Abril das mentiras e dos proverbiais auspícios de chuva deixaram de definir este tempo de liberdade. Para mim Abril é mesmo o do dia da Liberdade. Levantei-me como habitualmente, mas fui interrompido no trajeto entre o quarto e o duche pela minha mãe. Hoje não vais ter aulas, decretou. Percebi de imediato. A televisão passava música sinfónica e Fernando Balsinha divulgava um comunicado do Movimento das Forças Armadas. O meu pai já tinha saído e eu saí logo de seguida, deixando a minha mãe em cuidados. Era puto, mas já tinha vontade de ver coisas, como é natural num puto.
Fui direitinho para a Praça Bocage, onde já havia muita gente. Foi aqui que ouvi pela primeira vez um discurso político em liberdade. Aliás, se não há liberdade não há discurso. O discurso que ouvi foi lido por Carlos Jorge Luz, jovem militante antifascista que mais tarde se tornou meu amigo, e mais tarde prestigiado professor na área das matemáticas. O discurso do Carlos Jorge despertou-me e entusiasmou-me. Os dias seguintes foram um desassossego. Tudo mudou em horas. Tudo era possível. Começámos a ter acesso a tudo o que nos era até aí inacessível. O dia 25 de Abril de 1974 marcou o início da minha vida adulta. Eu era um adolescente com a curiosidade a libertar-se por todos os poros. Uma alegria imensa misturada com luta política e procura de conhecimento. Nunca seria o que sou sem a descoberta das coisas boas da vida, que para mim eram o acesso à cultura alternativa: ao teatro, à música que o fascismo proibiu, aos livros que valem a pena.
O café Tamar era o sítio onde a malta se encontrava. José Afonso, que eu conhecia como símbolo, cruzou-se um dia comigo e sentou-se bem perto, numa das mesas. Conversávamos de umas mesas para as outras, com o à-vontade que a situação permitia. Lembro-me da primeira conversa que tive com o Zeca. E acho que me lembro de quase todas as outras. O conhecimento de José Afonso e da sua obra mudou a minha vida para sempre. O 25 de Abril foi iniciado por uma música de José Afonso. O meu 25 de Abril é essa música e é José Afonso. Sempre.
