sexta-feira, 17 de abril de 2026

Em Abril, liberdades mil (5)


CLUBE DOS PROFESSORES CONTEMPORÂNEOS | Publiquei aqui um texto 
quando soube que a professora Isabel Monteiro já não estava entre nós. Foi em Maio de 2013. Recordo-a agora, em jeito de homenagem, adaptando a publicação a esta nova realidade em que vivemos, porque acho que existiram pessoas que não merecem ser esquecidas. Há professores que recordamos acompanhados pela tristeza de não voltarmos a conviver com a sua inteligência, humor e cultura. Atitudes e comportamentos que nos transmitiram com grande sentido de dever. 

ISABEL MONTEIRO. PROFISSÃO: PROFESSORA | Estamos sempre a aprender, diz-se. É verdade. Mas existem dedicados profissionais do ensino que moldam a nossa curiosidade com competência, transmitindo valores de cidadania e solidariedade que nos marcam para sempre. O professor Agostinho da Silva citava uma amiga analfabeta: "a escola devia estar sempre aberta, para eu ir lá perguntar o que não sei". Há professores que são assim: uma escola aberta. Guardo na memória um raminho deles. Isabel Monteiro ocupa lugar especial na minha memória. Foi com grande prazer que frequentei as suas aulas. Era professora de inglês. Praticava um ensino que nos colocava no centro do mundo. Saíamos da lusa tacanhez de então. Colaborou em edições pedagógicas. Concebeu manuais que usámos para aprender a língua inglesa. Uma Professora assim, com letra grande. Em Abril de 1974, quando tudo mudou para muito melhor nas nossas vidas, leccionava no Liceu de Setúbal. Lembro-me de uma reunião convocada pela associação de alunos, no ginásio, que apelava a um exercício de justiça. Havia dúvidas sobre o comportamento do reitor no tempo da repressão: suspeitas de ser informador da PIDE. Claro que na altura não existia ainda o partido que sugere a ressureição de Salazar a multiplicar por três. Sabermos que o reitor era informador da PIDE era perturbador e muito revoltante. Lembro-me de Isabel subir ao estrado e opinar: não podemos ser injustos. Acima de tudo é preciso apurar a verdade. O reitor deve ficar se for provado que não pertenceu à polícia política. Mas se for provado o contrário, se se provar que pertenceu, é bom que saia e depressa. Vibrante aplauso. Isabel era assim. Esclarecida, destemida, mas com uma admirável lucidez. Justa e culta, tomava decisões que nos protegiam e exortavam a que nos defendêssemos. Uma mulher contemporânea, que assumiu o seu tempo com autenticidade e vontade de participar na evolução do sistema de ensino.
 
Nunca a perdi de vista. Convivíamos entrecortadamente em actividades culturais e políticas que iam acontecendo. Muito mais tarde encontrava-a num café perto da estação ferroviária. Antes de eu rumar a Lisboa, falávamos do estado a que isto chegou. Lembro-me de um dia em que estava muito chocada por Salazar ter vencido um concurso televisivo. O mais importante português, o português do século XX, ou coisa do género. A sessão final do concurso opunha Salazar a Álvaro Cunhal. Foram os finalistas nesta ideia parva. O fascista Jaime Nogueira Pinto foi o defensor/promotor de Salazar. Odete Santos defendeu Cunhal, obviamente. Salazar venceu. Desta vez não foi preciso mandar matar ninguém que se lhe opusesse. Um morto não pode dar ordens. E foi assim, depois de morto, que foi eleito democraticamente por um conjunto significativo de telespectadores. Isabel estava num justificado estado de indignação. Aquilo foi para ela um choque. Às vezes imagino o que pensariam agora estas pessoas que resistiram a Salazar e viveram a alegria da fundação da democracia, dos sessenta energúmenos fascistas que hoje lançam desavergonhadas ofensas a quem os combateu e defendem sem rodeios o regime do tiraninho, como foi definido por Fernando Pessoa. Gente menor que nos envergonha no parlamento, nas televisões e nas redes sociais. O desconforto da professora com a vitória do ditador criminoso no concurso da treta provocou-me incómodo e solidariedade: isso foi um concurso imbecil, sem nível nenhum, e não tem qualquer importância, disse-lhe. Concordou.
 
Mais tarde combinámos uma visita ao meu atelier, em Lisboa. Dei-lhe um cartão para fixar contactos. Vim a saber pouco depois que estava doente. Era coisa ruim, mas sempre pensei que sem motivos para grandes preocupações. Soube que tinha morrido algum tempo depois desse fim. Foi a surpresa e o choque. Como é que eu não soube de nada? Como é que uma pessoa tão importante para tanta gente parte assim? Não posso concordar com esta invisibilidade. É injusto. Queria tanto que ela fosse ao meu atelier. Queria tanto continuar com ela a arrasar fascistas naquele café perto da estação. A luta era travada à volta de um cafezinho, mas fazia sentido. Todos os momentos são bons para tentarmos perceber o porquê de tudo isto acontecer. De que buracos surge esta gente sem educação, sem cultura e sem maneiras? Não tive oportunidade de me despedir. As despedidas são um abandono. Isabel Monteiro viverá para sempre na minha memória. O meu reconhecimento permanecerá. Gosto muito de si, senhora professora Isabel Monteiro. 
 
E cá estaremos para combater os velhos e os novos fascistas imberbes e videirinhos. São figurinhas ridículas que a essa dimensão devem ser reduzidas. Quem nos ensinou e deu educação será sempre exemplo. Muito obrigado por tudo. Muito obrigado mesmo.
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Em Abril, liberdades mil (4)

Coleção de Mary Quant nos anos 1960 — Foto: GettyImages


A IMORALIDADE NAS ESCOLAS | 
No texto de ontem, inserido nesta rubrica que passeia pelos meus tempos de adolescência, abordei um episódio de policiamento político manifestado por dois professores de trabalhos manuais. Já que estou com a mão na massa, conto uma história de policiamento moral praticado por um professor com funções diretivas no Liceu da minha terra. Ano de 1973. 
 
Dia de primavera. Manhã cedo. Já estávamos todos na sala de aula. Aula de ciências fisico-quimicas. Véspera de um teste importante. De um momento para o outro ouvimos um apelo do exterior. Um pedido de ajuda. Abrimos uma janela e percebemos que uma colega pedia para a ajudarmos a entrar por ali. Estranho? Claro. A rapariga tinha sido impedida de entrar pelo portão principal por um professor que assumia as funções de uma espécie de policia da moralidade. Motivo? A nossa colega tinha vestido nesse dia uma mini-saia muito mini mesmo, que não encaixava nos padrões exigidos pelo moralista de serviço naquele dia. Os moralistas metem-se em tudo. Querem ser donos do nosso corpo e também querem meter o bedelho no que usamos para cobri-lo. Aliás, os fascistas querem meter o bedelho em tudo o que fazemos. As proibições são norma. As sugestões são obrigações. A nossa colega vinha todos os dias de Palmela. Aquela aula era importante porque no dia seguinte havia teste de avaliação. A professora estava na sala e aprovou a nossa atitude. Tudo acabou em bem. Fomos eficazes resistentes. Sabíamos dos comportamentos repressivos por parte do sinistro professor. Gostava de aplicar carolos nas cabeças dos rapazes. Sabem o que é? Mão fechada e nós dos dedos em riste em direção à zona da nuca. Aquilo doía. Tive sorte. Nunca fui contemplado. Mas passei a odiar a figura mesmo quando, depois de Abril, se tornou figura de proa na defesa do ambiente na região. Lembro-me que houve uma tentativa de me apresentarem o figurão, e acho que recebeu a medalha da cidade, pelos valorosos préstimos prestados. Devem ser os justiceiros carolos. 
 
Acontece que não tenho o hábito de perdoar fascistas. Nem os de ontem, nem os de hoje. Também não lhes desejo carolos na nuca, nem perco muito tempo a odiá-los. Desprezo-os simplesmente. Feitios.

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quinta-feira, 16 de abril de 2026

Regresso ao passado com o partido dito social democrata?

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A deputada de esquerda Isabel Moreira pergunta à ministra da tutela o que ela acha da dita. A ministra da tutela é uma tutelar sonsinha que mal sabe o que anda ali a fazer. Pelo menos parece. Mas nós temos que a abanar para que ela acorde e perceba e assuma de que lado está. Nós temos que perder a paciência para esta gente toda que se está a deixar levar pelo discurso e prática de ódio da extrema-direita, vulgo: novos fascistas. Acordem de vez. Já não dá para ficarem em cima do muro. E a solução não é regressarmos ao século passado. Enxerguem-se.

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Em Abril, liberdades mil (3)

NA ESCOLA DO ESTADO NOVO | Regresso hoje a esta ideia de contar histórias e botar opiniões pessoais sobre o que viveram as pessoas do meu tempo, no tempo de transição da ditadura para a democracia. Falo de pessoas mais ou menos da minha idade. Não é coisa de geração. As gerações existem para definições sociológicas, mas, nas atitudes, as pessoas têm percepções diferentes do que se passa à sua volta. Somos todos diferentes. Insisto na expressão cantada de José Afonso: "Há quem viva sem dar por nada/Há quem morra sem tal saber". Faço parte do clube de membros da minha geração que queria dar mesmo por tudo. A história de hoje aconteceu-me. É relato real, sem ficção de espécie alguma. É uma das histórias aqui em pré-publicação, dado que sairá no objeto impresso que já aqui informei estar disponível para leitura em março de 2027. É uma das histórias do livro ALGUÉM VIU OS MEUS ÓCULOS? Aqui vai:

AULA DE TRABALHOS MANUAIS - Sempre entraram jornais em casa dos meus pais. A leitura diária da imprensa escrita meteram-se comigo. Os jornais detetaram e instigaram em mim uma intensa necessidade de saber coisas. A curiosidade por tudo o que se passava cresceu em mim a partir dos cinco, seis anos de idade e nunca mais me abandonou. Essa minha curiosidade e conhecimento agitaram um episódio que não resisto em contar. Estava eu em frequência do então chamado ciclo preparatório. Tinha oito anos. Aula de trabalhos manuais. Dois professores vigiavam a sala e davam sugestões de trabalhos. Embalagens de objectos de uso corrente foram colocados à nossa disposição. Agora inventem, disse um dos professores. Resolvi fazer um avião a partir de um tubo de comprimidos, cartolinas e rolhas de cortiça. Chegou a altura de o ornamentar com papel de lustro e os dizeres definidores dos proprietários. Forrei o objeto de vermelho e coloquei as iniciais URSS. Foi o bom e o bonito. Professores em interrogatório intenso. Onde viste isto? Quem te disse para pôr estas letras? Ameaças sugeridas, interrogatório a acelerar com violência verbal. Respondi, com toda a calma, para os prestimosos professores ameaçadores, que via com frequência aquelas letras nas primeiras páginas dos jornais. “Isso não viste, não senhor!”, dizia aos berros um dos professores. Não lia jornais, percebi. Saí da sala de aula ao som de ameaças e urros de um dos cretinos. Ao jantar contei a cena ao meu pai. Pânico discreto. Procurou entre todos os jornais que tínhamos lá em casa os exemplares com URSS grafado na primeira página. Disse-me para os levar aos professores. Um dos jornais — O Século — era conotado com a situação. Insuspeito, portanto. Para que percebesse bem a situação falou-me abertamente da agressividade do regime político em que vivíamos. “Temos que ter alguma habilidade para nos defendermos nestes tempos em que vivemos. Temos que ser amigos do governador civil e do sapateiro. Se o governador nos atiça a polícia temos que ter bons sapatos para fugir. Leva os jornais e mostra aos professores. Se eles não perceberem é porque não querem perceber. Mas talvez fiquem mais calmos. Pelo menos estes jornais provam que foi verdade o que lhes disseste. Para algo pior estou cá eu e falo com eles”. Só não percebi muito bem a necessidade de compromisso entre fascistas e sapateiros, mas cumpri. Os professores de trabalhos manuais perceberam o excesso da atitude aparvalhada. Tive sorte. À noite contei ao meu pai. “Palhaços”, sentenciou. Sim, palhaços, mas sem graça. 


E pronto. Este é apenas um dos episódios por mim vividos que agora podem inspirar os adeptos da educação à antiga portuguesa, como costumam dizer das touradas. Devem ser este tipo de professor que inspira os novos "educadores" do partido fascista. Não sei se terão sucesso escolar. Esperemos que não.

 

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quarta-feira, 15 de abril de 2026

Os idiotas

Os meus comentários aqui esbanjados nos dois dias anteriores a este, foram espoleta para bastos ataques pessoais com laivos de analfabetismo efectivo. Os fascistas e seus aprendizes ostentam uma linguagem que se ajusta perfeitamente à do seu chefe, mas com menor pendor para o rigor gramatical e semântico. Ele sempre tem uns estudos e esforça-se. Dá a sensação que literariamente os seus seguidores ficaram-se pela leitura do catecismo sugerido quase obrigatoriamente até à quarta classe do tempo dos salazares que tanto adoram. A quarta classe antiga, como dizem, como se ali se aprendesse alguma coisa de jeito. De facto faz sentido ficarem-se pela defesa do antigamente. Antigamente é que era bom, para estes iletrados que se esclareciam no dicionário do Torrinha e levavam réguadas até as mãos lhes ferverem. Gostavam. Têm saudades. 
 
É verdade, as minhas publicações anteriores espevitaram esses idiotas com a autoridade que a ignorância extrema lhes assiste. Foi um fartote de bloqueios que eu não tenho vagar para responder a analfabetos que dizem preferir Camões a Saramago sem lerem nada, nem perceberem o pouco que lhes passa pelos olhos e mente atordoada, nem de um nem de outro. Confesso que no início até achei que os ataques eram elogio. Mas logo percebi que não é bem assim. Ser atacado por imbecis não acrescenta nada de novo. Se não há ali saber, também não se vislumbra naqueles pedaços de desgraçada prosa qualquer encanto. Enfim, que deus lhes perdoe, que eu não tenho tensões de lhes dar essa oportunidade. Pode ser que um dia, depois de uns tempos bem passados a insultarem e mentirem, se juntem todos lá no céu. No céu dos pardais, que é a barriga dos gatos, como dizia a minha avó. Vai ser uma alegria, acreditem. Uma plataforma celeste habitada por idiotas deve ser um encanto. Assim deus tenha paciência para vos aturar. Fiquem bem, arautos do fascismo inscritos ou simpatizantes do miserável partido do chefe malcriado. E até nunca.
 
A imagem foi retirada do mural do Pedro Vieira Vieira Resurrectet, a quem agradeço com a devida vénia, que eu não sou ingrato.
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terça-feira, 14 de abril de 2026

Contra o escroque fascista

 Gosto de porcos. Os cães olham-nos de baixo, os gatos de cima. Os porcos olham-nos de igual para igual. Winston Churchill 

Ontem mencionei aqui uma frase de Bernard Shaw que metia porcos na prosa. A situação depreciava o animal. A ideia era comparar pela negativa o líder do partido fascista (agora já se percebeu sem margem para qualquer dúvida que aquela gente é mesmo fascista) a um porco que afocinha na lama sem qualquer problema e até gosta disso. Não vi o debate mas, pelo que tenho lido por aqui, parece que a premissa se confirmou.

Os simpáticos animais não me encomendaram a sua defesa, como é evidente, mas eu sinto-me alcançado com a opinião que ontem aqui publiquei. Venho assim, desta singela maneira, tentar salvar a honra dos involuntariamente atingidos porcos, com a frase de Churchill que inicia este badalar. Já percebemos que o animal não merece ser comparado ao líder do partido fascista. O líder do partido fascista não é um porco. É um mentiroso compulsivo, um mal-criado sem maneiras, um escroque, um racista colonialista sem vergonha, um fascista ressabiado. Nada tem de apreciável ou talentoso. Honra a José Pacheco Pereira que tentou encostar a víbora à parede. Dizem-me que não conseguiu, que víbora é víbora e nada há a fazer. Não posso concordar. Um mentiroso não ganha debates. Um debate não é um jogo da bola. O escroque não ganha debate nenhum. Não ganha debates porque nada se ganha fazendo batota. Sim, é um batoteiro que nunca reconhece regras. É papel de todos os democratas amantes da liberdade combaterem este energúmeno. Este e todos os outros que por aí andam. Os eleitos e os que os elegem. Se querem esterco no poder é porque se sentem bem no lamaçal. Não se respeitam fascistas. Combatem-se.

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Fernando Sobral

Avisa-me aqui a plataforma que o Fernando Sobral faria hoje anos. O aviso desperta-me a saudade. Saudade da sua presença, dos seus escritos, da sua argumentação informada e inteligente. Sinto a falta dessa informação avisada sobre política, cultura e o saber observar e apreciar objetos de uso e prazer. O Fernando era um especialista em sofisticação. Por exemplo: relógios faziam parte do seu erudito saber. Vi uma vez um relógio, numa montra de uma relojoaria, que achei lindíssimo. Como não conhecia a marca, resolvi perguntar ao Fernando. Fui almoçar com ele nesse dia. Contou-me toda a história da marca. Comprei o relógio. Sempre que o penduro no pulso, lembro-me do Fernando. Às vezes, quando o uso, oservo as horas e recordo as vezes que lhe ligava para combinarmos um almoço. Tenho mesmo muitas saudades do Fernando Sobral. 

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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Sem receituário

Nunca lutes com um porco. Primeiro, porque ficas sempre sujo e, segundo, porque o porco gosta.

Bernard Shaw
Eu sei, eu sei que a frase já enjoa, e por outro lado, não se devem ofender os animais. Mas é que não me ocorre outra ideia para comentar este desafio de Pacheco Pereira ao provocador que chefia o partido com nome de detergente. Claro que Pacheco Pereira conhece a frase, mas não deu ouvidos a George Bernard Shaw. Com aquele cretino não se debate nada. A política não é um campeonato de futebol. O cretino vem daí, do jogo da bola, onde está habituado a ver o que quer ver. Têm palas nos olhos, como os burros de antigamente, e não tem argumentos razoáveis. Só exibe ódio, ignorância e apologia da estupidez. Argumenta com a mentira e com o insulto. Como não vou ver o debate — não consigo ouvir o cretino — fica aqui, assim, o meu comentário sobre o assunto.

Mas desejo que tudo corra bem a José Pacheco Pereira. Ele merece. Tem feito um trabalho notável que documenta bem o que se passou no tempo que o cretino elogia e quer ver aplicado de novo nas nossas vidas.
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Uma mulher na sombra, que fazia sombra

Quando fui chamado para colaborar com o Teatro O Bando, pelo João Brites, foi com a Natércia e a Fatinha que estabeleci o contacto inicial. Eram elas que resolviam tudo. Tinham o grupo de teatro às costas. O contacto passou a amizade em menos de um fósforo. A Fatinha foi muito, tanto, para este grupo de teatro que desenvolve um trabalho tão útil e exemplar. Mas a Fatinha ficou também minha amiga para sempre. Estivemos juntos há uns meses, num daqueles almoços/convívio/formação que o Bando organiza aos sábados. Estava a contar estar com ela no próximo. Mas ela não vai estar. Mas vai. Confesso que estou comovido e sem palavras. Passo para aqui as palavras que o João Brites escreveu nesta despedida:

"Se não fosse a Fatinha eu não seria o que sou e o Bando não seria o que É.
Vivia bem à vista de todos nós, mas escondida do público em geral e das notícias nos jornais, numa clandestinidade que foi e que É determinante em tudo o que fazíamos ou fazemos. Clandestina ativista, numa azáfama constante, incansável, vibrante, numa revolta que não se dá por vencida, nem pelas premissas impossíveis de uma próxima criação, nem pela impotência face à dor ou às intempéries da vida.
Assim consigamos honrar o teu incondicional amor, esse alento apaixonadamente irreverente, invencível, quixotesco, esse pensamento quase sempre otimista e resiliente, essa escrita que se escreve e reescreve como na linha do tempo que abnegadamente traçaste, e que, desmaiada pelo sol e pela chuva, persistentemente refizeste nos oitenta metros do nosso edifício em Vale de Barris.
A doze de Abril morreu Fátima Santos.
Nos tempos que aí vêm, por estas veredas que injustamente te foram barradas, já não posso chamar pela terna e abnegada Fatinha que estava fora de mim, mas posso e sem procurar, encontrar o que É que, de ti, continua cá dentro, a fazer parte de mim, a fazer parte de nós".
João Brites, Teatro O Bando
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Do irreal

Donald Trump publicou na sua plataforma Truth Social, uma imagem de si próprio, aparentemente vestido de Jesus Cristo, ressuscitando um morto. 

A publicação surge no meio de duras críticas ao Papa. Provavelmente estamos mesmo perante um mais competente substituto do bispo de Roma. Até ressuscita os mortos. Trump é o novo salvador. Figura bíblica. Até quando o mundo aguentará este alucinado patético e os seus delírios?

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domingo, 12 de abril de 2026

Viktor Órban perdeu. Ao contrário do que dizem os inenarráveis comentadores do partido com nome de detergente que comentam nas televisões estas eleições, Órban instrumentalizou a comunicação social, mitigou direitos, insultou minorias, aliou-se a tiranos e manipuladores profissionais de extrema-direita, instalou a mentira profissional para anular adversários e minou a máquina do Estado. Tudo fez para que o resultado vencedor o iluminasse esta noite.
 
Pois bem: apesar de todos esses esforços a coisa correu-lhe mal. Há limites para tudo. Há alturas em que as pessoas, mesmo em terreno manipulado, começam a detetar a mentira, o insulto, a corrupção. Os novos vencedores não são maçãs da minha árvore, mas, pelo menos por enquanto, não são fruta podre. 
 
Portanto, senhores comentadores do partido português com nome de detergente: a democracia funcionou na Hungria, porque as pessoas estão fartas das vossas promessas de liberdade que não passam de proteção das vossas apodrecidas e ridículas ideias. Há mais derrotados: Trump mandou lá J. D. Vance dar uma mãozinha à extrema-direita de Óban, mas afinal parece que pôs as mãos no lume e queimou-se. E Putin também levou nos cornos. A coisa vai mudar nem que seja um bocadinho. O que for soará.
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sábado, 11 de abril de 2026

María
Emília Brederode Santos 
foi uma daquelas mulheres que marcaram os lugares e as pessoas que com ela conviveram. Foi precursora como pedagoga e como política. Dirigiu instituições ministeriais. Fundou maneiras de ensinar. Com Ana Maria Bettencourt tratou de tudo para a criação da Escola Superior de Educação de Setúbal. A Educação e a Cidadania (assim, em caixa alta) devem-lhe muito. Portugal deve muito a esta Mulher (em caixa alta, claro) que foi grande em tudo o que fez.

Permitam-me uma nota pessoal. Conheci Maria Emília ainda Medeiros Ferreira estava entre nós. Conheci Medeiros Ferreira pelas nossas opiniões nos blogues: ele, no Bichos Carpinteiros e eu, no BlogOperatório. O primeiro encontro com Maria Emília e Medeiros Ferreira foi bem disposto e com motivos para continuarmos a conviver. Convivemos. Maria Emília era de uma simpatia contagiante. Uma mulher alegre e bem disposta que revelava coisas novas em cada conversa. Depois da morte do marido continuámos a encontrar-nos por aí em lançamentos de livros de amigos, exposições e outras combinações culturais e políticas em defesa desta tão frágil democracia em risco. Ela estava preocupada com a nova balbúrdia fascista. A última vez que estivemos juntos foi em janeiro, em casa de amigos. Daí a dias íamos todos votar contra essa balbúrdia. Votámos. Ela ainda votou, é claro. Penso que terá sido o seu último contributo político em defesa da democracia e da liberdade.

Eu gostava muito da Maria Emília Brederode dos Santos. Tenho a certeza que mesmo quem não a conheceu, se a tivesse conhecido, teria a minha opinião. Era uma mulher admirável. Um ser humano excepcional. Muito Obrigado, Maria Emília. Foi bom viver no seu tempo.
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Quando a corja topa da janela

São o que for preciso. Uns apoiam Trump, outros Putin, outros Trump e Putin e outros não sabem muito bem o que fazer para ter apoio e palco. O palco é a uma tentação que lhes dá visibilidade e que lhes poderá dar poder, pensam (pouco e mal, mas pensam). Todos são contra a imigração. Todos são por "nós primeiro" e os outros todos que vão para longe, para a terra deles, que cada um nasce onde nasce porque foi deus que assim o quis.
Há os mais discretos e há os espalhafatosos. Avançam e recuam em discursos de ódio, conforme recomendam os barómetros eleitorais. Ainda respeitam esses condimentos democráticos, mas só pensam em acabar com esses empecilhos ao restabelecimento da nova ordem fascista. Trump está a tratar disso lá na terra dele. Tudo está a fazer para condicionar o voto democrata, e até já fala em continuar ao leme mesmo depois do permitido, mas sem dizer o que tenciona fazer para manter a embarcação nestas águas turvas. A maçada das eleições pode dar lugar ao descanso da ditadura.
O fim da democracia dava muito jeito. Meloni não quer imigrantes. Meloni quer imigrantes. Em que ficamos? Ficamos com os imigrantes que nos servirem, os outros que vão morrer longe, no mar, quando tentam salvar a pele e matar a fome. Solidariedade? Humanidade? Que marcas são essas? Podem comercializar-se?
Em Portugal calhou-nos o maior dos pantomineiros. Utiliza a opinião como quem usa um lenço de papel que depois deita fora com a opinião lá assoada. Um nojo. Responde com mentiras e pergunta mentido. Tudo pode mudar de manhã para a tarde, e, se o dia for longo, ainda faz serão. A mentira e o dislate podem ser usados quando o homem quiser.
Nas chefias das extremas direitas sempre existiram os corruptores e os corruptos. Trump, por exemplo, não imagina que existam diferenças entre gerir uma firma e governar um país. Governa os EUA com se fosse uma empresa imobiliária e de serviços com sede na sua propriedade. Toda a sua família faz negócios a partir da Casa Branca. Estes espécimes inventados por um qualquer deus menor foram agora apoiar o seu corrupto amigo húngaro. Motivo: está em maus lençóis. Os que detêm o poder querem mantê-lo e os que têm sede e querem chegar ao pote (Lembram-se desta tirada magnífica?) fazem o que for preciso para lá chegar. Se for preciso até partem o pote. E se o pote for de petróleo... Venha a nós. O filho mais novo do candidato a ditador americano que o diga. Resumindo: a alternativa na Hungria não é flor que se aproxime de nariz mais sensível, mas é o que os húngaros têm para já no mercado eleitoral como alternativa ao candidato a poder perpétuo. Saiu do mesmo ninho de víboras, mas diz que vai ser diferente. Eles dão-se como as cobras porque são maus como as cobras. Há ali uma vontade reptiliana de atacar, matar, eliminar. Estão organizados em bandos de malfeitores. São malfeitores.
O Sérgio (Godinho) convidou os seus amigos Adriano, Fausto e José Afonso para participarem no seu álbum Campolide (1979), escrevendo e cantando uma quadra (ao gosto popular, como às vezes se diz) da autoria de cada um. José Afonso escreveu e cantou esta: "Disse-me um dia um careca/Quando uma cobra tem sede/Corta-lhe logo a cabeça/Encosta-a bem à parede". Enfim, metáforas.

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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Os novos vampiros

 
Dino Risi, Ettore Scola e Mario Monicelli descobriram OS NOVOS MONSTROS, em filme notável que mostra onde leva a indiferença humana face à solidariedade. Os novos políticos neoliberais trazem esse espírito para a política. A insensibilidade social é de uma agressividade fora da lei O imobilismo de quem se encosta ao que se pensa inevitável ajuda. São os novos vampiros. José Afonso nunca nos abandonou. 
 
Seguro diz que vai avisar, vai alertar, vai ver o que se passa. Mas vai ser discreto. Não quer incomodar muito. E não passa disto. As pessoas ficam assim descansadas até à próxima visita. Sobre a nova lei que os patrões querem impor à razoabilidade, Montenegro declarou que tem em conta os alertas do senhor Presidente (avisador) da República, mas acrescenta que a concertação social pode querer uma coisa e o parlamento outra, e o parlamento é que conta. Claro que o homem está perfeitamente descansado. Passos Coelho não precisa de se esforçar com mais apelos laterais. O partido fascista está lá para ajudar a aprovar o bafio que emana da política bafienta. No governo mais tecnicamente incompetente em democracia, o primeiro-ministro adota a linguagem totalitária que o seu aliado mais à direita tanto aprecia. É mentiroso, farroncas, impostor e incompetente. Três salazares? Para quê? Já lá está um Luís e um André. O resto faz-se devagar, com a ajuda dos estribeiros do Chega que estão a ocupar os lugares lustrosos da nação.
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quinta-feira, 9 de abril de 2026

O invertebrado holandês

O secretário-geral da NATO é já considerado o mais destacado invertebrado da política contemporânea. Bajula Trump, absorve mordomias e dobra a espinha por qualquer ditador ou corrupto poderoso. 
 
Tem cara de estúpido, porta-se como se o fosse e até parece mesmo que o é. Mas provavelmente não o é. É apenas um videirinho que se meteu na política porque viu que aquilo até dava para viver bem desde que se tivesse a capacidade de dobrar a coluna até 90 graus. Sempre houve gente assim, mas agora está a haver em excesso. A gente vira-se e lá está um a dizer coisas. O mundo parece um circo dos arrabaldes. Os ilusionistas pediram licença para negociar. Os palhaços ricos ficaram na tenda a dar ordens.
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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Rezar na era da técnologia

As religiões adoram o fim da vida. Depois disto é que vais ser. Isto é só uma passagem. Isto está tudo na Bíblia, e no Corão e no raio que os parta. São imortais, estes mortais. Nós, os que incréus, os hereges, os que não temem divindades de fantasia, estamos condenados. Espera-nos o inferno. Ainda bem que houve um Papa que acabou com o purgatório. Ainda bem que as leis eternas são decretadas pelos mortais, que asim se protegem de ir lá parar. O purgatório era do piorio.

Ainda bem que seres humanos (será que o são?) que decretam os fins das heresias, se combatem entre si. Crentes contra crentes. Os deuses certificam-se em diferentes conservatórias, parece. Uns têm agora um representante na terra, que decreta a partir de uma Casa Branca a brancura plena do planeta. O fim de quem não o adora. Gasta fortunas em armas tecnologicamente avançadíssimas e duplica a sua pessoal. Matar anima a economia e desenvolve a tecnologia. Sim, estamos perante um pretendente ao trono de Deus. Um louco imbecil foi ungido. Até anuncia o fim de civilizações culturalmente riquíssimas só porque lhe apetece. É venerado por uma chusma de crentes enfurecidos. O Senhor esteja convosco. Tenhamos medo. Muito medo.
 
O muno inteiro regressa à crença, dizem alguns cronistas. Informam-nos da mudança de paradigma e anunciam a razoabilidade do irrazoável. As guerras servem para as conquistas entre deuses enraivecidos. As guerras são excelentes. Dão dinheiro. No Brasil um está preso, mas a língua portuguesa está bem representada. Em Portugal o enviado de um deus maluco tem o seu representante sempre aos berros contra tudo o que não aprova, que é tudo o que é recomendável. Contra o outro, o diferente, o que pensa melhor do que ele. E já manda nisto de braço dado com quem diz que manda à séria e que faz tudo bem, e que nunca ninguém fez melhor. Estão todos a ficar como o "amaricano". Estão bem uns para os outros. Há quem diga que é mesmo contra o Cristo. Há agora um Crito nacional, nacionalista mesmo, que se pensa ele o preferido de Deus pai. Vem nas redes sociais. Ajoelha-se sempre que vê uma cruz. Presta contas ao pai, com toda a certeza. Mas isto dizem-me, não confirmo nem desminto. Que fiquem com Deus e que Deus os proteja.
 
O mundo está doente com estes doentes ao leme. Há quem diga que isto não é problema religioso. De facto não é. O problema religioso é uma vantagem económica para eles. Mas eles querem tudo. A economia e a política com poder lá dentro. A religião é o envelope que guarda a pouca vergonha que ainda não querem mostrar. Mas cada vez mais o envelope esgaça. A vergonha escorre desse embrulho em jorros de sangue que não é o deles. Eles têm os fiéis que os seguem cegamente. Apelam à liberdade, como se as regras da democracia fossem empecilhos à liberdade deles. Os fascistas regressaram sem vergonha. Os nazis já se saúdam como romanos de outros tempos nas arenas da superioridade. A religião ajuda muito os arautos da fé. Todos querem ir para o reino dos céus, mas pelo sim pelo não vão orando para que o seu corpo se mantenha por cá muito tempo. De preferência o tempo que for preciso para ganharem muito dinheiro. Talvez o alarve que tem a profissão de "homem mais rico do mundo" já esteja a preparar a abertura de umas filiais bancários no reino dos céus. Essa massa toda não pode ficar assim ao deus dará, não é verdade.
 
Imagem: cartoon de André Carrilho
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domingo, 5 de abril de 2026

Em Abril, liberdades mil (2)

A MÚSICA É TAMANHA | A música foi a primeira das artes a despertar-me os sentidos. Claro que até aos doze anos ouvi o Festival da Canção com o entusiasmo de um parolo em crescimento. Mas o entusiasmo foi esmorecendo até que, a partir do momento em que passei a frequentar a revista Mundo da Canção, toda a cantoria vociferada em Portugal, pelos cançonetistas portugueses que só ouvia por descuido, foi atirada para o lixo. João Paulo Guerra chamou nacional-cançonetismo a esse insuportável ruído, em trocadilho com as premissas ideológicas nazis. Bem achado. Toda aquela algazarra sonora metia nojo. A publicação de o Mundo da Canção, e mais tarde de o Musicalíssimo, permitiram-me que acedesse a outros sons. O nome de José Afonso apareceu-me impresso pela primeira vez nestas publicações. Passei também a pedir documentação a embaixadas de países livres e civilizados. Também por aí fui tendo informações apesar de bem longe do pretendido

Antes de Abril de 1974 comecei a ouvir outros sons graças ao Mundo da Canção. Achava o nome da revista foleiro, mas era o que havia, e o conteúdo era apreciável, apesar da forma.  O Musicalíssimo surgiu depois, já em liberdade: em liberdade muito do que tínhamos ansiado passou a ser concretizado. Os jornais tinham bons suplementos culturais e surgiu imprensa de referência com especificidade cultural: o Se7e e o Blitz são apenas dois exemplos, mas também o JL esmiuçava curiosidades com substância. Até passámos a ter acesso à imprensa cultural estrangeira. A Interview, de Andy Warhol e Wilcock, surpreendia e animava. Mais tarde, em finais dos anos 1980, toram aparecendo por cá outras publicações incríveis, com grafismos fora de tudo o que era feito até aí. The Face e Arena marcaram-me, pelo conteúdo e pelo embrulho gráfico. A City informou-me e a The New Yorker deu-me asas. A sério, aquilo faz-nos voar. Ainda hoje. Guardo resmas destas publicações únicas, agora valiosas. 

A Arte que experimenta foi preenchendo os meus ouvidos e cérebro. A literatura com as palavras que interessam foram guardadas nas estantes que eu próprio desenhei e até construí. Prefiro a surpresa ao imobilismo. É isso que exijo a mim mesmo. Voltarei a este assunto nestas conversas sobre Abril que tenciono publicar durante todo este mês. Bom dia de Abril. Até já.

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