terça-feira, 20 de janeiro de 2026

É preciso fazer um desenho?

Pedro Pina, André Carrilho, eu, Tiago Ferreira 

e João Paulo Cotrim, numa actividade da Festa da Ilustração



Confesso que estou mesmo muito preocupado. Fico angustiado com este sobressalto permanente que é a possibilidade de um partido liderado por um mentiroso rasca e sem maneiras ser normalizado e ter muita influência. Claro que alguma influência já tem. O parlamento instalou uma taberna ali naquele recanto mais à direita da casa da democracia. Gente sem valor grita e esbraceja sempre que a decência quer ter palavra, e o berrador mor não sai dos suportes de comunicação mais visionados. Um horror. Um susto.

Em Setúbal nasci e vivi até há bem pouco tempo. Colaborei com a Casa da cultura e concebi e dirigi a Festa da Ilustração durante onze anos. Desenvolvi design de comunicação, fiz curadoria e design expositivo de exposições, promovi encontros literários e artísticos. Coloquei a actividade em Setúbal no topo das minhas preocupações profissionais. Considero que a cidadania deve ser exercida envolta em solidariedade. "A solidariedade não é facultativa, é um dever", como pretendia Jorge Sampaio. Mas o exercício do dever tem contornos mínimos e limites. Nunca alinhei em bairrismos cegos. Sempre denunciei o provincianismo bacoco e a farronquice parola dos apologistas do "é nosso é bom". A minha actuação em Setúbal inscreveu-se na intenção de se "levar o melhor do mundo a Setúbal, e o melhor de Setúbal ao mundo". O cosmopolitismo iluminou a minha existência no mês de Abril do ano de 1974 e nunca mais se apagou. Fiz o que me foi possível para manter essa lanterna acesa. Sinto que fui eu quem mais aprendeu. Aprendi muito e agradeço por isso a todos os artistas e autores que conviveram comigo e também ao pessoal do município: funcionários e responsáveis autárquicos. 

Resolvi não continuar a colaborar com o município porque percebi que muito do que fiz até aqui não poderia fazer a partir do momento em que o executivo municipal é apoiado por vereadores do partido que considero bem longe dos ideais de solidariedade, progresso e cidadania inscritos no meu manual pessoal. O município de Setúbal tem o executivo mais à direita de que há memória em democracia. A minha atitude é política. Mantenho assim a distância higiénica que me limpa o fígado e alegra o espírito. A Cultura e a Arte combatem o obscurantismo. Sempre. Outra atitude é impossível. Estarei nesse combate até ao fim. Mas pretendo fazê-lo com a alegria e a inteligência que norteiam a curiosidade intelectual. Os arautos do retrocesso — já clamam sem vergonha por três salazares — não nos podem fazer desistir. "Seremos muitos. Seremos alguém", como cantou José Afonso. Continuaremos a cantar com ele. 

Enderecei uma carta aos artistas, escritores, historiadores, jornalistas e outros colaboradores esclarecendo a minha atitude. Esta missiva pretende esclarecer toda a gente minha amiga e põe assim uma pedra no assunto. Não comentarei rigorosamente mais nada que aborde a minha relação com a cidade.

Com Sérgio Godinho e Rosa Azevedo, em Muito Cá de Casa.

 
Com Jorge Silva Melo e Rosa Azevedo, em Muito cá de Casa.

Com Pedro Chorão e Ana Nogueira, na abertura da exposição de Pedro Chorão em 25 de Abril de 2025. Exposição que se integrou nas comemorações dos 50 anos da revolução.