quinta-feira, 3 de abril de 2025

Ilustrar a Fraternidade


É uma iniciativa que vai ser desenvolvida em Grândola, organizada pela Câmara Municipal. Três exposições, com debates e oficina educacional. A iniciativa nasce no próximo dia 5, sábado, com a abertura da exposição GRAFISMOS EM LIBERDADE. Vamos mostrar os cartazes que inundaram o nosso olhar logo depois de 25 de Abril de 1974. A liberdade instalou-se nas tipografias com as cores e as imagens que nos revelaram o novo tempo que se propunha de mudança. A mudança deu-se graças à nossa atitude. A nossa vida mudou. Estes cartazes contam essa história. Pertencem ao arquivo Ephemera, que José Pacheco Pereira dirige, e à coleção que Jorge Silva também está a arquivar e classificar. Duas prestações valiosas que vão ser mostradas nas paredes da Biblioteca e Arquivo Municipal de Grândola. Grândola, terra da fraternidade, merece que se festeje a Liberdade e a Inteligência. Os artistas gráficos de Abril merecem este reconhecimento. Seja bem vindo, quem vier por bem.

ILUSTRAR A FRATERNIDADE inclui três exposições, que vão permitir debater e desenvolver ideias visualmente. GRAFISMOS EM LIBERDADE é a primeira das três exposições. Seguem-se OLHARES DO ANDARILHO, que reflete sobre o design das capas dos discos de José Afonso, em Maio, ESTES HUMANOS SÃO LOUCOS, exposição de trabalhos de André Carrilho, projetados para o livro Dicionário da Invisibilidade. Figuras solidárias, marcantes na sociedade, que não merecem esquecimento. As oficinas OLHAR A FRATERNIDADE serão orientadas por Ana Nogueira, e nos debates participarão entre outros José Pacheco Pereira, Jorge Silva, Ana Nogueira, Mamadou Ba, Henrique Cayatte, Ana Palma, Rosa Azevedo, José Falcão. É preciso falar sobre as coisas que aconteceram e que acontecem. É preciso olhar e ver. É a pensar com alegria, coragem e rigor intelectual que queremos viver. 

terça-feira, 1 de abril de 2025

De betão

Montenegro favoreceu uma empresa em negócio com uma Câmara Municipal para quem trabalhava? O negócio metia betão, dizem as notícias. Ora, o betão não segura tudo. Montenegro estremece, mas não desiste. Há quem ache que não há aqui nada de mal. É verdade: nada disto é ilegal, mas é irreal.

Os deputados que aprovaram uma moção de confiança ao governo dirigido por este notável homem de negócios manhosos, ainda considera que ele pode ser primeiro-ministro de um país civilizado da Europa? Não é das Américas que falamos — a latina e a do norte —, é da Europa em que queremos viver. Se o Partido (dito) Social Democrata insistir na criatura para o lugar de primeiro-ministro, ficamos a saber que para o dito partido não há exigências éticas. Qualquer videirinho serve. Até se podem aliar sem complexos aos vigaristas encartados do partido fascista que está mortinho por ter uma oportunidade para mitigar a democracia. Sem democracia é mais fácil ter negócios e poder político em simultâneo.

segunda-feira, 31 de março de 2025

O céu de Ana Nogueira


O céu de Ana Nogueira não tem anjos nem querubins. Tem gente e chão. Tem atitude e vontade de a expandir. Mostro aqui algumas imagens que testemunham a curiosidade motivada. Bons momentos de convívio regados pelo melhor vinho e animados pela melhor atitude: a da curiosidade intelectual. Foi uma ideia proposta por nós — DDLX — à Biblioteca Camões, do Largo do Calhariz, ali mesmo a dois passos do largo com o nome do poeta. Beleza e rigor autoral em grada
dose. Para recordação no futuro editámos dois postais com imagens diferentes, mas com o texto que escrevinhei impresso nas costas. Não tenciono justificar nem explicar nada. Isso não sei fazer. Faço uma abordagem paralela — pela escrita — a um trabalho que me fascina a cada mostra. Surpresa assente em linguagem própria. Aqui está ele, logo a seguir ao do senhor Bachelard, que esta coisa das hierarquias é para cumprir:

"Como ter acesso à intimidade do contraste? É preciso, em cada objeto, reavivar algumas primitivas ambivalências, aumentar mais a monstruosidade das surpresas, é preciso aproximar, até que elas se toquem, a mentira e a verdade". [Gaston Bachelard]
"A proximidade da verdade indicia o contraste. É preciso perceber a mentira, as razões que levam ao dislate, para percebermos as razões do que queremos atingir. É preciso ter acesso à intimidade do contraste, como defende Bachelard. É preciso reavivar memórias, procurar o que se conheceu, para que a verdade nos surpreenda e fique esclarecida a agressão da mentira. A surpresa nem sempre corresponde ao que definimos como prazer ou sorte, mas é nessa ambivalência que insistimos em exercer a resistência que nos anima contra a mentira que brota e agride.
Os desenhos de Ana Nogueira são como raspamentos que encetam uma procura. Uma vontade de descobrir a verdade que se esconde, ou foge, ou que se limita a estar ali discretamente. Discreta é a verdade. Ousada é a mentira. Ousemos contrariá-la. A verdade vem sempre à tona? Fazemos por isso. Insistimos em trabalhar nesse patamar escorregadio. É nesse terreno que se situa o trabalho de Ana Nogueira. Os desenhos da Ana estão aí a denunciar o céu que esconde a tempestade. É bom olhar para eles. Percebemos melhor onde a verdade pode ser encontrada. É o que eu acho. Bom olhar. [José Teófilo Duarte]
Fotografais: João Barata/CML

O rei vai nu. E então?!

Hernâni Dias, o tal governante que tinha negócios que comprometiam obviamente o seu desempenho no governo, vai ser candidato a deputado pela nova AD, já limpa do PPM. Pelos vistos era o partido fadista marialva o maior empecilho. Luís Montenegro, o primeiro-ministro com mais furos do que um passador, também vai a votos, mas com a intenção de circular de imediato para o palacete de São Bento. Isto tudo acontece sem problemas de maior. É o novo normal. Actualmente, qualquer desconfiança em relação a comportamentos passa directamente de problema a estratégia de marketing promocional. Parece que entrámos definitivamente na lógica do "Salve-se quem puder, de preferência o melhor possível". O rei vai nu, sem medo nem vergonha.

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sábado, 29 de março de 2025

Receituário

Está a passar na RTP 2. Tão bom.

CANTADEIRAS - Carta em Branco 2024
Intérprete: Helena Caldeira
Produção: Diana Almeida
Texto: Helena Caldeira
Música: Samuel Martins Coelho

Nota da Produção:

Cantadeiras é o projeto vencedor do concurso Carta em Branco 2024 promovido pela RTP, o qual tem como objetivo apoiar a produção e criação teatrais

Cantadeiras traz-nos um emocionante monólogo com texto, encenação e interpretação de Helena Caldeira. Esta obra teatral é uma jornada profunda que mergulha nas histórias e tradições das mulheres camponesas do Alentejo e promete transportar o público para um universo de memórias e vivências que marcaram a infância de Helena, originária de Montemor.
Helena Caldeira, com a sensibilidade e olhar atento de quem cresce imersa nas histórias e práticas do Alentejo, traz a palco um espetáculo multidisciplinar que explora o legado das mulheres alentejanas e as suas tradições, através de uma fusão única entre o texto dramático e o canto tradicional.

Carta em Branco é um projeto que junta a RTP2 e a RTP Palco e que visa contribuir para um aumento do acesso de artistas emergentes e novas companhias de teatro a meios de produção fundamentais, promover o espaço da pesquisa nos processos de produção e criação teatral, bem como promover e incentivar a criação de novas dramaturgias e a ampliação de públicos.


O manual dos inquisidores

O representante da extrema-direita no canal público de televisão insiste na sua agenda inspirada por um preenchido manual fascista. Não, este manual do inquisidor nada tem a ver com o título do livro de António Lobo Antunes. Excelente livro, aliás, deste excelente escritor. O inquisidor também se diz escritor e escrevinha umas merdas sem pés nem cabeça, mas que agrada a muita gente inebriada pela ignorância que estes novos escritores de cordel lhes fornecem, como produtos de um supermercado de coisas estragadas. No canal público fala para agradar à sua gente. Ele sabe que há muita gente parva a ouvir as inanidades que alardeia.

O palonço tentou inquirir Mariana Mortágua, insistindo com argumentos populistas bem próximos da deliquência jornalística. Sim, a delinquência de jornalistas populistas agride com a maior normalidade os candidatos da esquerda. Os fascistas são assim: agressivamente malcriados. Mas Mariana Mortágua aludiu ao episódio Paulo Raimundo, obrigando o inquiridor a seguir o rumo da normalidade democrática. Claro que o cretino tentou colocar as coisas de maneira a diminuir a atitude reactiva de Mariana Mortágua, acusando-a de não querer responder à pergunta já respondida ali e tantas vezes esclarecida em outros momentos. Os candidatos da esquerda que forem falar com o biltre devem estar preparados para o enfrentar. Já aqui o sugeri: vejam aquilo como treino para os debates com o fascista do líder do partido dos javardolas que estão sentados no parlamento. A extrema-direita combate-se. Não se trata com respeito.

José Brandão

Em dia em que José Brandão já cá não está, recordo aqui uma das suas passagens pela
Festa da Ilustração - Setúbal, com o texto que Ana Nogueira escreveu para a exposição na Casa da Avenida.

JOSÉ BRANDÃO, ILUSTRADOR. PENSAR ATRAVÉS DO DESENHO
Por que razão é necessário fazer um Desenho? Sobre isto precisamos escrevê-lo.
O Desenho enquanto expressão, é também ideia. O Desenho ideia, estruturador do pensamento, construtor imagético de significados sobre o mundo (nós nele). Os sentidos fornecem-nos dados transformados em imagens que se interrelacionam. O Desenho ideia arquiteta a expressão visível e a experiência do fazer contribui para essa arquitetura. Desenho ideia e Desenho enquanto expressão são partes constituintes do trabalho gráfico de José Brandão.
O Desenho enquanto expressão é ideia matérica em pontos, linhas ou manchas e resulta de uma ação do corpo para representar o nosso entendimento sobre uma realidade imaginária ou natural/real. O Desenho acontece pelo gesto que pensa sobre o registo que está a desenhar-se, encontrando empiricamente os caminhos, mas colaborando na representação intencional do(a) autor(a); é uma interação dialógica (comunicação) entre o(a) ilustrador(a) e o mundo. Ao produzir Desenho há uma aprendizagem sobre o objeto, de natureza interpretativa, logo subjetiva.
Desenhar é um ato sinalizado de conhecimento. Este ato de desenhar, verbo cujo étimo, de origem latina, é designare: o Desenho desígnio.
O Desenho recorre a um “filtro interpretativo”, expressão de Massironi (2010:17), para tornar reconhecível as representações expressivas do pensamento. Parry J. avisou-nos sobre a contínua ‘erupção’ do subjetivo na comunicação, no(a) autor(a) e no(a) fruidor(a). O Desenho faz-se suficientemente reconhecível para se afirmar comunicável. A sua força interventiva (por que comunicativa), desperta por vezes violência. Morre-se por desenhar.
Se o Desenho comunica uma realidade interpretada, implica a exclusão de elementos e a relevância de outros. Exige uma escolha. Diferentemente da linguagem verbal – que possui uma gramática mais estável -, a linguagem gráfico-desenhativa precisa de reinventar-se em cada Desenho, de modo a encontrar uma estrutura organizadora única que comunique com intencionalidade.
Ainda persistem equívocos sobre o Desenho. Não é mais fácil ou mais difícil desenhar do que escrever, é diferente.
O Desenho de José Brandão sendo interpretação é uma tomada de posição, “uma forma de pensamento” (Bártolo, J.:2014): Desenho ideia e Desenho matéria.
É preciso sempre fazer um Desenho. [Ana Nogueira]
Fotografias de Fernando Pinho: participação de José Brandão na Casa Da Cultura. Exposição sobnre as capas dos discos de José Afonso.

sexta-feira, 28 de março de 2025

Finissage

O CÉU DESABADO - ÚLTIMAS REPRESENTAÇÕES | A exposição de Ana Nogueira está quase a ser desmontada. Mas não precisam de vir a correr. Nós vamos estar cá até às oito da noite desta sexta-feira, dia 28. Venham até cá e bebam um copo connosco. Tudo isto é muito recomendável.

quarta-feira, 26 de março de 2025

José Brandão


Morreu José Brandão. Foi um dos mais importantes designers portugueses. Como ilustrador criou uma linguagem única. Desenho de grande rigor e de traço surpreendente. Os desenhos são feitos com a cultura de cada um. O cérebro ajuda e a mão ajuda o cérebro. Um artista de mão segura e de cérebro esclarecido e atento. Deixa-nos muito trabalho gráfico impresso. Mas foi também um professor recordado por alunos de várias gerações.

Realço aqui capas de três discos fundamentais para a história da música portuguesa: "Coro dos Tribunais", de José Afonso; "Por este rio acima", de Fausto; "Pano Cru", de Sérgio Godinho. Mas deu-nos muito mais. Muito livro, folheto, cartaz, imagem corporativa, visualizações várias e de grande qualidade visual. É justo dizer: devemos-lhe muito.
Participou em duas edições da Festa da Ilustração, Setúbal, com exposições de grande relevo, e também na exposição sobre as capas dos discos de José Afonso que se instalou na Casa da Cultura em Maio de 2017. Visitámo-lo, eu e a Ana Nogueira, no seu atelier, para preparamos as exposições. A Ana escreveu o texto inserido no "Jornal da Festa" e fez a curadoria da exposição. Foi muito bom trabalhar com José Brandão. Perdemos um grande artista visual. Perdi um amigo. Muito obrigado, Zé Brandão.

Parlamento das direitas q.b.

Montenegro quer nos debates "todos os parceiros” da coligação com assento parlamentar, título de notícia da
Lusa.

Mas então que raio de democracia é essa? O fadista marialva carregadinho de "aficion" não foi eleito porque não estava colocado em lugar elegível, mas tem direito a um lugar nos debates, que é lá isso? Vai deixar que fuja para o partido fascista unipessoal do indescritível Ventura? E também deve ir para o governo, pois então. O fadista líder e muitos outros. Há por aí toureiros que dariam bons ministros da educação, e fadistas marialvas ministros da cultura. Esconde tão nobre gente porquê? Tem vergonha das verdades educacionais e culturais? O líder dos monárquicos portugueses dava com toda a certeza para desempenhar esse papel. Seria um papelinho. Pense nisso.

terça-feira, 25 de março de 2025

Um mau palhaço mau

Um quase confesso nazi  — ele já justificou a simpatia pela eliminação de pessoas nas câmaras de gás nos campos de extermínio nazis — entrevistou um comunista que é secretário-geral do seu partido. Olhando pelo retrovisor o passado do nazi quase confesso nestas andanças perguntadoras, nada de bom seria de esperar. O homem é um tatibitate profissionalmente e um atrapalhado mentalmente. Como "escritor" não tem ponta por onde se lhe pegue, e como jornalista é uma anedota. Dou razão a quem aconselha os candidatos de esquerda a não porem lá os presuntos, quando é o estupor a fazer inquéritos. A não ser que seja para treinos para os debates eleitorais com o manhoso do Ventura. Aproveitem a maldade do palhaço. Há males que podem vir por bem.

Poema em linha reta


OS RIDÍCULOS | São tão fantásticos, os detentores de toda a razão. Tão engraçados, os moralistas justicialistas. Ridículos?, nunca. Que o diga Fernando Pessoa, com este "poema em linha recta", dito aqui por Osmar Prado, em conversa descontraída de episódio de telenovela. Nem tudo é tão ligeiro como parece. Notável interpretação.

domingo, 23 de março de 2025

Receituário


O chefe de uma certa aldeia gaulesa tinha apenas um medo a atormentá-lo: que o céu lhe caísse em cima da cabeça. "O céu desabado" de Ana Nogueira não nos vai atingir. Vamos poder circular por este céu em perfeita segurança e com muito prazer.  Estes desenhos desafiam a habilidade corriqueira. Vão mais além do jeitinho decorativo. Rejeitam a facilidade e colocam-se no patamar da exigência estética. Este encerramento, na próxima sexta-feira, vai ser uma festa. Vamos ter petiscos e um dos melhores vinhos portugueses. Quem puder ou quem quiser aparecer não se vai arrepender. Toda a gente é bem vinda. Até lá.

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Maior que o pensamento

Conheci Herberto Helder no princípio dos anos oitenta do século em que ele e eu nascemos. Gente antiga que pertence a outro século. Eu organizava uns encontros literários e artísticos no Círculo Cultural de Setúbal a que chamei "Dois dedos de conversa com... ". Nestes encontros participaram muitos dos protagonistas culturais da época. Mais ou menos como hoje acontece com o "Muito cá de casa", na Casa da Cultura, situada no local onde funcionava o Círculo e se davam as referidas conversas. 

Eu ía para Lisboa todos os dias para aprender qualquer coisa. Circulava entre o AR.CO e a SNBA, e no fim das aulas encontrava-me com poetas, romancistas, artistas e jornalistas que paravam no Expresso, um bar que existia ao lado da livraria/galeria Libris. A livraria/galeria era propriedade do meu amigo Aníbal Telo, editor da Forja. O Telo apresentou-me a um mar de gente que valeu a pena conhecer. A minha primeira exposição de trabalhos visuais foi neste lugar de encontro e fruição intelectual. Baptista-Bastos, Manuel da Fonseca, Adriano Correia de Oliveira, Vitorino, Virgílio Martinho, José Carlos González, Vitor Tavares Manaças, Luiz Pacheco, Aldina Costa, Aníbal Fernandes, Hipólito Clemente (que dirigia a livraria Opinião, ali muito perto), Herberto Helder, e muitos outros e outras que ao fim da tarde não dispensavam o trajecto entre o Expresso, a Libris, o Estibordo e o pequeno restaurante situado mesmo no princípio das escadinhas do Duque. O Adriano era mais Trindade (cervejaria). Um dia encontrei-me por ali com José Afonso e lá fomos todos petiscar à Trindade. Lembro-me do jantar todo. De tudo isto resta só mesmo a Trindade e o tal restaurantezinho das escadinhas do Duque de que não me lembro se tem nome. Os espaços são outra coisa e as pessoas já não estão cá. Só o Vitorino e o Anibal Fernandes continuam vivos e activos. E eu, já agora, que estou agora a contar estas coisas.

Herberto Helder morreu no dia 23 de março de 2015. Foi há precisamente 10 anos. Recordo-o no dia em que o livro tem dia mundial. Isto anda tudo ligado, lá escreveu Eduardo Guerra Carneiro. Mas agora vou contar a minha história pessoal com o poeta de "O amor em visita". A primeira vez que falei com Herberto Helder foi assim desta singela maneira: entrei na Libris e perguntei ao livreiro — lamento não me lembrar do nome deste senhor tão simpático e tão competente — onde era a galeria Leo. Herberto Helder, ali presente, ao ouvir-me, levanta-se do sofá onde se instalava, põe-me o braço por cima do ombro e diz-me rigorosamente estas palavras: "É para a exposição do José Escada, não é?". É, respondi. "Venha comigo". E lá fomos, eu e o poeta caminhando pelo Largo Trindade Coelho até à entrada da Travessa da Queimada, onde se situava a galeria. "É ali ao fundo, no lado direito. Depois passe por aqui para me dizer o que achou". Senti aquele desafio como uma grande responsabilidade. Eu, curiosa criatura, mas iniciante nestes convívios, saberia lá o que dizer sobre o trabalho de um artista que tanto admirava a outro que considerava, e considero, um génio do nosso tempo? Cheguei à galeria absorto num turbilhão de sentimentos: uma pilha de nervos entrecortada entre a euforia e o regalo. A exposição de José Escada causou-me uma inquietação do caraças. Um espanto visual. Um delírio de informação estética. O proprietário/galerista era uma figura incrível. Uma produção visual. Parecia personagem de Hergé. Sim, tinha um certo ar de Tintin, e transbordava conhecimento e simpatia. Estive na pequena galeria mais de uma hora. Ainda me lembro de todos os motivos de conversa. Ao sair da galeria lembrei-me da "ordem" de Herberto e desloquei-me ligeiro para a livraria. O poeta já não estava lá. Nem na livraria, nem no Expresso, nem no Estibordo, nem nas escadinhas. Já tinha ido para o Cais do Sodré, para apanhar o comboio para a chamada "linha". Morava por lá, esclareceu-me o simpático livreiro. A conversa sobre a pintura de José Escada ficou para outro dia. Essa e muitas outras conversas se deram por estes lugares de encontro, mas também na livraria da Assírio e Alvim, na rua Passos Manuel, onde eu ía frequentemente encontrar-me com a Luísa (Cruz) e o Homero (Cardoso). Herberto Helder nunca falava de poesia. Nem da sua nem da dos outros. Irritava-se mesmo a sério quando lhe pediam opinião. Falei com Herberto de cinema, de artes visuais, de política e de comportamentos. Soube-me a pouco, mas foi tão bom...

Considero Herberto Helder um grande senhor do nosso tempo, não apenas como escritor, poeta, pensador, mas também como praticante de atitudes maiores. Confesso que neste dia em que se assinala o seu fim, sinto saudades desses encontros. Nestes dias sinto a sorte que tenho tido em conhecer tanta gente que deu tanto às nossas vidas. Se fosse religioso agradecia a um qualquer deus generoso e bom. Como não o sou, agradeço à vida e a toda a gente que comigo se tem cruzado. Há privilégios que se agradecem.

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sábado, 22 de março de 2025

Pela natureza

Respeito e protecção. Pela nossa sobrevivência.

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sexta-feira, 21 de março de 2025

Os novos fascistas


Provavelmente quem diz que Trump não é fascista tem razão. Vejamos. O fascismo nasceu em Itália e por lá morreu, dizem os "historiadores" que nos pretendem desmentir. O problema está no reconhecimento desta morte. O fascismo morreu? Onde está a certidão? O fascismo, antes daquele colapso que sofreu em Itália, já se tinha expandido pelo mundo. E agora, com Meloni voltou em força. Também Portugal aturou um bando de fascistas corruptos admoestados por Salazar, o "não-corrupto" que permitia os atropelos causados pelos seus cães de guarda para se aguentar no poder. Salazar mandava prender, torturar, censurar, apagar, porque assim tinha o bando de corruptos na mão. Estes biltres que manipulam e reprimem têm um nome. Habituámo-nos a chamar-lhes ditadores.

O que se passou em Espanha, Brasil, Chile, Argentina e em outros sítios caídos nessa desgraça, foi uma aplicação das regras dos velhos fascistas, mas com adaptações circunstanciais. Houve um "fascismo à portuguesa" e houve outros fascismos consoante os folclores regionais. Todos diferentes, mas todos com objectivos iguais. Houve um tempo em que estes biltres começaram a ser varridos das carpetes do poder. A diferença entre esquerda e direita percebe-se bem quando recordamos o que então aconteceu. A esquerda aplica ideias que combatem os fascismos e fazem avançar a tolerância e põem a inteligência acessível a todos. Promove direitos e apoia os de baixo. A direita promove o egoísmo. Entrega tudo a quem já tem muito e retira tudo aos que conquistaram direitos e alguma qualidade de vida. Dizem que tem de ser assim para a economia funcionar.
Trump, Musk e Vance actuam segundo o catecismo do neoliberalismo mais vil e agressivo. Não respeitam avanços civilizacionais e aplicam o que a agenda que adoptaram dita. Despedem gente que trabalha bem — funcionários, cientistas e professores que percebem o que está a acontecer —, retiram apoios justos a quem precisa, deportam emigrantes decretando-os criminosos e entregam-nos à mais vil tirania. Trump é um ditador. A democracia já não mora ali. Musk e Vance são os novos fascistas que querem controlar o mundo. Sim, a agenda desta gente repugnante é a do fascismo para este novo século. As acções adaptam-se aos novos tempos. Musk tem um exército multimédia que alastra a mentira e a indignidade. Vance e Trump têm a mioleira cheia de ódio. Só sabem e só querem odiar.

Trump ultrapassa todos os dias o gigante da história — GIGANTRUMP — que o Daniel Tércio e o João Tércio publicaram. A realidade ultrapassa negativamente a ficção a uma velocidade que assusta. Estamos assustados, mas não vamos deixar de reagir. O susto não pode apagar a nossa vontade de combater este novo fascismo. E todas as acções são válidas. No próximo dia 27 vamos falar deste filme pornográfico que está a passar em sessões contínuas nos Estados Unidos da América e no mundo. A Dora Patalim e a Rosa Azevedo vão falar do livro, e o livro vai ser o pretexto para falarmos disto tudo. Apareçam.

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quinta-feira, 20 de março de 2025

Quando vier a primavera...

Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

ALBERTO CAEIRO, Poesia. Obras de Fernando Pessoa
Edição: Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim. 2001.

As árvores morrem de pé

 

Esta frase foi título de uma peça que marcou o teatro em Portugal, mas pode muito bem aplicar-se às peças que Vitor Ribeiro vai mostrar no MAEDS - Museu de Arqueologia e Etnologia do Distrito de Setúbal. Chamou à mostra PEDRA NUA.

Vitor Ribeiro molda na pedra àrvores robustas que nos sugerem uma natureza reinventada. Estas árvores não caem nem que as tentem derrubar. São objectos consistentes na sua condição física, mas também intelectualmente. São fortes como pedra, se me permitem a ironia. Se as rodearmos e procurarmos bem até podem dar sombra, mas não é para isso que são esculpidas estes pedregulhos pesados e rijos. As preocupações do escultor prendem-se com os atropelos ambientais que nos ameaçam. Estas árvores não são árvores. Então, o que são? A arte não imita a natureza; melhora a nossa noção de realidade. Informa-nos e forma-nos. Estes objectos estéticos alertam-nos para o que está para vir. São outras árvores que Vitor Ribeiro encontrou na sua imaginação. São modelos sem existência. Expostas num museu que mostra arqueologia, mostram algo que já não existe. São pedras de uma arqueologia inventada. A natureza sem árvores seria um problema. As árvores de Vitor Ribeiro, mostradas neste sábado, Dia Internacional das Florestas e Dia Mundial da Árvore, revelam essa preocupação e acrescentam uma floresta de prazer ao nosso olhar.

A exposição abre no próximo sábado, dia 22, às quatro horas da tarde, e eu vou lá confirmar tudo isto que estou para aqui a dizer.

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quarta-feira, 19 de março de 2025

Coisas de Pai

Este é o meu pai, aqui desenhado por um senhor desenhador que assina: J. S. Neto. O desenho é de 1949, o meu pai tinha 29 anos e eu ainda não era projecto. O meu pai chamava-se José Jacinto Duarte e foi um bom homem.

Ensinou-me muitas coisas que ainda hoje sei e outras que já esqueci, mas lembro-me de ele me as ter ensinado. Mas claro que me lembro de muita coisa mesmo: gostar de saborear boa comida, beber um copo ou dois à refeição, ler jornais diariamente — ele lia dois: O Século e o Diário de Notícias — ir para o campo ou para a praia nos dias de descanso, e depois mais aquelas coisas que toda a gente aprende com os pais: o respeitinho pelos mais velhos e por quem sabe coisas, e saber estar com os outros com elevação sem ser subserviente.

Não sei se absorvi tudo. Tenho-me esforçado por fazê-lo. Mas, esta é a verdade: há muita coisa que fui fazendo à minha maneira. A gente passa a vida a inventar coisas.

terça-feira, 18 de março de 2025

Não há fome que não dê em fartura

Os meus avós queixavam-se de não os terem deixado ir às urnas. Agora diz-se por aí que o povo vai às urnas contrariado. É um fartote de eleições. Não há fome que não dê em fartura. O infelizmente primeiro-ministro também não queria eleições, mas provocou-as. O infelizmente ainda primeiro-ministro vê a política como um electrodoméstico familiar. Casas, casinhas e casinos são árvore de patacas. Se o povo que vai contrariado às urnas eleger este negociante descarado, que não hesita em ter negócios com gente de jogos de casino, vamos ter um grande sarilho por muito tempo. Montenegro é evidentemente um negociante que se aproveita da sua acção política. Só não vê quem não quer estar para aí virado. Mas se o dito povo votar noutro sentido também não vamos ter sol na eira. Este país vai ficar ingovernável. Culpa? Do Presidente que com as suas percepções e decisões levou-nos a este estado, e do primeiro-ministro que "está a adorar governar". Um partido fascista cresceu, e um parolo com linguagem corporal foleira a olho e implantes capilares aparentemente pintados com graxa de sapato chegou a primeiro-ministro. O salve-se quem puder do neoliberalismo mais feroz está na moda e tem apoio popular. Gente manhosa, sem valores culturais e sem preocupações sociais está a chegar ao poder em muitos lugares do planeta. Portugal segue sempre as modas "lá de fora". Teme-se o pior. Mas deixem lá a malta ir votar. Quem não quiser fique em casa. Não queremos cá povos contrariados.

segunda-feira, 17 de março de 2025

Inesquecível

O Fernando Sobral assegurava todas as sextas-feiras estas duas páginas — Sociedade recreativa —, no Jornal Económico. Em 2022, neste dia 18 de março, passam hoje três anos, escrevia sobre o livro onde João Paulo Cotrim pôs texto e João Francisco Vilhena fotografias. 

O Fernando escrevia como ninguém. Calhava escrever sobre relógios. Tornou-se um especialista. Ía à Suiça para lançamentos e apresentações de novos modelos. Eu cheguei a aconselhar-me com ele quando quis comprar um relógio de uma marca que não conhecia, mas que me agradava esteticamente. Aconselhou-me a compra e contou-me a vida do objecto desde o seu nascimento. Não havia assunto que lhe provocasse receios. Artigos de luxo ou artesanatos, livros, músicas, artes visuais, cinema, política, banda desenhada, ilustração, atitudes, tudo se alinhava no conhecimento deste brilhante conhecedor das letras e da sua utilidade. Foi um escritor de relevo. Já depois da sua morte foi publicado por Francisco José Viegas, na Quetzal, o seu último romance: "O Jogo das Escondidas".  Macau é o mote, e a história é deliciosa. Conversei com o Fernando sobre tudo o que nos passou pela cabeça em inúmeros almoços e outros encontros. Foi à Casa da Cultura, Setúbal, conversar com os seus leitores, juntamente com outro amigo e escritor de méritos firmados: Rui Cardoso Martins. Noite inesquecível.

O Fernando morreu dois meses depois da publicação destas páginas no Jornal Económico, a 16 de maio de 2022. Guardei as páginas impressas e releio-as agora com a saudade a entristecer-me. Foi bom conhecer o Fernando e a sua obra que fica e que nos informa da qualidade humana e intelectual deste ser humano único. Quem o conheceu sabe que é esta a verdade. A saudade é tramada.



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