PERDEU-SE RELÓGIO DE SENHORA | O título parece impresso em página de anúncios de perdidos e achados. Adoro-o. Este livro está cheio de achados e é uma espécie de reencontro com preocupações anteriores. Alice Brito começou por escrever sobre as mulheres que tinham história(s) para contar e que moravam bem perto de onde ela morou. Setúbal, Fonte Nova. Livro: AS MULHERES DA FONTE NOVA.
Depois escreveu mais dois: O DIA EM QUE ESTALINE ENCONTROU PICASSO NA BIBLIOTECA e A NOITE PASSADA. Agora, neste PERDEU-SE RELÓGIO DE SENHORA, cumpre-se a vontade de denúncia e a alegria da escrita em liberdade. É um livro que aborda a tortura psicológica e física, mas também a ternura e a revolta. E o feminismo está sempre por ali, que isto é mesmo assim. Palavras que se opõem, mas que aqui se encostam em inteligente convívio. As palavras fazem sempre falta, mesmo quando não se encostam. Alice encontrou as palavras certas.
Alice Brito usa as palavras para dizer o que a preocupa. Vai às histórias do passado para perceber melhor o que se passou. A Alice é minha irmã, apesar de os nossos berços nunca terem estado perto um do outro. Mas entretanto crescemos e percebemos o mundo e as circunstâncias das vidas das pessoas quando circulávamos pelos caminhos dos bons e dos maus comportamentos humanos. Crescemos juntos, portanto. Vivemos a "revolução miserável" (como diz o biltre fascista) perto um do outro. Percebemos a "alegria da criação", como escreveu José Afonso. Este livro é um tratado de sociologia carregado de reflexões filosóficas. Um dia vou falar com o meu mano António de Castro Caeiro sobre isto. Talvez ele queira dizer alguma coisa. Com o João Costa já falei, e ele quer mesmo conversar sobre este assunto que tanto lhe diz. Adora os livros da Alice.
Mas para já serve esta conversa toda para vos avisar de que na próxima sexta-feira, dia 22, às 18h30, vou estar na Biblioteca Pública Municipal de Setúbal com a Alice Brito, com a sua editora, Sofia Fraga e com Luís Caetano, para falarmos sobre este lindíssimo livro e sobre o desassossego que ele tem lá dentro. Até já.
PERDEU-SE RELÓGIO DE SENHORA. Autora: Alice Brito. Edição: Sofia Fraga. Coordenação editorial: Cristina Correia. Revisão: Salvador Guerra. Paginação: Alice Milheiriço. Capa: Penguin Random House/Sofia Fischer. Fotografia da autora: Conceição Brito. Projecto gráfico da Chancela: Panóplia.
COMPANHIA DAS LETRAS é uma chancela de Penguin Random House Grupo editorial. 1ª edição: maio 2026. Facebook
