segunda-feira, 4 de maio de 2026

Design de comunicação

DA SÉRIE GRANDES CAPAS. www.cartacapital.com.br/ 

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domingo, 3 de maio de 2026

Sérgio Godinho em Palmela

No próximo dia 16, a Rosa Azevedo e eu vamos conversar com Sérgio Godinho. É mais uma proposta SNOB/DDLX, desta vez vai ocupar o espaço da Biblioteca Municipal de Palmela, e é incluída nas comemorações da Liberdade no concelho. 

Vamos falar do mais recente livro do Sérgio — COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ —, mas também de muito do que lhe foi acontecendo antes e depois da Abril. A ele e a todos nós. É por isso que este convívio vai ter literatura, música e muita conversa. Se calhar até vamos cantar e dançar. Tomem nota. Fixem o cartaz. Vai ser fixe. 

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sábado, 2 de maio de 2026

A Turíbia

Publiquei este texto no dia em que a Turíbia nos deixou. Já lá vão dez anos. Yourcenar escreveu "O Tempo, esse grande escultor". Apetece-me responder-lhe: o tempo, esse grande estupor. Mas claro que não podemos fugir a esta medida que nos molda e tempera. O tempo agarra-nos sempre e prega-nos grandes partidas. Corre e passa por nós em grande velocidade e leva-nos à frente. Mas tem tantas coisas boas. A vida é boa quando nos cruzamos com gente boa. Tenho tido sorte. As pessoas que me têm adoptado como amigo são as melhores. A Turíbia era uma miúda incrível. Dez anos sem ela. Estupor do tempo.

Aqui vai então o texto que publiquei no dia 2 de maio de 2016: 

Conheci a Turibia logo nos primeiros tempos da democracia. A liberdade estava ali à nossa frente e nós aproveitávamos esse privilégio. Naquele tempo ainda éramos eternos. Tudo era novo. Começámos a ler os livros, a ver os filmes, a discutir as ideias até ali proibídas. Agora era proíbido proibir. Convíviamos até às tantas. Petiscávamos fora de horas. Sempre a conversar. Sempre a descobrir coisas novas. O que a gente se divertiu a descobrir coisas novas. O Círculo Cultural de Setúbal era no local onde é hoje a Casa da Cultura. Pertencemos à nova animação da colectividade anti-fascista. Os menos novos tinham ido para os partidos, para as escolas, para os sindicatos e para outras instituições do novo tempo. Nós, mais novos, ficámos ali a inventar coisas. Chamámos realizadores, actores, cantores, escritores e outros animadores para nos darem uma ajuda. Conhecemos gente do caraças, não foi, Turibia? Bem contentes ficávamos com aquele convívio. Líamos muito. Ela lia tudo o que apanhava. Criou um gosto literário. Tornou-se exigente. Muito exigente. Agora só lia o que lhe preenchia os requisitos dessa exigência. Mas isso não era pouco. A curiosidade intelectual minava-lhe a existência. Encontrei-a no dia em a doença começou a portar-se mal. Ela estava com esperança. Eu também. Mas as doenças às vezes portam-se mesmo muito mal. E aparecem para nos dizerem que afinal não somos eternos. Escusavam era de vir tão cedo. A Turíbia era uma grande amiga. Eu gostava muito dela. Gosto. Que dias tão tristes.

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sexta-feira, 1 de maio de 2026



O trabalho é mais uma surpresa de Banksy. Foi instalado durante a noite em Waterloo Place. Representa um indivíduo segurando a bandeira da sua amada pátria a precipitar-se para o abismo. Motivo do descuido: a bandeira enrola-se-lhe na cara tapando-lhe a observação do caminho. Da realidade, portanto. Excelente metáfora do nacionalismo. Pena não ter o contacto do artista. Mandava-lhe uma mensagem de parabéns. E aos nacionalistas, mandava-os cumprir a metáfora.

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quinta-feira, 30 de abril de 2026

É preciso não esmorecer



Vivemos tempos sombrios. Os fascistas já saíram dos buracos onde vegetavam e andam por aí. Dizem o indizível. Insultam, ameaçam e fingem-se muito incomodados quando são confrontados com aquilo que são. Não querem que os coloquemos nos depósitos da extrema-direita. Acham que não são de extrema-direita nem fascistas, mesmo depois de passarem a vida a elogiar o ditador criminoso Salazar, e a defenderem ideias contra a cultura e o bem estar colectivo. Andam por aí, estão mesmo muito perto. Alguns são nossos "amigos" aqui na geringonça. Muitos já foram despejados — são lixo —, mas não sei se foram todos.

Um aparte que é uma confirmação: ontem ouvi e vi um programa na RTP — É ou Não É? —, comandado por Carlos Daniel, em que dois participantes revelaram a maior maldade e falta de empatia pelas pessoas diferentes deles. Um médico que não fixei o nome disse o inimaginável. Mas pior foi um deputado do PSD — Bruno Vitorino; este resolvi fixar o nome —, que defendeu as trevas. Percebe-se que foi dali que saiu aquela gente que grita e esbraceja no parlamento. Provavelmente ainda por lá andam muitos. 
 
O que está a acontecer é revoltante. O mundo tem ao comando gente do pior. Portugal tem gente sem classificação a governar. Este 1º de Maio é de indignação, de revolta. De revolta contra o chamado pacote laboral (nome curioso) que as grandes empresas e o governo reaccionário tentam aplicar à vida de quem trabalha. Isto está mal e com tendência para piorar, mas nóa não podemos ficar de braços cruzados. A extrema-direita é ridícula, deprimente, mas tem a simpatia dos incautos. Vamos reagir, sempre. Vamos sair à rua neste dia do trabalhador.
Com convicção, com alegria. Somos melhores. Temos melhores ideias. Não precisamos de gente reles para nada. Bom 1º de Maio para toda a gente. Até amanhã.
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Georg Baselitz


Morreu Georg Baselitz. Artista pioneiro que nos surpreendeu com imagens desafiadoras das leis tradicionais. Mergulhei recentemente numa exposição sua em que as proporções dos trabalhos nos reduziam a espectadores resignados à arrogância dos formatos. Arrogância leve, já que a cor nos devolve a alegria e o prazer. Marcou o seu tempo, como acontece com outros seus compatriotas. Baselitz trabalhou muito, e muito do que fez fica aí para observação. Eu gosto muito e agradeço-lhe. Foi bom perceber que ele existiu. Muito obrigado, senhor Baselitz.

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À pala

O primeiro-ministro tenta fazer política à Trump. Nunca foi feito nada assim, somos pioneiros, estamos à frente, ninguém nos trava. Usa boas estruturas, que outros criaram, e avança na farronquice parola que o caracteriza. 
 
O Pavilhão de Portugal e a famosa pala que Álvaro Siza concebeu não merecem ser cenário de tanta parvoíce. A agência de comunicação, que parece parva, põe esta gente a dizer coisas que não lembram ao diabo, deus me perdoe, mas comunicam. Convence os parolos mais distraídos. Estes governantes tatibitate parece não perceberem o que vão lendo, que é o que lhes dizem para dizer. Montenegro lê aquelas tretas sem convicção. Parece assim uma espécie de testa-de-ferro de uma gente que nos quer esmifrar, mas não sabe bem como. Os indescritíveis parolos daquele lado mais à direita do parlamento dão uma ajuda fingindo que não é bem assim. Agora, para que o pacote contra quem trabalha seja aprovado, exigem reformas de velhice mais cedo. Que generosidade tamanha. A impossibilidade como bandeira. Foi o líder, aquela criatura inenarrável que acha que o 25 de Abril foi uma revolução miserável, que o disse no discurso comemorativo da revolução miserável. Fez bem, o miserável. Fica assim esclarecido que quem o continua a apoiar é fascista e quer três salazares mais ele, o miserável. Ornamenta-se assim a coisa com um ramo de tristes figuras. 
 
E cá vamos, lutando, com uma pachorra sem fim contra esta procissão de idiotas. Idiotas é elogio, que a nossa educação não nos permite botar aqui palavrões.
 

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quarta-feira, 29 de abril de 2026

David Lopes Ramos

David Lopes Ramos morreu no dia 29 de Abril de 2011 e já não viveu para assistir à tentativa de reescrita da História por parte da direita extremista, e não só. Imagino o que teria dito e pensado se tivesse assistido ao debate televisivo entre José Pacheco Pereira e o líder do Chega e à tentativa deste de colocar no mesmo patamar os 48 anos da ditadura com os excessos e desvios de 19 meses que separaram o 25 de Abril de 1974 do 25 de Novembro de 1975 — e até dos anos seguintes. Excessos e desvios próprios de qualquer revolução e que a consolidação do processo democrático foi corrigindo. Com uma irónica excepção: os únicos crimes violentos, com mortes, que ficaram sem castigo, é bom lembrá-lo, foram cometidos por grupos e movimentos de direita, como o MDLP. a que pertencia um dos ideólogos do Chega, Pacheco Amorim.

Excerto da crónica de Pedro Garcias, no suplemento Fugas, incluído no Público do dia 25 de Abril. 

As crónicas de Pedro Garcias são deliciosas, um néctar em caracteres tipográficos. No passado sábado escreveu sobre o seu amigo e colega David Lopes Ramos, meu amigo também e que recordo com saudade. O David deixou-nos neste dia de 2011. Quinze anos sem ele. Mas foi muito bom conhecê-lo. É isso que fica. É isso que recordamos.  

A fotografia do David (pormenor) é da autoria de Adriano Miranda.

terça-feira, 28 de abril de 2026

José Santa-Bárbara


Morreu José Santa-Bárbara. Designer com trabalho de relevo, ficou conhecido por ter desenhado nove capas de discos de José Afonso. Foi também responsável pelo gabinete de design da CP e por muitos projetos editoriais. Nos últimos anos regressou à pintura, tendo feito exposições e trabalhos para painéis em azulejo instalados em lugares públicos. Dia triste para o Design em Portugal. Dia triste para a Cultura Portuguesa. Muito obrigado, José Santa-Bárbara. Foi bom viver no teu tempo.



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Quem tem capa sempre escapa


Tive saudades do vinil. De abrir aquelas capas fantásticas dos LPs, de ser surpreendido primeiro pelo design, depois pelos conteúdos impressos e pela observação daqueles grafismos superiores. A colocação do objeto circular, negro, no prato do gira-discos, era cerimonial. O som parecia magia. Os meus LPs sempre foram instalados em prateleiras por mim 
desenhadas e por mim quase sempre construídas. Tudo feito à medida para bem receber tão distintos habitantes. 

Quando conheci José Afonso, muita coisa se esclareceu na minha mente de adolescente curioso. Eu fervia em perguntas. Ele punha água na fervura. Era um excelente conversador. Quando saía um disco seu, trocávamos muitas palavras sobre o assunto. O criador José Afonso nunca estava satisfeito com o resultado. A "alegria da criação" esbarrava na prensagem do disco. "O som está empastelado", dizia. Eu queria lá saber, e esclarecia-o: a música está incrível. Adorei "de sal de linguagem feita" e "de não saber o que me espera". Era a vez de ser ele a ficar curioso. Porquê?, e eu satisfazia a sua curiosidade. As capas vinham sempre à baila, é claro. A estética visual sempre o preocupou. Era exigente. Uma exigência esclarecida pela sua curiosidade intelectual, que era imensa. José Afonso tinha cultura visual e aplicava-a. Acho que isso está bem percebido. Já fiz o design expositivo e curadoria de duas exposição à volta da imagem visual dos seus discos. E vou continuar.

Comecei por dizer que tive saudades do vinil. Tive, já não tenho porque entretanto o vinil voltou. Sou um feliz e entusiasmado assistente desse regresso. Caso raro. Parecia que os CDs eram o futuro. Afinal já são passado. É claro que as plataformas de audição vieram mudar tudo, mas os extraordinários LPs estão aí para nos confirmar que até há passados que estimulam o futuro. Tenho uma preferência quase obsessiva por um nicho específico. A editora ECM é um exemplo de consistência e coerência visual e musical. Apetece mesmo ter aqueles objetos disponíveis ao olhar, aos sentidos. São arte disfarçada por design em rigorosas impressões gráficas. Alinho aqui algumas delas — recentes e mais antigas, mas que me acompanham como amigas de sempre —, em convívio com duas capas de LPs de José Afonso — edições iniciais da Orfeu, recentemente reeditadas pela chancela +cinco — que são também muito cá de casa. Os autores são meus amigos: Alberto Lopes e João de Azevedo. A música, a literatura e a estética visual, associadas a preocupações sociais de solidariedade, são a minha vida. Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar, como escreveu Sophia. E Carlos Drummond de Andrade disse um dia em entrevista: Quem tem a música e a literatura nunca se sente só. Concordo, mas acrescento: o amor abraça tudo isto. Somos assim. Amamos porque somos assim.








  

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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Porque precisamos do feminismo

O partido fascista não concorda com a ideia. Prefere alianças com os grupos Reconquista e 1143. Os fascistas e quem os apoia acham que feminismo é o contrário de machismo, ou seja: não perceberam nada. Ou perceberam, mas continuam a preferir que as mulheres vão para os lugares de antigamente. As mulheres devem ser mandadas, não mandar, dizem, com viscoso orgulho macho. Via mural do meu amigo João d'Oliveira percebi isto. Existem escolas de violação online. Existem e têm aderentes. Assiste-se a isto entre o susto e a repulsa. Pergunto: entre quem se considera decente, ainda haverá quem não tenha percebido que Feminismo não é o contrário de machismo? Informem-se, por favor, antes que seja demasiado tarde. 

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domingo, 26 de abril de 2026

Não ao retrocesso

A habitual manifestação é este ano contra o pacote laboral que neoliberais e fascistas querem impôr a quem trabalha.

Pacote laboral que quer esconder direitos, para que os ricos fiquem mais ricos e livres de fazer o que lhes apetecer.O partido fascista tenta parecer o que não é. O que o partido fascista defende nunca está de acordo com o que nós queremos. O partido fascista só quer o poder. O poder de ir ainda mais longe. As manobras táticas são de diversão. 

Vamos para a rua protestar contra este governo de direita — suportado pelo PPD/PSD e CDS/PP —, e contra os chamados liberais da moda de contrafacção, que mais parecem neofascistas sem o facho estampado nas gravatas.

Os fascistas não se respeitam. Combatem-se!

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sábado, 25 de abril de 2026

Dia da Liberdade

 25 de Abril, sempre! Jorge Sampaio

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domingo, 19 de abril de 2026

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.


Álvaro de Campos. Obra de Fernando Pessoa.


Entrei na obra de Fernando Pessoa por influência de José Afonso. Mais tarde, outro amigo, o Diamantino Alves (Tininho para os amigos), mostrou-me outro lado do poeta — aquele poeta que cada um adopta como entende melhor para si — e o fascínio nunca mais parou. Escolhi o meu lugar na poesia de Fernando Pessoa. O "Livro do Desassossego" está sempre perto. Fernando Pessoa não me larga. Vou finalmente ler "Pessoa, uma biografia" por Richard Zenith, ainda com muitas recordações de leitura da "Vida e Obra de Fernando Pessoa" de João Gaspar Simões e do "Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português" de Fernando Cabral Martins. 


Fernando Pessoa foi um homem extraordinário porque percebeu a tortuosa simplicidade do mundo através do seu olhar de pessoa aparentemente vulgar. Se os políticos mais poderosos lessem, o mundo não estaria tão estranho. E se lessem Pessoa então, talvez se arrependessem de muita merda que andam a fazer. Ou talvez não: poderiam dar um tiro nos cornos em vez de mandarem matar inocentes. Com a literatura tudo pode acontecer, não sei se para melhor, mas sim para maior compreensão do que se passa à nossa volta. Está tudo na Literatura. A Arte não é entretenimento ocasional. A Arte procura o que ainda não existe. Não é fácil essa procura, mas sem esse esforço não há Arte. É Arte o que nos inquieta. A Arte ajuda-nos a viver.  


E agora vou bazar. O que há em mim é mesmo cansaço. Fica aqui o cartaz que assinala a minha maneira de estar com a revolução de Abril, que o fascista de serviço classificou de miserável, o miserável. Regresso em maio, em princípio. Até lá, fiquem bem, que eu também vou fazer por isso. 

Beijinhos e abracinhos. 

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Aos domingos: a espuma da semana

ACONTECIMENTO: Debate entre o professor e o fascista. O professor foi professor e o fascista foi fascista. Quem ganhou? Um debate não se ganha ou perde, isso é no jogo da bola. Mas o fascista e os seus seguidores idiotas acham-se todos vencedores. O fascista até bolsou esta: 25 de Abril, "essa revolução miserável". Na sua crónica de ontem no Público, Pacheco Pereira defende-se de quem acha que com esta gente não se discute. Eu, que defendi aqui que é assim mesmo: com um porco não se luta, percebo a razão que o levou a convocar o duelo. Mas eu não consigo ouvir o fascista de maneira nenhuma. É verdade, resisto sem réstea de curiosidade. Não vi, nem vou ver o debate. Diz-se por aí que fascista foi fascista, o professor foi professor, mas a aula não era para meninos bem comportados. O professor não levou um par de orelhas de burro para colocar na mona do fascista, como se usava nas escolas no tempo que o fascista tanto elogia, mas era merecido. Ou talvez não, lá está: o que é que os porcos e os burros têm a ver com um gajo que até andou na escola mas porta-se pior que qualquer animal?

ESTÁ DITO: Cristina Ferreira faz parte da trupe de "comunicadores" que transformaram a televisão em Portugal. Para pior, é claro. Agora até já se justifica disfarçadamente, como quem não quer a coisa, o crime de violação. Mas não há aqui novidade. Na nova mentalidade e vontade de comunicar já passaram pelas televisões, em entrevista de vida, nazis encartados, com provas dadas e acabadinhos de sair da prisão, em grande apologia de bom comportamento como pais de família tradicional. É tão giro ser pai tradicional nazi. A cruz suástica tatuada no peito fica-lhes tão bem.
 
ZAPPING (1): Aconteceu-me. Há poucos anos, num dia em que fiquei em casa de manhã e precisava de ver qualquer coisa de informação geral, iniciei a prática de escolher o canal que me desse a notícia pretendida. Paro e fico estupefacto quando oiço um homem, entrevistado num programa da manhã desses de defesa do estalo e puxão, dizer, sem mais nem ontem, mais ou menos o seguinte: "Eu queria dizer a essa Catarina Martins que não gosta dos Comandos que eu uma vez, na guerra, sozinho, despachei de seguida trinta e tal turras". O auricular deve ter instruído a rapariga que interrogava o criminoso para o tirar rapidamente do ar. Assim foi. Não sei se o homem foi entretanto incomodado pelas chamadas autoridades por estar a apelar ao crime de guerra. Se fosse hoje, provavelmente seria elogiado pelo partido daquele lado extremo, pela voz do chefe, que diria que foi uma grande atitude na defesa dos valores cristãos, na ânsia de darem novos mundos ao mundo. Hitler, Mussolini, Salazar e Trump poderiam ter retratos afixados nas paredes destes gabinetes.
 
ZAPPIG (2): A curiosidade mórbida levou-me a permanecer em antena. Num debate com psicólogos e ex-agentes policiais, comentava-se uma agressão entre duas pessoas que viviam uma relação homossexual. O comentário do policia famoso sugeria um tipo específico de violência. Os casais de homossexuais estão sempre sujeitos a este problema. São muito ciumentos, e a agressão dá-se a toda a hora. Faltou ir lá o fascista justificar que as mortes resultantes da violência doméstica faz mais mulheres vítimas porque há mais casamentos heterossexuais. Com a legalização do casamento gay a coisa só pode piorar. Existe ali um tipo de violência específico. Veja-se que estatisticamente, naquelas 24 horas, a violência doméstica foi entre gente do mesmo sexo. Naquele dia, naquele programa de informação e debate, os especialistas em tudo e até em violência doméstica provaram que isto é mesmo assim. Os apresentadores, os comentadores ex-policias, os psico-qualquer-coisa, e outros frequentadores de painel especializados em generalidades, conseguem justificar tudo o que não nos passa pela cabeça. Os arautos da ignorância e da estupidez com papel passado transmitem o seu douto saber a um vasto auditório caseiro. Índices de popularidade? Upa upa.
 
RESUMO DA MATÉRIA DADA | Resta dizer que fulanas e fulanos do partido com nome de detergente passam a vida nas televisões a defender o indefensável, em debates que arrepiam e ferem as inteligências mais sensíveis. Todos assumem a tática do chefe: falar por cima do inimigo esquerdalho. A confusão, o ruído fica-lhes a matar. E há quem goste. Bom domingo, sem fascistas.

Imagem: publicada por volksvargas. José Pacheco Pereira usou-a para ilustrar o seu texto no Público. 

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sábado, 18 de abril de 2026

FERNANDO ROSAS 80

Fernando Rosas nasceu em 18 de Abril de 1946. Completou 80 anos de idade. 

Fernando Rosas é um exemplo em Portugal do intelectual público. Historiador, divulgador empenhado e entusiasmado da história do Estado Novo e do estado a que chegámos, professor respeitado, político de esquerda com valoroso contributo como deputado, Fernando Rosas mantém-se em atividade com uma intensidade que é exemplo. Vamos continuar. Ficar parado? Nunca. Parabéns, meu amigo.

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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Em Abril, liberdades mil (5)


CLUBE DOS PROFESSORES CONTEMPORÂNEOS | Publiquei aqui um texto 
quando soube que a professora Isabel Monteiro já não estava entre nós. Foi em Maio de 2013. Recordo-a agora, em jeito de homenagem, adaptando a publicação a esta nova realidade em que vivemos, porque acho que existiram pessoas que não merecem ser esquecidas. Há professores que recordamos acompanhados pela tristeza de não voltarmos a conviver com a sua inteligência, humor e cultura. Atitudes e comportamentos que nos transmitiram com grande sentido de dever. 

ISABEL MONTEIRO. PROFISSÃO: PROFESSORA | Estamos sempre a aprender, diz-se. É verdade. Mas existem dedicados profissionais do ensino que moldam a nossa curiosidade com competência, transmitindo valores de cidadania e solidariedade que nos marcam para sempre. O professor Agostinho da Silva citava uma amiga analfabeta: "a escola devia estar sempre aberta, para eu ir lá perguntar o que não sei". Há professores que são assim: uma escola aberta. Guardo na memória um raminho deles. Isabel Monteiro ocupa lugar especial na minha memória. Foi com grande prazer que frequentei as suas aulas. Era professora de inglês. Praticava um ensino que nos colocava no centro do mundo. Saíamos da lusa tacanhez de então. Colaborou em edições pedagógicas. Concebeu manuais que usámos para aprender a língua inglesa. Uma Professora assim, com letra grande. Em Abril de 1974, quando tudo mudou para muito melhor nas nossas vidas, leccionava no Liceu de Setúbal. Lembro-me de uma reunião convocada pela associação de alunos, no ginásio, que apelava a um exercício de justiça. Havia dúvidas sobre o comportamento do reitor no tempo da repressão: suspeitas de ser informador da PIDE. Claro que na altura não existia ainda o partido que sugere a ressureição de Salazar a multiplicar por três. Sabermos que o reitor era informador da PIDE era perturbador e muito revoltante. Lembro-me de Isabel subir ao estrado e opinar: não podemos ser injustos. Acima de tudo é preciso apurar a verdade. O reitor deve ficar se for provado que não pertenceu à polícia política. Mas se for provado o contrário, se se provar que pertenceu, é bom que saia e depressa. Vibrante aplauso. Isabel era assim. Esclarecida, destemida, mas com uma admirável lucidez. Justa e culta, tomava decisões que nos protegiam e exortavam a que nos defendêssemos. Uma mulher contemporânea, que assumiu o seu tempo com autenticidade e vontade de participar na evolução do sistema de ensino.
 
Nunca a perdi de vista. Convivíamos entrecortadamente em actividades culturais e políticas que iam acontecendo. Muito mais tarde encontrava-a num café perto da estação ferroviária. Antes de eu rumar a Lisboa, falávamos do estado a que isto chegou. Lembro-me de um dia em que estava muito chocada por Salazar ter vencido um concurso televisivo. O mais importante português, o português do século XX, ou coisa do género. A sessão final do concurso opunha Salazar a Álvaro Cunhal. Foram os finalistas nesta ideia parva. O fascista Jaime Nogueira Pinto foi o defensor/promotor de Salazar. Odete Santos defendeu Cunhal, obviamente. Salazar venceu. Desta vez não foi preciso mandar matar ninguém que se lhe opusesse. Um morto não pode dar ordens. E foi assim, depois de morto, que foi eleito democraticamente por um conjunto significativo de telespectadores. Isabel estava num justificado estado de indignação. Aquilo foi para ela um choque. Às vezes imagino o que pensariam agora estas pessoas que resistiram a Salazar e viveram a alegria da fundação da democracia, dos sessenta energúmenos fascistas que hoje lançam desavergonhadas ofensas a quem os combateu e defendem sem rodeios o regime do tiraninho, como foi definido por Fernando Pessoa. Gente menor que nos envergonha no parlamento, nas televisões e nas redes sociais. O desconforto da professora com a vitória do ditador criminoso no concurso da treta provocou-me incómodo e solidariedade: isso foi um concurso imbecil, sem nível nenhum, e não tem qualquer importância, disse-lhe. Concordou.
 
Mais tarde combinámos uma visita ao meu atelier, em Lisboa. Dei-lhe um cartão para fixar contactos. Vim a saber pouco depois que estava doente. Era coisa ruim, mas sempre pensei que sem motivos para grandes preocupações. Soube que tinha morrido algum tempo depois desse fim. Foi a surpresa e o choque. Como é que eu não soube de nada? Como é que uma pessoa tão importante para tanta gente parte assim? Não posso concordar com esta invisibilidade. É injusto. Queria tanto que ela fosse ao meu atelier. Queria tanto continuar com ela a arrasar fascistas naquele café perto da estação. A luta era travada à volta de um cafezinho, mas fazia sentido. Todos os momentos são bons para tentarmos perceber o porquê de tudo isto acontecer. De que buracos surge esta gente sem educação, sem cultura e sem maneiras? Não tive oportunidade de me despedir. As despedidas são um abandono. Isabel Monteiro viverá para sempre na minha memória. O meu reconhecimento permanecerá. Gosto muito de si, senhora professora Isabel Monteiro. 
 
E cá estaremos para combater os velhos e os novos fascistas imberbes e videirinhos. São figurinhas ridículas que a essa dimensão devem ser reduzidas. Quem nos ensinou e deu educação será sempre exemplo. Muito obrigado por tudo. Muito obrigado mesmo.
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Em Abril, liberdades mil (4)

Coleção de Mary Quant nos anos 1960 — Foto: GettyImages


A IMORALIDADE NAS ESCOLAS | 
No texto de ontem, inserido nesta rubrica que passeia pelos meus tempos de adolescência, abordei um episódio de policiamento político manifestado por dois professores de trabalhos manuais. Já que estou com a mão na massa, conto uma história de policiamento moral praticado por um professor com funções diretivas no Liceu da minha terra. Ano de 1973. 
 
Dia de primavera. Manhã cedo. Já estávamos todos na sala de aula. Aula de ciências fisico-quimicas. Véspera de um teste importante. De um momento para o outro ouvimos um apelo do exterior. Um pedido de ajuda. Abrimos uma janela e percebemos que uma colega pedia para a ajudarmos a entrar por ali. Estranho? Claro. A rapariga tinha sido impedida de entrar pelo portão principal por um professor que assumia as funções de uma espécie de policia da moralidade. Motivo? A nossa colega tinha vestido nesse dia uma mini-saia muito mini mesmo, que não encaixava nos padrões exigidos pelo moralista de serviço naquele dia. Os moralistas metem-se em tudo. Querem ser donos do nosso corpo e também querem meter o bedelho no que usamos para cobri-lo. Aliás, os fascistas querem meter o bedelho em tudo o que fazemos. As proibições são norma. As sugestões são obrigações. A nossa colega vinha todos os dias de Palmela. Aquela aula era importante porque no dia seguinte havia teste de avaliação. A professora estava na sala e aprovou a nossa atitude. Tudo acabou em bem. Fomos eficazes resistentes. Sabíamos dos comportamentos repressivos por parte do sinistro professor. Gostava de aplicar carolos nas cabeças dos rapazes. Sabem o que é? Mão fechada e nós dos dedos em riste em direção à zona da nuca. Aquilo doía. Tive sorte. Nunca fui contemplado. Mas passei a odiar a figura mesmo quando, depois de Abril, se tornou figura de proa na defesa do ambiente na região. Lembro-me que houve uma tentativa de me apresentarem o figurão, e acho que recebeu a medalha da cidade, pelos valorosos préstimos prestados. Devem ser os justiceiros carolos. 
 
Acontece que não tenho o hábito de perdoar fascistas. Nem os de ontem, nem os de hoje. Também não lhes desejo carolos na nuca, nem perco muito tempo a odiá-los. Desprezo-os simplesmente. Feitios.

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quinta-feira, 16 de abril de 2026

Regresso ao passado com o partido dito social democrata?

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A deputada de esquerda Isabel Moreira pergunta à ministra da tutela o que ela acha da dita. A ministra da tutela é uma tutelar sonsinha que mal sabe o que anda ali a fazer. Pelo menos parece. Mas nós temos que a abanar para que ela acorde e perceba e assuma de que lado está. Nós temos que perder a paciência para esta gente toda que se está a deixar levar pelo discurso e prática de ódio da extrema-direita, vulgo: novos fascistas. Acordem de vez. Já não dá para ficarem em cima do muro. E a solução não é regressarmos ao século passado. Enxerguem-se.

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Em Abril, liberdades mil (3)

NA ESCOLA DO ESTADO NOVO | Regresso hoje a esta ideia de contar histórias e botar opiniões pessoais sobre o que viveram as pessoas do meu tempo, no tempo de transição da ditadura para a democracia. Falo de pessoas mais ou menos da minha idade. Não é coisa de geração. As gerações existem para definições sociológicas, mas, nas atitudes, as pessoas têm percepções diferentes do que se passa à sua volta. Somos todos diferentes. Insisto na expressão cantada de José Afonso: "Há quem viva sem dar por nada/Há quem morra sem tal saber". Faço parte do clube de membros da minha geração que queria dar mesmo por tudo. A história de hoje aconteceu-me. É relato real, sem ficção de espécie alguma. É uma das histórias aqui em pré-publicação, dado que sairá no objeto impresso que já aqui informei estar disponível para leitura em março de 2027. É uma das histórias do livro ALGUÉM VIU OS MEUS ÓCULOS? Aqui vai:

AULA DE TRABALHOS MANUAIS - Sempre entraram jornais em casa dos meus pais. A leitura diária da imprensa escrita meteram-se comigo. Os jornais detetaram e instigaram em mim uma intensa necessidade de saber coisas. A curiosidade por tudo o que se passava cresceu em mim a partir dos cinco, seis anos de idade e nunca mais me abandonou. Essa minha curiosidade e conhecimento agitaram um episódio que não resisto em contar. Estava eu em frequência do então chamado ciclo preparatório. Tinha oito anos. Aula de trabalhos manuais. Dois professores vigiavam a sala e davam sugestões de trabalhos. Embalagens de objectos de uso corrente foram colocados à nossa disposição. Agora inventem, disse um dos professores. Resolvi fazer um avião a partir de um tubo de comprimidos, cartolinas e rolhas de cortiça. Chegou a altura de o ornamentar com papel de lustro e os dizeres definidores dos proprietários. Forrei o objeto de vermelho e coloquei as iniciais URSS. Foi o bom e o bonito. Professores em interrogatório intenso. Onde viste isto? Quem te disse para pôr estas letras? Ameaças sugeridas, interrogatório a acelerar com violência verbal. Respondi, com toda a calma, para os prestimosos professores ameaçadores, que via com frequência aquelas letras nas primeiras páginas dos jornais. “Isso não viste, não senhor!”, dizia aos berros um dos professores. Não lia jornais, percebi. Saí da sala de aula ao som de ameaças e urros de um dos cretinos. Ao jantar contei a cena ao meu pai. Pânico discreto. Procurou entre todos os jornais que tínhamos lá em casa os exemplares com URSS grafado na primeira página. Disse-me para os levar aos professores. Um dos jornais — O Século — era conotado com a situação. Insuspeito, portanto. Para que percebesse bem a situação falou-me abertamente da agressividade do regime político em que vivíamos. “Temos que ter alguma habilidade para nos defendermos nestes tempos em que vivemos. Temos que ser amigos do governador civil e do sapateiro. Se o governador nos atiça a polícia temos que ter bons sapatos para fugir. Leva os jornais e mostra aos professores. Se eles não perceberem é porque não querem perceber. Mas talvez fiquem mais calmos. Pelo menos estes jornais provam que foi verdade o que lhes disseste. Para algo pior estou cá eu e falo com eles”. Só não percebi muito bem a necessidade de compromisso entre fascistas e sapateiros, mas cumpri. Os professores de trabalhos manuais perceberam o excesso da atitude aparvalhada. Tive sorte. À noite contei ao meu pai. “Palhaços”, sentenciou. Sim, palhaços, mas sem graça. 


E pronto. Este é apenas um dos episódios por mim vividos que agora podem inspirar os adeptos da educação à antiga portuguesa, como costumam dizer das touradas. Devem ser este tipo de professor que inspira os novos "educadores" do partido fascista. Não sei se terão sucesso escolar. Esperemos que não.

 

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