domingo, 14 de dezembro de 2025

É o cosmopolitismo, estúpido



Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos.

Fernando Pessoa Textos de Crítica e de Intervenção

Acordava, olhava, percebia e escrevia. O que escreveu esclarece e forma. A Língua Portuguesa sofisticou-se. Fernando Pessoa tornou-a sua pátria. O contexto em que escreveu "Minha pátria é a língua portuguesa" foi de grande desilusão com o mundo. O homem que parecia perceber tudo, não percebia — ou fingia que não percebia — o seu tempo em sociedade. "Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo, ou menos certo?", escreveu com a caneta de Álvaro de Campos. Também o provincianismo o incomodava. A falta de curiosidade dos seus contemporâneos em tudo o que existia para além do horizonte percetível incomodava-o. Há quem queira ficar apenas no seu território. Orgulhosamente sós, como desejava a tal criatura que o parolo que lidera os novos fascistas na Assembleia da República escolheu para sua referência de ajustamento.

Atrevo-me a não concordar com Pessoa, e, parafraseando-o, desminto-o: A minha pátria é o chão do mundo. É aí que me sinto acompanhado, perto de todas as línguas, trajes e sabores que o mundo solidário abraça. O provincianismo, o bairrismo amiguista, o nacionalismo cruel não são rapé da minha caixa. José Afonso, outro descontente com essa serôdia ideia de provincianismo, escreveu para uma música: "Há quem viva sem dar por nada, há quem morra sem tal saber". Tal como o doido que não sabe que é doido, o provinciano não sabe que o melhor da sua terra não são as estradas que vão lá dar, mas sim todos os caminhos que de lá saem e, dando a conhecer o melhor da sua terra, procuram o melhor nos outros lugares onde a autenticidade cultural foi desenvolvida pelos que lá estão. Os outros não são inimigos; são diferentes e assim devem continuar a ser quando convivem com os outros, que para eles somos nós. Nós somos sempre diferentes dos que estão no lugar onde fomos parar. E é nessa diferença que somos todos iguais. É esse cosmopolitismo que nos une e permite a diversidade. É nesse território que me situo e me sinto bem. É aí que escolhi estar. E é onde estou.

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