domingo, 8 de março de 2026

Galeria Presidencial

Os Presidentes saem, mas ficam por lá retratos pintados por artistas por eles escolhidos. As diferenças de linguagens estéticas são notórias. Mas os retratos lá convivem. Não têm outro remédio. 
Comento apenas as escolhas dos Presidentes eleitos depois da Revolução de Abril.
 
Ramalho Eanes, primeiro Presidente eleito, escolheu Luís Pinto Coelho para o retratar. Pintura clássica, mas com laivos de descontraída contemporaneidade. Há quem goste.
 
Mário Soares alterou regras. O classicismo até então reinante foi posto de lado. Chamou o seu amigo Júlio Pomar, que já lhe tinha desenhado um retrato quando estiveram os dois presos pela ditadura fascista de Salazar. Trabalho que se exprime em ambiente característico do pintor. É um retrato descontraído, fora das exigências tradicionais. Um bom retrato. 
 
Jorge Sampaio convocou Paula Rego para a tarefa. Não é um dos grandes trabalhos da artista, mas mantém a dignidade da galeria presidencial. Paula Rego confessou mais tarde que não ficou satisfeita com a obra. Eu gosto.
 
Cavaco Silva escolheu Barahona Possollo. A obra encaixa perfeitamente nas exigências intelectualmente pouco exigentes de Cavaco. Ultra conservador, sem inovação e sem emoção. Parece homenagem a Henrique Medina. Detesto. 
 
Marcelo Rebelo de Sousa falou com um artista da moda, mas que é também a escolha mais ousada. Marcelo quer sempre estar na crista da onda. Um retrato bem ao estilo de Alexandre Farto — Vhils — vai agora ornamentar a galeria. Jornais com notícias impressas sobre a actividade presidencial são matéria usada. Assim à distância dá a impressão de se tratar de cópia com pouca definição. Essa percepção transporta fascínio. Quero observá-lo ao vivo para confirmar a minha empatia. Assim a esta distância gosto do que vejo. Boa decisão de Marcelo, que hoje ocupa o lugar de Presidente pela última vez.
 
Amanhã o Presidente passa a ser António José Seguro. Faltam muitos anos para a escolha do artista que vai imortalizá-lo no Palácio de Belém. Que técnicas ou vontades estarão na altura em voga? Esperemos que a tradição reaccionária não faça recuar a liberdade da expressão artística. Com o avanço das ideias contra-progresso da extrema-direita nunca se sabe.

Facebook