segunda-feira, 31 de março de 2025

O céu de Ana Nogueira


O céu de Ana Nogueira não tem anjos nem querubins. Tem gente e chão. Tem atitude e vontade de a expandir. Mostro aqui algumas imagens que testemunham a curiosidade motivada. Bons momentos de convívio regados pelo melhor vinho e animados pela melhor atitude: a da curiosidade intelectual. Foi uma ideia proposta por nós — DDLX — à Biblioteca Camões, do Largo do Calhariz, ali mesmo a dois passos do largo com o nome do poeta. Beleza e rigor autoral em grada
dose. Para recordação no futuro editámos dois postais com imagens diferentes, mas com o texto que escrevinhei impresso nas costas. Não tenciono justificar nem explicar nada. Isso não sei fazer. Faço uma abordagem paralela — pela escrita — a um trabalho que me fascina a cada mostra. Surpresa assente em linguagem própria. Aqui está ele, logo a seguir ao do senhor Bachelard, que esta coisa das hierarquias é para cumprir:

"Como ter acesso à intimidade do contraste? É preciso, em cada objeto, reavivar algumas primitivas ambivalências, aumentar mais a monstruosidade das surpresas, é preciso aproximar, até que elas se toquem, a mentira e a verdade". [Gaston Bachelard]
"A proximidade da verdade indicia o contraste. É preciso perceber a mentira, as razões que levam ao dislate, para percebermos as razões do que queremos atingir. É preciso ter acesso à intimidade do contraste, como defende Bachelard. É preciso reavivar memórias, procurar o que se conheceu, para que a verdade nos surpreenda e fique esclarecida a agressão da mentira. A surpresa nem sempre corresponde ao que definimos como prazer ou sorte, mas é nessa ambivalência que insistimos em exercer a resistência que nos anima contra a mentira que brota e agride.
Os desenhos de Ana Nogueira são como raspamentos que encetam uma procura. Uma vontade de descobrir a verdade que se esconde, ou foge, ou que se limita a estar ali discretamente. Discreta é a verdade. Ousada é a mentira. Ousemos contrariá-la. A verdade vem sempre à tona? Fazemos por isso. Insistimos em trabalhar nesse patamar escorregadio. É nesse terreno que se situa o trabalho de Ana Nogueira. Os desenhos da Ana estão aí a denunciar o céu que esconde a tempestade. É bom olhar para eles. Percebemos melhor onde a verdade pode ser encontrada. É o que eu acho. Bom olhar. [José Teófilo Duarte]
Fotografais: João Barata/CML