Já andamos com medo que o céu nos caia em cima, como receava Abraracourcix, o chefe da aldeia gaulesa onde habitam e fazem pela vida Astérix e Obélix. Parece que este sítio no cantinho da Europa pode não querer quem governe nem deixe governar. O texto de Susana Peralta, hoje no Público, alerta-nos para um resultado eleitoral preocupante: segunda volta entre Ventura e Cotrim. Uma espécie de sopa-da-pedra para quem tem fome e para quem tem vontade de comer. Passando da gastronomia para a política, estaríamos mesmo na eminência de um golpe de estado sem armas. Qualquer coisa como a revolução das rosas brancas. A Constituição era mandada para as urtigas. AD/CHEGA chegariam a acordo em menos de um fósforo. As privatizações dariam lugar a comemorações diárias. Os apoios às pessoas necessitadas e às artes anulados como lixo. Ficavam só eles a brilhar. Os pernósticos e os labregos. Dançariam à volta da fogueira onde tudo arderia. O mundo é dos espertos, os outros que se lixem.
Estamos mal, mas eles dizem que nunca estivemos tão bem. Nunca imaginámos viver tempos tão cruéis que ameaçam o futuro de uma juventude que se quer entregar nos braços dos seus algozes. O candidato que representa a maioria do eleitorado de esquerda diz agora que é de centro-esquerda, para os seus eleitores perceberem que ele até é um bocadinho de esquerda. Provavelmente lá teremos que ir votar no choninhas na segunda volta. Mas assumam, meus amigos de esquerda que votam no candidato de centro-esquerda: estão a votar no centro-esquerda. Só isso. Fiquem bem.
Eu votarei Catarina Martins para já, como os meus amigos mais atentos já perceberam. Faço-o convictamente. É preciso haver quem diga que é de ESQUERDA (assim, em caixa-alta) e que a esquerda é melhor do que a direita. Sempre foi e será. É por isso que votar em alguém que não quer ser colocado na gaveta da esquerda, porque afinal é de centro-esquerda, me dá umas reviravoltas na consciência que só eu sei. Mas se calhar não terei outro remédio. Há coisas que nos custam muito. Estas eleições colocaram muitos de nós num imenso sofrimento. A política é mesmo assim, mas não deveria ser. A política é tudo. E tudo é o que nós desejamos e construímos. Não construímos isto. Isto combatemos. Vamos construir mais. "Seremos muitos, seremos alguém", disse José Afonso. Estou com ele. Estou sempre com José Afonso.
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