No texto de ontem, inserido nesta rubrica que passeia pelos meus tempos de adolescência, abordei um episódio de policiamento político manifestado por dois professores de trabalhos manuais. Já que estou com a mão na massa, conto uma história de policiamento moral praticado por um professor com funções diretivas no Liceu da minha terra. Ano de 1973.
Dia de primavera. Manhã cedo. Já estávamos todos na sala de aula. Aula de ciências fisico-quimicas. Véspera de um teste importante. De um momento para o outro ouvimos um apelo do exterior. Um pedido de ajuda. Abrimos uma janela e percebemos que uma colega pedia para a ajudarmos a entrar por ali. Estranho? Claro. A rapariga tinha sido impedida de entrar pelo portão principal por um professor que assumia as funções de uma espécie de policia da moralidade. Motivo? A nossa colega tinha vestido nesse dia uma mini-saia muito mini mesmo, que não encaixava nos padrões exigidos pelo moralista de serviço naquele dia. Os moralistas metem-se em tudo. Querem ser donos do nosso corpo e também querem meter o bedelho no que usamos para cobri-lo. Aliás, os fascistas querem meter o bedelho em tudo o que fazemos. As proibições são norma. As sugestões são obrigações. A nossa colega vinha todos os dias de Palmela. Aquela aula era importante porque no dia seguinte havia teste de avaliação. A professora estava na sala e aprovou a nossa atitude. Tudo acabou em bem. Fomos eficazes resistentes. Sabíamos dos comportamentos repressivos por parte do sinistro professor. Gostava de aplicar carolos nas cabeças dos rapazes. Sabem o que é? Mão fechada e nós dos dedos em riste em direção à zona da nuca. Aquilo doía. Tive sorte. Nunca fui contemplado. Mas passei a odiar a figura mesmo quando, depois de Abril, se tornou figura de proa na defesa do ambiente na região. Lembro-me que houve uma tentativa de me apresentarem o figurão, e acho que recebeu a medalha da cidade, pelos valorosos préstimos prestados. Devem ser os justiceiros carolos.
Acontece que não tenho o hábito de perdoar fascistas. Nem os de ontem, nem os de hoje. Também não lhes desejo carolos na nuca, nem perco muito tempo a odiá-los. Desprezo-os simplesmente. Feitios.
