segunda-feira, 11 de maio de 2026

Do arrojo...

Montenegro diz que país precisa de “sindicalistas com arrojo”, criticando "sindicatos do século XX". Estruturas ultrapassadas, sugere. Notícia da LUSA

O homem julga estar muito à frente, coitado. Foram os sindicatos do século XX que lutaram para que os trabalhadores o fossem com direitos e deveres mais compatíveis com as funções desempenhadas. Montenegro e os seus amigos neoliberais e até os descarados fascistas querem regressar ao século XIX, onde o valor do trabalho estava ao nível da sobrevivência apenas. Esta gente não está muito à frente, como parece fazer crer. Não há nada de novo no pacote laboral. É tudo velho e serôdio. Charles Dickens, que nasceu em 1820, e que viveu observando a Revolução Industrial, escreveu os livros que esta gente não leu,  e que descrevem tão bem o tempo a que querem que o mundo dos trabalhadores regresse.

A Greve Geral que aí vem tem de ser uma demonstração de força como o foram as grandes greves do século XX, que exigiram melhores salários, redução da jornada de trabalho, participação na política (todas as greves são políticas, estúpidos), e resistência ao autoritarismo patronal e governamental. E aconteceram para que hoje as pessoas que trabalham tenham direitos considerados normalíssimos: férias pagas, segurança no trabalho e negociação coletiva. Resistir, é preciso.

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 DA SÉRIE GRANDES CAPAS |  Imagens obtidas do site de José Simões: mistérios do organismo.




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domingo, 10 de maio de 2026

Aos domingos - Elogio do supérfluo

CONTRA O ESQUECIMENTO - Elogiando o que muitos desvalorizam. Hoje só se dá importância ao sucesso pessoal, à obstinada carreira profissional, ao poder do dinheiro, ao que é caro porque é caro. O lazer, a curiosidade intelectual, a contemplação das coisas simples, são ideias ultrapassadas colocadas nas caves do esquecimento. 

É o elogio das coisas boas da vida que se pretende fazer com estes relatos de domingo. A felicidade está nas ranhuras das coisas que ficaram para trás. É percebendo o que foi feito que ficamos mais apetrechados para fazermos o que queremos e que nos traz bem estar. A nossa vida pode mudar perante a descoberta de uma nova ideia na Arte. Ou mais esmiuçadamente na literatura, na natureza, na música, num objecto de design, numa pintura, num livro, numa atitude transformadora. 

Vivemos com o corpo todo. Olhamos, ouvimos, lemos, usamos os sentidos para nos esclarecermos, e resolvermos problemas, para nos sentirmos melhor. Vamos lá falar do supérfluo sem peias, mas com rigor. Vamos falar do que não nos alimenta fisicamente, nem nos agasalha, nem nos enrica. O que observamos tem autor. O que fazemos tem as marcas do trabalho de muita gente que viveu antes de nós e que se preocupou em nos deixar uma vida melhor. Falemos do que nos traz felicidade. 

GERHARD RICHTER - Snow-White

Tem 102 páginas. Formato: 21,5X15 cm. Na capa o nome do autor e o título: Gerhard Richter Snow-White. À folha de rosto antecipa-se uma página em vegetal onde está impresso, a prata, o nome da editora/galeria: Waco Works of Art. Na badana que dobra vinda da contracapa foi inscrita a ficha técnica. 

Nem mais uma palavra. Ao todo são 100 trabalhos que reproduzem intervenções de Richter a tinta acrílica e lápis. Data de publicação: 2006. É o volume mais caro guardado no sítio dos livros arte da minha biblioteca. Literalmente o segundo mais caro, mas em comparação com um Tápiès quatro vezes maior, com o triplo das páginas e fartura de texto. Os livros de arte são caros. Facto. Mas este Richter provoca-me constantemente. Visito-o com frequência. Rentabilizado. Mesmo sem palavras diz-me tanto. E é-me tão caro.

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sábado, 9 de maio de 2026

Aos sábados - a espuma da semana

JUSTIÇA : O líder dos fascistas portugueses continua a lançar mentira e ódio por dá cá aquela palha. Quer mudar tudo, isso já se sabe, para que tudo fique a seu jeito. O ministro Luís Neves é por ele criticado porque fez o que se espera de um ministro da Administração Interna. Para o líder fascista os polícias que cometem crimes são bons polícias. Gente de bem, é claro. Ficamos a saber que Ventura apoia práticas desumanas sobre pessoas indefesas. O crime e a tortura ficam-lhe a matar. Uma sociedade dirigida por gente desta devia ser uma sociedade exemplar onde só cabem eles: os que dão as ordens e os justiceiros de bancada que aplaudem nas tabernas e nos casinos rascas. Entendido. 

RUMO AO SOCIALISMO - Cotrim de Figueiredo, o fascista caviar, alertou, num programa onde proliferam as atoardas e os dislates, para uma preocupante constatação: estamos rodeados de socialistas por todos os lados. Assegurou mesmo que Ventura é socialista. Com estes liberais no poder a contenda poderia ir ainda mais longe do que com os fascistas encartados do regime anterior. Já não são, como nesse hediondo regime, apenas os comunistas os inimigos. São todos os socialistas, toda a esquerda e quem a apoiar. 
 
ALFABETIZAÇÃO PARA ADULTOS - A líder destes "liberais mas poucochinho", veio também para os palanques defender a propriedade privada, propondo que essa falta seja acrescentada na Constituição da República Portuguesa. Percebe-se: ouviu o seu guru e ficou convencida que vivíamos num regime socialista coletivista sem possibilidade de se ter propriedade em nosso próprio nome. De facto a política está mesmo em estado de acelerada degradação. Hoje em dia já não é preciso os líderes de partidos com deputados eleitos saberem ler e escrever. Basta terem a coragem de alardear o disparate. 
 
FOI NA CIDADE DO SADO - O executivo municipal setubalense executa o seu programa que é assim como uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma. O projeto começou por ser anunciado como unipessoal, mas rapidamente resvalou para a esfera dos decisores próximos do governo. Não há aqui surpresa nenhuma. Não estamos sozinhos em lado nenhum. Temos que nos relacionar, obter apoios, fazer pela vida. O executivo municipal apoiou Marques Mendes para a Presidência porque Marques Mendes era o candidato do governo. Governo que se fez representar com ministros de peso na tomada de posse do executivo dito independente. O governo transladou para Setúbal a sua ética política. O partido fascista é parceiro nas grandes decisões. A mentalidade Chega já vinga em Setúbal, que se transformou numa cidade aparentemente sem ponta por onde se lhe pegue. A apregoada liberdade é agora limitação da liberdade de quem se quer defender. É estranho continuarem a evocar José Afonso, com plágios escultóricos simplistas e estúpidos, e com ridículas placas de madeira ostentando uma reprodução de uma fotografia do músico — adaptada sem menção de autores, como é moda láno burgo —, que oferecem sem que critério se perceba, até a antigos e orgulhosos combatentes. Talvez ouvirem "Foi na cidade do Sado" despertasse algum esclarecimento nas autárquicas mentes adormecidas.
 
HUMOR SEM SENTIDO - Trump continua a ser a anedota mundial diária. O problema é que a anedota é ele próprio, e continua na senda da destruição de tudo o que mexe com retórica de caserna com nunca se tinha visto. Este fulano é o autor de uma história de terror, que não sabendo ler nem escrever, faz política olhando para os bonecos. Um cretino poderoso sentado num sofá de um ostentoso mau gosto, exercendo o seu poder como se o mundo fosse um jogo do monopólio, não traz nada de bom adicionado.
SUMÁRIO - Vivemos tempos difíceis. Charles Dickens explicou o que o apoquentava a quem o quisesse ler. Foi há muito tempo. No tempo para onde esta gente quer voltar a viver, apesar de se apelidarem de paradigmas da liberdade e da justiça social. O tanas.


Imagens: Charles Dickens Museum - Londres. Aproveitar Londres antes de Farage vencer as eleições. Com me diz uma amiga inglesa, aquilo está a transformar-se numa "ilha maluca". E capas de Tempos Difíceis e David Copperfield. Relógio D'Água.
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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Do inacreditável


Ou talvez não. "Eu já sei o que você vai responder", "Não lhe dou a palavra, porque não lhe vou dar a palavra", "Porque isto é uma discussão política, e eu já sei o que vai responder". A presidente do alto do seu poder.

Aqui há um tempinho, em outra sessão de Câmara, um vereador fascista, que apoia o atual executivo camarário, já tinha ameaçado uma vereadora com pancadaria quando estivesse lá fora porque "vocês só falam aqui dentro". Ou seja: os atuais senhores camarários acham que não é ali que se faz política. Ali não se faz política; só ornamentos e folclore. 
 
Eu já tinha aqui dito que não voltaria a comentar nada que se passasse em Setúbal, mas esta cena não é coisa de província sem importância - é política contra a política, logo interessa-me, e eu gosto de comentar o que me interessa e me apetece. Para além da linguagem de estrebaria, a apologia da "liberdade" fascista (Umberto Eco sabia o que dizia) passa aqui a impedimento da liberdade evidente de quem a quer exercer. Isto é o que se passa na América de Trump. Eu sempre achei que a presidente setubalense tinha mais a ver com Trump e com a extrema-direita do que com o partido que a elegeu inicialmente. O gosto e os apetites artísticos são mais consonantes com quem quer cultura "popular". Mas a tendência para a aprovação da acção municipalista era contrária à minha opinião. As decorações eram fantásticas, o mau gosto era bom gosto e o Toy era mais ou menos um Frank Sinatra do Sado. Fui repreendido, insultado e injuriado. Sim, tenho razões de queixa. Com esta senhora, Setúbal mergulhou no patamar esponjoso do combate à cultura que se quer inovadora. É isso: que venham ornamentos, nem que seja em forma de cópia. Abaixo a surpresa artística e quem a defende. As permissões são disfarces. Quem ainda apoia esta coligação que quer De Volta não sei o quê deve estar com problemas cognitivos graves. Isto é elogio, porque o que penso realmente e desde sempre não cabe aqui neste lugar de excelso bom gosto renascentista. Teme-se o pior. Adeus, até ao meu regresso.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Que se lixem os fascistas e quem os tolera

 
Peço desculpa pela insistência. De facto muitos dos meus amigos acham um exagero a preocupação que demonstramos com o partido unipessoal de Ventura. Eu não acho isso e por isso insisto: Esta vontade de mudar o texto da Constituição é todo um programa, por exemplo. Parece que afinal o regime de Salazar e Caetano não era fascista, era apenas o regime vigente, ponto. Chama-se Rui Ramos à cabine de som. Rui Rio, venha daí que afinal não houve mesmo fascismo nenhum, foi só um regime "vigente" de extrema-direita, como disse. Ops, parece que não pode ser de extrema-direita, porque o partido de extrema-direita diz que não o é, apesar de o parecer. Entendam-se. Ou não, vão-se lixar. 
 
Pois bem, insisto: Ventura é um fascista e o seu partido é constituído por um grupo de cretinos sem classificação. Ventura só propõe palhaçadas e incongruências. É um palhaço sem tino aparente que apenas quer aplicar a sua vontade de suprimir e reprimir. Os aprendizes de fascista aplaudem em delírio. Até quando a estupidez os assistirá com sucesso na acção circense? As propostas de retrocessos são chocantes para quem preza a Democracia, o Estado Social e a dignidade de quem trabalha. Claro que políticos de direita e patrões reaccionários estão também acompanhados pelo partido dito de iniciativa liberal, já o governo parece um catavento: vira-se para o lado em que fica melhor no retrato eleitoral. Tempos difíceis que precisam de ser trazidos à baila. É preciso avisar a malta, como cantou José Afonso. É que há sempre quem se distraia, ou se faça distraído.
 
Imagem: "Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar", de João Abel Manta.
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quarta-feira, 6 de maio de 2026

O encalorado abstrato



É um encalorado cretino que inventa os afrontamentos. Não tem ideias. Inventa situações. Tudo o torna em anunciador de trivialidades transformadas em desgraçados fenómenos. Tudo aborda com um encalorado ridículo. Esbraceja denunciando o vácuo. Grita anunciando a revolta dos gambozinos. É um encalorado cretino que lança as labaredas para as poder borrifar com inflamados discursos de ódio. É um ser odioso.

Ventura, que já inventou uma festa de hamburgueres na Alemanha para poder criticar Marcelo; que inventou ataques em superfícies comerciais para poder arrasar ciganos; que inventou burcas nas mulheres portuguesas para sugerir a proibição de tudo o que não é como ele; que apoia quem tortura e estimula quem mata para dizer que é a toque de caixa que as coisas andam para a frente... Veio agora lançar uma vibrante denuncia que é de bradar aos céus. Diz a criatura que os anúncios ao consumo de carne foram proibidos nos Países Baixos para não ofenderem a comunidade muçulmana que é uma gente que não come tal coisa. O esclarecimento surgiu pronto e definitivo. Uma campanha ambientalista sugere e redução de consumos que minam o bem estar de todos. 
 
Ventura, o idiota que tem pesadelos com toda a gente que não reza o terço nem tem saudades de Salazar, diz coisas da boca para fora sem pedir licença à razoabilidade. A campanha é para respeitar os vegetarianos muçulmanos? Quem lhe terá dito que os muçulmanos não comem carne? Terá sido o seu veterinário de cabeceira? E o alarido que provocou foi para quê? Sinceramente não acredito que ele minta por descuido. E também não acho que seja assim tão ignorante. Das duas uma: ou avança com a mentira, sem rede, porque não tem paciência para se documentar; ou então sabe que é mesmo assim que os seus seguidores o querem - mentiroso, malcriado e mau. 
 

 

Imagens: cartoons de Vasco Gargalo. 

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terça-feira, 5 de maio de 2026

Agentes da insegurança

O exercício da força sobre quem já está enfranquecido é pura vontade de humilhar. Há agentes da polícia presos por praticarem essa vontade. Agentes sádicos, mal formados e sem ponta de noção do que é ser agente de segurança fazem o que entendem dentro das esquadras. 

Não, não são poucos casos. Estas práticas tornaram-se frequentes com o crescimento do partido fascista. Os elogios a práticas violentas são proferidos pelos idiotas que o dirigem e que vomitam opiniões nos meios de comunicação. O festival do disparate está ao rubro. O chefe da bancada parlamentar já disse com os dentes todos que tem na bocarra imunda que se matassem mais seria melhor. O chefe máximo, na algazarra com José Pacheco Pereira, defendeu a atuação da PSP e da GNR nos tempos da repressão fascista, e já veio agora atacar o ministro Luís Neves por este se preocupar mais com quem está preso do que com quem prende. A apologia do ódio é a profissão destes biltres. Esta gente quer mesmo o fascismo. São fascistas. É gente má. Se conseguissem os seus intentos prendiam-nos a todos. Presos é que estávamos bem. Este país ficaria um brinco sem gente antifascista de esquerda. Ficavam só eles, os direitinhas, muito alinhados, em fila romana, cantando e rindo e fazendo a saudação.

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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Seguro contra terceiros

Queria consensos mais alargados. A lei está minada de "marcas ideológicas do momento", assegurou. Mas passou à frente. Promulgou, com reservas, mas promulgou a lei aprovada pelos deputados da direita e da extrema-direita, que cada vez mais assumem juntinhos essas marcas ideológicas do momento.
 
A direita que se queixa a toda a hora das ameaças da ideologia, está contentíssima com esta decisão com marcas da sua ideologia. A ideologia certa (que não é ideologia, é o que tem de ser, dizem eles) marcou pontos. Até o líder fascista saiu em defesa do Presidente. Foi a primeira cavadela de Seguro. A próxima minhoca vai ser o pacote que quer levar o direito de quem trabalha à total falta de dignidade. Veremos se também vai promulgar a afronta, também com reservas.
 
Não votei em António José Seguro na primeira volta. Votei depois na definitiva e não estou disso arrependido. Mas sabia que o candidato que ia eleger não era de esquerda. Ele próprio afirmou-se incomodado com a conotação. Mas o candidato que se lhe opunha era um miserável que considera miserável a revolução que mudou as nossas vidas. Assistir a esta aliança entre "contrários" causa-me arrepios. As alianças entre quem não é carne nem é peixe com quem quer comer tudo são mesmo miseráveis. Até à próxima apólice. 
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domingo, 3 de maio de 2026

Sérgio Godinho em Palmela

No próximo dia 16, a Rosa Azevedo e eu vamos conversar com Sérgio Godinho. É mais uma proposta SNOB/DDLX, desta vez vai ocupar o espaço da Biblioteca Municipal de Palmela, e é incluída nas comemorações da Liberdade no concelho. 

Vamos falar do mais recente livro do Sérgio — COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ —, mas também de muito do que lhe foi acontecendo antes e depois da Abril. A ele e a todos nós. É por isso que este convívio vai ter literatura, música e muita conversa. Se calhar até vamos cantar e dançar. Tomem nota. Fixem o cartaz. Vai ser fixe. 

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sábado, 2 de maio de 2026

A Turíbia

Publiquei este texto no dia em que a Turíbia nos deixou. Já lá vão dez anos. Yourcenar escreveu "O Tempo, esse grande escultor". Apetece-me responder-lhe: o tempo, esse grande estupor. Mas claro que não podemos fugir a esta medida que nos molda e tempera. O tempo agarra-nos sempre e prega-nos grandes partidas. Corre e passa por nós em grande velocidade e leva-nos à frente. Mas tem tantas coisas boas. A vida é boa quando nos cruzamos com gente boa. Tenho tido sorte. As pessoas que me têm adoptado como amigo são as melhores. A Turíbia era uma miúda incrível. Dez anos sem ela. Estupor do tempo.

Aqui vai então o texto que publiquei no dia 2 de maio de 2016: 

Conheci a Turibia logo nos primeiros tempos da democracia. A liberdade estava ali à nossa frente e nós aproveitávamos esse privilégio. Naquele tempo ainda éramos eternos. Tudo era novo. Começámos a ler os livros, a ver os filmes, a discutir as ideias até ali proibídas. Agora era proíbido proibir. Convíviamos até às tantas. Petiscávamos fora de horas. Sempre a conversar. Sempre a descobrir coisas novas. O que a gente se divertiu a descobrir coisas novas. O Círculo Cultural de Setúbal era no local onde é hoje a Casa da Cultura. Pertencemos à nova animação da colectividade anti-fascista. Os menos novos tinham ido para os partidos, para as escolas, para os sindicatos e para outras instituições do novo tempo. Nós, mais novos, ficámos ali a inventar coisas. Chamámos realizadores, actores, cantores, escritores e outros animadores para nos darem uma ajuda. Conhecemos gente do caraças, não foi, Turibia? Bem contentes ficávamos com aquele convívio. Líamos muito. Ela lia tudo o que apanhava. Criou um gosto literário. Tornou-se exigente. Muito exigente. Agora só lia o que lhe preenchia os requisitos dessa exigência. Mas isso não era pouco. A curiosidade intelectual minava-lhe a existência. Encontrei-a no dia em a doença começou a portar-se mal. Ela estava com esperança. Eu também. Mas as doenças às vezes portam-se mesmo muito mal. E aparecem para nos dizerem que afinal não somos eternos. Escusavam era de vir tão cedo. A Turíbia era uma grande amiga. Eu gostava muito dela. Gosto. Que dias tão tristes.

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sexta-feira, 1 de maio de 2026



O trabalho é mais uma surpresa de Banksy. Foi instalado durante a noite em Waterloo Place. Representa um indivíduo segurando a bandeira da sua amada pátria a precipitar-se para o abismo. Motivo do descuido: a bandeira enrola-se-lhe na cara tapando-lhe a observação do caminho. Da realidade, portanto. Excelente metáfora do nacionalismo. Pena não ter o contacto do artista. Mandava-lhe uma mensagem de parabéns. E aos nacionalistas, mandava-os cumprir a metáfora.

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quinta-feira, 30 de abril de 2026

É preciso não esmorecer



Vivemos tempos sombrios. Os fascistas já saíram dos buracos onde vegetavam e andam por aí. Dizem o indizível. Insultam, ameaçam e fingem-se muito incomodados quando são confrontados com aquilo que são. Não querem que os coloquemos nos depósitos da extrema-direita. Acham que não são de extrema-direita nem fascistas, mesmo depois de passarem a vida a elogiar o ditador criminoso Salazar, e a defenderem ideias contra a cultura e o bem estar colectivo. Andam por aí, estão mesmo muito perto. Alguns são nossos "amigos" aqui na geringonça. Muitos já foram despejados — são lixo —, mas não sei se foram todos.

Um aparte que é uma confirmação: ontem ouvi e vi um programa na RTP — É ou Não É? —, comandado por Carlos Daniel, em que dois participantes revelaram a maior maldade e falta de empatia pelas pessoas diferentes deles. Um médico que não fixei o nome disse o inimaginável. Mas pior foi um deputado do PSD — Bruno Vitorino; este resolvi fixar o nome —, que defendeu as trevas. Percebe-se que foi dali que saiu aquela gente que grita e esbraceja no parlamento. Provavelmente ainda por lá andam muitos. 
 
O que está a acontecer é revoltante. O mundo tem ao comando gente do pior. Portugal tem gente sem classificação a governar. Este 1º de Maio é de indignação, de revolta. De revolta contra o chamado pacote laboral (nome curioso) que as grandes empresas e o governo reaccionário tentam aplicar à vida de quem trabalha. Isto está mal e com tendência para piorar, mas nóa não podemos ficar de braços cruzados. A extrema-direita é ridícula, deprimente, mas tem a simpatia dos incautos. Vamos reagir, sempre. Vamos sair à rua neste dia do trabalhador.
Com convicção, com alegria. Somos melhores. Temos melhores ideias. Não precisamos de gente reles para nada. Bom 1º de Maio para toda a gente. Até amanhã.
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Georg Baselitz


Morreu Georg Baselitz. Artista pioneiro que nos surpreendeu com imagens desafiadoras das leis tradicionais. Mergulhei recentemente numa exposição sua em que as proporções dos trabalhos nos reduziam a espectadores resignados à arrogância dos formatos. Arrogância leve, já que a cor nos devolve a alegria e o prazer. Marcou o seu tempo, como acontece com outros seus compatriotas. Baselitz trabalhou muito, e muito do que fez fica aí para observação. Eu gosto muito e agradeço-lhe. Foi bom perceber que ele existiu. Muito obrigado, senhor Baselitz.

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À pala

O primeiro-ministro tenta fazer política à Trump. Nunca foi feito nada assim, somos pioneiros, estamos à frente, ninguém nos trava. Usa boas estruturas, que outros criaram, e avança na farronquice parola que o caracteriza. 
 
O Pavilhão de Portugal e a famosa pala que Álvaro Siza concebeu não merecem ser cenário de tanta parvoíce. A agência de comunicação, que parece parva, põe esta gente a dizer coisas que não lembram ao diabo, deus me perdoe, mas comunicam. Convence os parolos mais distraídos. Estes governantes tatibitate parece não perceberem o que vão lendo, que é o que lhes dizem para dizer. Montenegro lê aquelas tretas sem convicção. Parece assim uma espécie de testa-de-ferro de uma gente que nos quer esmifrar, mas não sabe bem como. Os indescritíveis parolos daquele lado mais à direita do parlamento dão uma ajuda fingindo que não é bem assim. Agora, para que o pacote contra quem trabalha seja aprovado, exigem reformas de velhice mais cedo. Que generosidade tamanha. A impossibilidade como bandeira. Foi o líder, aquela criatura inenarrável que acha que o 25 de Abril foi uma revolução miserável, que o disse no discurso comemorativo da revolução miserável. Fez bem, o miserável. Fica assim esclarecido que quem o continua a apoiar é fascista e quer três salazares mais ele, o miserável. Ornamenta-se assim a coisa com um ramo de tristes figuras. 
 
E cá vamos, lutando, com uma pachorra sem fim contra esta procissão de idiotas. Idiotas é elogio, que a nossa educação não nos permite botar aqui palavrões.
 

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quarta-feira, 29 de abril de 2026

David Lopes Ramos

David Lopes Ramos morreu no dia 29 de Abril de 2011 e já não viveu para assistir à tentativa de reescrita da História por parte da direita extremista, e não só. Imagino o que teria dito e pensado se tivesse assistido ao debate televisivo entre José Pacheco Pereira e o líder do Chega e à tentativa deste de colocar no mesmo patamar os 48 anos da ditadura com os excessos e desvios de 19 meses que separaram o 25 de Abril de 1974 do 25 de Novembro de 1975 — e até dos anos seguintes. Excessos e desvios próprios de qualquer revolução e que a consolidação do processo democrático foi corrigindo. Com uma irónica excepção: os únicos crimes violentos, com mortes, que ficaram sem castigo, é bom lembrá-lo, foram cometidos por grupos e movimentos de direita, como o MDLP. a que pertencia um dos ideólogos do Chega, Pacheco Amorim.

Excerto da crónica de Pedro Garcias, no suplemento Fugas, incluído no Público do dia 25 de Abril. 

As crónicas de Pedro Garcias são deliciosas, um néctar em caracteres tipográficos. No passado sábado escreveu sobre o seu amigo e colega David Lopes Ramos, meu amigo também e que recordo com saudade. O David deixou-nos neste dia de 2011. Quinze anos sem ele. Mas foi muito bom conhecê-lo. É isso que fica. É isso que recordamos.  

A fotografia do David (pormenor) é da autoria de Adriano Miranda.

terça-feira, 28 de abril de 2026

José Santa-Bárbara


Morreu José Santa-Bárbara. Designer com trabalho de relevo, ficou conhecido por ter desenhado nove capas de discos de José Afonso. Foi também responsável pelo gabinete de design da CP e por muitos projetos editoriais. Nos últimos anos regressou à pintura, tendo feito exposições e trabalhos para painéis em azulejo instalados em lugares públicos. Dia triste para o Design em Portugal. Dia triste para a Cultura Portuguesa. Muito obrigado, José Santa-Bárbara. Foi bom viver no teu tempo.



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Quem tem capa sempre escapa


Tive saudades do vinil. De abrir aquelas capas fantásticas dos LPs, de ser surpreendido primeiro pelo design, depois pelos conteúdos impressos e pela observação daqueles grafismos superiores. A colocação do objeto circular, negro, no prato do gira-discos, era cerimonial. O som parecia magia. Os meus LPs sempre foram instalados em prateleiras por mim 
desenhadas e por mim quase sempre construídas. Tudo feito à medida para bem receber tão distintos habitantes. 

Quando conheci José Afonso, muita coisa se esclareceu na minha mente de adolescente curioso. Eu fervia em perguntas. Ele punha água na fervura. Era um excelente conversador. Quando saía um disco seu, trocávamos muitas palavras sobre o assunto. O criador José Afonso nunca estava satisfeito com o resultado. A "alegria da criação" esbarrava na prensagem do disco. "O som está empastelado", dizia. Eu queria lá saber, e esclarecia-o: a música está incrível. Adorei "de sal de linguagem feita" e "de não saber o que me espera". Era a vez de ser ele a ficar curioso. Porquê?, e eu satisfazia a sua curiosidade. As capas vinham sempre à baila, é claro. A estética visual sempre o preocupou. Era exigente. Uma exigência esclarecida pela sua curiosidade intelectual, que era imensa. José Afonso tinha cultura visual e aplicava-a. Acho que isso está bem percebido. Já fiz o design expositivo e curadoria de duas exposição à volta da imagem visual dos seus discos. E vou continuar.

Comecei por dizer que tive saudades do vinil. Tive, já não tenho porque entretanto o vinil voltou. Sou um feliz e entusiasmado assistente desse regresso. Caso raro. Parecia que os CDs eram o futuro. Afinal já são passado. É claro que as plataformas de audição vieram mudar tudo, mas os extraordinários LPs estão aí para nos confirmar que até há passados que estimulam o futuro. Tenho uma preferência quase obsessiva por um nicho específico. A editora ECM é um exemplo de consistência e coerência visual e musical. Apetece mesmo ter aqueles objetos disponíveis ao olhar, aos sentidos. São arte disfarçada por design em rigorosas impressões gráficas. Alinho aqui algumas delas — recentes e mais antigas, mas que me acompanham como amigas de sempre —, em convívio com duas capas de LPs de José Afonso — edições iniciais da Orfeu, recentemente reeditadas pela chancela +cinco — que são também muito cá de casa. Os autores são meus amigos: Alberto Lopes e João de Azevedo. A música, a literatura e a estética visual, associadas a preocupações sociais de solidariedade, são a minha vida. Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar, como escreveu Sophia. E Carlos Drummond de Andrade disse um dia em entrevista: Quem tem a música e a literatura nunca se sente só. Concordo, mas acrescento: o amor abraça tudo isto. Somos assim. Amamos porque somos assim.








  

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