Tanta gente que lutou pela liberdade. Tanta gente torturada nas prisões de Salazar, que transmitia ele próprio orientações directamente à polícia política. Tanta gente morreu no campo de concentração do Tarrafal (a mais tenebrosa das prisões) e no Aljube, em Caxias, em Peniche e em todo o lado onde fosse permitido eliminar a liberdade de quem a reclamava.
Tanta gente que tudo fez para podermos ter acesso à fruição da verdadeira cultura: ao conhecimento da literatura que mais interessa, às artes e às letras sem censura, e vêm agora os que nos querem tirar isso tudo reivindicarem para eles o papel de paladinos da liberdade. Liberdade para eles é a capacidade de alardear a mentira como definição de justiça. O populismo mantém o povo na ignorância tentando convencer os incautos eleitores de que os inimigos andam aí, e são toda a gente que não é como eles. Solta-se a mentira e instala-se a "liberdade".
Assim de repente até parece programa de variedades, mas ao vermos Trump, Bolsonaro, Milei, Meloni, Le Pen, Ventura e mais os seus braços armados (em parvos) que povoam o comentário televisivo, a usarem a palavra como coisa sua, percebemos que há aqui algo que está muito próximo da asneira. A liberdade que reclamam é a anulação da nossa liberdade. Apresentam-se com um salvador absoluto. O arauto da justiça que tem a solução para todos os males. O preferido do povo - outra designação genérica que pretendem para si. O absurdo chega ao ponto de acusarem a esquerda de tolher liberdades. Logo eles, os zelosos depuradores ajustadores, que assim que pudessem anulavam todas as manifestações artísticas e de apoio social. Está nos programas das sinistras agremiações essa apologia da liberdade controlada.
Umberto Eco, como muitos outros intelectuais letrados e esclarecidos pela liberdade de pensar, percebeu o embuste logo que os novos fascistas começaram a não ter vergonha da miséria que os velhos fascistas espalharam pelo mundo. Termino com uns versos de Bocage, que também transpirou liberdade por todos os poros:
Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada!
