quinta-feira, 30 de abril de 2026
É preciso não esmorecer
À pala
quarta-feira, 29 de abril de 2026
David Lopes Ramos
David Lopes Ramos morreu no dia 29 de Abril de 2011 e já não viveu para assistir à tentativa de reescrita da História por parte da direita extremista, e não só. Imagino o que teria dito e pensado se tivesse assistido ao debate televisivo entre José Pacheco Pereira e o líder do Chega e à tentativa deste de colocar no mesmo patamar os 48 anos da ditadura com os excessos e desvios de 19 meses que separaram o 25 de Abril de 1974 do 25 de Novembro de 1975 — e até dos anos seguintes. Excessos e desvios próprios de qualquer revolução e que a consolidação do processo democrático foi corrigindo. Com uma irónica excepção: os únicos crimes violentos, com mortes, que ficaram sem castigo, é bom lembrá-lo, foram cometidos por grupos e movimentos de direita, como o MDLP. a que pertencia um dos ideólogos do Chega, Pacheco Amorim.
Excerto da crónica de Pedro Garcias, no suplemento Fugas, incluído no Público do dia 25 de Abril.
As crónicas de Pedro Garcias são deliciosas, um néctar em caracteres tipográficos. No passado sábado escreveu sobre o seu amigo e colega David Lopes Ramos, meu amigo também e que recordo com saudade. O David deixou-nos neste dia de 2011. Quinze anos sem ele. Mas foi muito bom conhecê-lo. É isso que fica. É isso que recordamos.
A fotografia do David (pormenor) é da autoria de Adriano Miranda.terça-feira, 28 de abril de 2026
José Santa-Bárbara
Morreu José Santa-Bárbara. Designer com trabalho de relevo, ficou conhecido por ter desenhado nove capas de discos de José Afonso. Foi também responsável pelo gabinete de design da CP e por muitos projetos editoriais. Nos últimos anos regressou à pintura, tendo feito exposições e trabalhos para painéis em azulejo instalados em lugares públicos. Dia triste para o Design em Portugal. Dia triste para a Cultura Portuguesa. Muito obrigado, José Santa-Bárbara. Foi bom viver no teu tempo.
Quem tem capa sempre escapa
Tive saudades do vinil. De abrir aquelas capas fantásticas dos LPs, de ser surpreendido primeiro pelo design, depois pelos conteúdos impressos e pela observação daqueles grafismos superiores. A colocação do objeto circular, negro, no prato do gira-discos, era cerimonial. O som parecia magia. Os meus LPs sempre foram instalados em prateleiras por mim desenhadas e por mim quase sempre construídas. Tudo feito à medida para bem receber tão distintos habitantes.
Quando conheci José Afonso, muita coisa se esclareceu na minha mente de adolescente curioso. Eu fervia em perguntas. Ele punha água na fervura. Era um excelente conversador. Quando saía um disco seu, trocávamos muitas palavras sobre o assunto. O criador José Afonso nunca estava satisfeito com o resultado. A "alegria da criação" esbarrava na prensagem do disco. "O som está empastelado", dizia. Eu queria lá saber, e esclarecia-o: a música está incrível. Adorei "de sal de linguagem feita" e "de não saber o que me espera". Era a vez de ser ele a ficar curioso. Porquê?, e eu satisfazia a sua curiosidade. As capas vinham sempre à baila, é claro. A estética visual sempre o preocupou. Era exigente. Uma exigência esclarecida pela sua curiosidade intelectual, que era imensa. José Afonso tinha cultura visual e aplicava-a. Acho que isso está bem percebido. Já fiz o design expositivo e curadoria de duas exposição à volta da imagem visual dos seus discos. E vou continuar.
Comecei por dizer que tive saudades do vinil. Tive, já não tenho porque entretanto o vinil voltou. Sou um feliz e entusiasmado assistente desse regresso. Caso raro. Parecia que os CDs eram o futuro. Afinal já são passado. É claro que as plataformas de audição vieram mudar tudo, mas os extraordinários LPs estão aí para nos confirmar que até há passados que estimulam o futuro. Tenho uma preferência quase obsessiva por um nicho específico. A editora ECM é um exemplo de consistência e coerência visual e musical. Apetece mesmo ter aqueles objetos disponíveis ao olhar, aos sentidos. São arte disfarçada por design em rigorosas impressões gráficas. Alinho aqui algumas delas — recentes e mais antigas, mas que me acompanham como amigas de sempre —, em convívio com duas capas de LPs de José Afonso — edições iniciais da Orfeu, recentemente reeditadas pela chancela +cinco — que são também muito cá de casa. Os autores são meus amigos: Alberto Lopes e João de Azevedo. A música, a literatura e a estética visual, associadas a preocupações sociais de solidariedade, são a minha vida. Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar, como escreveu Sophia. E Carlos Drummond de Andrade disse um dia em entrevista: Quem tem a música e a literatura nunca se sente só. Concordo, mas acrescento: o amor abraça tudo isto. Somos assim. Amamos porque somos assim.
segunda-feira, 27 de abril de 2026
Porque precisamos do feminismo
O partido fascista não concorda com a ideia. Prefere alianças com os grupos Reconquista e 1143. Os fascistas e quem os apoia acham que feminismo é o contrário de machismo, ou seja: não perceberam nada. Ou perceberam, mas continuam a preferir que as mulheres vão para os lugares de antigamente. As mulheres devem ser mandadas, não mandar, dizem, com viscoso orgulho macho. Via mural do meu amigo João d'Oliveira percebi isto. Existem escolas de violação online. Existem e têm aderentes. Assiste-se a isto entre o susto e a repulsa. Pergunto: entre quem se considera decente, ainda haverá quem não tenha percebido que Feminismo não é o contrário de machismo? Informem-se, por favor, antes que seja demasiado tarde.
domingo, 26 de abril de 2026
Não ao retrocesso
A habitual manifestação é este ano contra o pacote
laboral que neoliberais e fascistas querem impôr a quem trabalha.
Pacote
laboral que quer esconder direitos, para que os ricos fiquem mais
ricos e livres de fazer o que lhes apetecer.O partido fascista tenta
parecer o que não é. O que o partido fascista defende nunca está de
acordo com o que nós queremos. O partido fascista só quer o poder. O
poder de ir ainda mais longe. As manobras táticas são de diversão.
Vamos
para a rua protestar contra este governo de direita — suportado pelo
PPD/PSD e CDS/PP —, e contra os chamados liberais da moda de
contrafacção, que mais parecem neofascistas sem o facho estampado nas
gravatas.
Os fascistas não se respeitam. Combatem-se!
sábado, 25 de abril de 2026
domingo, 19 de abril de 2026
Cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
Álvaro de Campos. Obra de Fernando Pessoa.
Entrei na obra de Fernando Pessoa por influência de José Afonso. Mais tarde, outro amigo, o Diamantino Alves (Tininho para os amigos), mostrou-me outro lado do poeta — aquele poeta que cada um adopta como entende melhor para si — e o fascínio nunca mais parou. Escolhi o meu lugar na poesia de Fernando Pessoa. O "Livro do Desassossego" está sempre perto. Fernando Pessoa não me larga. Vou finalmente ler "Pessoa, uma biografia" por Richard Zenith, ainda com muitas recordações de leitura da "Vida e Obra de Fernando Pessoa" de João Gaspar Simões e do "Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português" de Fernando Cabral Martins.
Fernando Pessoa foi um homem extraordinário porque percebeu a tortuosa simplicidade do mundo através do seu olhar de pessoa aparentemente vulgar. Se os políticos mais poderosos lessem, o mundo não estaria tão estranho. E se lessem Pessoa então, talvez se arrependessem de muita merda que andam a fazer. Ou talvez não: poderiam dar um tiro nos cornos em vez de mandarem matar inocentes. Com a literatura tudo pode acontecer, não sei se para melhor, mas sim para maior compreensão do que se passa à nossa volta. Está tudo na Literatura. A Arte não é entretenimento ocasional. A Arte procura o que ainda não existe. Não é fácil essa procura, mas sem esse esforço não há Arte. É Arte o que nos inquieta. A Arte ajuda-nos a viver.
E agora vou bazar. O que há em mim é mesmo cansaço. Fica aqui o cartaz que assinala a minha maneira de estar com a revolução de Abril, que o fascista de serviço classificou de miserável, o miserável. Regresso em maio, em princípio. Até lá, fiquem bem, que eu também vou fazer por isso.
Beijinhos e abracinhos.
Aos domingos: a espuma da semana
Imagem: publicada por volksvargas. José Pacheco Pereira usou-a para ilustrar o seu texto no Público.
sábado, 18 de abril de 2026
FERNANDO ROSAS 80
Fernando Rosas nasceu em 18 de Abril de 1946. Completou 80 anos de idade.
Fernando Rosas é um exemplo em Portugal do intelectual público. Historiador, divulgador empenhado e entusiasmado da história do Estado Novo e do estado a que chegámos, professor respeitado, político de esquerda com valoroso contributo como deputado, Fernando Rosas mantém-se em atividade com uma intensidade que é exemplo. Vamos continuar. Ficar parado? Nunca. Parabéns, meu amigo.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
Em Abril, liberdades mil (5)
CLUBE DOS PROFESSORES CONTEMPORÂNEOS | Publiquei aqui um texto quando soube que a professora Isabel Monteiro já não estava entre nós. Foi em Maio de 2013. Recordo-a agora, em jeito de homenagem, adaptando a publicação a esta nova realidade em que vivemos, porque acho que existiram pessoas que não merecem ser esquecidas. Há professores que recordamos acompanhados pela tristeza de não voltarmos a conviver com a sua inteligência, humor e cultura. Atitudes e comportamentos que nos transmitiram com grande sentido de dever.
Em Abril, liberdades mil (4)
quinta-feira, 16 de abril de 2026
Regresso ao passado com o partido dito social democrata?
A deputada de esquerda Isabel Moreira pergunta à ministra da tutela o que ela acha da dita. A ministra da tutela é uma tutelar sonsinha que mal sabe o que anda ali a fazer. Pelo menos parece. Mas nós temos que a abanar para que ela acorde e perceba e assuma de que lado está. Nós temos que perder a paciência para esta gente toda que se está a deixar levar pelo discurso e prática de ódio da extrema-direita, vulgo: novos fascistas. Acordem de vez. Já não dá para ficarem em cima do muro. E a solução não é regressarmos ao século passado. Enxerguem-se.
Em Abril, liberdades mil (3)
NA ESCOLA DO ESTADO NOVO | Regresso hoje a esta ideia de contar histórias e botar opiniões pessoais sobre o que viveram as pessoas do meu tempo, no tempo de transição da ditadura para a democracia. Falo de pessoas mais ou menos da minha idade. Não é coisa de geração. As gerações existem para definições sociológicas, mas, nas atitudes, as pessoas têm percepções diferentes do que se passa à sua volta. Somos todos diferentes. Insisto na expressão cantada de José Afonso: "Há quem viva sem dar por nada/Há quem morra sem tal saber". Faço parte do clube de membros da minha geração que queria dar mesmo por tudo. A história de hoje aconteceu-me. É relato real, sem ficção de espécie alguma. É uma das histórias aqui em pré-publicação, dado que sairá no objeto impresso que já aqui informei estar disponível para leitura em março de 2027. É uma das histórias do livro ALGUÉM VIU OS MEUS ÓCULOS? Aqui vai:
AULA DE TRABALHOS MANUAIS - Sempre entraram jornais em casa dos meus pais. A leitura diária da imprensa escrita meteram-se comigo. Os jornais detetaram e instigaram em mim uma intensa necessidade de saber coisas. A curiosidade por tudo o que se passava cresceu em mim a partir dos cinco, seis anos de idade e nunca mais me abandonou. Essa minha curiosidade e conhecimento agitaram um episódio que não resisto em contar. Estava eu em frequência do então chamado ciclo preparatório. Tinha oito anos. Aula de trabalhos manuais. Dois professores vigiavam a sala e davam sugestões de trabalhos. Embalagens de objectos de uso corrente foram colocados à nossa disposição. Agora inventem, disse um dos professores. Resolvi fazer um avião a partir de um tubo de comprimidos, cartolinas e rolhas de cortiça. Chegou a altura de o ornamentar com papel de lustro e os dizeres definidores dos proprietários. Forrei o objeto de vermelho e coloquei as iniciais URSS. Foi o bom e o bonito. Professores em interrogatório intenso. Onde viste isto? Quem te disse para pôr estas letras? Ameaças sugeridas, interrogatório a acelerar com violência verbal. Respondi, com toda a calma, para os prestimosos professores ameaçadores, que via com frequência aquelas letras nas primeiras páginas dos jornais. “Isso não viste, não senhor!”, dizia aos berros um dos professores. Não lia jornais, percebi. Saí da sala de aula ao som de ameaças e urros de um dos cretinos. Ao jantar contei a cena ao meu pai. Pânico discreto. Procurou entre todos os jornais que tínhamos lá em casa os exemplares com URSS grafado na primeira página. Disse-me para os levar aos professores. Um dos jornais — O Século — era conotado com a situação. Insuspeito, portanto. Para que percebesse bem a situação falou-me abertamente da agressividade do regime político em que vivíamos. “Temos que ter alguma habilidade para nos defendermos nestes tempos em que vivemos. Temos que ser amigos do governador civil e do sapateiro. Se o governador nos atiça a polícia temos que ter bons sapatos para fugir. Leva os jornais e mostra aos professores. Se eles não perceberem é porque não querem perceber. Mas talvez fiquem mais calmos. Pelo menos estes jornais provam que foi verdade o que lhes disseste. Para algo pior estou cá eu e falo com eles”. Só não percebi muito bem a necessidade de compromisso entre fascistas e sapateiros, mas cumpri. Os professores de trabalhos manuais perceberam o excesso da atitude aparvalhada. Tive sorte. À noite contei ao meu pai. “Palhaços”, sentenciou. Sim, palhaços, mas sem graça.
E pronto. Este é apenas um dos episódios por mim vividos que agora podem inspirar os adeptos da educação à antiga portuguesa, como costumam dizer das touradas. Devem ser este tipo de professor que inspira os novos "educadores" do partido fascista. Não sei se terão sucesso escolar. Esperemos que não.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Os idiotas
terça-feira, 14 de abril de 2026
Contra o escroque fascista
Ontem mencionei aqui uma frase de Bernard Shaw que metia porcos na prosa. A situação depreciava o animal. A ideia era comparar pela negativa o líder do partido fascista (agora já se percebeu sem margem para qualquer dúvida que aquela gente é mesmo fascista) a um porco que afocinha na lama sem qualquer problema e até gosta disso. Não vi o debate mas, pelo que tenho lido por aqui, parece que a premissa se confirmou.
Os simpáticos animais não me encomendaram a sua defesa, como é evidente, mas eu sinto-me alcançado com a opinião que ontem aqui publiquei. Venho assim, desta singela maneira, tentar salvar a honra dos involuntariamente atingidos porcos, com a frase de Churchill que inicia este badalar. Já percebemos que o animal não merece ser comparado ao líder do partido fascista. O líder do partido fascista não é um porco. É um mentiroso compulsivo, um mal-criado sem maneiras, um escroque, um racista colonialista sem vergonha, um fascista ressabiado. Nada tem de apreciável ou talentoso. Honra a José Pacheco Pereira que tentou encostar a víbora à parede. Dizem-me que não conseguiu, que víbora é víbora e nada há a fazer. Não posso concordar. Um mentiroso não ganha debates. Um debate não é um jogo da bola. O escroque não ganha debate nenhum. Não ganha debates porque nada se ganha fazendo batota. Sim, é um batoteiro que nunca reconhece regras. É papel de todos os democratas amantes da liberdade combaterem este energúmeno. Este e todos os outros que por aí andam. Os eleitos e os que os elegem. Se querem esterco no poder é porque se sentem bem no lamaçal. Não se respeitam fascistas. Combatem-se.
Fernando Sobral
Avisa-me aqui a plataforma que o Fernando Sobral faria hoje anos. O aviso desperta-me a saudade. Saudade da sua presença, dos seus escritos, da sua argumentação informada e inteligente. Sinto a falta dessa informação avisada sobre política, cultura e o saber observar e apreciar objetos de uso e prazer. O Fernando era um especialista em sofisticação. Por exemplo: relógios faziam parte do seu erudito saber. Vi uma vez um relógio, numa montra de uma relojoaria, que achei lindíssimo. Como não conhecia a marca, resolvi perguntar ao Fernando. Fui almoçar com ele nesse dia. Contou-me toda a história da marca. Comprei o relógio. Sempre que o penduro no pulso, lembro-me do Fernando. Às vezes, quando o uso, oservo as horas e recordo as vezes que lhe ligava para combinarmos um almoço. Tenho mesmo muitas saudades do Fernando Sobral.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
Sem receituário
Nunca lutes com um porco. Primeiro, porque ficas sempre sujo e, segundo, porque o porco gosta.



























