segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Regresso

Regresso a este convívio depois de uns dias de contemplação e investigação. O projecto editorial que abracei com entusiasmo solicita-me exigência e sugere-me documentação. Estou em pleno e persistente estudo da história recente do design editorial. Claro que essa recolha não existe. Inventei-a. Criei essa história para minha própria documentação. Tudo o que se faz por aí me interessa; já o que se diz, interessa-me cada vez menos.

O que se diz nunca foi tão sombrio e rasteiro. O mundo está pornograficamente possuído (a expressão foi pensada) por gente sem qualquer classificação. Tarados moralmente indigentes decidem politicamente. Dirigentes mundiais não passam de meninos malcomportados — delinquentes, sim, mas mais perigosos. As nossas vidas estão ameaçadas por estes palonços envaidecidos pela sua ignorância egocêntrica.

O debate televisivo circula entre um futebolista e um "mister" — um ressabiado, o outro farroncas. Ou farroncas os dois, vá. De repente, acabaram todos os problemas sobrantes. Só a bola interessa. Só a bola?! Não, há outro assunto que mobiliza as redacções televisivas e os respectivos comentadores avençados: o Pedro deu uma entrevista. O líder da oposição-sombra ao Governo diz das suas. Nada de novo a assinalar: maldicência e ressabianço ao rubro. O líder neofascista é notável, diz. O país aguarda a salvação, pelos vistos. Quem será o salvador principal? Pedro ou André? Pode ser divertido assistirmos à luta pela cadeira da presidência do Conselho de Ministros, mas não desejável. Chegaremos a um tão baixo estado do exercício da política? 

Um protesto pacífico pela falta de habitação é ameaçado pela selvajaria policial da Câmara Municipal dirigida por outro Pedro: o Duarte. No Algarve, morrem três trabalhadores vítimas das condições de trabalho. Trump continua a mentir descaradamente para ver se se safa em Novembro. Ventura continua a mentir descaradamente, tentando enganar seguidores e todos nós, como se fôssemos todos parvos como os seus seguidores. 

Esperem, pára tudo: Ventura já está na RTP a falar com Vítor Gonçalves, provavelmente sobre o falatório reaccionário do inenarrável Passos. Aquilo é matemático. O "sai sempre" da moda. Não ouço, não frequento, mas sou contra na mesma. Estas sucessivas performances do biltre neofascista são uma ameaça à saúde de qualquer cidadão razoável. Metem nojo.

Enfim, o mundo pula, mas não avança. Fiquem bem, apesar de tudo. Até já.

Cartoon: Nuno Saraiva/Inimigo Público

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