sábado, 27 de abril de 2024

Abril (quase) sempre?

JOSÉ AFONSO SEMPRE, SEMPRE! | Foram uns dias felizes, estes. Deveria ser sempre assim. Não devemos ter medo de viver em alegria. Em alegria, sim,  como referiu Mariana Mortágua na sua bonita intervenção na Assembleia. Devemos celebrar os avanços civilizacionais só possíveis devido à revolução, como disse Rui Tavares, na sua lição de democracia e de apologia da dignidade. Das comemorações oficiais destaco estas intervenções. O líder fascista também se destacou pelo ódio, exibido em delírio gritado e esbracejado. Asqueroso, sempre. Rui Gaivota, perdão, Rui Rocha, da Iniciativa Liberal, destacou-se pelo ridículo. Tanta gaivota a esvoaçar. Tanta metáfora parva em circulação. Até falou em gaivotas a voar traz. O que é que deu ao homem? A canção de José Afonso foi estraçalhada por este mestre do disparate. Aquilo foi uma canseira. Para finalizar destaco outra atitude deplorável: o partido fascista, os deputados da direita, os membros do governo e todos os bandalhos lambe-botas que vegetam no parlamento saíram quando foi cantada "Grândola, vila morena", de José Afonso. Fizeram bem. Precisamos de perceber bem quem desprezamos. Os militares de Abril assistiram e cantaram. Emocionados. Ainda sentem o arrepio da emoção, como é óbvio. 

24 DE ABRIL - Mas, oficialidades fora, as comemorações foram mesmo muito bonitas por todo o país. Na véspera, o Largo do Carmo encheu e a festa foi a maior de sempre ali, apesar do boicote do "prefeito". Já no Terreiro do Paço, lugar onde o "prefeito" festejou, o espectáculo foi só isso: espectáculo. Sem festa. "Grândola, vila morena" foi esquecida. Foi o 25 de Abril deles, os que acham que Abril não pode ser como quer a esquerda. Quase sempre vá que não vá, mas sempre? 

Em todo o país a música aconteceu. Música boa, música assim-assim e música má. Não me deslocaria nem um metro para ouvir muitas das atoardas que por aí se ouviram. É o que se pode arranjar, dizem-me. É a vida, acrescentam. A minha não é, é a deles. Há gente para tudo. Que se divirtam.


25 DE ABRIL - No dia 25 de Abril descemos a Avenida. O nome de Liberdade nunca lhe assentou tão bem. Fomos muitos. Muitos mesmo. O artista visual Pedro Chorão dizia-me: Mas com tanta juventude a manifestar-se, como é que tanto jovem votou no Chega? Pergunta pertinente sem resposta. Bem, há respostas possíveis, mas deixemos isso por agora. Sim, fomos muitos. Somos muitos a não querer o regresso do tempo bisonho e triste sugerido por Passos Coelho, Paulo Núncio, Nuno Melo, Otero, César das Neves e outros frustes defensores da família dita tradicional.

A Arte com A grande aconteceu também neste dia em Setúbal. Pedro Chorão abriu exposição na Casa da Cultura, em mostra comemorativa. Rumámos do Rossio em festa, em Lisboa, para Setúbal. Fomos abrir a exposição deste artista único. Era preciso associarmos a esta comemoração tamanha qualidade visual. Aprendemos a ver melhor, com Pedro Chorão. Percorremos o espaço com prazer. Privilégio da cidade ter uma exposição destas em comemoração de Abril.


26 DE ABRIL - Sexta-feira foi noite de conversarmos com amigos estrangeiros que viveram Abril. Foi o Muito Cá de Casa, na Casa da Cultura. Conversa esclarecedora e cheia de surpresas. Foi muito bonito estarmos com gente que não víamos há muito. Somos gente que sente e que se envolve com os acontecimentos que nos mudam a vida. Estes estrangeiros ensinaram no Círculo Cultural, quando as instalações da actual Casa da Cultura era a sede dessa colectividade antifascista. Ensino nocturno bem sucedido. Muita gente fez ali o ensino secundário. Recordámos esse tempo. Recordámos José Afonso. José Afonso, o Zeca, está sempre presente. É impressionante. Há quem não morra, nem que os fascistas e seus amigos os queiram matar. O 25 de Abril é José Afonso, "Grândola" e esquerda. A direita sente-se bem entre a escória política. A direita é a escória política. São o que for preciso, desde que lhes seja garantida carreira próspera. 

27 DE ABRIL - Abertura do Museu Nacional Resistência e Liberdade. Programei ir. Não fui. Esteve lá o Presidente de (quase) todos os portugueses. Não me apetecem cerimónias oficiais. Não me apetece ouvir o Presidente de quase todos. Não votei nele. Não alinho com as suas atitudes. Não me apetece estar ali. Não é por mais nada, é só por isto. Vou lá um destes dias.

Fiquei em casa. Leio José Afonso: 

Inúteis eram as vozes e as palavras
O cativeiro represo dos sentidos
Abre-se uma comporta e nada altera
A matéria dura de que é feita a vida
Ferros pedaços brancura nunca vista
E um rio que não pára nem descansa
Que perfeita modorra não se esconde
Nesta vasa indecisa e aos ouvidos
Chegam silvos cantantes gargalhadas
E tudo dói como se fora treva
Como se fora vinho nesta névoa


[Escrito na prisão de Caxias, 1973]

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