segunda-feira, 29 de novembro de 2010



BIBLIOTECA | LIVROS E AUTORES
Há neste livro de André Gago uma liberdade que nos contagia. Percursos de vida de gente que se encontra e desencontra conforme os enleios de uma guerra que, parecendo não ser de todos, a todos envolve. Há aqui caminhos dificeis de percorrer. E há a vontade de encontrar soluções. Gostei desta leitura. Muito mesmo. Não lhe chamarei surpresa, porque os talentos do André não me surprendem. Este trabalho é o resultado de uma maturidade que não surpreende. Chamo-lhe literatura. Da melhor que por aí se vai editando. Não fosse este livro mais uma aposta de Maria do Rosário Pedreira.
Aqui vai uma pequena amostra:

Entre a idealização do nosso futuro e o que realmente se vai moldando nas nossas vidas existe um elo, uma espécie de pêndulo que balança entre o idealizado e o vivido e que estabelece em nós uma espécie de síntese. Nunca admitimos realmente que as coisas não correram como prevíramos ou desejáramos, porque a experiência nos faz sentir que, na verdade, evoluímos para ela, isto é, à força de ver defraudadas as nossas expectativas estabelecemos imperceptivelmente na nossa consciência uma margem de erro que nos permite digerir como plausível um resultado inesperado, como se na verdade o houvéssemos antecipado desde o início. Quando muito, atribuímos responsabilidades por esses desvios e raramente as atribuímos a nós próprios. Navegamos, se não com a nossa linha de costa à vista, pelo menos com ela em mente, às cegas. E, na prática, dando-nos a reconfortante sensação de que nunca nada está perdido, levamos sempre connosco a bagagem do mundo conhecido; família, amigos, cidades e instituições que, ao longe, nos dão a impressão de serem amovíveis, ou então de nos seguirem para todo o lado, numa ilusão em tudo igual à das crianças a respeito da lua, que julgam persegui-las quando se deslocam de automóvel a grande velocidade. Essa perenidade do que acreditamos estar sempre lá não é mais do que a subtil petrificação do nosso desejo, e move-se, de facto, porque envelhece connosco, provocando-nos a vaga mas lenitiva impressão de estarmos sempre na mesma. E o vivido, apesar de sabermos que se firma sobre o tempo inexorável, permite-nos por meio dessa ilusão de ver ainda, no meio do abismo insondável que dele nos separa, o ponto de onde partimos. E, assim nos sentimos vivos, caminhamos com a impressão de nos afastarmos do reino dos mortos, quando na verdade é para lá que avançamos.

Rio Homem | André Gago
Edição: Maria do Rosário Pedreira
Leya | ASA
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