Os gostos discutem-se, porque os gostos são ideias. Ninguém pensa pela sua cabeça sozinho, sem introduções inesperadas. Existe um histórico de acumulação de informação, ou até de conhecimento mesmo, que forma opiniões e desperta a necessidade de comunicarmos. Os que se calam porque os gostos não se discutem estão completamente enganados.
O humor é uma coisa muito séria quando tenta formar públicos. Há humoristas que arrastam multidões só porque fazem rir. E há humoristas que trabalham o riso com substância cultural e política. Quando comunicamos publicamente, estamos a transmitir cultura e política. O humor pode ser apenas uma ferramenta.
A discussão que ferve por aí sobre a participação de um humorista famoso num festival de humor faz todo o sentido, porque é essa discussão sobre o que gostamos e não gostamos que está em causa. Há outro dito muito ditado que diz assim: «Isso é apenas a tua opinião, vale o que vale.» Claro que vale o que vale, e vale muito para quem a defende. Outro: «Só defendes isso, mas não falas no que...», e aludem ao que é contra o que se defende, que é o que defende quem nos faz a observação.
Também há quem ache que ser artista é ser nababo: faz lá a tua arte e cala-te. Como se isso fosse possível. Bem, até é: há quem defenda artistas de entrar-por-um-ouvido-e-sair-imediatamente-pelo-outro só porque uma vez acertou uma.
E depois há as confrarias, que se unem sempre que um seu membro está a deixar ficar mal a alcateia. Uivam ao luar e nos suportes comunicacionais que os suportam. São a voz do dono. Vale (quase) tudo. Acusam quem não habita a caverna com precisão definitiva: «Tão giro, gente de esquerda a querer censurar e cancelar». Esqueçam a ideia de que esta atitude denota ignorância. Não são ignorantes. São gente preocupada com o seu cofre pessoal e intransmissível, e com a boa sobrevivência de quem ciranda ali à volta.
Temos que respeitar toda a gente. Temos? Também temos que respeitar e conviver com gente miserável que apoia a exterminação de um povo? Temos que apoiar os sessenta energúmenos — apoiantes dos governos criminosos de Israel e dos EUA — que se sentam no Parlamento, só porque foram eleitos pelo povo? Era o que faltava. Não temos que respeitar xenófobos, racistas e outros «istas» que me inibo agora de mencionar. Quero mesmo que essa gente toda se... (vocês sabem onde quero chegar, não é verdade?).
Assim, em jeito de remate, assinalo o seguinte: ninguém defendeu o cancelamento e ninguém apela à censura. Quem quer participa no que quer. Quem não quer, não participa e diz porquê. Chama-se atitude, e eu estou com eles. Gosto de quem toma atitudes. Não gosto de nababos. E também não gosto de quem relativiza tudo, como se tudo pudesse ser apagado com um convívio à volta de um bom gelado no Verão. O sol, quando nasce, é para todos e, às vezes, aquece as ideias. Quem disse que isso é mau? Vamos ao gelado, todos juntos. Excepto negacionistas do genocídio. Com esses, não vou a lado nenhum.
