segunda-feira, 13 de abril de 2026

Uma mulher na sombra, que fazia sombra

Quando fui chamado para colaborar com o Teatro O Bando, pelo João Brites, foi com a Natércia e a Fatinha que estabeleci o contacto inicial. Eram elas que resolviam tudo. Tinham o grupo de teatro às costas. O contacto passou a amizade em menos de um fósforo. A Fatinha foi muito, tanto, para este grupo de teatro que desenvolve um trabalho tão útil e exemplar. Mas a Fatinha ficou também minha amiga para sempre. Estivemos juntos há uns meses, num daqueles almoços/convívio/formação que o Bando organiza aos sábados. Estava a contar estar com ela no próximo. Mas ela não vai estar. Mas vai. Confesso que estou comovido e sem palavras. Passo para aqui as palavras que o João Brites escreveu nesta despedida:

"Se não fosse a Fatinha eu não seria o que sou e o Bando não seria o que É.
Vivia bem à vista de todos nós, mas escondida do público em geral e das notícias nos jornais, numa clandestinidade que foi e que É determinante em tudo o que fazíamos ou fazemos. Clandestina ativista, numa azáfama constante, incansável, vibrante, numa revolta que não se dá por vencida, nem pelas premissas impossíveis de uma próxima criação, nem pela impotência face à dor ou às intempéries da vida.
Assim consigamos honrar o teu incondicional amor, esse alento apaixonadamente irreverente, invencível, quixotesco, esse pensamento quase sempre otimista e resiliente, essa escrita que se escreve e reescreve como na linha do tempo que abnegadamente traçaste, e que, desmaiada pelo sol e pela chuva, persistentemente refizeste nos oitenta metros do nosso edifício em Vale de Barris.
A doze de Abril morreu Fátima Santos.
Nos tempos que aí vêm, por estas veredas que injustamente te foram barradas, já não posso chamar pela terna e abnegada Fatinha que estava fora de mim, mas posso e sem procurar, encontrar o que É que, de ti, continua cá dentro, a fazer parte de mim, a fazer parte de nós".
João Brites, Teatro O Bando
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