segunda-feira, 1 de dezembro de 2003

A fama dos padrinhos

O Padrinho I
A câmara de Setúbal, penso que por iniciativa da vereadora da cultura, resolveu atribuir padrinhos às escolas do concelho. Estamos perante uma das ideias mais inúteis e disparatadas do executivo camarário. Aliás a ideia de conferir padrinhos aos jovens da região, parece-me, para além do disparate, absolutamente reaccionário. Nem Supico Pinto (Do salazarento movimento feminino), tão amiguinha dos desprotegidos, se lembraria de tão arrojada iniciativa.

Quando me falam em padrinhos lembro-me de imediato das famílias sicilianas. Deve ser deformação de cinéfilo, mas associo sempre a protecção por alguém muito poderoso. Contudo a ideia é mesmo essa. Ainda ninguém sabe ao certo para que servem os padrinhos, mas já se sabe que são "famosos". Têm o poder da fama. Ou seja, a nossa edilidade alistou-se na baboseira nacional do quanto-mais-apareço-na-televisão-melhor.

O Padrinho II
Senhores da câmara, os nossos filhos devem ter como exemplo pessoas com conhecimento e não pessoas conhecidas só porque dizem, fazem e cantam idiotices nos canais televisivos. Os exemplos para os nossos filhos não podem ser a confrangedora boçalidade de Toy. Também a trapalhice da vidente do jet-set Maya não é registo que se apresente como exemplo. E os apresentadores de lixo televisivo? para que servem? -Para apresentar lixo na TV. Os exemplos para os jovens que estão no ensino deve ser de qualidade. E há gente de muita qualidade no nosso país com muito para dizer aos nossos jovens.

Sei que muitos professores não acham gracinha nenhuma a esta parvoíce.
Também muitos alunos estão de costas para isto.
Cabe aos educadores e pais, com o apoio de políticos com perspectivas de futuro, encontrar soluções para o gravíssimo estado em que se encontra o ensino em Portugal.
O governo, pela voz do ministro, acha inevitável o chamado manual do “big brother”.
Os autarcas arranjam padrinhos ”famosos” como solução para os problemas das escolas.
Será que não podemos contar com estas duas modalidades de políticos?

O Padrinho III
Esta administração camarária ou não tem ideias, ou para as ideias que tem, era bem melhor que não as tivesse.
Tal como Jaime Lerner, acho que as cidades devem ser discutidas mas no mundo inteiro. Os cidadãos de uma cidade devem ser cidadãos no mundo. Como tal não me incomoda que os políticos que gerem uma cidade venham de outras terras. Mas também como Jaime Lerner detesto pessoas que não gostam da sua cidade. Se os senhores da câmara estão tão isentos de ideias que já não sabem fazer política, porque insistem em atitudes primárias e de gosto duvidoso?
Se não gostam desta terra porque já têm a vossa, porque não se vão embora?
Para que queremos nós vereadores da cultura incultos?
E politicos inábeis?
Para que queremos nós autarcas de esquerda, que mais parecem de direita?
Ou será que a política e a cultura morreram às garras do pato-bravismo ligeiro, não havendo lugar para quem quer dar cor e sentido às ideias?
Recuso-me admitir algo tão verdadeiramente mau.JTD