quinta-feira, 4 de junho de 2026

José Ferreira

Morreu o o meu amigo José Ferreira. O doutor José Ferreira, para muitos que defendeu. Advogado na barra, epicurista na vida. Um homem que sabia moderar os costumes. Culto e amante do verbo, adorava os clássicos. Culpava os políticos que nos governam de algo que têm de sobra: a incultura. Passeava pelos trilhos de Camilo e Eça. Citava Garrett. Olhava os contemporâneos de soslaio, mas admirava a inovação. 
 
Tivemos longos almoços e muitos jantares onde essa sabedoria era posta em pratos limpos. Quando Saramago morreu, fomos juntos ao funeral. Depois almoçámos e passámos a pente fino a obra do escritor. Percebi ali que o Zé Ferreira não rejeitava em absoluto as artes de hoje. O que ele rejeitava era a mediocridade dos bem comportadinhos. Dos direitinhos. Claro, e também dos direitinhas, mas essa é outra conversa que não acabámos. Eu vou continuar a conversar sobre tudo isto e vou-me lembrar muito de ti. Muito obrigado, José Ferreira. Os imbecis já governam o mundo. Mas isto não fica assim. Os fascistas não passarão.

Imagem: José Ferreira no restaurante Fidalgo. Fotografia de Eugénio Fidalgo.