Laurie Anderson revelou a preocupação: um dia a autoria vai desaparecer. Está a acontecer. Assistimos a plágios e cópias como se nada fosse. Até já se defende abertamente o plágio como liberdade criativa. Lindo. "Eu hoje venho aqui falar de uma coisa que me anda a apoquentar". A frase é do Sérgio (Godinho) e eu trago-a para aqui para tornar a coisa mais interessante. Falo de apenas dois exemplos para já.
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| Cadeira DSW de Charles e Ray Eames. |
Primeiro caso - Sempre gostei da cadeira DSW de Charles e Ray Eames. Em tempos pensei investir em meia dúzia de exemplares para a minha casa. Pedi orçamento na loja que comercializa objectos de útil utilização, representantes dos produtos Vitra. Cada cadeira, para cliente mais ou menos frequente, ficava em perto de setecentos euros. Fiquei espantado com o que aconteceu depois. Com certeza que já viram que estas cadeiras passaram a ser exibidas por tudo quanto é sítio. Um dia falei com um proprietário de um bar no Bairro Alto, todo equipado com estes assentos. Quando lhe avancei com o custo de cada cadeira original, fabricada pela Vitra, o homem respondeu-me: com esse dinheiro comprava o dobro das cadeiras que eu tenho aqui. Eram muitas. Percebi posteriormente que havia material daquele por todo o lado. Percebe-se - por menos de cinquenta euros temos cópia sem assunção de autoria. O pirata dá-lhe o nome de poltrona nórdica, por exemplo, e o negócio está feito por um quinto do custo. A memória do casal Charles Eames e Ray Eames não reclama autoria, mas não acho justo. Dobrem a língua. A cadeira original designa-se DSW e foi desenhada por Charles Eames e Ray Eames.
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| Cadeira Gonçalo de Gonçalo Rodrigues dos Santos. |
Segundo caso - As cadeiras Gonçalo são conhecidas de toda a gente. São muitas as esplanadas de Lisboa onde estão instaladas. Foi criada pelo serralheiro Gonçalo Rodrigues dos Santos, tornando-se uma apreciada peça de design de equipamento português. Acontece que ultimamente a peça é apresentada em programas televisivos e em imprensa menos avisada como a "cadeira portuguesa". É isso que é irritante e dá razão a Laurie Anderson. Isto de se esquecer a autoria é moda? É assim que deve ser? a "cadeira portuguesa" não nasceu do acaso. Nada nasce do acaso. Houve um princípio. "Das coisas nascem coisas" como escreveu Bruno Munari, o mestre italiano. Dobrem a língua. A cadeira original foi desenhada pelo senhor Gonçalo Rodrigues dos Santos e chama-se "Gonçalo" por causa disso mesmo. "Gonçalo". "Cadeira Gonçalo", é assim que deve ser chamada.

