quinta-feira, 16 de abril de 2026

O cheiro da liberdade (III)

NA ESCOLA DO ESTADO NOVO | Regresso hoje a esta ideia de contar histórias e botar opiniões pessoais sobre o que viveram as pessoas do meu tempo, no tempo de transição da ditadura para a democracia. Falo de pessoas mais ou menos da minha idade. Não é coisa de geração. As gerações existem para definições sociológicas, mas, nas atitudes, as pessoas têm percepções diferentes do que se passa à sua volta. Somos todos diferentes. Insisto na expressão cantada de José Afonso: "Há quem viva sem dar por nada/Há quem morra sem tal saber". Faço parte do clube de membros da minha geração que queria dar mesmo por tudo. A história de hoje aconteceu-me. É relato real, sem ficção de espécie alguma. É uma das histórias aqui em pré-publicação, dado que sairá no objeto impresso que já aqui informei estar disponível para leitura em março de 2027. É uma das histórias do livro ALGUÉM VIU OS MEUS ÓCULOS? Aqui vai:

AULA DE TRABALHOS MANUAIS - Sempre entraram jornais em casa dos meus pais. A leitura diária da imprensa escrita meteram-se comigo. Os jornais detetaram e instigaram em mim uma intensa necessidade de saber coisas. A curiosidade por tudo o que se passava cresceu em mim a partir dos cinco, seis anos de idade e nunca mais me abandonou. Essa minha curiosidade e conhecimento agitaram um episódio que não resisto em contar. Estava eu em frequência do então chamado ciclo preparatório. Tinha oito anos. Aula de trabalhos manuais. Dois professores vigiavam a sala e davam sugestões de trabalhos. Embalagens de objectos de uso corrente foram colocados à nossa disposição. Agora inventem, disse um dos professores. Resolvi fazer um avião a partir de um tubo de comprimidos, cartolinas e rolhas de cortiça. Chegou a altura de o ornamentar com papel de lustro e os dizeres definidores dos proprietários. Forrei o objeto de vermelho e coloquei as iniciais URSS. Foi o bom e o bonito. Professores em interrogatório intenso. Onde viste isto? Quem te disse para pôr estas letras? Ameaças sugeridas, interrogatório a acelerar com violência verbal. Respondi, com toda a calma, para os prestimosos professores ameaçadores, que via com frequência aquelas letras nas primeiras páginas dos jornais. “Isso não viste, não senhor!”, dizia aos berros um dos professores. Não lia jornais, percebi. Saí da sala de aula ao som de ameaças e urros de um dos cretinos. Ao jantar contei a cena ao meu pai. Pânico discreto. Procurou entre todos os jornais que tínhamos lá em casa os exemplares com URSS grafado na primeira página. Disse-me para os levar aos professores. Um dos jornais — O Século — era conotado com a situação. Insuspeito, portanto. Para que percebesse bem a situação falou-me abertamente da agressividade do regime político em que vivíamos. “Temos que ter alguma habilidade para nos defendermos nestes tempos em que vivemos. Temos que ser amigos do governador civil e do sapateiro. Se o governador nos atiça a polícia temos que ter bons sapatos para fugir. Leva os jornais e mostra aos professores. Se eles não perceberem é porque não querem perceber. Mas talvez fiquem mais calmos. Pelo menos estes jornais provam que foi verdade o que lhes disseste. Para algo pior estou cá eu e falo com eles”. Só não percebi muito bem a necessidade de compromisso entre fascistas e sapateiros, mas cumpri. Os professores de trabalhos manuais perceberam o excesso da atitude aparvalhada. Tive sorte. À noite contei ao meu pai. “Palhaços”, sentenciou. Sim, palhaços, mas sem graça. 


E pronto. Este é apenas um dos episódios por mim vividos que agora podem inspirar os adeptos da educação à antiga portuguesa, como costumam dizer das touradas. Devem ser este tipo de professor que inspira os novos "educadores" do partido fascista. Não sei se terão sucesso escolar. Esperemos que não.

 

Facebook