal e em todo o lado onde há regras. Na escola José Saramago o natal cristão é assinalado e celebrado. Esta escola preenche as suas salas com alunos de mais de vinte nacionalidades. As diferenças constituem riqueza civilizacional. O convívio entre pessoas diferentes sempre trouxe inteligência e progresso às populações que respeitam e estimulam esse convívio. Vive-se aqui em zona de grande atividade vitivinícola e de outras agriculturas, onde muitos imigrantes vivem, trabalham e têm o direito e o dever de educar os seus filhos. As entidades políticas regionais sempre respeitaram as pessoas e os seus credos. E quem não tem credo também sempre viveu aqui bem.

Com a conquista eleitoral da junta de freguesia pelo partido de extrema-direita a coisa mudou de figura. Percebemos que existem por aqui muitos racistas ressabiados que ainda não perceberam (nem nunca perceberão, já percebemos) as vantagens do cosmopolitismo. Esta região tem todas as condições para dar esperança a um civilizado ambiente de tolerância e solidariedade, mas a entrada do partido racista em cena alvitra momentos de uma tensão que recupera valores de outros tempos. Eles até já têm Salazar como modelo a seguir. Foi o chefe que o disse no parlamento e onde o quiseram ouvir. Quer três deles, ou mais. "Nem três salazares chegavam...", disse, como se o promotor de corrupção oriundo de Santa Comba Dão fosse um exemplo de exemplares justiças. Enfim, tristezas. Mas há mais: o executivo da junta de freguesia não tem orçamento para as comemorações do 25 de Abril. A verba habitualmente destinada às comemorações da Liberdade passa a ornamentar o 10 de Junho. Independentemente do ridículo da opção, sobra para avivar a nossa curiosidade a programação política: será que vão organizar desfile militar no dia de Camões e das Comunidades Portuguesas? Irão ser disparadas as armas e os... Canhões assinalados? Sim, porque ler Camões não sabem. Se o soubessem ler, e se o lessem, não eram racistas. Mas esta gente sabe lá ler e escrever?!

Racismo não é opinião. É crime. Estes apologistas do ódio apelam ao crime.

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domingo, 29 de março de 2026

Sem ilusões

 
Muita gente minha amiga criticou-me por ser excessivamente intolerante. A nomeação de um inspetor da Judiciária para ministro da administração interna não me provocou qualquer simpatia pelo homem, porque nunca me provocaria especial emoção a colocação de um polícia no lugar de ministro em governo de direita extrema. Se aceita ser ministro é porque concorda com a mentalidade governamental. O polícia foi um bom polícia, mas como ministro de um governo tecnicamente incompetente vai continuar a ser um bom polícia, com as mesmas opiniões sobre a inexistente criminalidade eimigrante, ou vai concordar com o seu colega Leitão Amaro, que quer manter imigrantes presos durante mais de quinze meses só porque sim? As prisões não são da responsabilidade do ministro da administração interna? O fantástico ministro/polícia já se demarcou da atitude do inenarrável ministro da presidência do conselho de ministros?
Não estou desiludido, porque nunca me iludi. Mas estou curioso: já há desilusões por aí?
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Se te queres matar, porque não te queres matar?

Álvaro de Campos. Obras de Fernando Pessoa
 
Este título do poema de Álvaro de Campos parece ter sugerido o mote ao autor deste COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ. O autor é Sérgio Godinho, conhecido por saber dar música às palavras que nos esclarecem sentimentos e atitudes, mas que também as usa para fazer literatura. Este livro tem paginadas quinze histórias que abordam situações limite. O que leva alguém a cometer suicídio? Ou quase, vá? As respostas podem ser muitas. As histórias deste livro revelam várias hipóteses de escolha. São histórias que nos agarram. Perturbam, angustiam, aliviam a curiosidade e acabam em finais que vserão descobertos por quem as ler.
 
Vamos conversar com Sérgio Godinho — eu e a Rosa Azevedo — na primeira edição desta nova iniciativa que junta a livraria SNOB, que também é editora (ou será ao contrário?) ao atelier DDLX, que é mais imagem, design de comunicação e outras artes. Vamos falar sobre este seu livro e também sobre os outros, e talvez ainda haja tempo para conversarmos um bocadinho sobre o que é que isto tudo tem a ver com a sua vida na música. A livraria SNOB é ali entre a Estrela e o Rato (muito perto da Assembleia da República, que neste dia 2 de Abril comemora os 50 anos da Constituição de Abril), e é uma das mais competentes livrarias da capital da Pátria. 
 
O convite está feito. Eu não vou faltar, por razões óbvias e menos óbvias: não faltaria mesmo que não estivesse assim tão diretamente envolvido. Conversar com Sérgio Godinho é sempre um gosto. Até lá.
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sábado, 28 de março de 2026

Mestres de Teatro


POTNIA THERON, quer dizer, em grego antigo “Senhora dos animais”. A peça foi escrita por Hélia Correia, encenada por Maria João Luís e levado aos estrados pela encenadora e por Sílvia Figueiredo. No Dia Mundial do Teatro esteve em Palmela, no Teatro São João.

É uma interpretação da condição feminina, pela voz e corpo de duas mulheres que assumem personagens do teatro grego, como se estivéssemos num anfiteatro natural ouvindo aquelas palavras tão antigas, mas tão contemporâneas porque assentes em razões que nos fazem refletir. Percepções femininas que se envolvem nas histórias da História. As palavras que Hélia Correia alinhou são de uma beleza envolvente, de facto, que nos colocam num lugar de prazer e inquietação. Palavras que são denúncia e irónica revolta. Palavras inteligentes e lúcidas, portanto. Assistimos a uma performance que tem muito de experimental. Única, por isso. A cenografia criada por José Manuel Castanheira integra-nos nesse anfiteatro, na colina onde nos encontramos, mas aplicada pelas possibilidades de hoje. Estamos bem, nesse ambiente sofisticado de requinte visual. Música original de José Peixoto. Bela música.
Anda por ali muita gente destas lides. Até parece que Bob Wilson passou por lá e se sentou ao lado de Philip Glass. É bom termos vivido no tempo dos melhores. Lembrei-me de Jorge Silva Melo e da alegria que ele sentiria se ali estivesse. Teatro clássico e contemporâneo foram celebrados. Quem quer estar com a cultura que se inquieta e que nos desperta os sentidos assistiu a um grande momento de Teatro. Aprendemos sempre com grandes mestres. Parabéns, Maria João. Parabéns Teatro da Terra. E obrigado a todos os que nos proporcionaram este momento, também se usa.


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sexta-feira, 27 de março de 2026

Informação de rotina

Novo líder supremo do Irão diz ter sido informado pelo MOIS (Ministério da Inteligência e da Segurança Nacional), de que presidente dos EUA é atrasado mental.

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