Os primeiros anos de República não foram propriamente um prodígio democrático. Mas, apesar de tudo, a repressão da república não permitiu o esquecimento do despotismo monárquico. A correção não tardou. Um grupo de militares e civis admiradores dos regimes autocráticos que dominavam importantes países europeus, aproveitando a balbúrdia, revoltaram-se contra o estado a que as coisas chegaram e chamaram ao novo regime Estado Novo, como se aquele ajustamento que apregoaram trouxesse algo de novo à vida do país e das pessoas.
Como acontece sempre nestas ocasiões, um líder austero e defensor de serôdios moralismos saltou para a ribalta apregoando virtudes ocas e reprimindo o progresso e o conhecimento. Um ditador criminoso e vil mandou prender e matar quem lhe fizesse frente e corrompeu um regime já ameaçado pelo arbítrio e a falsa moralidade. Um ditador corrupto que abdicou de bens materiais, satisfazendo-se com a sua ambição de poder exercido de forma humanamente sádica e financeiramente corrupta, como acontece em qualquer ditadura. Os bens económicos foram distribuídos pelos seus lacaios — os lambe-botas — e a moralidade foi de trazer por casa. Aos lacaios era permitido pecar desde que fosse às escondidas. O regime, com a operacionalidade da PVDE e depois PIDE, tratavam dessa clandestinidade. A outra clandestinidade, aquela que era imposta aos resistentes, tentavam dar-lhe visibilidade tratando os seus praticantes como terroristas.
Não é por acaso que o líder do partido defensor de Salazar nos dias de hoje, se tenha referido ao sucesso com a eleição de sessenta deputados na mais recente legislatura, como uma vitória sobre Álvaro Cunhal. Os resistentes antifascistas ainda incomodam os novos fascistas. Ora, é a memória desses corajosos resistentes, aqui hoje recordados por mim como símbolos de todos os que resistiram — sendo presos, torturados, e muitos assassinados pelo regime fascista —, que pretendo assinalar com satisfeito orgulho e alegre vontade de desejar futuro. O nosso futuro não pode ser de atropelos à vida das pessoas. O nosso futuro não pode ser o que nos pretende impôr gente sem qualidades que já apregoa o regime do ditador corrupto e criminoso com um exemplo a seguir.
Oa resistentes aqui recordados — Álvaro Cunhal, Catarina Eufémia, Abel Salazar, Maria Lamas, Helena Cidade Moura, João Abel Manta (cartoon), Dias Lourenço —, representam muitos outros que foram também perseguidos, torturados, assassinados pelo regime de Salazar, instituído faz hoje 100 anos. Assinalamos a data, não comemoramos. O fascismo combate-se. Estes homens e estas mulheres são símbolo de resistência e esperança. Pessoas intelectual e humanamente fora de série. Queremos viver em liberdade. Liberdade de escolher o nosso futuro com rigor democrático, cultura, apelo ao conhecimento científico e curiosidade intelectual. Repressão, tortura e fascismo nunca mais.
