O mais desbragado racismo está a invadir a sociedade. As escolas são pasto para gente sem escrúpulos que exibe o seu primarismo cultural em ofensas agressivas sem qualquer fundamento. Um destacado influenciador de extrema-direita, do grupo Reconquista (reconquista de quê?) aparece num vídeo publicado nas suas redes, e trespassado em delírio pelos seus pares, em recalcitrante denúncia do diretor do Agrupamento de Escolas José Saramago, com sede no Poceirão, concelho de Palmela.
Esse esforçado aliado do partido de extrema-direita que tem sessenta deputados no parlamento, mente com todos os dentes que tem na boca e bigode e tudo. Diz o rapaz que estamos perante a primeira escola muçulmana do país, onde são estimulados os cultos correspondentes. Para se pensar que o que diz é verdadeiro, regista o nascimento do diretor da escola em território indiano, quando se trata de um português nascido em Moçambique. A espoleta para a "denúncia" pelo inenarrável nacionalista foi uma missiva interna enviada por correio eletrónico para todos os professores da escola, sugerindo que as confissões religiosas de todos os alunos fossem respeitadas. Ora, o que o diretor desta escola fez é o que o respeito por todos os cidadãos exige. São as leis de um estado laico e republicano. São regras que existem em Portugal e em todo o lado onde há regras. Na escola José Saramago o natal cristão é assinalado e celebrado. Esta escola preenche as suas salas com alunos de mais de vinte nacionalidades. As diferenças constituem riqueza civilizacional. O convívio entre pessoas diferentes sempre trouxe inteligência e progresso às populações que respeitam e estimulam esse convívio. Vive-se aqui em zona de grande atividade vitivinícola e de outras agriculturas, onde muitos imigrantes vivem, trabalham e têm o direito e o dever de educar os seus filhos. As entidades políticas regionais sempre respeitaram as pessoas e os seus credos. E quem não tem credo também sempre viveu aqui bem.
Com a conquista eleitoral da junta de freguesia pelo partido de extrema-direita a coisa mudou de figura. Percebemos que existem por aqui muitos racistas ressabiados que ainda não perceberam (nem nunca perceberão, já percebemos) as vantagens do cosmopolitismo. Esta região tem todas as condições para dar esperança a um civilizado ambiente de tolerância e solidariedade, mas a entrada do partido racista em cena alvitra momentos de uma tensão que recupera valores de outros tempos. Eles até já têm Salazar como modelo a seguir. Foi o chefe que o disse no parlamento e onde o quiseram ouvir. Quer três deles, ou mais. "Nem três salazares chegavam...", disse, como se o promotor de corrupção oriundo de Santa Comba Dão fosse um exemplo de exemplares justiças. Enfim, tristezas. Mas há mais: o executivo da junta de freguesia não tem orçamento para as comemorações do 25 de Abril. A verba habitualmente destinada às comemorações da Liberdade passa a ornamentar o 10 de Junho. Independentemente do ridículo da opção, sobra para avivar a nossa curiosidade a programação política: será que vão organizar desfile militar no dia de Camões e das Comunidades Portuguesas? Irão ser disparadas as armas e os canhões assinalados? Sim, porque ler Camões não sabem. Se o soubessem ler, e se o lessem, não eram racistas. Mas esta gente sabe lá ler e escrever?!
Racismo não é opinião. É crime. Estes apologistas do ódio apelam ao crime.
