SOMOS FILHOS DA MADRUGADA - Pertenço a uma geração que viveu melhor a partir do dia 25 de Abril de 1974. Antes desse dia, tudo o que me interessava era proibido. A partir daí, o futuro transformou-se num baú de surpresas, de onde saíam constantes novidades merecedoras da nossa deslumbrada atenção. Mas atenção: nem tudo o que parece é.
SEREMOS MUITOS, SEREMOS ALGUÉM - A minha geração é composta por muito filho de muita mãe e de muito pai, e muita desta gente brincou com os mesmos brinquedos que nós, mas também há quem tenha escolhido outros baús. Aqui começa o afastamento natural. Os sítios onde nascemos e onde crescemos são lugares com casas, jardins, muita pedra, muito cimento acumulado, mercados, lojas, cafés e tabernas. Alguns de nós escolhemos o que nos interroga, o que nos faz refletir e também o que nos faz gente. Gente crescida e útil. Vemos, ouvimos e lemos, como escreveu a poeta, e procuramos uma vida melhor ilustrada pelo conhecimento e pelo prazer. O desejo faz-nos vibrar. A procura da felicidade com prazer deve ser vivida com alegria. Viver a vida com alegria e responsabilidade instala-nos um sentimento de solidariedade para com os outros e o mundo todo que nos permite ousar dizer: vamos mudar isto tudo. Queremos tudo. Somos eternos. Queremos ser felizes enquanto dura essa ilusão. Que a voz não te esmoreça.
EU VOU SER COMO A TOUPEIRA, QUE ESBURACA - Vemos, ouvimos e lemos, como escreveu a poeta, e não podemos ignorar, como conclui o poema. Mas, ao contrário do que foi escrito e dito e cantado, muitos preferem mesmo ignorar o que se passa em seu redor. Assobiar para o lado, desvalorizar o que de mal acontece, fingir de morto. A atitude geracional não existe. As gerações são uma medida de um tempo que nos encaixa nos formulários institucionais, mas onde não cabemos todos. Outro poeta escreveu e cantou: "Há quem viva sem dar por nada, há quem morra sem tal saber". São sempre as ideias de minorias que fazem avançar o mundo. Claro que a democracia é fundamental. Não existe outro sistema melhor, mas a interpretação das realidades depende da ideologia de cada um. A ideologia é importante, ao contrário do que nos atiram à cara os praticantes das ideologias neoliberais de direita. Mas encontrar o caminho certo é complicado. Isso é mau? Não, não é. Nós insistimos em encontrar esse caminho. A reflexão intelectual, a arte, a cultura, a procura do prazer dão uma grande ajuda.
"Há
por aqui muita paráfrase e referência a José Afonso. E depois? Se
alguém conseguir falar deste período omitindo~lhe o nome, pode ir cantar
para outra freguesia. Daqui não é freguês", escreve a páginas tantas
Alice Brito no seu livro PERDEU-SE RELÓGIO DE SENHORA, lançado na
passada sexta-feira em Setúbal. A acção do livro vai-se desenrolando por
esta cidade, mas o que lá se passa dentro pode ser chão de outras
geografias. A repressão, a mentira, o insulto sexista, a propaganda da
extrema-direita existem e propagam-se por todo o lado. É lixo tóxico.
Este assumir da região que conhece permite à autora o reconhecimento da
autenticidade histórica. Não é bairrismo ou provincianismo. A minha intervenção convocou a música de José Afonso. Passou "Era um
redondo vocábulo". A canção pertence ao soberbo álbum "Venham mais
cinco", que José Afonso gravou em Paris, no ano de 1974. Trabalho que
denuncia e alegra. Música intemporal que continua a emocionar.
Emocionou. Procuro encontrar a felicidade, embebida em solidariedade, no
chão deste mundo tão massacrado pelo egoísmo neoliberal. Mundo onde
queremos viver uns com os outros com alegria e em liberdade. Resistamos.
Como José Afonso, "Insisto não ser tristeza".
O
livro de Alice Brito dá saúde e faz crescer a amizade e a
solidariedade, e pôs-me a escrevinhar isto. Andam por ali três mulheres
que se tornam amigas e cúmplices na resistência ao sexismo vigente na
primeira metade do século passado. O fascismo foi combatido por gente
assim. Gente que insiste em ser gente. Gosto muito dos livros da Alice.
E, claro, gosto muito deste novo que agora foi lançado. Acredito que o
mesmo vos poderá acontecer. É lê-lo.
Bom domingo.
Fotografias de Ana Nogueira


