ELOGIO DO EXTRAORDINÁRIO | Há sempre a tentação de anichar ao terreno da decadência as obras da maturidade de quem fez coisas extraordinárias na vida. Para alguns, Pedro Almodóvar calçou esses patins. Para mim, não. Explico.
Um filme de Almodóvar é sempre uma caixa com surpresa dentro. Não uma caixa de Pandora, recheada de tormentos e tragédias, mas antes uma caixa de conteúdos diversos — coisinhas simples, mas também sofisticadas, dúvidas, hesitações várias, demências e rigores estéticos sempre surpreendentes — que parecem saídos do saco do Pai Natal. Há prenda para todos? Não, nem tudo tem de ter um final ao gosto de toda a gente. Esse esforço pertence a quem conta a história. Este Natal Amargo passa ao lado do Natal da forma tradicional como se entende. Sente-se o realizador em várias personagens. A angústia e o conflito com que se debate ao escrever um argumento. Há diálogos que nos trazem o Almodóvar dos filmes que o tornaram nome maior da arte cinematográfica. Mas a densidade agora convocada para os diálogos e para os ambientes é um assombro de talento. Ainda dá para sorrir, ou rir baixinho, mas não há lugar para gargalhadas. Neste aspecto, segue a linha do filme anterior — O Quarto ao Lado —, onde o direito à eutanásia, que tanto apoquenta as pessoas muito conservadoras, é colocado como tema superior de registo artístico.
Este filme de Pedro Almodóvar é um filmaço. Todos os filmes de Almodóvar ficam para a história da compreensão dos nossos dias. Isso é extraordinário.

