Não gosto da maneira de estar e agir de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas também não alinhei naquela tese de que, com ele candidato, vinha aí o fascismo. Na altura o fascismo ainda não era perigo e nem havia a necessidade de nos unirmos contra um candidato fascista, como aconteceu nestas eleições presidenciais. Na altura apenas aleguei que ele não merecia ser Presidente. Acho que não deve ser Presidente quem tem apenas a necessidade de exercer um egocentrismo desmesurado. Mas, caramba, sempre nos despedimos de Cavaco, esse sim, um Presidente que nos tirou do sério com tanta demonstração de mau carácter.
Seguro é diferente de Marcelo. Mas será para melhor? A tomada de posse foi mais do mesmo. Sem diferenças em relação a cenas anteriores: a leitura da acta por um tatibitate fascista traz de novo o quê? Aquele desfile infrequentável de basbaques no beija-mão, difere de quê em relação a entronamentos anteriores? E os discursos de Aguiar-Branco e Seguro, o que trazem de novo para além do que poderíamos imaginar? Nada. Zero. E o efusivo cumprimento especial ao líder fascista traz de novo o quê? A normalização entusiasmada e manteigueira do partido fascista? E a manifestação fascista fora do parlamento, foi autorizada? E os disparos dos canhões, provam o quê?
O meu Presidente de referência foi Jorge Sampaio. Lutou contra a ditadura, foi um excelente tribuno e um inovador autarca. E como Presidente da República foi corajoso e perspicaz até ao ponto de ter de mandar às urtigas um primeiro-ministro de extrema-direita que orientava um governo indescritível, composto por ministros que agora estão no partido fascista. Jorge Sampaio foi um grande senhor da resistência e da democracia. Um homem íntegro, culto, generoso e com um inquebrantável carácter.
Agora era preciso votar contra um fascista mentiroso compulsivo que apesar desse anátema consegue juntar mais de um milhão e meio de cretinos e pulhas à sua volta. Foi o candidato menos votado de sempre numa segunda volta. Mas mesmo assim é muito voto para um mentiroso compulsivo. Já Seguro foi o mais votado de sempre. Sabem a razão, não é verdade? As pessoas unem-se contra a falsidade. E Seguro não é falso.
Nunca votei em Marcelo, não me imagino a ter saudades dele, e espero não me arrepender de ter votado com convicção em Seguro. Sim, votei convictamente contra a mentira e o ódio. Espero que o novo presidente nos surpreenda, e que abandone a manteiguice do discurso de miss universo.
