terça-feira, 28 de abril de 2026

Quem tem capa sempre escapa


Tive saudades do vinil. De abrir aquelas capas fantásticas dos LPs, de ser surpreendido primeiro pelo design, depois pelos conteúdos impressos e pela observação daqueles grafismos superiores. A colocação do objeto circular, negro, no prato do gira-discos, era cerimonial. O som parecia magia. Os meus LPs sempre foram instalados em prateleiras por mim 
desenhadas e por mim quase sempre construídas. Tudo feito à medida para bem receber tão distintos habitantes. 

Quando conheci José Afonso, muita coisa se esclareceu na minha mente de adolescente curioso. Eu fervia em perguntas. Ele punha água na fervura. Era um excelente conversador. Quando saía um disco seu, trocávamos muitas palavras sobre o assunto. O criador José Afonso nunca estava satisfeito com o resultado. A "alegria da criação" esbarrava na prensagem do disco. "O som está empastelado", dizia. Eu queria lá saber, e esclarecia-o: a música está incrível. Adorei "de sal de linguagem feita" e "de não saber o que me espera". Era a vez de ser ele a ficar curioso. Porquê?, e eu satisfazia a sua curiosidade. As capas vinham sempre à baila, é claro. A estética visual sempre o preocupou. Era exigente. Uma exigência esclarecida pela sua curiosidade intelectual, que era imensa. José Afonso tinha cultura visual e aplicava-a. Acho que isso está bem percebido. Já fiz o design expositivo e curadoria de duas exposição à volta da imagem visual dos seus discos. E vou continuar.

Comecei por dizer que tive saudades do vinil. Tive, já não tenho porque entretanto o vinil voltou. Sou um feliz e entusiasmado assistente desse regresso. Caso raro. Parecia que os CDs eram o futuro. Afinal já são passado. É claro que as plataformas de audição vieram mudar tudo, mas os extraordinários LPs estão aí para nos confirmar que até há passados que estimulam o futuro. Tenho uma preferência quase obsessiva por um nicho específico. A editora ECM é um exemplo de consistência e coerência visual e musical. Apetece mesmo ter aqueles objetos disponíveis ao olhar, aos sentidos. São arte disfarçada por design em rigorosas impressões gráficas. Alinho aqui algumas delas — recentes e mais antigas, mas que me acompanham como amigas de sempre —, em convívio com duas capas de LPs de José Afonso — edições iniciais da Orfeu, recentemente reeditadas pela chancela +cinco — que são também muito cá de casa. Os autores são meus amigos: Alberto Lopes e João de Azevedo. A música, a literatura e a estética visual, associadas a preocupações sociais de solidariedade, são a minha vida. Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar, como escreveu Sophia. E Carlos Drummond de Andrade disse um dia em entrevista: Quem tem a música e a literatura nunca se sente só. Concordo, mas acrescento: o amor abraça tudo isto. Somos assim. Amamos porque somos assim.








  

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