quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Roma/Setúbal na capa de um disco

Escrevinhei este texto para a apresentação da exposição do João de Azevedo, para a qual lhe pedi que desenvolvesse a ideia da capa de "Com as minhas tamanquinhas". Foi em 2015, em Setúbal, e depois correu mundo. A exposição que agora vamos ter na Rua de São Bento já não tem todos os exemplares desse trabalho, pois foram, entretanto, vendidos. Tem, contudo, outros trabalhos que abraçam a linguagem gráfica do autor. O texto é este:

Quando José Afonso convidou João de Azevedo para conceber graficamente a capa do disco, havia uma grande distância a separá-los. João estava em Itália e José Afonso em Setúbal. A encomenda foi feita com a tecnologia possível na época: o telefone fixo. José Afonso ligou ao João, solicitando-lhe a tarefa. O briefing foi feito assim: José Afonso cantarolou ao telefone a música que dá nome ao álbum e descreveu a ideia geral da coisa. Entendido o pretendido, o João envia de Roma para Setúbal, por correio, o resultado final, com três hipóteses para escolha. A ilustração mantinha-se, mas os fundos ficavam à escolha do freguês José Afonso. Um era azul mais ou menos turquesa, outro era num amarelo assim para o torrado, e a terceira opção era o rosa vivo, que veio a ser escolhido pelo dito freguês. Esta história foi-me contada pelo João. Sei que José Afonso ficou radiante com este trabalho — disse-mo a mim. Eu também gosto muito desta capa.

O álbum "Com as minhas tamanquinhas" saiu em 1976. É o trabalho mais directamente político de José Afonso. Andam por lá denúncias, ironias, gozos tremendos. Os desenhos de João de Azevedo documentam essas preocupações e desejos, agora que estas músicas únicas e intemporais voltam a circular nos pratos dos gira-discos, nos leitores de CDs, nas plataformas musicais e nos nossos sentidos.

Muito obrigado, João de Azevedo. Muito obrigado, José Afonso.

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