domingo, 24 de maio de 2026

Aos domingos - Elogio da amizade

SOMOS FILHOS DA MADRUGADA - Pertenço a uma geração que viveu melhor a partir do dia 25 de Abril de 1974. Antes desse dia, tudo o que me interessava era proibido. A partir daí, o futuro transformou-se num baú de surpresas, de onde saíam constantes novidades merecedoras da nossa deslumbrada atenção. Mas atenção: nem tudo o que parece é. 
 
SEREMOS MUITOS, SEREMOS ALGUÉM - A minha geração é composta por muito filho de muita mãe e de muito pai, e muita desta gente brincou com os mesmos brinquedos que nós, mas também há quem tenha escolhido outros baús. Aqui começa o afastamento natural. Os sítios onde nascemos e onde crescemos são lugares com casas, jardins, muita pedra, muito cimento acumulado, mercados, lojas, cafés e tabernas. Alguns de nós escolhemos o que nos interroga, o que nos faz refletir e também o que nos faz gente. Gente crescida e útil. Vemos, ouvimos e lemos, como escreveu a poeta, e procuramos uma vida melhor ilustrada pelo conhecimento e pelo prazer. O desejo faz-nos vibrar. A procura da felicidade com prazer deve ser vivida com alegria. Viver a vida com alegria e responsabilidade instala-nos um sentimento de solidariedade para com os outros e o mundo todo que nos permite ousar dizer: vamos mudar isto tudo. Queremos tudo. Somos eternos. Queremos ser felizes enquanto dura essa ilusão. Que a voz não te esmoreça.
 
EU VOU SER COMO A TOUPEIRA, QUE ESBURACA - Vemos, ouvimos e lemos, como escreveu a poeta, e não podemos ignorar, como conclui o poema. Mas, ao contrário do que foi escrito e dito e cantado, muitos preferem mesmo ignorar o que se passa em seu redor. Assobiar para o lado, desvalorizar o que de mal acontece, fingir de morto. A atitude geracional não existe. As gerações são uma medida de um tempo que nos encaixa nos formulários institucionais, mas onde não cabemos todos. Outro poeta escreveu e cantou: Há quem viva sem dar por nada, há quem morra sem tal saber. São sempre as minorias que fazem avançar as ideias. Claro que a democracia é fundamental. Não existe outro sistema melhor, mas a interpretação das realidades depende da ideologia de cada um. A ideologia é importante, ao contrário do que nos atiram à cara os praticantes das ideologias neoliberais de direita. Mas encontrar o caminho certo é complicado. Isso é mau? Não, não é. Nós insistimos em encontrar esse caminho. A reflexão intelectual, a arte, a cultura, a procura do prazer dão uma grande ajuda.

"Há por aqui muita paráfrase e referência a José Afonso. E depois? Se alguém conseguir falar deste período omitindo~lhe o nome, pode ir cantar para outra freguesia. Daqui não é freguês", escreve a páginas tantas Alice Brito no seu livro PERDEU-SE RELÓGIO DE SENHORA, lançado na passada sexta-feira em Setúbal. A acção do livro vai-se desenrolando por esta cidade, mas o que lá se passa dentro pode ser chão de outras geografias. A repressão, a mentira, o insulto sexista, a propaganda da extrema-direita existem e propagam-se por todo o lado. É lixo tóxico. Este assumir da região que conhece permite à autora o reconhecimento da autenticidade histórica. Não é bairrismo ou provincianismo reaccionário. A minha intervenção convocou a música de José Afonso. Passou "Era um redondo vocábulo". A canção pertence ao soberbo álbum "Venham mais cinco", que José Afonso gravou em Paris, no ano de 1974. Trabalho que denuncia e alegra. Música intemporal que continua a emocionar. Emocionou. Procuro encontrar a felicidade, embebida em solidariedade, no chão deste mundo tão massacrado pelo egoísmo neoliberal. Mundo onde queremos viver uns com os outros com alegria e em liberdade. Resistamos. Como José Afonso, "Insisto não ser tristeza".
 
O livro de Alice Brito dá saúde e faz crescer a amizade e a solidariedade, e pôs-me a escrevinhar isto. Andam por ali três mulheres que se tornam amigas e cúmplices na resistência ao sexismo vigente na primeira metade do século passado. O fascismo foi combatido por gente assim. Gente que insiste em ser gente. Gosto muito dos livros da Alice. E, claro, gosto muito deste novo que agora foi lançado. Acredito que ao mesmo vos poderá acontecer. É lê-lo.

 Bom domingo. 

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