sábado, 11 de maio de 2024

Confiança na finança

Esta criatura diz que os portugueses precisam de confiança. Pede confiança com ar pouco confiante. É um estilo, provavelmente. O ar de enfado não o favorece. A mim nunca convenceu. Não o consigo levar a sério. Ainda não consigo enquadrá-lo como primeiro-ministro.

Agora apresentou medidas para resolver o problema da habitação. Percebe-se assim de repente que a especulação imobiliária é encorajada. A selvajaria é solicitada. A liberalização de ocupação dos solos é todo um programa de intenções. Apoio a quem precisa não existe. Apoio a quem especula quer-se como lei. Mas há aqui apenas intenções, nada de decisões. Ainda bem, estas intenções transformadas em decisões podem dar em nada. Se calhar a ideia é essa: não acontecer nada. Este governo não acontece. É constituído por um grupo de parolos sem consistência intelectual. Nem intelectual nem técnica.  

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sexta-feira, 10 de maio de 2024

Casos e casinhos

As terminologias matam. Os casos e casinhos do PS levaram ao derrube do governo por um Presidente hiperactivo direitista e uma procuradora songamonga que só procura a instabilidade com vontade de imposição política. A política deixou de ser aplicada pela imodéstia dos casos e casinhos. Agora são os casões que contam: incompetência, alarvidade, acusações vis, silêncios torpes e ódio ao serviço público minam as mal ilustradas meninges desta gente. São grunhos calados e acanhados perante a desenvoltura verbal e esbracejante do grunho falante. Não tarda aliam-se. A bem da nação deles. São gente a preto e branco, sem nuances nem estilo, como o retrato incluso.

CICLO DE CONVERSAS 50/25 - 50 ANOS DO 25 DE ABRIL

JOSÉ AFONSO, POETA
HOJE, 10 DE MAIO, 21:30 HORAS
Casa Da Cultura | Setúbal, Sala José Afonso
Vamos falar sobre a obra poética de José Afonso. José Afonso foi um poeta que usou as palavras com musicalidade. Na sua voz, a palavra atinge sonoridade verbal — seja lá isto o que quisermos que seja —, convocando a metáfora para a denúncia e a vontade de comunicar, sugerindo situações e comportamentos. Vamos conversar sobre isto com Jorge Abegão, o organizador da OBRA POÉTICA de José Afonso, recentemente publicada pela Relógio D'Água, e com Filipe Fialho, professor especialista na área musical. Vamos tentar perceber o que nascia primeiro — a música ou o poema? — ou talvez não - provavelmente José Afonso cumpria a ideia da canção "De não saber o que me espera", onde se sugere que a ideia do resultado final da obra fica à mercê do decorrer da concepção. Sabemos que uma obra desta qualidade tem no seu desenvolvimento uma complexidade que se esbate no tal resultado final. De que falamos quando falamos de José Afonso? De que falamos quando falamos do trabalho de alguém com esta dimensão? Vamos falar, isso é certo. É hoje, dia 10, às nove e meia da noite, na Casa Da Cultura | Setúbal. Até já.



quinta-feira, 9 de maio de 2024

Da decência mínima

A acusação ao Presidente de traição à pátria, alardeada com espavento pelo jurista da tasca imunda, deveria ser condenada por todos os que ainda têm respeito pela política e pela democracia. O grunho falante não passa disso mesmo - um grunho falante, e tem gente a apoiá-lo que é como ele, mas menos falante. Mas todos nós temos o dever de tomar uma atitude. Não podemos fazer depender a política e as atitudes políticas de um cretino malcriado sem trambelho só porque é ouvido e seguido por uma chusma de cretinos malcriados sem trambelho.
O nosso passado histórico não tem de ser enxovalhado por quem acha que é seu detentor. A política evolui, não tem de ficar entregue ao que decidem trogloditas. Senhores deputados democratas: distanciem-se desses energúmenos que estão sentados no lado direito do parlamento. A democracia e a decência política exigem que o façam. Façam isso, enquanto ainda vos temos respeito.



quarta-feira, 8 de maio de 2024

Benefício da ignorância


O grunho falante do partido fascista utiliza a ignorância dos seus apoiantes como ferramenta de trabalho. Claro que não diz o que pensa porque não pensa nada nem coisa nenhuma. Diz coisas. Alega o que for preciso para instruir os incautos e ruins. Agora acusa o Presidente de traição à pátria. Claro que não acha nada disso. O contexto internacional está minado de estadistas que pediram desculpa pelas ocupações, violações e expropriações colonialistas e trataram de devolver bens roubados. O grunho falante atreve-se a puxar pelos galões de jurista, como se tal condição profissional lhe garantisse credibilidade. O partido dele está submerso em justiceiros trogloditas. Ele é um jurista fruste que pretende iludir o seu séquito — infelizmente já vasto — de seguidores. E é um cidadão que usa o que for preciso — manipulação, mentira descarada e falta de vergonha evidentes — para iludir os imbecis que o seguem. Imbecis e escroques da pior espécie. Ele é como jurista um manhoso fruste e vil, e como cidadão é um vulgar escroque.


Conto aqui dois episódios que tentam enquadrar este tipo de gente. Na zona onde actualmente vivo, o partido fascista teve excelsa votação. Maioria mesmo, diga-se assim que é para causar arrepios. Senti que tinha que reagir. Quero envolver-me na vida colectiva. Resolvi participar numa acção de formação teatral promovida pelo Centro Cultural da zona. Na primeira sessão esclareci ao que me levava ali. Participar na vida da terra. Perceber o que nos trouxe a esta situação de javardice política. A formação foi excelente. Aprendi os antecedentes da criação de personagens. Fizemos improvisações no estrado que me causaram grande gozo pessoal. Na última sessão deu-se o inimaginável. Uma criatura participante, incomodada desde o início com as investidas verbais ali verberadas contra o partido fascista Chega, avança do nada com esta pérola: "eu até percebo as pessoas que votaram no Chega". Claro que se percebe logo a tendência da criatura e em quem votou, mas ela resolveu esclarecer melhor: "eu sou contra a abertura de fronteiras", e "até há cientistas que dizem que a Terra não é redonda", ou seja: a criaturinha até coloca a hipótese de podermos ir para além das normas defendidas pelo partido fascista. Correcções precisam-se, sempre. Vamos lutar contra o conhecimento em prol da vontade de ser do contra. Os outros, os que não são como nós, devem ser sempre excluídos e combatidos. Nação valente.

O outro episódio não presenciei, mas observei pelas televisões. Aqui há uns tempos, em manifestação do Chega contra essa ideia para eles estapafúrdia de que o racismo existe, os jornalistas de serviço perguntam aos participantes o que os motiva a estar ali. "É para eles saberem que aqui não mandam nada", e "vão para a terra deles" e " não sou racista, mas cada um deve estar na sua terra". Enfim, o povo fascista é assim mesmo. Valente e imortal. O grunho falante ainda não tinha ido tão longe como os seus apoiantes, mas agora, perante os ataques criminosos a pessoas imigrantes residentes na cidade do Porto, a compreensão desses actos surgiu no dia seguinte. Reacção revelada no dia seguinte aos ataques. Ao contrário da costumeira improvisação no momento. O grunho convocou jornalistas, e, em pose de governante, acusou os atacados de possíveis atacantes. Para o povo fascista que o segue essa acusação é lei. Os ataques estão justificados. Os grunhos defendem milícias contra a diferença. Afinal, essa estratégia até já foi aplicada pelo antecessor movimento fascista MDLP de que fizeram parte um actual vice-presidente da Assembleia da República e o pai da ministra da justiça. Estamos no bom caminho.

Não sou patriota da pátria destes energúmenos, nem tenho orgulho no passado histórico que expropriou, violou e impôs religiões. Também não tenho vergonha de nada. Não participei no saque. Mas tenho vergonha de ter compatriotas orgulhosos desse passado. Tenho vergonha de ter 50 fascistas no parlamento. E tenho orgulho em lutar contra eles.

A imagem adicionada a esta opinião veio hoje publicada na secção diária do Público ESCRITO NA PEDRA. Bertrand Russell não conheceu Ventura, mas conheceu bem essa categoria de gente. Gente reles.

terça-feira, 7 de maio de 2024

Design de comunicação

Da série Grandes Capas. MIT Technology Review

Arte: R. Kikuo Johnson.

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segunda-feira, 6 de maio de 2024

Senhor Cultura


Morreu Bernard Pivot. Habituei-me a persegui-lo desde Apostrophes e Bouillon de Culture, programas televisivos literários que passaram as fronteiras de França. Uma vez, no Bouillon, ficou de olhos esbugalhados quando alguém disse que Fernando Pessoa era um dos grandes poetas de sempre. Virou-se para Eduardo Prado Coelho, na altura adido cultural em Paris: Est-ce vrai ?, pergunta atónito. E os olhos ficam ainda mais esbugalhados quando Eduardo confirma a genialidade de Pessoa. Tornou-se entusiasmado admirador do poeta. Também se dedicou a opinar sobre vinhos. Fez muita coisa. Foi um ser humano de excepção. Único. É um autêntico centro cultural que deixa de existir.

domingo, 5 de maio de 2024

Frank Stella


Arriscou. Quis surpreender. Criou novos ambientes artísticos. Dizem que o minimalismo surgiu com ele. Ou cresceu. O seu trabalho cresceu muito. Deixa uma obra impressionante. Foi muito bom viver no seu tempo.

sábado, 4 de maio de 2024

Imigrantes em perigo


Imigrantes foram agredidos no Porto. Os criminosos entraram nas casas das pessoas. Estes criminosos têm quem os defenda no parlamento. O grunho falante do Chega passa os dias em discurso de ódio. A agressão está sempre latente. Com 50 fascistas racistas na Assembleia da República os criminosos actuam sem medo. Quem tem medo é quem vem para Portugal trabalhar e depois é agredido por estes criminosos alinhados com o grunho falante e todos os fascistas portugueses, que já são muitos. Um milhão e duzentos mil racistas é muita gente. Quem votou nos racistas soube o que fez. São gentalha que é contra a entrada em Portugal de quem não é português. Classificam como agressores todos os que não são de cá. Os eleitores do partido fascista não devem ser acarinhados, devem ser combatidos. Quem precisa de protecção são as pessoas que querem viver por cá com dignidade e em segurança.

Receituário

Lembrar o Luís Carmelo viajando pela sua obra. É hoje, a partir das quatro da tarde.



sexta-feira, 3 de maio de 2024

A escolha de Montenegro

O tablóide tal&qual informa-nos de alguns assuntos de particular interesse: o Presidente avisa quando estiver chalupa. Será que um chalupa reconhece essa sua nova situação? Outra manchete: filho do Presidente tem tendência para ser "influencer". Quem sai aos seus... E ainda: Carlos Alexandre quer mandar nas secretas. Olha a novidade! 

Mas a grande surpresa é a escolha de Montenegro para a presidência da Câmara de Sintra. Montenegro passou de vendedor de banha-da-cobra para vistoso artista de variedades. Parece que o novel primeiro-ministro aposta em Manuel Luís Goucha. A sério? Não dá para acreditar. Será que José Castelo Branco não foi convidado? Será que não aceitou? Ou será que a escolha prendeu-se com a real possibilidade de as decisões camarárias passarem a ser transmitidas pela TVI, em directo, com direito a prémios e promoções comerciais? O efeito Trump tem seguidores. Montenegro está atento à política espectáculo. afinal o tatibitate das Finanças não é impreparado. Aquilo é performance.



quinta-feira, 2 de maio de 2024

Outras faces


Abriu hoje a exposição TEMPOS INCERTOS, de Miguel Navas, na galeria Santa Maria Maior. Andam pelas paredes da galeria grandes formatos — pinturas em papel coladas em tela —, médios e pequenos formatos, onde se destacam pela surpresa pontual os auto-retratos que já são imagem reconhecida no trabalho de Navas. José Sousa Machado diz na folha de sala: "(...) nos auto-retratos de Miguel Navas, o carácter deixa no rosto as marcas das palavras não ditas e das intenções não realizadas". De facto aqueles auto-retratos olham-nos com preocupação. Será carácter, será vontade de comunicar algum pessimismo. São revelações de um rosto atento a realidades que nos agridem ou comovem. Os rostos que aqui se apresentam têm voz, mas não querem falar. Preferem não dizer intenções. Percebe-se um possível pessimismo. E percebe-se a lucidez.

A galeria é de muito agradável ambiente arquitectónico. Há história naquelas paredes recuperadas para uma contemporaneidade bem desenhada. Esta exposição de Miguel Navas merece visita. Estas trabalhos dão-se bem com o espaço.
TEMPOS INCERTOS
Séries de auto-retratos e paisagens
Desenho | Pintura
GALERIA SANTA MARIA MAIOR
Rua da Madalena, 147. Lisboa
Até 25 de maio

 

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Miguel Portas


Recordo aqui que o Miguel nasceu no dia 1 de Maio de 1958. Recordo-o hoje, no dia em que se assinala o seu aniversário, porque não o esqueço, e porque acho que não deve ser esquecido.


Um episódio: um dia telefonei-lhe no dia 25 de Abril para lhe dar os parabéns. Tinha lido no Público que fazia anos nesse dia. O Público errou. Atende o telefone e corrige-me: "eu faço anos no dia do trabalhador, não é hoje". Mais tarde em conversa com ele informou-me da carrada de telefonemas que recebeu nesse dia. Agradeceu sempre, corrigindo. Afinal, a data atribuída pelo jornal ao seu nascimento não o ofendia, muito pelo contrário, mas considerava uma grande felicidade ter nascido no dia 1 de Maio.

Fotografia de Nuno Ferreira/Público

A morte surge num dia assim

Em dia de celebrar quem trabalha, deixa-nos Paul Auster. Um trabalhador que sabia colocar as letras nos sítios certos. Morreu um dos meus escritores. Confesso que às vezes me imaginava a conversar com ele sobre as suas invenções literárias. Sobre aquela maneira de dizer as coisas que tanto me agradava. Marcou-me. Sentia-o aqui tão perto. E estava. Agora vai-se embora. A tristeza é muita. Ainda esperava tanto dele. Vou reler tudo o que escreveu. Não tenho outro remédio. Obrigado, Paul.

terça-feira, 30 de abril de 2024

Da diferença dos dias

DA DIFERENÇA DOS DIAS | Há dias assim. Dias em que preferimos estar juntos. Todos juntos. O primeiro dia de Maio sempre foi um dia especial. Se me permitem, conto uma história que se passou comigo. Estava eu numa gráfica a resolver um trabalho que tinha que ser produzido com grande brevidade. Não me apercebendo do dia do calendário, digo para o responsável da empresa: então depois de amanhã trago as artes-finais e tratamos da montagem, certo? Certo, não! Errado, responde-me o homem com um ar intrigado. E continuou: eu até já trabalhei no dia de Natal, mas no primeiro de Maio nunca. E sabe, eu sou do tempo em que íamos comemorar no campo, num piquenique antifascista. Ali os pides não entravam. Foi sempre um grande dia.
Percebi que tinha metido o pé na argola, porque não me tinha apercebido em que dia da semana estava. Nunca mais me esqueci desta história que eu acho tão bonita. Quem me disse isto foi o senhor Pita, da Gráfica Bocage, em Setúbal, e lembro-me desta conversa sempre que se aproxima o dia do Trabalhador. Ficaram em mim a história e um respeito imenso por quem trabalha e respeita o outro. Pelos pides e fascistas nunca tive respeito. Só desprezo e ganas de os combater. O Primeiro de Maio também é dia de combate ao fascismo.
Estamos juntos. Bom Primeiro de Maio. Bom dia.


segunda-feira, 29 de abril de 2024

Atitude e dignidade

Álvaro Cunhal lutou toda a vida pela liberdade e pela democracia. Toda a vida. Tendo todas as qualidades para ser o que quisesse, o dirigente comunista trocou a comodidade pela luta contra os que tolhiam a comodidade aos outros. O país vivia em ditadura. A PIDE torturava e matava. A alegria e a vontade de conhecer o mundo eram proibidos. A felicidade era impossível. Ou pelo menos impossível à maioria. Os fascistas faziam o que queriam. O liberalismo social era possível. A agressão sexual por parte dos poderosos era elogiada. Patrões barrigudos e sebosos abusavam sexualmente de raparigas vulneráveis que para eles trabalhavam. Acontecia em fábricas de têxteis no norte e de conservas no sul. As mulheres são sempre quem deve sofrer correcções e as agressões são bíblicas. Lembram-se de Neto Moura? Álvaro Cunhal estudou direito. A sua tese final abordou e esclareceu a interrupção voluntária da gravidez como recurso último a praticar pelas mulheres sem condições de dignidade mínimas. Respeitava a qualidade de vida do ser humano como prioridade. Ouvi-o dizer isso em entrevista. Odete Santos e outras deputadas de esquerda lutaram no parlamento pela dignidade das mulheres. A ala esquerda do parlamento é quem mais faz pela dignidade das pessoas. Álvaro Cunhal sempre respeitou direitos e bateu-se por eles. Com atitude. Com o corpo. As suas motivações levaram-no para a prisão por uns violentos onze anos seguidos, oito dos quais em isolamento total. Imagina-se tamanho sofrimento?
Em tempo em que a Assembleia da República tem fascistas a pedir regressões, e em que esses deputados fascistas já mencionam o seu nome em tom insultuoso, e quando criminosos da PIDE dão entrevistas ao jornal manhoso da manhã, esclarecendo que os choques eléctricos são como cócegas divertidas aplicadas nos presos políticos, é preciso recordar Cunhal como grande defensor da liberdade, da democracia e da luta pela dignidade do ser humano. Ele lutou com coragem. A cobardia fascista tentou eliminá-lo. Em vão.
Álvaro Cunhal é um dos símbolos de Abril. Devemos-lhe muito. Devemos-lhe respeito. Recordo-o neste tempo em que dirigentes do partido fascista com representação parlamentar lhe disferem ataques alarves. Ataques por quem quer o regresso aos ambientes serôdios e tristes. Recordo-o e agradeço-lhe.  

Fotografia de Eduardo Gageiro

sábado, 27 de abril de 2024

Abril (quase) sempre?

JOSÉ AFONSO SEMPRE, SEMPRE! | Foram uns dias felizes, estes. Deveria ser sempre assim. Não devemos ter medo de viver em alegria. Em alegria, sim,  como referiu Mariana Mortágua na sua bonita intervenção na Assembleia. Devemos celebrar os avanços civilizacionais só possíveis devido à revolução, como disse Rui Tavares, na sua lição de democracia e de apologia da dignidade. Das comemorações oficiais destaco estas intervenções. O líder fascista também se destacou pelo ódio, exibido em delírio gritado e esbracejado. Asqueroso, sempre. Rui Gaivota, perdão, Rui Rocha, da Iniciativa Liberal, destacou-se pelo ridículo. Tanta gaivota a esvoaçar. Tanta metáfora parva em circulação. Até falou em gaivotas a voar traz. O que é que deu ao homem? A canção de José Afonso foi estraçalhada por este mestre do disparate. Aquilo foi uma canseira. Para finalizar destaco outra atitude deplorável: o partido fascista, os deputados da direita, os membros do governo e todos os bandalhos lambe-botas que vegetam no parlamento saíram quando foi cantada "Grândola, vila morena", de José Afonso. Fizeram bem. Precisamos de perceber bem quem desprezamos. Os militares de Abril assistiram e cantaram. Emocionados. Ainda sentem o arrepio da emoção, como é óbvio. 

24 DE ABRIL - Mas, oficialidades fora, as comemorações foram mesmo muito bonitas por todo o país. Na véspera, o Largo do Carmo encheu e a festa foi a maior de sempre ali, apesar do boicote do "prefeito". Já no Terreiro do Paço, lugar onde o "prefeito" festejou, o espectáculo foi só isso: espectáculo. Sem festa. "Grândola, vila morena" foi esquecida. Foi o 25 de Abril deles, os que acham que Abril não pode ser como quer a esquerda. Quase sempre vá que não vá, mas sempre? 

Em todo o país a música aconteceu. Música boa, música assim-assim e música má. Não me deslocaria nem um metro para ouvir muitas das atoardas que por aí se ouviram. É o que se pode arranjar, dizem-me. É a vida, acrescentam. A minha não é, é a deles. Há gente para tudo. Que se divirtam.


25 DE ABRIL - No dia 25 de Abril descemos a Avenida. O nome de Liberdade nunca lhe assentou tão bem. Fomos muitos. Muitos mesmo. O artista visual Pedro Chorão dizia-me: Mas com tanta juventude a manifestar-se, como é que tanto jovem votou no Chega? Pergunta pertinente sem resposta. Bem, há respostas possíveis, mas deixemos isso por agora. Sim, fomos muitos. Somos muitos a não querer o regresso do tempo bisonho e triste sugerido por Passos Coelho, Paulo Núncio, Nuno Melo, Otero, César das Neves e outros frustes defensores da família dita tradicional.

A Arte com A grande aconteceu também neste dia em Setúbal. Pedro Chorão abriu exposição na Casa da Cultura, em mostra comemorativa. Rumámos do Rossio em festa, em Lisboa, para Setúbal. Fomos abrir a exposição deste artista único. Era preciso associarmos a esta comemoração tamanha qualidade visual. Aprendemos a ver melhor, com Pedro Chorão. Percorremos o espaço com prazer. Privilégio da cidade ter uma exposição destas em comemoração de Abril.


26 DE ABRIL - Sexta-feira foi noite de conversarmos com amigos estrangeiros que viveram Abril. Foi o Muito Cá de Casa, na Casa da Cultura. Conversa esclarecedora e cheia de surpresas. Foi muito bonito estarmos com gente que não víamos há muito. Somos gente que sente e que se envolve com os acontecimentos que nos mudam a vida. Estes estrangeiros ensinaram no Círculo Cultural, quando as instalações da actual Casa da Cultura era a sede dessa colectividade antifascista. Ensino nocturno bem sucedido. Muita gente fez ali o ensino secundário. Recordámos esse tempo. Recordámos José Afonso. José Afonso, o Zeca, está sempre presente. É impressionante. Há quem não morra, nem que os fascistas e seus amigos os queiram matar. O 25 de Abril é José Afonso, "Grândola" e esquerda. A direita sente-se bem entre a escória política. A direita é a escória política. São o que for preciso, desde que lhes seja garantida carreira próspera. 

27 DE ABRIL - Abertura do Museu Nacional Resistência e Liberdade. Programei ir. Não fui. Esteve lá o Presidente de (quase) todos os portugueses. Não me apetecem cerimónias oficiais. Não me apetece ouvir o Presidente de quase todos. Não votei nele. Não alinho com as suas atitudes. Não me apetece estar ali. Não é por mais nada, é só por isto. Vou lá um destes dias.

Fiquei em casa. Leio José Afonso: 

Inúteis eram as vozes e as palavras
O cativeiro represo dos sentidos
Abre-se uma comporta e nada altera
A matéria dura de que é feita a vida
Ferros pedaços brancura nunca vista
E um rio que não pára nem descansa
Que perfeita modorra não se esconde
Nesta vasa indecisa e aos ouvidos
Chegam silvos cantantes gargalhadas
E tudo dói como se fora treva
Como se fora vinho nesta névoa


[Escrito na prisão de Caxias, 1973]

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25 de Abril sempre





Agora e sempre. Ainda estamos a festejar. Todo o país festeja em alegria. Descemos a Avenida da Liberdade (que nome tão justo), assistimos a concertos de gente que toca os sons da surpresa e canta as palavras justas, abrimos uma soberba exposição de Pedro Chorão, conversámos com amigos estrangeiros que viveram o 25 de Abril. Hoje ainda há a abertura do Museu em Peniche para assinalar a denuncia da repressão.
Ainda estou a curtir. Amanhã farei menção de tudo o que vivi nestas comemorações dos 50 anos da revolução que nos tirou do obscurantismo. Está a ser bom, apesar dos fascistas do Chega e do pernóstico da Câmara de Lisboa. Que se lixem os fascistas e os que os compreendem.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Eles estavam cá

GENTE DE FORA CÁ DENTRO | É como vos digo. Vale a pena ouvir gente que quer estar conosco. Gente de fora que vem para cá comemorar Abril e a Liberdade. Aprendemos uns com os outros. Vamos aprender. Vamos conversar, recordar, rir, olhar para os outros. Os outros que são como nós. Gostamos de viver em liberdade. Todos juntos. Até já.

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