quarta-feira, 17 de outubro de 2012


PEDRO E O LOUCO: história de desencantar | Pedro tem um conhecimento específico da política. Não conhece a realidade das pessoas que fazem as suas terras, vivendo as suas vidas. Sempre esteve ligado ao aparelho de propaganda de uma organização estranha, dita social-democrata, mas que se inscreve à direita. Paradoxo? Claro, mas é o que é. Uma confusão que premeia muita habilidade.  
Pedro, depois do período da propaganda juvenil,  passou a gerir empresas privadas de amigos seus, companheiros de partido, que engendravam negócios a partir de contactos que os envolvimentos políticos permitiam. Uma espécie de neoliberalismo institucional, chamemos-lhe assim, que as coisas lá fora, nas empresas a sério, que fazem pela vida, a coisa é muito mais difícil. São navios em águas demasiado agitadas.
Foi neste conforto que Pedro cresceu. 
Já crescido, tentou ainda a carreira de cantor de variedades em espectáculos da nova revista à portuguesa. Mas, homem avisado e experiente, Lá Féria, não se encantou com os seus préstimos. A política foi mesmo a escolha definitiva. Foi então que decidiu: já que estou nisto, o melhor é chegar ao pote. Eleito líder do tal partido estranho que se diz social-democrata, juntou um raminho de criaturas e começou a preparar o assalto ao palacete de São Bento. Primeiro-ministro, pois então. Desencadeou, juntamente com os seus cúmplices fiéis - Miguel Relvas acompanhava-o sempre que não tinha aulas na universidade - uma ofensiva contra o Governo de então, recheado de homens e mulheres sem qualidade, que nada faziam pelo bem-estar das populações. Era preciso correr com aquela gente. Pedro pediu desculpa ao povo pelo estado em que se encontrava o país. Prometeu nunca reduzir reformas ou subtrair subsídios. Disse que havia um limite para as contenções impostas às pessoas. Comoveu-se em público com a pobreza dos idosos. Assegurou que o problema não vinha de uma crise exterior, mas era sim culpa exclusiva do tal Governo. Convenceu um eleitorado que sempre balança entre estas emoções e decide as vitórias eleitorais. Enfim, fez trinta por uma linha. Conseguiu finalmente chegar ao pote. 
Pedro chamou para lhe fazer a contabilidade um ignoto financeiro que, apesar de não se lhe conhecerem preocupações políticas ou sociais, foi apresentado como um génio da aritmética capaz de "endireitar" isto. Reuniu pouco mais de meia dúzia de pessoas, chamou-lhes ministros, e apresentou-os a Cavaco. Cavaco deu posse à trupe como Governo da Nação. Gaspar começou a fazer a contabilidade. Quis tirar aos pobres para dar aos menos pobres e aos ricos. Mas até estes últimos desconfiaram da medida. Foi então que teve uma ideia genial: aumentar a totalidade das contribuições. Há gente desesperada? Paciência, não há outro caminho. Caminhamos para o desastre? E então, o que querem que se faça. Melhor é impossível. Vão ter de empobrecer custe o que custar. Foi entretanto contratado um assessor bronco e mal disposto que nos chama ignorantes por não irmos nos seus futebóis. Os mal agradecidos não lhe acharam graça. Gaspar é um missionário. Nasceu para servir a Pátria. E agradece a formação que a Pátria lhe facultou desempenhando as funções que desempenha. Muito agradecido. A conversa da treta é ilimitada. 
Agora, Pedro está só. O louco e o bronco estão convencidos da magia das suas propostas, mas nem todos os seus amigos que se sentam na Assembleia da República estão convencidos da eficácia das prepotentes reduções. Um país não se governa apenas com reduções e prepotências. Um país tem pessoas lá dentro. Gente que quer viver para além da troika. Esta história tornou-se um pesadelo. Pedro e o louco ensombram a nossa vida e o nosso futuro. Mais cedo ou mais tarde vamos todos ter de acordar. Antes que seja tarde.
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