quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Design de comunicação

DA SÉRIE GRANDES CAPAS | Já muita gente diz que anda aí um novo Hitler. A confirmação está mesmo debaixo do nariz. Escorre. Imagem obtida em: https://derterrorist.blogs.sapo.pt/ 

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Foi no dia 7 de janeiro de 2015. Passam agora onze anos. Um par de energúmenos fundamentalistas religiosos atacou a redacção do Charlie Hebdo, em Paris, assassinando doze pessoas e ferindo onze. A Festa da Ilustração, em Setúbal, que teve em 2025 a sua última edição, nasceu logo em 2015 em solidariedade com esta gente corajosa que se recusa a respeitar o que não é respeitável.

Seguiram-se os justificados lamentos mas também a tentativa de justificação do acto. Afirmámos: somos todos Charlie. Mas houve quem usasse a ironia para relativizar a barbaridade: puseram-se a jeito, defenderam. Ou seja: todos devemos ser respeitadores de tudo o que mexe, até da intolerância. Devemos andar penteadinhos e de bibe bem passado a ferro até à idade do colarinho branco e de gravata de nó bem direito ajustada ao pescoço. Não nos devemos pôr a jeito de quem não nos respeita. Existe uma palavra que define este comportamento: medo. Há quem tenha medo até da sua sombra. Os hipócritas da direita neoliberal avançaram logo com esse respeitinho que é muito bonito quando lhes dá jeito.
 
Os cartoonistas do Charlie Hebdo há muito que despiram o bibe e alargaram o nó da gravata. Ou largaram-na, mesmo. Pelo mundo fora há artistas do desenho inteligente e humorado que sofrem ameaças. Há casos recentes de dispensas de colaborações em jornais e revistas de informação e análise política. E os processos judiciais chovem nos tribunais. Inqualificável.
A intolerância não se respeita: combate-se. Em 2019 a Festa homenageou um dos assassinados: Tignous. Tivemos em Setúbal a sua mulher, Chloé Verlhac. Cristina Sampaio, que foi nesse ano a convidada nacional da Festa, era amiga do casal e permitiu esse encontro, que foi repetido em 2021, tornando-se Chloé uma amiga muito cá de casa.
 
Os fascistas, sejam eles oriundos da política dos comportamentos à direita, da religião intolerante ou da economia neoliberal — não vai dar tudo ao mesmo? — não respeitam valores, nem comportamentos civilizados, e desprezam atitudes corajosas de artistas atentos; mas vencem eleições. Há um povo "respeitador" que prefere andar a toque de caixa. Um povo que prefere a "economia" ajustadora proposta por essa gente sem jeito, ao conhecimento cultural e à indignação inteligente. 
 
Cabu, Charb, Honoré, Tignous e Wolinski merecem e nosso respeito. Merecem ser recordados. Vamos lembrar-nos sempre do vosso trabalho insistente e valoroso. Até porque ele existe e continua por perto. Foi muito bom termos vivido no vosso tempo. Fizeram-nos crescer intelectualmente. Ainda somos todos CHARLIE.
 
Texto publicado no dia 7 de janeiro de 2025. Adaptado agora.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Sejamos claros

Sou suspeito, mas depois de assistir a este debate tenho de concluir que a candidatura que se destaca é a de Catarina Martins. A minha noção de utilidade sugere que se vote nela. O voto não é um útil electrodoméstico familiar que facilita cozeduras. A utilidade está nas nossas consciências. Não vejo utilidade nenhuma nas candidaturas que se sugerem como de utilidade única. Bom voto.

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Béla Tarr


Morreu o realizador que encontrava beleza nas coisas feias. Foi com Andrei Tarkóvski autor de referência nesta vontade de projectar o que incomoda o olhar. Dava importância ao que não queremos ver. Transformava ambientes. Produziu beleza e teve atitude. Foi um mestre que realizou filmes de culto que vão ficar por aí. Muito obrigado, Béla Tarr. Foi bom viver no seu tempo.  

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Altos responsáveis americanos já falam na Gronelândia como próxima conquista. O imperador quer mostrar o seu poder. Putin avançou ilustrado pela exaltação da história russa. Os escritos dos grandes autores russos já prclamavam a vontade de hegemonia. Não era ficção. Putin quer livrar a Ucrânia de nazis? O caraças. Como se ele fosse a decência em pose libertadora. Voltámos ao domínio dos impérios. À lógica do mais forte contra o perdedor. Os retrocessos avançam. Acordos civilizacionais são esquecidos. Gente com a mania das grandezas quer repartir o mundo entre si. 
 
Líderes europeus unem-se e apoiam a Dinamarca. Aparenta terem medo de perder ao monopólio. Parece brincadeira de meninos, com todos a tremer como varas verdes. Mas não é. Olham de soslaio para o monstro americano, que imaginam a salivar em ânsia conquistadora. Chamar doidos-varridos aos novos imperadores é elogio. Chamar-lhes cretinos é ternura. Estamos perante facínoras do pior. Criminosos encartados e armados. E entre nós temos quem os apoie. Há entre nós um biltre que alimenta o seu ódio com estes avanços do seu líder inspirador. Um trumpezinho ridículo e sem escrúpulos é candidato a presidente dos portugueses de bem, dizem eles, os idiotas que nele votam. Será que vão ser muitos? Será que vamos ter vergonha de os ter tão perto? Eles andam por aí e são ferozes. Não têm vergonha de ser apologistas do colonialismo, do racismo, do fascismo. São uma corja de imbecis? São, mas agora têm um timoneiro que os encoraja. A imbecilidade já se exibe sem vergonha. É virtude.
Não podemos ter medo, mas todo o cuidado não é excessivo.
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Reaccionário militante

Poderíamos falar de mais gente desta estripe: Zita Seabra, Joana Amaral Dias e outras e outros que mais parecem cataventos, mudando para todas as direcções. Não é preciso mantermos toda a vida as premissas de quando fomos cachopos e vivemos iluminados pelas certezas absolutas. Todos temos o direito de mudar. A coerência não tem de ser sagração. Seremos até coerentes porque mudamos. Aconteceu comigo, mas isso é cá comigo. Adiante. Valores são valores. Há quem os ache necessários e há quem os ache o que for preciso. Mas, atenção: há limites para a noção de coerência. Chamemos-lhe carácter.  
 
O Fernandes resolveu estar sempre ao serviço do "contra isto". Tudo o que cheira a normalidade democrática faz-lhe cócegas. A defesa do Direito Internacional nem sempre lhe dá jeito para o comentário. Às vezes parece mesmo coisa da esquerda. A direita até pode não respeitar as regras do direito internacional. E, claro, a extrema-direita está completamente autorizada, já que não respeita intencionalmente o sistema. São os ajustes necessários. Claro que Maduro é um grande traste, mas Trump é mais perigoso para o mundo e actua segundo as suas próprias regras. Regras tenebrosas, diga-se em boa verdade. Só mesmo os seus negócios e o seu umbigo contam. É portanto um biltre que não respeita democracias e tretas do género. Fernandes faz tudo para ajustar a coisa ao seu carácter militantemente reaccionário. Um reaccionário é um reaccionário: cheira a mofo. Transpira ódio à democracia. O Fernandes que se lixe.

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Toda a mentira será permitida

 

É temperamental, mentiroso, sexista, iletrado, taralhoco verbal e um muito provável criminoso sexista. Existem gravações em que se gaba de agressões sexuais. É misógino e violador. Na ridícula alocução de tomada de posse ameaçou países independentes e com soberania. Cismou que a Gronelândia tinha que ser sua e o Canadá também. Concretizou o ataque a Caracas gabando-se com gáudio do bom negócio que estava a fazer. O petróleo foi motivo principal para a ocupação. Morreu gente, mas prémios para os feitos de paz continuam a ser reclamados. Já fala em Cuba e confirma a necessidade de incluir a Gronelândia no seu território. O país que dirige como aprendiz de ditador, tornou-se empresa pessoal. A sua fortuna aumentou despudoradamente. É um desbragado corrupto.  

Há um louco furioso em delírio imperialista. Um tarado sexual narsísico e aspirante a dono do mundo exerce a sua força como imperador empossado e aclamado. Regressámos a um tempo que estava retido nas páginas dos livros de história. Os regimes autoritários e ricos vão querer ter o mundo a seus pés. Trump é já um ditador que não passa cartão a ninguém e decide fazer o que lhe dá na real gana. Ao contrário do que diz o trumpezinho português, Trump não libertou coisa nenhuma. Trump não fala em liberdade nem em democracia, porque essas tretas não lhe dizem nada. Trump só fala em negócios. A sua fortuna pessoal e da sua família de indigentes políticos aumentou mesmo desde que é presidente daquela empresa unipessoal que agora dirige. Trump é um louco furioso. Um escroque. Não se percebe como os democratas americanos e os dirigentes europeus estão ainda na fase de espanto perante o que está a acontecer. As regras do Direito Internacional são constantemente violadas desde que o tarado tomou posse. As ameaças são mato. O mundo ficou ainda mais perigoso com este alarve em acção. Provavelmente chamar-lhe louco é elogio. É mesmo possível que se esteja perante um criminoso furioso. Não há quem detenha a besta?


 

Imagem: Cartoon de Cristina Sampaio. incluído no projecto Spam Cartoon, recentemente excluído da programação da RTP3, e cartoon de André Carrilho para o DN.

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domingo, 4 de janeiro de 2026

Design de comunicação

DA SÉRIE GRANDES CAPAS  The New Yorker faz 100 anos.

É uma publicação única. Em tempos de notícias falsas em catadupa, propaladas por candidatos a ditadores e por ajustadores amadores, a New Yorker é já considerada por muitos um milagre. A informação, a análise e a correspondente seriedade são exigência elementar. Já para lá enviaram textos autores de referência. Também os ilustradores são motivo para folhearmos a revista. Nesta série Grandes Capas, que insisto em colocar frequentemente aqui na montra, os ilustradores revelam segredos e animam atitudes. Ilustradores de grande qualidade que aqui dão prova da excelência da Ilustração que se faz nos dias de hoje. Nem tudo vai mal, nos dias que correm. Há esperança, para o combate à estupidez.

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sábado, 3 de janeiro de 2026

Um alarve perigoso em delírio


O que se está a passar no mundo é mesmo muito preocupante. Um criminoso encartado, ladeado por idiotas sem escrúpulos, mas premiado pelos donos do futebol mundial, invade um país e ocupa o poder. Reclama negócios chorudos e gaba-se de todos os feitos e ganhos financeiros com linguagem de caserna. O costume. O que daqui vai resultar é preocupante. Este cretino vai fazer o que quiser? Os idiotas que mandam nas américas vão fazer o que quiserem. Vivemos dias que mais parecem noites. Preocupante. Muito preocupante.

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Liberdade querida e suspirada


Tanta gente que lutou pela liberdade. Tanta gente torturada nas prisões de Salazar, que transmitia  ele próprio orientações directamente à polícia política. Tanta gente morreu no campo de concentração do Tarrafal (a mais tenebrosa das prisões) e no Aljube, em Caxias, em Peniche e em todo o lado onde fosse permitido eliminar a liberdade de quem a reclamava. 

Tanta gente que tudo fez para podermos ter acesso à fruição da verdadeira cultura: ao conhecimento da literatura que mais interessa, às artes e às letras sem censura, e vêm agora os que nos querem tirar isso tudo reivindicarem para eles o papel de paladinos da liberdade. Liberdade para eles é a capacidade de alardear a mentira como definição de justiça. O populismo mantém o povo na ignorância tentando convencer os incautos eleitores de que os inimigos andam aí, e são toda a gente que não é como eles. Solta-se a mentira e instala-se a "liberdade".
 
Assim de repente até parece programa de variedades, mas ao vermos Trump, Bolsonaro, Milei, Meloni, Le Pen, Ventura e mais os seus braços armados (em parvos) que povoam o comentário televisivo, a usarem a palavra como coisa sua, percebemos que há aqui algo que está muito próximo do contrário do que apregoam. A liberdade que reclamam é a anulação da nossa liberdade. Apresentam-se com um salvador absoluto. O arauto da justiça que tem a solução para todos os males. O preferido do povo - outra designação genérica que pretendem para si. O absurdo chega ao ponto de acusarem a esquerda de tolher liberdades. Logo eles, os zelosos depuradores ajustadores, que assim que pudessem anulavam todas as manifestações artísticas e de apoio social. Está nos programas das sinistras agremiações essa apologia da liberdade controlada.
 
Umberto Eco, como muitos outros intelectuais letrados e esclarecidos pela liberdade de pensar, percebeu o embuste logo que os novos fascistas começaram a não ter vergonha da miséria que os velhos fascistas espalharam pelo mundo. Termino com uns versos de Bocage, que também transpirou liberdade por todos os poros:

Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada! 

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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Ser solidário


Ser de esquerda também é isto: ser solidário para além do período que agora termina. Ser de esquerda é perceber o outro e ser solidário com o seu sofrimento.
 
A expressão "O Natal é quando o homem quiser", sempre foi hipocritamente utilizada à vontade do freguês. Os fregueses cristãos querem que o Natal seja só para eles, impondo presépios e cultura afim em todos os lugares. Os chalupas do partido fascista não fazem outra coisa: implantam figurinhas e mais o menino nas palhinhas por dá-cá-aquela-palha, rejeitando os que não se ajoelham. Parece que estamos na plenitude metafórica de umas novas (velhas) cruzadas. Até o "simpático" novel bispo de Setúbal se queixa do abandono dos sinais cristãos como elementos culturais ancestrais de um povo, enquanto se senta à mesa com os palermas do partido dos três salazares, justificando a amesendação com a tolerante expressão: todos, todos, todos, como se assim ficasse justificado o estranho — ou talvez não — comensal convívio. A contradição está ao rubro. Papa Francisco mal interpretado. Ou interpretado pelo lado mais conveniente para estes convivas. Os comensais colegas do senhor cardeal rejeitam essa ideia inclusiva. Para eles a expressão correcta deverá ser: nós, nós, nós e mais ninguém. 
 
Para ser solidário com os de baixo, os que sofrem, não é preciso ter religião. Ser solidário não é brincar à caridadezinha. Ser solidário é não ver em ninguém alguém inferior que não merece a nossa atenção. Todos somos alguém: cristãos e não cristãos, muçulmanos e não muçulmanos, ateus ou religiosos. Impôr uma religião não é solidariedade. Impôr o que pensamos aos outros não é liberdade nem democracia. É, pelo contrário, autoritarismo. 
 
Ser de esquerda é ser tolerante, solidário e respeitador de todos, mesmo os que pensam diferente de nós. Todos temos de cumprir as leis da decência, evidentemente. Mas quem não nos respeita não merece respeito. A extrema-direita, os fascistas, não merecem o nosso respeito porque não nos respeitam e querem-nos mesmo eliminar. A esquerda é solidária. Ser solidário é um dever, como pretendia Jorge Sampaio. A extrema-direita é egoísta, sempre à procura de uns inimigos que, afinal, só querem trabalhar e viver em paz. Os fascistas não conseguem ser felizes. Estão submersos em ódio. Só sabem odiar.
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Muito obrigado

Neste ano em que encerro algumas actividades que marcaram o meu tempo, venho deste modo agradecer, em meu nome pessoal e também da DDLX Design Comunicação Lisboa, as oportunidades que nos deram. Esmiuçando:

SETÚBAL - Muito obrigado a todos os autores — escritores, historiadores, jornalistas, artistas visuais — que se dispuseram participar em apresentações dos seus trabalhos na iniciativa "Muito Cá de Casa", na Casa Da Cultura | Setúbal Passaram pela sala José Afonso da Casa os melhores. A vossa generosidade foi imensa, proporcional ao vosso talento. Agradeço também a toda a gente que, armada de intensa curiosidade intelectual participou nas sessões.


Muito obrigado a todos os artistas visuais que aceitaram o convite para exporem os seus trabalhos mais recentes — todos excelentes e inspiradores —, em exposições de grande qualidade, na galeria e no espaço João Paulo Cotrim da Casa Da Cultura | Setúbal, permitindo-me o privilégio de tratar da curadoria e do design expositivo. Foi um prazer, é claro, mas também uma aprendizagem. Aprendemos sempre com os melhores.

Muito obrigado a todos os artistas, curadores e editores que participaram nas onze edições da Festa da Ilustração - Setúbal. Esta Festa marcou a agenda da ilustração em Portugal e tornou-se um acontecimento único. Muito obrigado também a quem colaborou em todas estas actividades — amigas e amigos de sempre, dando ideias e ajudando nas montagens das exposições, mas também a toda a gente que trabalha no Município, gente que trabalha no duro. Ficamos todos amigos. Agradeço aos responsáveis autárquicos e ao público que participou — permitindo que tanta imagem nos inundasse o espírito esclarecendo a mente. Somos agora gente melhor. Nesta altura em que deixo de trabalhar na cidade, agradeço a tanta gente que nos ajudou a ser melhor gente, Desejo-vos o melhor. É preciso resistir. Resistam.

GRÂNDOLA - Muito obrigado a todos os artistas, curadores, e participantes na iniciativa "Ilustrar a Fraternidade". Fizemos coisas muito bonitas, "dentro de ti, ó cidade". Exposições, acções de formação, conferências e debates memoráveis. Grândola tem uma Biblioteca e Arquivo que permite o melhor. Arquitectura de excelência que convida a não parar de frequentar. Gente bonita em sítio lindíssimo.

LISBOA - As iniciativas sucederam-se. Exposições, lançamentos de livros, debates, trabalho. Agradeço à editora abysmo, à Biblioteca José Dias Coelho, à editora Snob
e à Biblioteca Camões. Agradeço desde já a possibilidade de actividades futuras. A Biblioteca Camões, no largo do Calhariz, vai albergar, por assim dizer, a minha exposição "As palavras" em fevereiro próximo. E isto não vai ser apenas uma exposição. Muitas conversas e convívios vão existir neste lugar aonde apetece sempre voltar. Vamos continuar a trabalhar juntos. Vamos resistir ao tempo anti-cultural que nos ameaça. "Seremos muitos, seremos alguém", como cantou José Afonso. Facebook  

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

ADEUS

 
 
O projecto Spam Cartoon, que passou durante oito anos na RTP3, acabou. A actual direcção despachou a coisa com uma singela mensagem enviada por correio electrónico. Os ajustamentos continuam, mas não me parece que sejam pelas melhores razões. Aliás, as razões parecem estar bem percebidas: ajustar tudo aos novos tempos. Luxos ideológicos. O Spam Cartoon é um projecto extraordinário. Imaginação, crítica, humor e qualidade gráfica marcaram momentos maiores nas televisões de um público atento e exigente. Se calhar os poderes só estão preocupados em fornecer lixo tóxico ao povo. Este último episódio é colectivo e é absolutamente notável. Vejam bem. 
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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Fazem falta as palavras certas

Mantenho a ideia de que a arte deve surpreender pela atitude. As imagens não anulam as palavras. As palavras fazem falta. O discurso lúcido é fundamental. A habilidade não me seduz. O bonitinho desagrada-me. Os artistas que me fascinam são os que me surpreendem. Os que esburacam, sujam as mãos, arriscam, vão à procura do que ainda não conhecem sem medo de errar. Tento aprender com eles, sempre, mas sem o recurso à influência. Fujo disso. O que está feito, está feito, ponto. Olho para o lado e sigo em frente. A inteligência artificial está a permitir e a estimular o atropelo. O plágio e até a cópia descarada. Isso tem que ser contrariado. Combatido. As soluções fáceis não emocionam. Não são soluções, são o erro que é preciso contrariar. O que me alegra é a surpresa que se envolve em autenticidade. A procura da originalidade dá trabalho, mas traz mais felicidade. Nesta proposta vou incluir laivos de pintura, muito desenho, algum design gráfico, a grande literatura, a música que se tornou intemporal, o necessário design expositivo e muita curiosidade intelectual. Estou curioso, confesso. E entusiasmado. Vamos lá a ver o que isto vai dar.
Estou em fase de alinhar as ideias que fui desenvolvendo ao longo deste tempo, desde que iniciei o trabalho para mostrar na estimulante cidade de Montpellier, uma grande cidade de França, dirigida pelo autarca modelo
Michaël Delafosse. Mas sobre Delafosse e a cidade que tem a sorte de o ter como presidente falarei numa das sessões incluídas neste projeto. O que vou mostrar na galeria da Biblioteca Camões, em Lisboa, parte da proposta que animou o vigésimo aniversário da Casa Amadis, associação cultural portuguesa, dirigida pelo meu amigo Tito Livio Santos Mota, e sediada em Montpellier. A exposição lá foi em Abril de 2023. Agora, em Lisboa, tudo vai ser diferente no conteúdo, mas o conceito mantém-se:
AS PALAVRAS é o título da exposição e vai ser mote para as várias conversas que vamos manter na galeria da Biblioteca instalada no palácio situado no Largo do Calhariz.
São muitos os convocados: José Afonso, claro, mas também Luís de Camões, Fernando Pessoa, Mark Rothko, Thomas Bernhard, Antoni Tàpies, João Paulo Cotrim, entre outros mágicos das imagens e das palavras.
Mas conversar mesmo em tons vivos vai ser com Viriato Teles, Fernando Cabral Martins, António Cabrita, Ana Nogueira, Fernando Luís Sampaio e Jorge Abegão.
É muito bom ter como amigos gente assim. Gente que é gente e sabe coisas. Muitas coisas.
Enviarei muito em breve programa completo com nomes, datas e horas de todas as sessões. Entretanto tomem nota:
A abertura é dia 6 de fevereiro às 18h30. Até lá.
 
AS PALAVRAS
Matérias transformadas
por José Teófilo Duarte.
Galeria da Biblioteca Camões.
Largo do Calhariz, 17. Lisboa.
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domingo, 28 de dezembro de 2025

Cultura é política. Política é cultura


Catarina Martins, na apresentação da minha condição de mandatário da sua candidatura à Presidência da República no distrito de Setúbal, disse: "As pessoas da cultura sabem antecipar o que aí vem, sabem criar diálogos, fazer pontes..." É a opinião de Catarina e também a minha. Acrescento que política sem cultura é como olhar, tentar perceber o que se tenta ver, e não o conseguir.
Fernando Pessoa, que tinha aquela natural curiosidade que o levava a querer perceber tudo, escreveu isto: "cultura é o aperfeiçoamento subjectivo da vida, dividido entre arte (aperfeiçoamento directo) e ciência (aperfeiçoamento do conceito do mundo), sendo mais do que erudição; é uma atitude de espírito que extrai sabedoria das experiências, cultivando a curiosidade e o aprofundamento, e não apenas o acúmulo de saber." O homem percebeu tudo.
Natália Correia, em carta enviada a José Afonso, depois de o ter visto e apreciado num programa televisivo, a linhas tantas escreveu isto: "Temos que perceber a cultura dos incultos". Era já então a preocupação com a evidente ocupação do espaço mediático pelos arautos do populismo cultural e político. Mais pessimista, Nelson Rodrigues achava que "Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos."
A absorção cega de tretas vagas ou mentirosas não são documentação cultural. Olhar e fazer o que já foi feito não é intelectualmente sério. A curiosidade intelectual não cega, alarga a visão. Os cargos políticos devem ser ocupados por quem assume valores e tem ideias. Por quem tem cultura. Em democracia devemos sempre tentar eleger quem está do lado certo. E somos nós que decidimos o que está certo. É à esquerda que há valores que nos animam e fornecem alegria para viver de olhos abertos e cabeça atenta.
Vamos pensar sobre o que nós somos. Vamos trabalhar, Catarina.
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sábado, 27 de dezembro de 2025

Mentalidade Montenegro

Luís Montenegro, primeiro-ministro eleito de Portugal, resolveu aderir à moda circunstancial da auto-ajuda motivacional que resolve todos os males do mundo e o português em particular, na sua ilustrada opinião. Assumiu o seu papel de guru coaching sugerindo uma receita de sucesso fácil, barata e que dá milhões: vamos ser todos Ronaldo. 
 
Ronaldo, para quem não saiba ou esteja longe de apreciar uma entretenga muito popular no seu país, é um praticante de uma modalidade a que deram o nome de futebol. Mas alto lá: é um praticante de extremo sucesso, havendo até quem diga que é o mais notável português de sempre. Existe até um chefe populista, líder do partido fascista e agora candidato presidencial, que cresceu nessa modalidade — comentando as práticas futebolísticas em indescritíveis programas de televisão — e que trouxe com grande sucesso para a política esses tão apreciados comentários ensopados de conceitos de bradar aos céus. As comparações de atitudes de políticos com as entradas em campo de futebolistas são chutadas a toda a hora e em todos os salões, pavilhões e relvados para as pessoas "perceberem lá em casa". Esta expressão, que me tira do sério ao ponto de mudar de imediato de canal, ilustra o nível de conteúdos em que vegeta a política e o seu comentário. 
 
É por esse trilho que Montenegro caminha. Não conhece livros, baralha autores, não vê teatro, nem cinema, não tenta perceber o que não quer conhecer, mas ouve Tony Carreira como grande nome da cultura musical (mais recentemente Toy foi adicionado ao pacote) e vai à bola e conhece os protagonistas que nela dão pontapés. Daí o apelo ao exemplo de Ronaldo. Devemos ter a mentalidade Ronaldo. É aqui que se revela a mentalidade Montenegro. Para ele o país funcionaria melhor se todos tivéssemos nascido pobrezinhos mas com uma funcional mentalidade virada para sermos ricos. Muito ricos de preferência. E para isso o melhor seria, de pequeninos, arranjarmos uma bola e começarmos a dar nela de manhã à noite, com rigor vencedor logo a partir daí. Quem não souber dar pontapés na bola pode dar noutra coisa qualquer. O que é preciso é crescer a dar muitos pontapés. Chegados a ricos é tentar não pagar impostos e fugir a obrigações que dão trabalho. Depois é comprar carros caros que de pobretanas não reza a história dos vencedores; tentar ter prazer sexual com quem não está para aí virado nem que seja à força; mandar vir filhos por correspondência, pagando é claro, que o dinheiro compra tudo; arranjar uma mulher com "um bom corpo" que a casa e os rebentos precisam dos cuidados que só uma mulher conhece; jogar à bola onde for preciso e para quem pague mais, e jantar com os homens mais poderosos do mundo mesmo que sejam muito perigosos e com carácter de minhoca. Crimes são coisas que acontecem, como diz o outro, e os novos-muito-ricos não têm vagar para aturar gente que só pensa em solidariedade, carácter, decência, cultura e mais não sei o quê.
 
A mentalidade Montenegro é isto. Temos um primeiro-ministro encantado com os manuais de auto-ajuda. Um homem que mal sabe ler e escrever é primeiro-ministro e quer que o principal guru de um país seja um parolo narcísico, bilionário, incomensuravelmente vaidoso e deslumbrado com as suas próprias atitudes ridículas. Temos um primeiro-ministro que é um inenarrável parolo sem nível nenhum, encostado a uma extrema-direita perigosamente triunfante, rodeado de gente inclassificável, que se augura de líder dos novos tempos. O futuro já chegou. Já estamos na lama. Essa é que é essa.
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