terça-feira, 22 de setembro de 2026

José Viale Moutinho


Morreu José Viale Moutinho. A ceifeira não desarma. Recordo de imediato os escritos sobre José Afonso e o seu tempo de surpresa. Foi uma edição do José Viale que me revelou o poeta José Afonso. Sempre acompanhei o seu trabalho. Também li os romances. "Cenas da vida de um Minotauro" e "Monstruosidades do tempo do infortúnio" impressionaram-me.

Mas tenho uma história para contar, que me desculpem os caçadores de autores de obituários. Não o sou, apenas recordo quem respeito. José Viale Moutinho escreveu-me uma carta onde me sugeria a publicação de um livro seu. Eu tinha acabado de constituir a Estuário e o autor dos textos que deu a conhecer a poesia de José Afonso e os seus envolvimentos queria editar lá. Eu, empenhado na edição de "O Teodolito" de Luiz Pacheco, e de "Terral" de Miguel de Castro, não consegui responder a tempo. Fui indelicado, eu sei. Mas o José Viale Moutinho percebeu a embrulhada em que eu estava metido. Trocámos algumas mensagens (por carta, que naquele tempo era mesmo assim), mas acabámos por não fazer a edição. As razões foram duas: eu não tinha tempo nem dinheiro para enviar para impressão tanto livro de seguida. Lembro-me do fim de uma das suas cartas. Dizia assim: "você é um chato". Tinha razão. Fui um chato. O homem queria mesmo editar na Estuário e eu não percebi isso. Fui um chato mesmo. Fizemos as pazes em conversa por telefone (meio de comunicação mais avançado para a época). "Não há aqui pazes a fazer. Continue a fazer livros bonitos". Bonito serviço, pensei. Chama-se a isto bofetada de luva branca.

Eu gostava muito do José Viale Moutinho. Jornalista corajoso. Escritor de mão segura e cabeça culta. Homem bom. Nem me tinha apercebido de que ele já tinha mais de oitenta anos. A juventude da sua escrita não o fazia entender. Prova que a juventude não está na mente nem no que se faz. Mas o tempo está lá, e é implacável. Este fim é uma tristeza. A morte é um fim trágico. Sempre. Muito obrigado, meu amigo.

Facebook