quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O regicida invisível


O centenário do regicídio tem andado na ordem do dia. A distância dita diferentes opiniões sobre o assunto. A Câmara Municipal de Castro Verde pediu a Paulo Barriga que fosse saber da vida de Alfredo Luís Costa, nascido lá para aqueles lados, e de quem pouco ou nada se sabia. O Paulo pôs-se na coisa e revela neste livro o que aprendeu sobre o tal Costa. Estas suas palavras esclarecem o que se pretende, para que não hajam dúvidas:

Esta é a crónica possível sobre a vida de Alfredo Luís da Costa, o regicida que a História abandonou. É um exercício jornalístico, puro e duro. Uma narrativa histórica, composta por três andamentos distintos, autónomos, e, simultaneamente, complementares. É um trabalho de reportagem resultante da leitura livre de documentos, periódicos, estudos, depoimentos, memórias escritas e relatos da época. Que são tratados de viva voz, sem qualquer tipo de condicionamento académico ou científico, como se os protagonistas não existissem na lonjura de um século, mas sim nos tempos correntes. E também por isso respondem estes três artigos à principal circunstância do jornalismo: a actualidade.

A definição estética foi feita por nós, na DDLX.

CRÓNICA DO REGICIDA INVISÍVEL - Alfredo Luís da Costa
Autor Paulo Barriga
edição Câmara Municipal de Castro Verde
lançamentos:
1 de Fevereiro, 18H30, Fórum Municipal de Castro Verde
2 de Fevereiro, 15H00, no Centro de Convívio de Casével
12 de Fevereiro, 18H00, na Biblioteca Museu República e Resistência, em Lisboa

País pequeno

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A piolheira e a República

Concordo com Fernando Rosas, na reacção a opinião de Vasco Pulido Valente, no Público de hoje. O que está em causa não são os salamaleques de ocasião em redor de uma figura histórica. Falamos de opção por um outro regime, quando falamos do fim da monarquia.
Ninguém está a ver um regime que aclama reis, duques e condes reconhecer os brios de uma efémera república passada. Nem na civilizada Espanha isso acontece. Então qual a razão de fardarmos o exército a rigor para homenagear o defunto D. Carlos? O que lá vai, lá vai. Claro que é lamentável matar gente. Seja rei ou plebeu. Mas fazer a apologia do privilégio não me parece muito civilizado. E chamar civilizado e cosmopolita a um rei que achava os seus súbitos uma piolheira do pior não me parece a melhor opção humanista.
O resto está explicado, e bem, por Fernando Rosas.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Remodelação possível?

Dois ministros foram à sua vida. Entram outros dois para mostrar o que valem.
Era bom que a remodelação fosse alargada a outras figuras experimentadas em inabilidades várias.
Não foi. Fica para a próxima.
Veremos se não serão os agora empossados os mais prováveis remodelados, num futuro próximo.
Há pastas pesadas.

Anda ver o mar


A Câmara de Lisboa passa a tomar conta dos terrenos junto ao Tejo, deixando esta área de pertencer à administração do porto.
A zona ribeirinha está a ser preferida por muitos lisboetas para os momentos de lazer.
Alargando-se o espaço de utilização, alargam-se as possibilidades de novos pontos de interesse. Como estava, como imenso armazém sem uso público, é que não servia para grande coisa.
Esperemos que seja para uso público, mesmo.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A Polícia e a Democracia


O director da ASAE é já o alvo preferido dos detractores do organismo fiscalizador. É fácil acertar-lhe. O homem é especialista em contradizer o que apregoa. No Parlamento resolveu revelar a sua "normalidade" como transgressor. Mas apesar dos exageros e atropelos, comparar um organismo criado para melhorar a qualidade de vida das pessoas com a polícia política do Estado Novo é no mínimo excessivo. E ofensivo. A ASAE controla e tenta eliminar crimes de pirataria e outros funcionamentos pouco elogiáveis. A PIDE controlava e eliminava ideias e os seus praticantes. E sem grandes conversas.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Partido Alegre

Vasco Pulido Valente, na sua crónica de hoje, no Público, põe-se a adivinhar o futuro próximo. Sócrates já era, agora há que dar voz ao movimento de Alegre. Os "alegres" querem fazer um partido para combater o actual estado de coisas.
Manuel Alegre, o político que sempre esteve instalado nos gabinetes do poder, mas com um pé de fora, é agora o arauto do inconformismo. Tudo leva a crer que, se der ouvidos aos seus seguidores, formará um partido em breve. Causa já tem. A luta dos pequenos partidos preenche páginas dos jornais. O poeta da revolta poderá liderar o movimento. Comparado com a matula que se aloja naquele "albergue espanhol", Alegre é um "cinco estrelas". Tem futuro político, o bardo.

Seca


Não fui ver a ópera de Emanuel Nunes ao São Carlos.
Pareceu-me excessiva a permanência de quatro horas numa sala de espectáculos. Só mesmo uma obra genial merece tal dedicação.
O Henrique Silveira e o Augusto M. Seabra tranquilizaram-me: até parece que fiz bem em não pôr lá os pés.
Obrigadinho aos dois.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Capitão Justiça

Marinho Pinto, o novo bastonário dos causídicos, despiu a toga e zurziu forte e feio na corrupção e nos corruptos. Estes gritos de revolta têm sempre sucesso assegurado. Um justiceiro é sempre bem vindo ao terreiro. Se sabe assim tanto é melhor que fale e depressa. O silêncio não leva a lado nenhum. Mas já não há pachorra para super-heróis de ficção. Não dá para acreditar que esta sede de justiça não passe de leviandade e vontade de dar nas vistas. Se assim for, será melhor que se cale. Veremos.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Porca miséria

Romano Prodi caiu. O parlamento assim votou. Depois foi o que se viu: grande festividade com champanhe e tudo, violentíssimos insultos, enfim, uma algazarra a condizer com um sítio de muito má frequência.
Não se imagina tal coisa no parlamento português. Mas, se tal acontecesse, lá viria o já gasto "isto só neste país".
Ora, nem tudo o que é mau tem de acontecer por cá.
Brandos costumes? E então?! Para pior já basta assim.

Política e postas de pescada

Pedro Santana Lopes agora tem razão. Tratar da intervenção de um grupo parlamentar, eleito democraticamente, como se de uma mera estrutura comercial se tratasse, não é aceitável. Santana sabe que estas encomendas não asseguram grande eficácia na promoção das decisões políticas. Logo, juntou o útil ao que achou que deveria fazer, não permitindo que a empresa de comunicação fosse para ali largar postas de pescada. Era bom que a atitude fizesse escola. A política, em democracia, é um assunto demasiado precioso para se deixar entregue a operações de marketing, com o risco de um elaborado projecto de lei ser apresentado como um produto em promoção no supermercado da esquina.

A não ser que o líder parlamentar do PSD queira ensaiar a direcção bicéfala. Nesse caso, esta decisão não passa de uma forma de dizer ao outro líder que há lugares onde quem manda é ele.
Essa será outra conversa. Mas é lá com eles.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Legalização da fé

A igreja da cientologia já está em Portugal. Parece que já por aí andava em surdina, mas agora soltou-se, veio para a luz do dia.
Há coisas assim: burlas que interferem na vida de pessoas são levadas a sério, tornam-se legais e podem espalhar livremente a sua retórica da treta. É a tolerância. Tudo bem. Resta-nos denunciar os riscos destas normais demonstrações de tolerância.
É a defesa do cidadão que o exige.
A DECO não pode fazer nada?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Protestar

Em Dezembro, 22 imigrantes marroquinos chegaram ilegalmente à ilha da Culatra, no Alvarve. Foram presos pelo Serviço de Estrangeiros e Fonteiras e enviados para o Porto. Oito desses imigrantes já foram repatriados, dois dos quais hoje de manhã. Não houve recurso da decisão. Os catorze restantes serão repatriados até ao fim da semana. Nisto tudo, uma dúvida me assalta. Onde param os partidos e os deputados que andam sempre com os direitos dos imigrantes na boca? Ninguém abriu os cordões à bolsa para pagar a um advogado que fizesse o favor de fazer um recurso, um simples recurso? Não está em causa a aplicação da lei, mas há deputados e partidos que têm especiais responsabilidades neste tipo de questões, digamos, civilizacionais. Nem que fosse para empatar, ao menos um recurso. Protestar contra o facto consumado não serve de nada.

EduardoPitta Da Literatura

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Um sindicato com paredes de vidro

Baptista-Bastos saíu do Sindicato dos Jornalistas. Aponta falta de solidariedade, por parte do organismo a que pertence vai para cinquenta anos, na contenda com Alberto João Jardim. O presidente do sindicato já lamentou a divulgação na imprensa da decisão do jornalista e escritor. Um sindicato com paredes de vidro com medo das pedras dos vizinhos. A atitude de Baptista-Bastos parece-me precipitada. Esta direcção do Sindicato não é eterna. E um "fascista grotesco” não merece tão definitiva atitude. Digo eu...

Pobres e burros


Em comparação com o ano passado, os casinos portugueses duplicaram os lucros. Portugal é um dos países europeus que mais joga. Vão abrir mais três destes locais de fortuna e azar nos tempos mais próximos.
Não acreditamos nos valores do trabalho, pelos vistos, mas não dispensamos o conforto das alcatifas que nos prometem sorte sem esforço.
Fascínio por um falso luxo. Ilusão na busca de sofisticação.
Será que não passamos disto?
Vida de pobre, esta.

As Metamorfoses de Agustina


Agustina Bessa Luís viaja pelas vidas das mulheres dos seus romances. Levou Graça Morais consigo. Graça Morais, também habituada a "tratar" mulheres no seu trabalho, escolheu as telas que melhor companhia fazem às metamorfoses de Agustina. O resultado revela-se uma feliz aproximação entre duas pessoas habituadas a conviver com mulheres de carácter, forjadas por ambientes de adversidade mas também de paixão. Uma boa associação de ideias.
Um belíssimo livro.

Titulo As Metamorfoses
Autoras Agustina Bessa Luís | Graça Morais
Dom Quixote editou
Custa 44,10 euros

domingo, 20 de janeiro de 2008

Blogue livre de armas nucleares

A insistência, com direito a explícita menção, de que é permitido fumar, exibida em muitos blogues, faz-me lembrar aquela ridícula "palavra de ordem", ostentada pelas autarquias a mando do PCP, que nos descansava com um esclarecedor: "Município livre de armas nucleares".
Claro que os tempos são outros. E perdoem-me a impertinência, mas, quem se importa que, no sossego frente ao monitor, as baforadas se propaguem como nevoeiro cerrado?
Na nossa solidão sempre fomos livres. Ou não?

Globalização do terror

Portugal já está no rol de países europeus a atacar.
O medo alastra e instala-se.
A globalização do terrorismo está aí em força.

Mal-agradecidos

Uma senhora da Polícia Judiciária, responsável por um departamento de combate à corrupção, assegura que os principais corruptos estão nas autarquias. É claro que isto não é verdade. A rapariga que nos garante tal coisa até é bem gira. Logo, deve tratar-se de uma figurante, contratada numa qualquer agência de modelos, em campanha contra os nossos valorosos autarcas.
É uma injustiça. Se é.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Paixão


Soraia Chaves, a actriz que foi "prostituta de luxo" no filme de António Pedro Vasconcelos, diz, numa daquelas entrevistas de cacaracá, a um suplemento do DN, que o seu filme favorito é "Lendas de Paixão". Também gosto muito deste filme. Este desabafo de Soraia pôs-me a rever a fita. Já temos qualquer coisa em comum. Mas isso não quer dizer nada, claro.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Para acabar de vez com a História de Arte


Leonel Moura inventou uns robots pintores. Agora tratou de pôr os ditos robots a dar cabo de quadros famosos de grandes mestres da Pintura- Warhol, Rauschenberg, Frida Kahlo, Van Gogh, Kandinsky, Leonardo da Vinci, Amadeu de Sousa Cardoso e Picasso. Acontece que esta atitude sem complexos, para além do conceito em si, nos fornece trabalhos muito interessantes. Chamou a este desalinho "Para acabar de vez com a História de Arte".
Abre hoje à noite.

LEONEL MOURA ARTe
Rua das Janelas Verdes, 76
Terça a Sábado das 13.00 ás 19.30 horas
www.leonelmoura.com

Menezes & Ribau, Recursos Humanos. SA

Luis Filipe Menezes encara a política como um negócio de ocasião.
Ele responde por uma poderosa empresa de mediação de recursos.
É competente e recomenda-se: já ditou as regras para quem mexe no dinheiro e agora quer decidir quem deve comentar o estado a que isto chegou. Como é um democrata e um espírito aberto, coloca sempre a possibilidade de negociar com a concorrência directa as hipóteses de negócio.
Um empresário de sucesso num mundo com futuro.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Solidão partilhada

Pelas notícias televisivas percebemos a quantidade de accionistas que o BCP tem. Parece que é toda a gente.
Eu não. E acho que vou ficar nesta solidão.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Retrato musical


Rodrigo Leão fez a música para o programa de António Barreto e Joana Pontes, exibido na RTP.
É um retrato musical de um país que passa a vida a fazer poses para o boneco. Sons ora sofridos, ora nostálgicos, tal como o nossa tristeza cantada. Há fado nesta música. Há um bom ambiente neste CD.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Pingue-pongue

O pingue-pongue entre Rui Tavares e Helena Matos chegou ao fim. É o que Rui Tavares diz na sua última jogada, no Público de hoje. Foram momentos de lucidez, os passados nesta mesa de jogo. Helena Matos e Rui Tavares foram pagos para discordar, mas, segundo Tavares, até o fariam de graça. Um e outro representam o que de melhor a opinião profissional tem para dar em Portugal.
Concordei mais com Rui Tavares. Mas, por vezes, senti dificuldade em discordar de Helena Matos. Concordei mesmo.
Que tudo corra bem para os dois.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Miguel e a poesia


O poeta Miguel de Castro faz hoje 83 anos. Liguei-lhe ao princípio da tarde. A saúde bastante debilitada não foi impedimento para uma longa conversa. Recordámos a convivência quase diária que mantivemos quando eu tinha o meu poiso de trabalho em Setúbal. Ele e o Luiz Pacheco apareciam durante a manhã lá no ateliê e depois rumávamos ao apetecido repasto. O Pacheco nunca pagava o almoço, dizia que a pensão não dava para luxos desses. Mas fazia questão de pagar o vinho. Ora, escusado será dizer que, muitas vezes, o vinho era o que saía mais caro na refeição. Recordámos tudo isto e muito mais, esta tarde. Combinei passar lá por casa na próxima terça-feira.
Depois logo digo.

Miguel de Castro é um poeta de primeiro plano. Autor de obra curta mas de consistente percepção das realidades literárias. É um contemporâneo. Atento aos novos poetas, apesar de possuidor de uma intensa e cativante cultura clássica. Os seus dois mais recentes livros foram por mim editados na Estuário: Terral, 1990 e Sonetos, 2002.
Para comemorar o seu aniversário vou passar para aqui um texto de Terral. Podem lê-lo em voz alta.
Oiçam-no, portanto.

Foi o sol na brancura do teu rosto?
Foi o vento no sul dos teus cabelos?
Foi o rebanho dos meus dedos frios
perdido entre as dunas do teu peito?
Apenas isso ou, vagarosa, a mão
subindo na desordem dos joelhos?

Foi outra vez a chuva no verão.
Foi, no lugar da mão, a tua boca.



Parabéns por tudo, Miguel.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Bondade


Pedro Marques é secretário de Estado. É um homem avisado e com elevado sentido de solidariedade social. Justificou a diluição do pagamento do aumento das pensões com receio que os reformados perdessem a cabeça ao depararem com tanta bagalhoça em cima da mesa da cozinha. Ainda bem que Pedro Marques está no Governo. Haja alguém que cuide das finanças dos velhinhos.

O Governo resolveu pagar tudo de uma vez. Vieira da Silva desmentiu assim o seu secretário de Estado. Este ministro é um mãos-largas. Não alcançou a bondade das palavras de Pedro Marques.

Sexo, mentiras e... corrupção


Call Girl é o filme português mais visto pelos portugueses. A história anda em volta de uma prostituta que se enrola com um autarca que mistura política com interesses pessoais. Os ingredientes foram bem escolhidos: gajas boas, homens boçais e ambientes de deboche. É o que a malta quer: putas e vinho verde.
Se já vi o filme? Não, nem quero. Porquê, é preciso?

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Competências

Já cá se sabe que Sócrates não é rapaz para ceder a pressões. E continua nesse registo. A súbita mudança da gare dos aeroplanos da OTA para Alcochete corresponde aos auspícios do ministro Lino. Se aquilo é um deserto, se não há lá nada, logo é o melhor local para a instalação daquela coisa que, feita em outro lado, ia dar um trabalhão em terraplanagens e eliminação de estruturas embaraçadoras. Mário Lino afinal tinha razão. Aquela do "jamais" nem foi dele. Foram uns engenheiros mal informados que o tentaram ludibriar. Não há, portanto, razão para mudar o ministro.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Bons votos


Parece que Hillary voltou à tona, depois daquela submersão provocada pelo furacão Obama.
Tudo bem. Já sabemos que Bush se vai embora mesmo, mas, se os seus companheiros de traquinices ficarem sentadinhos nos seus ranchos durante muito mais tempo, melhor.
Entre Obama e Hillary, venha o bom-voto e escolha.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Comunidade


O corpo de Luiz Pacheco foi ontem cremado no cemitério do Alto São João. Os livros estão aí e vão continuar. Hoje trago para aqui um pequeno excerto da Comunidade. Brilhante.

Cá em casa a nossa cama é a nossa liberdade imediata. Tem os nomes que quiserem. É a cama do pai de família, austero e mandão, ou do dorminhoco pesado quando regressa embriagado para casa. É a cama do libertino. É o leito (suponhamos!) Luís-Qualquer-Coisa, XV ou XVI, do milionário, porque nela somos reis e milionários de ternura e de abraços, de palavras ciciadas; e é o catre sem lençóis, fracas mantas, e mau cheiro, do maltês que não sabe para onde o destino o manda (e somos isto, e que de longes terras viemos! quantos naufrágios! quanta coisa fomos largando para facilitar a marcha até aqui!), a enxerga do pedinte (e nós o somos também: porque temos falta de tudo e porque acordamos de manhã sem uma bucha de pão para dar às crianças e sem saber ainda onde o ir buscar). Podia ser (dava para) um bom título de uma comédia picante, bulevardesca; UMA CAMA PARA CINCO; idem para um filme neo-realista, onde nem cama houvesse, só umas palhas podres e mijadas, com gaibéus ensonados, embrutecidos do calor e do vinho, fedor de pés, talvez um harmónio desafiando as cigarras e os grilos na cálida noite da planície alentejana. Uma cama para cinco, em herança, constituía um demorado caso de partilhas. Nós dormimos. Às vezes, muitas vezes, beijos e abraços.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Luiz Pacheco



Proponho recordar Luiz Pacheco no seu melhor.
Esta passagem de O Teodolito é obra.

Onde estão agora os que foram meninos comigo, meus companheiros de bibe e calção? Gostava de ir lá vê-los à nossa infância, de irmos todos, reconhecermos todos como nossa ainda a pureza antiga, os projectos que enterrámos, as ilusões, os actos falhados. E, com efeito, o mundo dos adultos está cada vez mais triste, mais crápula, mais ratazana. É uma bicharada que vai a correr prò buraco do coval, comprometida e lassa, sem alegria, sem carácter, sem sentimentos, sem dignidade nenhuma. Não são gente: são baratas medrosas, assustadas sempre, que andam de luto por eles-mesmos e se escondem quando pressentem uma luz, a ousadia dum gesto, a virtude duma palavra. Adultos, cadáveres jovens. Metem dó, metem nojo, tão velhinhos e tão resignados. Cagarolas. Gostaria de os tornar a ver como eram, na infância.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Mudar é preciso


Algo poderá estar a mudar na política americana. No país onde a esquerda é tão conservadora que às vezes parece direita, Barack Obama ultrapassou a candidata do sistema. Falamos, claro está, dos candidatos da tal esquerda. Os outros, os velhadas, galãs e parolos evangelistas, candidatos republicanos, não têm muito para acrescentar ao rol de disparates a que o pior presidente dos EUA já habituou o mundo. Hilary também não representa grandes mudanças. Obama sim. A América parece ter descoberto este senhor de pele escura, que exibe ideias consubstanciadas por um discurso brilhante, e que quer que as coisas mudem.
Tratando-se da presidência do país que opera mudanças (até agora nem sempre apreciáveis) no mundo inteiro, era bom que aquilo mudasse.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Luiz Pacheco


Morreu hoje um homem livre.
A Cultura Portuguesa perdeu um dos seus mais exigentes protagonistas.
Eu perdi um amigo.

Brendel | Beirut


Este pouco ortodoxo pianista, que vai abandonar as actuações ao vivo, gravou este precioso CD. Haydn e Mozart são os heróis deste trabalho de Alfred Brendel que tem a participação da Academy of St Martin in the Fields e da Scottish Chamber Orchestra.
O outro disco, mais à frente na fotografia, é outra música. É malta mais nova igualmente a merecer audição.
É bom ouvir Brendel, e é igualmente bom ouvir Beirut.
Como é fim-de-semana, há tempo para tudo.
Excelentes audições.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Arrogante distância

Ferro Rodrigues, em entrevista à Visão, recorda-nos que "Quando se pede sacrifícios, não se deve ser arrogante. O receptor do recado está identificado. Chama-se José Sócrates e é primeiro-ministro aqui da parvónia. Ferro acha que o PS, o generoso partido que o colocou como embaixador na OCDE, em Paris, não tem vida própria. Também adianta que não tem saudades de Portugal e da política portuguesa. Pudera, já viram o lugarzinho que ocupa na capital francesa? Ferro Rodrigues tem alguma razão ao apontar um estilo que não é muito simpático. Só que alguém lhe devia dizer que cuspir no prato onde se come, mesmo quando se usa um guardanapo de bom pano francês, não é bonito.
É verdade que quem pede, o deve fazer com bons modos.
Mas, ao fazer reparos ao mesmo tempo que acentua uma distância higiénica, revela-se um mal-agradecido.
É feio, senhor Rodrigues. Muito feio.

Não há fumo sem fogo

Há qualquer coisa de imoral na atitude de António Nunes. Não havia necessidade de mais aquele cigarrinho. Há outras maneiras de comemorar o novo ano. Podia dançar, por exemplo. É certo que há gestos automáticos. Acredito que uma boa cigarrada, depois de um bom jantar, eleva o serão a um prazer indizivel. Aquele cigarro, fumado por quem vai dirigir um exército de vigilantes da infracção (em local de grande visibilidade pública, onde era suposto haver registo fotográfico), não foi fumo que se cheire.
Mas também reconheço que é demasiado fumo para tão pouco fogo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Uma outra economia II

A alusão de Cavaco aos salários dos empresários milionários causou grande sururu. Claro que o Presidente não falou nos seus próprios honorários e reformas. E também se esqueceu de fazer o histórico da coisa. Tudo começou com o seu baronato. Foi no seu tempo de primeiro-ministro que os empresários do sucesso cavaquista emergiram. Também é verdade que as criaturas ultrapassaram o criador. A falta de pudor impera. Cavaco vê que não tem mão na desfaçatez.
É isso que lhe causa incómodo.
Este "fartar vilanagem" não deixa de ser chocante e deve ser denunciado.
Mas não é Cavaco o porta-voz ideal da causa.

O bom-senso não é proibido


Por princípio não alinho em proibicionismos. Percebo quem não tenha grande apreço por estas novas leis que proíbem fumos em locais públicos. Mas as reacções em contrário também não me parecem razoáveis. Aquele apelo à revelação dos nomes dos restaurantes que permitem fumar enquanto se dá ao dente é útil, confesso. Dá para os dois lados. Ficam duas espécies de convivas esclarecidos: os que associam o fumo à refeição e os que preferem comer sem esse incómodo. Mas seria muito mais razoável se não fosse exibido em tom ressabiado. Assim não tem graça. Torna-se mesmo ridículo. Estas bandeiras acabam sempre por agitar o folclórico colorido do excesso. Eu, que nunca recusei jantar com amigos fumadores, mas que me incomoda o fumo, não vejo razão para esta apologia do tabaco.
Provavelmente, as leis que tolhem estas animações não são assim tão disparatadas.
Só conseguimos respeitar o outro a toque de caixa.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Uma outra economia


Cavaco fez o discurso de ano novo. Cada vez o que o homem fala anda meio mundo à cata de divergências com o Governo. Não houve pitada de tal sal. Falou de bons exemplos. De gente empreendedora e solidária.
O caminho não é fácil, diz, mas confia na iniciativa dos portugueses. Apenas dois atropelos a tanto optimismo: o desemprego e as chorudas e injustas remunerações de alguns empresários de sucesso. Enfim, a festa não é um direito de todos. Mas, às vezes, os que mais têm dão demasiado nas vistas. São as vidas de outros portugueses. São outras economias. Daquelas que não param de crescer. É a vida, como diria o outro.
Acabou com um educado “boa noite”.
Boa noite, senhor Presidente.

Da literatura e de outras coisas


Da literatura - Um dos meus blogues de todos os dias, daqueles que não dispenso, comemora hoje mais um aniversário.
Já vai em três anos a postar.
Parabéns ao Eduardo Pitta.
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