quinta-feira, 11 de junho de 2026

Vivam os artistas

Jane Fonda foi conversar com Jon Stewart no Daily Show da passada segunda-feira. Duas pessoas que resistem ao desmantelamento da democracia feito a partir da Casa Branca, local povoado de cretinos egocêntricos. Entrevista notável. Realço uma opinião de Jane Fonda: os artistas não devem participar nas iniciativas destes poderes antidemocráticos. 

Jane Fonda tem razão. Colaborar com quem nos combate é como temperarmos o caldo onde vamos ser cozinhados. Muitos alinham porque "é cá da terra". Outros alinham porque a coisa tem compensação financeira. Lembro-me sempre de um cantor de irritante prestação musical que era de esquerda quando apoiava uma autarca aparentemente de esquerda e depois passou a ser "o que for preciso" assim que essa autarca de "esquerda" passou a sentar-se à mesa, com todo o gosto, com a extrema-direita imbecil. Um cançonetista que não sabe estar quieto, gargareja sexismo tarado por todo o lado como se o mundo fosse o seu palco. Um enjoo que só frequenta quem sofre de acentuados problemas cognitivos de audição. Mas há quem também tenha problemas desses na visão e em outros sentidos. Falo da autarquia daquela cidade que agora está "à rasca" para tomar posição sobre o caso dos novos donos do palácio que fica ali mesmo à beira de uma praia, e que agora querem as praias todas que avistam. E falo de um artista que faz o que for preciso para se safar. Não é destes artistas que Jane Fonda fala. Estes estão bem assim. É dos que querem originalidade para a sua vida e tentam passá-la para a vida de todos os que os quiserem ouvir, ver, ler. São esses que não devem pactuar com a parvoíce da ligeireza egocêntrica.

A esquerda não é woke, nem no sentido da tolerância, nem no sentido do respeito pela preservação do que não se sabe bem o que é. A esquerda é alternativa ao marasmo, ao encosto à facilidade, ao plágio, aos ingredientes culturais alienantes que o neoliberalismo de extrema-direita sugere como o bem das economias e recomenda como boas práticas. A esquerda é diferente. Somos melhores. Temos melhores ideias. Jane Fonda foi apresentada como activista. Nada contra. Sou do tempo em que a isso se chamava militância. Militávamos contra a imbecilidade e o imobilismo. Acho que ainda se usa. Eu uso. 

 Em Portugal, o Daily Show passa na RTP2, às nove da noite.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

10 de junho - Dia de antirracismo


ALCINDO MONTEIRO foi assassinado por criminosos racistas, no dia 10 de Junho de 1995, só porque os racistas resolveram ir "matar pretos" no Bairro Alto, nesse dia em que comemoravam o "dia da raça". Criminosos em acção. Racistas que hoje têm voz institucional. Agora, políticos e comentadores consideram que ser racista é apenas opinião a que os racistas têm direito. O presidente da Assembleia da República acha mesmo que "no seu entender, pode "ser assim, lá dentro do hemiciclo. O líder de bancada do partido da chungaria gritante até já defendeu que "se se matassem mais uns quantos" isto estava muito melhor. As ofensas, a falta de vergonha e decência desta gente sem qualidades já chega a este ponto. Não, racismo não é opinião. Racismo é crime. Racistas são criminosos.
 
Imagem: Alcindo Monteiro por André Carrilho. Caricatura incluída no DICIONÁRIO DA INVISIBILIDADE. Edição SOS Racismo
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AO DESCONCERTO DO MUNDO

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que só para mim
Anda o mundo concertado.
Luís de Camões
Imagem: Luís de Camões por André Carrilho.
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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Comenda e Tirana, a mesma luta?

Em Portugal, uma família — apoiante do Chega, é o que se diz por aí — quer ficar com as praias da Arrábida porque comprou o palácio da Comenda. Na Albânia, uma família — o genro de Trump e companhia ilimitada — quer ficar com um território e quer fazer o que lhe der na real gana, alterando até paisagem protegida. O primeiro-ministro diz que aquilo é uma bênção. Proteção do ambiente que se lixe. Luxo ideológico descarado. O neoliberalismo, aliado a outro "ismo" que quer que tudo volte ao protecionismo dos financeiramente poderosos, instala a ideia de quem paga manda, isto é: quem tem dinheiro faz o que quer. Nos EUA já é mesmo assim, daí a revolta dos albaneses que não querem que a peçonha se estenda até à sua terra. Em Portugal parece que já está nos tribunais. Sabemos que as praias por cá são de todos. Mas o que pensará a justiça portuguesa? Será que temos que ir para a rua protestar?

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Atitude

Leão XIV pede resposta multilateral e digna para "trágico drama migratório"

O Papa defendeu hoje que o "trágico drama migratório" deve agitar "a consciência das nações" e apelou à cooperação multilateral para lhe ser dada uma resposta "solidária e eficaz" que tenha no centro a dignidade humana. Agência LUSA.

O Papa revelar esta preocupação em Espanha, durante visita oficial, também tem significado substantivo. Não tendo nada a ver com a vida dos outros e não querendo ofender ninguém fazendo comparações com anteriores ocupantes deste importante lugar, e não partilhando as suas ideias sobre a origem do mundo e da criação humana, começo a pensar que este senhor até podia vir aqui a casa para o convívio almoçarado que pratico com um pequeno grupo de amigos. Mas não lhe digam nada ainda. É que posso estar enganado. Vamos aguardar. 

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Da série Grandes Capas.
Imagens obtidas no laboratório do José Simões:  



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domingo, 7 de junho de 2026

Aos domingos - elogio do desenho

EXPOSIÇÃO - Anna Maria Maiolino instalou no MAAT uma mostra a que chamou Terra Poética. Título curioso que se justifica logo que se entra no espaço da exposição. São matérias em proporções inventadas mas que parecem saídas da natureza. Realidades.  A Natureza ilustra o nosso olhar. Estes objectos desafiam a nossa observação. Perturbam. Perturbam-se. Parecem em diálogo, mas também parecem olhares contrastantes sobre realidades matéricas elevadas a reflexão sobre o sentido disto tudo. O meu passeio por este "jardim" acrescentou-me a curiosidade dessa reflexão. 

Maiolino é filha de muitas geografias. Viveu no meio de guerras e sobreviveu a muitas agressões. Esta exposição é um relato único. O olhar dispersa-se por entre aglomerados de matérias que se entrelaçam. Convivem. Refletimos. As imagens que junto são a minha interpretação visual deste trabalho. Em paralelo são por lá mostrados desenhos que acrescentam documentação. Esboços em procura do objecto final. Ideias que transformam o desenho em matéria. Em entrevista a José Marmeleira, no ípsilon, a artista desabafou "O desenho ainda é um suspiro neste mundo". É verdade. É sempre preciso fazer um desenho. Grande exposição, esta.

Terra Poética. Anna Maria Maiolino. MAAT. Lisboa. Até 31 de Agosto 





 



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sábado, 6 de junho de 2026

Aos sábados - a espuma dos dias


POLÍTICA - A Greve Geral foi uma Greve Geral. Os políticos que não a queriam tentaram submergi-la, alegando que era política. Ou seja: o que os políticos que são sempre contra as greves que os incomodam fazem não é política, deve ser filantropia. Esta Greve Geral não deveria estar contra as políticas que querem colocar quem trabalha no século dezanove. Em vez de pararem em protesto, os trabalhadores  deviam ir de avental e boné de pala pedir aos patrões que os deixassem vender doces regionais e artesanato lá na empresa, para compensar os atropelos que vão ter que suportar com as aplicações políticas do pacote laboral. Aliás: trabalhadores, não, agora é colaboradores que se diz, como já advertiu um dos deputados do partido de extrema-direita. Dobrem a língua, em sinal de respeito por quem vos quer pôr a trabalhar, perdão: a colaborar, sem direitos nem garantias de futuro. 

O MINISTRO BONZINHO - Porque disse o óbvio — os imigrantes não estão cá para cometer crimes, mas sim para trabalhar —, muita gente acreditou que Luís Neves como ministro ia ser uma espécie de Robin dos Bosques dos comportamentos policiais - Bater nos ricos para proteger os pobres. Parece que afinal o homem não alinhou nessa bondade, como era expectável em polícia que foi para ali para proteger o seu patrão — Montenegro está safo — e para mandar a polícia bater nos de sempre com muito orgulho. Ele disse-o. Mais: políticos de direita em geral, ministro dos polícias em particular, comentadores ao serviço dos políticos de direita em geral e deputados de direita e de extrema-direita (cada vez mais próximos), tentaram fazer do fim do dia de Greve Geral o grande acontecimento da Greve Geral. Estão todos bem uns para os outros. Deus lhes dê muitas hóstias sagradas, para alimentarem a maldade que já nem disfarçam. 

REVISÃO, SIM OU NÃO? - Foi gira a dança entre o líder da extrema-direita (mostrando os louros da vitória) e o líder da bancada parlamentar do partido do governo (desvalorizando a estética loureira) na pista onde se vai dar a destruição da Constituição aprovada pelos deputados eleitos pelos partidos fundadores da democracia. Dançam mal, estes pés de chumbo que querem espezinhar tudo o que de democrático e com laivos de progresso foi inscrito na lei fundamental. Todos nos lembramos de que foi dos partidos do governo que transitaram para o partido de extrema-direita muitos dos deputados que agora berram lá na Casa da Democracia. Sempre lá estiveram, digo, só não tinham ensaiado os ruídos guturais.

ARTES - Uma visita ao MAAT vai ser o motivo do meu elogio de amanhã. Até amanhã. E até lá... Bom sábado

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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Marjane Satrapi

MORRER DE AMOR | Eu adorava o trabalho de Marjane. O Nuno Saraiva também e sabe dizer melhor do que eu quem era esta mulher admirável. Morrer de amor revela toda uma filosofia de vida. Morrer é triste. A morte é sempre uma grande tristeza. É muito triste, esta morte de Marjane Satrapi.

MARJANE
L’amour est mort, vive l’amour
……
Morreu o amor, viva o amor.
Marjane Satrapi, mulher, desenhadora e argumentista de banda desenhada, autora de um exercício de revolta intitulado “ Persepolis” obra que a transportou sem dúvida nenhuma ao lugar de maior e mais importante autora de banda desenhada da nossa idade contemporânea.
Marjane amava a liberdade e expressava o seu amor através da luta, frontal, directa. Contra os Ayatollahs de Teerão, mas sobretudo contra os Ayatollahs que habitam em nós, fazendo-nos pensar.
A dada altura da sua vida optou por abandonar o desenho e dedicar-se ao cinema, sem nunca largar projectos colectivos de banda desenhada (Mulher, Vida, Liberdade).
Ao seu lado, o actor e produtor sueco Mattias Ripa, cuja súbita morte a leva a uma profunda depressão.
Apaixonada e comprometida com o cinema, Marjane Satrapi tinha criado recentemente a Fundação de Cinema Mattias e Marjane Ripa-Satrapi - Academia de Belas Artes, para dar oportunidade aos estudantes estrangeiros a virem estudar cinema em Paris.
Tinha sido, ainda há poucos meses atrás, eleita pela restrita Academia de Belas Artes de Paris para vogal da “section de mise en scène”.
Morreu hoje, aos 56 anos, dizem as notícias que foi de tristeza.
Morreu o amor, viva o amor.  
Fotografia de Laura Wilson
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José António Ferreira



Morreu o o meu amigo Zé Ferreira. O doutor José António Ferreira, para muitos que defendeu. Advogado na barra, epicurista na vida. Um homem que sabia moderar os costumes. Culto e amante do verbo, adorava os clássicos. Culpava os políticos que nos governam de algo que têm de sobra: a incultura. Passeava pelos trilhos de Camilo e Eça. Citava Garrett. Olhava os contemporâneos de soslaio, mas admirava a inovação. 
 
Tivemos longos almoços e muitos jantares onde essa sabedoria era posta em pratos limpos. Quando Saramago morreu, fomos juntos ao funeral. Depois almoçámos e passámos a pente fino a obra do escritor. Percebi ali que o Zé Ferreira não rejeitava em absoluto as artes de hoje. O que ele rejeitava era a mediocridade dos bem comportadinhos. Dos direitinhos. Claro, e também dos direitinhas, mas essa é outra conversa que não acabámos. Eu vou continuar a conversar sobre tudo isto e vou-me lembrar muito de ti. Muito obrigado, José Ferreira. Os imbecis já governam o mundo. Mas isto não fica assim. Os fascistas não passarão.

Imagem: José Ferreira no restaurante Fidalgo. Fotografia de Eugénio Fidalgo. 

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quarta-feira, 3 de junho de 2026

Crazy for you

O que Trump quis dizer ao seu amigo de Israel não foi o que andam para aí a dizer. Nem tudo se pode traduzir à letra. Donald Trump disse a "Bibi" Netanyahu: "crazy for you", trauteando a canção de Madonna. Foi isto. Não foi insulto. Um homem lúcido e genial negociador ia lá cair por aí abaixo? Foi "love", percebem? Faz toda a diferença.

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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Respeito

Este pacote laboral é obsceno. A pornografia está na falta de respeito por quem trabalha. Parece que se pretende um regresso ao tempo da Revolução Industrial. Charles Dickens já nos tinha esclarecido sobre comportamentos tutelares unilaterais. Mas as ficções do século passado estão a convocar novas realidades.
Quem paga é que manda. Quem trabalha que obedeça e cale-se. É a mobilidade nas empresas que se quer. É pelo crescimento económico, dizem, como se fossemos todos parvos.
Vamos dizer não ao Pacote Laboral. Vamos dizer não aos comportamentos tutelares. Vamos apoiar a GREVE GERAL.
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DA SÉRIE GRANDES CAPAS |  Imagens obtidas no laboratório do José Simões: mistérios do organismo.

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domingo, 31 de maio de 2026

Aos domingos - É preciso fazer um desenho?

FIM DA FESTA - O criminoso ataque ao Charlie Hebdo foi o mote. Mas a Festa da Ilustração - Setúbal foi uma coisa boa. A primeira edição da Festa teve inicio às zero horas do dia 1 de junho de 2015, cinco meses depois do ataque em Paris. Homenagem feita, continuámos. Foram onze anos a mostrar opiniões ilustradas de excelente qualidade. Foram momentos marcantes para quem os viveu. Para mim foi uma escola. Observo o que se faz em ilustração e cartoon com outros óculos. Os olhos que se cuidem. 
 
ATITUDE - Insisto, foi uma festa bonita, esta Festa da Ilustração, por todas as razões que nos fazem pensar e intervir contra a mediocridade que insiste em infetar consciências e contaminar atitudes. Foram onze anos de trabalho intenso e prazer correspondente. Fizemos o nosso melhor, mas soube a pouco. Sabe sempre a pouco o que fazemos com entusiasmo e alegria. Esta festa foi também um permanente encontro entre amigos. Os ilustradores são seres especiais. Solidários uns com os outros e com o mundo. Mantêm os olhos abertos quando muitos querem que os fechemos. Os instrumentos que usam são armas contra o imobilismo. Foi essa ilustração que mostrámos em Setúbal.
 
OS MELHORES ILUSTRADORES DO MUNDO | Não vou referir os artistas que participaram, porque eles sabem quem são e não se importam com referências diluídas em elogios de circunstância. É que é extensa, a lista. Muito extensa. Foram muitos os ilustradores — não foram todos? — que quiseram entrar nesta festa. Permitam que refira quem esteve lá atrás, nas reuniões que constroem, em todas as horas dos trabalhos: na conceção, no design expositivo, nas montagens das exposições.
A colaboração com o João Paulo Cotrim, com o Jorge Silva, com editores e livreiros, com jornalistas, com todos os ilustradores convidados (nacionais e estrangeiros) e com toda a gente do Município que acreditou e trabalhou, foi decisiva para a aplicação do empreendimento no terreno.
 
NÃO TEMOS QUE RESPEITAR TUDO - O que é doce nunca amargou, já a minha avó me dizia. A Festa foi um doce muito bem confecionado, mas as coisas estão a ficar amargas por Setúbal. O partido de extrema-direita foi maioritário nas eleições legislativas, e nas autárquicas faz maioria com a coligação vencedora. Quem visitou as festas nestes onze anos percebe que era impossível continuarmos. As preocupações dos artistas são diferentes das preocupações dos autarcas de extrema-direita, como é evidente. Um grande sarilho estaria armado com toda a certeza. Viram o que se passou com o Cartoon Xira? Sinceramente não tenho pachorra para cruzar argumentos com defensores de salazares e outros males. Fora de questão. A Festa da Ilustração fica por aqui. Como diria o João Paulo (Cotrim) "foi quase um prazer". Ter prazer é bom. A gente encontra-se por aí, em outras geografias, em outras festas, em outros momentos felizes. Até já.
 
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sábado, 30 de maio de 2026

Aos sábados - a espuma dos dias

EGOCENTRISMO - Passos Coelho, na sua cruzada contra quem é contra ele, continua a verbalizar críticas e a promover ideias que parecem tiradas de manuais de política para tótós. É uma espécie de D. Sebastião dos emergentes populismos, mas sem cavalo nem armadura. Só se adivinha um certo nevoeiro envolvendo o criador da criatura do partido com nome de detergente.

POPULISMO - Cabeça rapada com rigor, fato completo, gravata em nó bem enrolado, sapato de pala, todo um visual formal de político no activo, arrasa populismos e medidas governamentais como se fosse júri de um concurso de jogos florais. Ventura finge estar de acordo com tudo o que o homem diz, em linguagem corporal de grande enlevo admirador. Até se lhe nota a bába ao canto da boca, logo disfarçada pela língua sempre en reboliço. A direita finge muito. Faz cenários catastrofistas quando a coisa não lhes corre de feição e adianta-se com a alegria do vazio quando pensa que é promovendo o irreal que se safa. Passos já aderiu ao discurso de taberna. Todos no bom caminho.

GREVE GERAL - A Greve Geral é já na próxima semana. Os políticos profissionais que governam lá virão com a lenga-lenga de que "Ah e tal, esta greve é política, não é em defesa dos trabalhadores". O costume. É essa a maneira de fazerem política. Pois, é mesmo de política que falamos quando falamos do pacote que ataca quem labora. Esta greve é contra tudo o que esta gente quer. Políticos de tasca em políticas de bêbedos chatos sem interesse nenhum. Esperemos que a greve seja grande e geral, para bem de todos nós.

EDGAR MORIN - Um grande pensador. Passou por dois séculos sempre a interpretar o que se passava à sua volta. Para ele, ter razão é estar com os olhos bem abertos e não os fechar sem que as palavras expliquem essa observação. O resto são razões que a própria razão desconhece, como diria outro pensador.

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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Homenagem

EDGAR MORIN - Morreu um homem que só pensava em pensar. E foi muito tempo a pensar. Morreu aos 104 anos. Ainda bem que viveu tanto tempo. A obra que fica vai-nos ajudar agora que isto não está nada fácil de interpretar. E viver, sobretudo isso. Muito obrigado, senhor Morin. Foi muito bom viver no seu tempo.
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Receituário


Jorge Martins tem uma grande exposição na Cordoaria. O trabalho de Jorge Martins merece observação atenta e persistente. É o que eu tenho feito. Esta exposição não pode ficar do lado de fora dos nossos percursos por Lisboa. É frequentá-la e apreciá-la.
 
JORGE MARTINS
Timescape
27 maio a 30 agosto 2026
Galeria do Torreão Nascente da Cordoaria Nacional
 
Fotografias de Tiago Montepegado
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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Receituário

 

ÓRFÃOS | "Aprendi a matar bem mais do que penso", diz personagem de uma canção de Sérgio Godinho. Esta peça do TEATRO DA RAINHA leva-nos a uma reflexão sobre o comportamento do ser humano perante a violência extrema. Matar alguém, eliminar um ser humano, não é como matar pulgas (parafraseando Sérgio de novo), mas a solidariedade com alguém que estimamos pode levar-nos a justificar um assassínio? Pode alguém que se diz não-racista a sê-lo por um apelo num instante que não consegue justificar? Em O ESTRANGEIRO, de Albert Camus, o protagonista da história mata porquê?
Este texto de Dennis Kelly é notável, as interpretações de Inês Barros, Fábio Costa e Tiago Moreira são qualquer coisa de extraordinário e a encenação de Henrique Fialho é de um pormenorizado requinte. Tudo funciona: gente em palco, cenografia, luzes, guarda roupa, imagem promocional. O teatro da Rainha está em Lisboa — Teatro Paulo Claro. Artistas Unidos — até ao próximo sábado para mostrar tudo isto que eu aqui digo e que ontem testemunhei na primeira récita na capital do reino que já o foi.
Proponho que se desloquem até lá sem demora. Um espectáculo assim não se pode perder. Eu, no futuro que se aproxima não vou perder nadinha do que esta malta anda a fazer. Vossemecês ficam sem saber o que perdem, se não seguirem o meu conselho. Vão ao teatro, pela vossa saúde (mental).
 
ÓRFÃOS, pelo Teatro da Rainha
Autor | Dennis Kelly
Tradução e encenação | Henrique Fialho
Cenografia | José Carlos Faria
Desenho de luz | Hâmbar de Sousa
Guarda Roupa | Acervo do Teatro da Rainha
Interpretação | Fábio Costa ( Liam), Inês Barros (Helen) e Tiago Moreira (Danny)
Graffiti | Ricardo Henriques
Criação de imagem e design gráfico | José Serrão
Fotografia de Paulo Nuno Silva 
 
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