quinta-feira, 2 de abril de 2015

CANTOS VELHOS, RUMOS NOVOS | Uma crónica de Vasco Pulido Valente, incluída no Público do passado domingo, denuncia a invulgar arrogância do homem. Quer o cronista convencer-nos de que os "vampiros" que o "baladeiro Afonso" ilustrava numa canção, são apenas homens de carne e osso, e que não valeu a pena tanta luta e tanto esforço para combate-los. O doutor viu uma vez um na praia, a tiritar com frio e viu agora nas televisões os banqueiros frágeis e inábeis, e tirou a sábia conclusão: para que andou um país a perder tempo a odiar tão doces criaturas? Não se percebe se Valente se esqueceu, ou se não sabe, que estes "vampiros", mesmo assim fisicamente semelhantes a todos nós e intelectualmente tão frágeis, fizeram trinta por uma linha à economia e à vida das pessoas. E sim, com a imposição do ditador criminoso Salazar.
Quanto ao baladeiro Afonso, a designação é tão desprezível quem nem merecia comentário. Mas tratando-se do doutor Valente, lá vai: José Afonso é um caso. É o caso mais marcante na música portuguesa do período em que esses senhores andaram a dar milho aos pombos. As baladas foram um princípio. O que a música ganhou com a sua expulsão do ensino, no tempo em que esses senhores andavam a assistir a "recitais" de fadunchos marialvas nos salões da fidalguia, é matéria que não permite exploração pela ignorância do doutor Valente. José Afonso continua a ser um caso sério no panorama musical português. Continua a influenciar músicos. A sua obra é intemporal. Genial, mesmo.
Nos tempos da Kapa, o doutor Valente escrevinhava lá nas páginas da revista um certo Correio Sentimental. Não me lembro se a coisa era a sério ou se aquilo não passavam de ficções à volta do tema. Uma vez, em resposta a uma senhora que se queixava do seu companheiro, culto mas mal humorado e cruel, Vasco Pulido Valente sugeria qualquer coisa como isto: Borrife-se nesse idiota culto.
Pois é, há pessoas assim. Sabem muitas coisas e acham que o que sabem é A Razão, e depois tratam mal toda a gente. São os inspectores do gosto e dos comportamentos. Mas há sempre coisas que estes inspectores não sabem. Muitas coisas. Ninguém sabe tudo ao ponto de fazer decretos.
A metáfora dos vampiros foi um achado poético e musical. Os vampiros ainda aí andam. José Afonso também. É um grande exemplo de português e um privilégio para nós ter pisado o território.
Baladeiro? Baladeiros há muitos, seu palerma.
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